Iracema, mon amour - cdn. ?· Iracema, mon amour ... Adorei o livro. Botamos a conversa em dia, tomamos…

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  • Iracema, mon amour

    Diego Braga Norte

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    Esta obra foi licenciada com uma Licena Creative Commons - Attribution-NonCommercial-

    NoDerivs 3.0 Unported. Para ver uma cpia desta licena, visite http://creativecommons.org/licenses/by-nc-nd/3.0/ ou envie um pedido por escrito para Creative

    Commons, 171 Second Street, Suite 300, San Francisco, California 94105, USA.

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    Em uma histria, os fatos no importam. Como realmente aconteceu irrelevante. O importante como ela merece ser lembrada. E contada.

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    Esse dirio foi escrito entre os dias 28 de dezembro de 2004 e 18 de janeiro de 2005. Eu e meu amigo Anselmo partimos de Campo Grande rumo Machu

    Picchu. Com pouco dinheiro e muita vontade, conseguimos completar nossa empreitada. Valeu. Na transcrio do dirio, tentei manter a linguagem oral e

    despojada com que ele foi escrito. Portanto, no se assustem com frases que comeam num tempo verbal e terminam com outro. Gramaticalmente incorreto,

    porm compreensvel. Espero que gostem. A viagem, ns adoramos.

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    1 Dia Partida Campo Grande, 28/12/2004. Sob um sol incandescente e com atraso, o Anselmo chegou na precria

    rodoviria campo-grandense. Precria at elogio. Precisamente uma hora e 30 minutos antes, eu chegara l, com as pernas bambas. No caminho, quase bati o fusco do meu av. Foi por pouco. Muito pouco mesmo. Estava desenvolvendo uma velocidade boa, digamos um pouco acima do limite permitido, que era de 60 km/h. Ansioso para dar tudo certo. O farol minha frente fechou. Brequei, lgico. Os freios recm trocados precisavam ainda de uma amaciada. O fusco tinha um bom arranque, mas no gostava muito de frear. Pisei fundo e os pneus comearam a gritar. Um carro estava minha frente, j parado no sinal. Patinei at quase chapar a bunda do carro, ainda bem que a pista ao lado estava vaga, pois eu desviei direita, tirando tinta. Parei j em cima da faixa de pedestres, ou seja, no iria evitar a batida de maneira alguma. Quase foi.

    Cheguei rodoviria s 7h00 e esperei at o nibus chegar. A rodoviria de

    Campo Grande no prima pela beleza arquitetnica, muito menos pela limpeza e praticidade. uma vergonha para uma capital estadual que foi planejada. O resto da cidade bem organizado, com ruas largas e avenidas amplas. E rotatrias. Muitas rotatrias. Adianto que o Pepe no pde viajar por problemas profissionais e o Eduardo no foi por ser um profissional em criar problemas.

    J na casa dos meus avs, o Anselmo me presenteou com um exemplar

    sensacional do Sin City, do Frank Miller. Desde pequeno eu admiro este cara. Adorei o livro. Botamos a conversa em dia, tomamos um caf e samos para andar e suar um pouco. Andamos at a casa dos meus tios. Acordamos meu primo Andr e antes mesmo dele se levantar, j estvamos na sua piscina. Tive que sair da piscina para atender ao telefone, era a minha querida Marina me desejando boa viagem. Depois da piscina e de alguma conversa toa, voltamos para a casa dos meus avs. Banho, almoo e samos para a rodoviria. Nosso bumba estava marcado para o meio-dia, o calor do sol a pino assustador e ainda bem que entramos logo no buso, que inclusive, era muito bom, com vidros fum para amenizar a claridade e ar condicionado para amenizar o calor. Notamos que havia mais uma turma de mochileiros no mesmo nibus. Ainda no sabamos quantos eram e nem para onde iam.

    A to esperada viagem estava comeando. No estava nem um pouco

    nervoso, tampouco ansioso. No estava nada. Peguei o buso como se estivesse pegando um Lapa Penha ou um Butant/USP Helipolis. Assim, sem mais nem menos, como se fosse algo absolutamente trivial. Sem emoo alguma e sem remorso. A estrada era bem plana, como quase todo o estado de Mato Grosso do Sul. O nibus praticamente no fez curvas, era uma reta s. A primeira e nica parada foi num posto prximo da cidade de Miranda, na entrada do Pantanal. Compramos um sorvete e conversamos sobre a diversidade do Brasil. Pararam outros nibus e no posto tinha gringos indo ao Pantanal, mestios, ndios, negros, brancos e japoneses. Com exceo dos gringos, todos os outros

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    eram brasileiros. por esta diversidade que o passaporte brasileiro um dos mais visados para roubo e posterior falsificao, todo mundo pode se passar por brasileiro. Peo perdo por essa ltima observao manjada, suada e gasta.

    De volta ao nibus e iniciamos os contatos com os outros mochileiros. Um

    dos caras estava lendo um panfleto sobre Machu Picchu e eu pedi emprestado. Estavam viajando em quatro pessoas, trs homens (Joo, Edwin e Douglas) e uma mulher (Lgia). Joo e Edwin eram residentes da medicina de Ribeiro Preto, o Douglas era irmo do Edwin e era tambm o guia do grupo. E a Lgia era uma amiga deles todos. Chegamos a Corumb e logo chamamos a ateno dos guias locais. Os hotis e as agncias de turismo da cidade colocam funcionrios na rodoviria para abordar os turistas. Quem nos abordou foi um sujeito chamado Junior. Foi educado e prestativo. Explicou-nos que j no havia mais tempo de pegar o Trem da Morte na Bolvia. Falou dos perigos do pas vizinho e das taxas cobradas pelo pessoal da fronteira boliviana. Ofereceu-nos carona at sua pousada. Fomos. Todos numa Kombi velha e barulhenta. A pousada do Junior chamava-se Green Trek e custava R$10,00 por pessoa. Os servios oferecidos e as instalaes eram todos bem R$10,00. No havia segurana, o banheiro coletivo era muito ruim e os quartos apertados no eram nem um pouco confortveis. Agradecemos, pegamos informaes sobre a cidade e samos para procurar outro lugar. Corumb fica nas margens do rio Paraguai, que maior do que eu imaginava e menor do que sua fama.

    Depois de consultar e negociar uns trs hotis diferentes, ns acabamos

    ficando no Hotel Premier, que nos ofereceu um servio justo por R$20,00 cada um. O calor continuava forte e mais um banho antes de sair para jantar foi necessrio. Eu queria comer peixe, o pessoal queria rodzio. Venceu a maioria. No restaurante a Lgia encontrou um conhecido de So Paulo. Ela chinesa e mora no Brasil desde pequena, acabou encontrando com uma turma de mais de 50 turistas chineses radicados em So Paulo. E o guia do povo todo era justamente seu conhecido. Os dois conversaram em chins e o guia tirou vrias fotos nossas. Foi muito estranho. Senti-me numa vitrine. Ou num museu. Somente eu e o Anselmo bebemos cerveja para ajudar a empurrar as carnes e depois da refeio o pessoal foi fazer uma hora de internet e ns fomos dar um rol por Corumb. A praa central bacana, a nica coisa que estragava era a decorao de natal. Paramos em um boteco para espantar o calor e tomar umas cervejas nana nenm. Mesmo noite, o calor nos fazia transpirar. Sentia-me em constante banho-maria. Num caldeiro sob o fogo. As cigarras fazendo uma algazarra lembraram-me a minha infncia. Como que um inseto to pequeno pode fazer um barulho to alto? Inesperadamente, o Anselmo dirigiu-se ao balco e comprou cigarros e fogo. Acendeu. Naquele momento descobri que tinha voltado a fumar. Disse-me que era de vez em quando. Voltamos ao hotel e dormimos. Ainda bem que tnhamos deixado o ar condicionado ligado.

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    2 Dia Anselmo e Diego na terra do sol Corumb/Puerto Quijaro, 29/12/04. Acordamos cedo. Tomamos um banho para conter o forte calor e para ter

    certeza que estvamos realmente acordados. Eram 6h30 e o sol j ardia em brasa. Tivemos um caf da manh modesto e justo, compatvel com o preo da estadia. No encontramos o pessoal, porm, o Anselmo, sempre prevenido, j havia escrito um bilhete para eles. Deixou-o na portaria. Depois de pagar e conversar com um sujeito muito caricato que aparentemente era o dono do hotel, ns fomos para o terminal de nibus urbano. No caminho quase que eu tropeo no Gregor Samsa. Srio. Uma barata gigantesca estava no nosso caminho, de barriga para cima e pernas para o ar. No cho ardente de Corumb, at o personagem kafkiano morre de insolao. Sem dvida nenhuma, foi a maior barata que eu j vi em minha vida. Agora, escrevendo este relato, olho para uma rgua, e digo que a barata tinha algo entre 15 e 17cm de tamanho. Sem exagero. Era maior que um mao de cigarros.

    Esperamos no terminal por uns bons 10 minutos e pegamos o Fronteira.

    Depois, outros 10 minutos atravessando Corumb e vendo a bela paisagem pantaneira proporcionada pelo rio Paraguai e pelas reas alagadas prximas ao leito do rio. Atravessamos a fronteira caminhando e foi mais tranqilo do que imaginvamos. Ganhamos um visto para 30 dias e negociamos um txi at a estao de trem. A porra txi estava do avesso! Explico. Na Bolvia, no h indstria automobilstica, mas h leis que permitem importao de carros usados. Portanto, boa parte dos carros velhos da sia, do Brasil e Argentina esto na Bolvia. O txi que pegamos era de marca japonesa, pas onde a direo era do lado direito, como nos carros britnicos. Simplesmente havia uma gambiarra monstro e o carro estava do avesso. O painel era na direita, e a direo foi colocada num buraco, esquerda. As marchas ficaram todas invertidas, bvio, pois eram feitas para serem trocadas com a mo esquerda. Mas o nosso lacnico motorista parecia no se importar com este pequeno detalhe conceitual, tocou em frente.

    As primeiras imagens e impresses da Bolvia me decepcionaram. Era muito

    mais pobre, muito mais suja, muito mais carente e muito mais catica que eu pintava em minha imaginao. Puerto Quijaro revelou-se um dos locais mais pobres e feios que eu j passei. Trabalhando, eu j estive em favelas paulistanas em Sapopemba e Guaianases na zona leste, estive tambm em Helipolis e Engenheiro Marsilac, na zona sul; mas nunca havia passado por alguma coisa parecida com Puerto Quijaro. A pobreza e a carncia so ultrajantes. A quantidade de lixo acumulado nas ruas e em todos os estabelecimentos absurdamente exagerada. Tudo isto sob um sol de mais de 35, sete e pouco da manh. Como sabemos, lixo orgnico exposto ao calor, se deteriora e fede. Fede muito. A cidade fedia a lixo, esgoto a cu aberto, suor e poeira. A maldita garrafa PET merece um captulo parte. So visveis em todos os lugares e direes possveis. Como uma verdadeira praga bblica, elas infestam e contaminam tudo, se alastrando por todos os cantos da Bolvia. E o saldo desta equao macabra gente. O que

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    sobra gente. A gente o resto. Sim, apesar de todas as condies desfavorveis h proliferao da espcie humana, h muita gente nas ruas da cidade. Pior, boa parte desta gente responsvel pelo estado deplorvel da cidade em que eles prprios moram. Muitos bolivianos jogam todos os dejetos e sobras no cho. A quantidade de crianas que h na Bolvia tambm chama a ateno. So muitas mesmo, a maioria menor que 12 anos. So muitos os jovens casais que viajam com seus filhos pequenos, e so muitas as mes que andam nas cidades carregando suas crianas. Hoje a Bolvia tem em torno de 8 milhes de habitantes. Certamente este nmero vai crescer rapidamente, e muito. As ruas das cidades transbordam crianas.

    No pargrafo que vocs acabaram de ler e no pargrafo abaixo, iniciei o que

    eu porcamente chamo de sociologia sensorial emprica. Chamo-a assim, com este nome idiota e pretensioso, admito, por falta de outro termo adequado. Peo licena ao impaciente leitor e vida leitora para tecer estes comentrios to pobres quanto a prpria Bolvia. Vendo, ouvindo, cheirando, comendo, bebendo, sentindo e pensando. assim que eu pretendo desenvolver as percepes que permearo a narrativa da viagem. Enfim. Relendo o trecho acaba de me ocorrer uma correo ao termo, l vai: sociologia sensorial emprica de fundo de quintal. Reparem na rima da slaba al e no eco que ela provoca. Assim fica um termo mais prximo do real, ainda que conserve a pretenso.

    Comeo ento falando do povo boliviano. Parafraseando Caetano, diria que

    eles so todos ndios. Ou quase ndios. A maioria do povo de baixa estatura. A mesma maioria tambm parece estar acima do peso. Sim, so baixinhos e gordinhos. No era de se estranhar, dado ao estado crnico que o pas se encontra, proporcionando ao seu povo uma alimentao muito fraca em protenas e fibras, e muito abundante em gorduras e carboidratos. Cultivam mais de 20 tipos de tubrculos, as batatas. Vocs podem achar muito, eu tambm achei; mas os incas cultivavam mais de 200 tipos de tubrculos. Hoje este nmero foi reduzido a praticamente 10% do total. De uma maneira geral, os bolivianos se alimentam muito mal. Mesmo em restaurantes caros a variedade oferecida pouca. Praticamente no comem verduras e legumes. H correntes histricas e antropolgicas que defendem que os incas e outros povos pr-colombianos eram altos, maiores que os europeus que aqui chegaram. Encolheram depois de sculos de fome, humilhao e escravido. Os bolivianos me pareceram um povo muito triste. Digo isto de uma maneira geral, claro que h excees. Os bolivianos apresentaram-se para mim como um povo muito desterrado, pois eles no so espanhis, europeus. Tambm tampouco so ndios; haja visto que mudaram radicalmente seus modos de viver em sociedade. Ou seja, eles aparentemente tm razes muito fracas, tnues. No sabem mais o que so. O clima de pessimismo notrio em toda a Bolvia, e a baixa auto-estima parece impregnada alma e ao carter do povo boliviano. uma tragdia. Falo isto com mea-culpa, visto que ns brasileiros tambm somos um povo ainda em formao, tambm estamos em busca de uma identidade e um carter genuinamente nacional, por mais fragmentado e fugaz que isto possa ser ou soar. Entretanto, os bolivianos me pareceram ainda mais perdidos neste labirinto coletivo em busca de

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    seus valores perdidos. E tambm ainda mais perdidos na epopia ptria de forjar e identificar-se com novos valores, algo que ns brasileiros, para mim, estamos conseguindo, mesmo que seja a passos de tartaruga trpega e bbada.

    Em frente debilitada estao de trens de Puerto Quijaro, havia dezenas de

    cambistas. Todos sentados em cadeiras nas ruas. Ou melhor, todas. S vi mulheres trabalhando de cambistas. O cmbio estava de 8 bolivianos (B$) para 1 dlar (US$). Na Bolvia toda, ns no achamos nada superior a B$8,04 para US$1,00. Trocamos uma grana e nos dirigimos para a imensa e tumultuada fila que se juntava no porto principal da estao. Os guardas tinham uma lista com alguns nomes e s entrava quem estivesse nome na lista. Disseram-nos que a lista era feita com um dia de antecedncia, mas se rolasse uma propina, seria possvel botar nossos l. Bom, quase tudo na Bolvia possvel apressar com uma propina. E quase todos so passveis de aceitar a, digamos, gorjeta. Qualquer semelhana com o nosso pas no mera coincidncia. Mas ns no pagamos nada e ningum, a viagem estava sendo feita com poucos recursos financeiros. A sada foi esperar no tumulto, junto com uma multido gritando e sob o sol mais forte que j castigou meu couro. Um calor sem precedentes. J haviam me informado que a regio de Corumb muito quente, mas eu nunca poderia imaginar que fosse uma filial do inferno. Em p, suando mais que tampa de cuscuz, fizemos amizade com quatro caras de Florianpolis, todos estudantes da Federal de l. Dois gachos, Otvio e Flvio, e dois catarinenses, Joo e Gabriel.

    A temperatura era capaz de derreter a catedral da S, forando-nos a

    organizar um revezamento entre a fila ao sol, e protegido sombra. Revezamos tambm para ir comprar gua. Liberaram o porto e depois da j esperada correria, compramos passagens para a classe Pullman. Havia apenas duas classes disponveis, a primeira classe e a Pullman. A primeira, apesar do nome, a ltima. Os locais no so numerados e o banco duro no reclina. Alm disso, a empresa sempre vende lugares a mais e o excedente de gente se acomoda no cho mesmo. Um salve-se quem puder. Na classe Pullman, os bancos so um pouco mais macios, numerados e reclinveis. Mas isto no garante o conforto, como viemos saber depois. Apesar das passagens estarem marcadas para 13h00, o trem s saiu depois das 17h30. Depois de garantir nossos lugares no famoso e temido Trem da Morte, ainda tnhamos um tempo para comer e tomar um banho. O banho foi improvisado numa espelunca que alugava canos com gua como chuveiros. Mesmo no sabendo a procedncia, pelo menos a gua estava gelada. E o almoo foi um PF num restaurante empoeirado e quente, regado a um refrigerante chamado boliviano Simbia, com cor e sabor de detergente com acar. Somente depois do almoo ns ficamos sabendo que o trem iria atrasar, e com tempo disposio, eu e o Anselmo fizemos uma hora de internet. Resolvemos ento experimentar a cerveja Pacea. uma boa cerveja, no fica devendo em nada para as nossas marcas. Aproveitamos o sol para secar nossas toalhas. Com o calor que estava fazendo, o processo no consumiu mais que cinco minutos. Estvamos na sombra, bebendo cerveja gelada e mesmo assim eu continuava despejando suor. Limpava meu rosto a cada dez minutos. Bebemos o suficiente para nos amolecer. Enquanto bebamos, um funcionrio do bar ao lado,

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    varria o cho do estabelecimento. Ao invs de colocar o lixo num saco, ou numa lata, ele simplesmente atirava-o na rua mesmo, ao lado do seu bar. Esta imagem ficou na minha cabea como uma triste lembrana de Puerto Quijaro. Juntamente com a imagem dos inmeros cachorros alaranjados de tanto pus e feridas espalhados pelo corpo. Pareciam panos de cho. Esqueletos sobre quatro patas, j quase sem plo, com olhos tristes e rabos entre as pernas, amarelos e laranjas. Pus e podrido. Amarelo manga.

    Voltamos estao e nos acomodamos sentados no cho, num canto com

    sombra. Ficamos o tempo suficiente para nos aborrecer, nos desanimar e conhecer uma famlia de cuiabanos que viajava em 10 pessoas. Conhecemos tambm um boliviano jovem e simptico que estudava enfermagem em So Paulo e um casal, provavelmente de Ubatuba, no me lembro. Encaramos outra fila e finalmente embarcamos no trem. Eu, o Anselmo e o pessoal de Floripa ficamos todos prximos, com assentos do lado direito do trem. Eram filas duplas de assentos e, tirando ns seis, todos os outros passageiros do vago eram bolivianos. Muitas famlias e casais. Nesta poca de festas de fim de ano, muitos bolivianos que moram e trabalham no Brasil, voltam para rever seus parentes. O trem estava tomado, no havia lugar para mais nada. Notei que todos os estrangeiros e mochileiros estavam acomodados do lado direito do trem. lgico que uma escolha deliberada, pois neste lado que chegam os vendedores ambulantes e os turistas so todos potenciais bons consumidores. O cheiro do vago era algo morno, viciado. Uma mistura de suor, desodorante barato, lixo e calor. Os banheiros eram buracos e a merda caa diretamente na estrada de ferro mesmo. Contudo, o recurso utilizado no livrava os banheiros do forte odor de urina e merda. A gua da torneira era esbranquiada e espessa, no inspirava a mnima confiana.

    As primeiras horas de vigem foram muito excitantes. Para ns que no

    estamos familiarizados com trens, sempre agradvel o barulho e a cadncia. Paisagens pantaneiras foram vistas apenas por instantes, pois a estrada mal conservada e o mato toma conta de quase tudo, bloqueando os horizontes. Logo depois de uns 15 minutos, paramos em Puerto Surez. Notamos que a estao de l era muito melhor e pela janela ns avistamos os nossos chapas de Ribeiro Preto. Eles aguardavam o luxuoso trem das sete, o Ferrobus. Um trem que sai apenas trs vezes por semana, conta com apenas dois vages e faz o percurso todo sem paradas, em 12 horas. Ns demoraramos mais de 21 horas. Mal sabamos o calvrio que nos aguardava. O Trem da Morte no anda mais que meia hora sem interrupo. srio, eu fiz o teste e a cada parada eu olhava no relgio. Aparenta no fazer mais que 40 ou 50 km/h. medida que a noite foi caindo, os insetos foram entrando. Insetos de todos os tipos e todos os tamanhos. Escurecia e eles iam aumentando em nmero, grau, gnero e tamanho. Pernilongos gordos e patuscos picavam por sobre camisetas bermudas. As luzes acesas no interior do trem e as constantes paradas faziam de ns um banquete para os bichos. Ainda bem que tnhamos repelente. Ajudou muito, mas no o suficiente para eliminar as mariposas que batiam em nossos rostos, e os besouros que grudavam em nossos cabelos e tentavam entrar nos nossos ouvidos e bocas.

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    Durante toda a viagem havia ambulantes vendendo gua, limonada,

    refrigerante e todo o tipo de comida. A cada parada os ambulantes se abasteciam e ganhavam reforos. Os vages eram invadidos por uma horda de crianas e mulheres que tambm vendiam bebidas e comidas. Durante todo o percurso, s vi apenas um homem trabalhando, e era um senhor de certa idade. O resto dos ambulantes eram todas mulheres e crianas. Notei uma hierarquia entre os gneros que nos eram oferecidos. As crianas pequenas (abaixo dos 10 anos) vendiam limes, limonadas e refrescos tpicos, os produtos mais baratos. As crianas mais velhas vendiam refrigerantes, ch, caf e gua Lindia (eles chamam de gua Lindia todas as guas minerais industrializadas). As mulheres e senhoras ficavam responsveis por vender os produtos alimentcios. Frangos fritos e assados, peixes fritos, sacos plsticos contento arroz e ovo cozido, sopas, batatas assadas, espetinhos, e muitas outras coisas. Havia desde itens avulsos a pratos de isopor cuidadosamente montados. Penso que a hierarquia feita seguindo critrios de preo e lucro. Vejam bem, se uma criana pequena (h ambulantes com quatro ou cinco anos!) for trapaceada ou assaltada dentro do trem, elas perderiam uma mercadoria de pouco valor e, conseqentemente, perderiam pouco dinheiro. Segue o mesmo raciocnio com as crianas maiores que vendem refrigerantes e com as mulheres e senhoras que vendem comida. Sendo que a ltima categoria, de mulheres e idosas, mais respeitada, podendo prevenir-se contra roubos e trapaas. revoltante ver a quantidade de crianas que trabalham na Bolvia, algo muito comum e diria at que elas so a base da economia de muitas famlias. Principalmente das famlias que vivem nos pobres e decadentes vilarejos beira da estrada de ferro. Vilarejos que subsistem graas s paradas dos trens. O comrcio no trem constante e dinmico. Todo instante h algum vendendo ou comprando alguma coisa. Seja no interior, ou nas janelas, durante as freqentes paradas. Antes de cairmos no sono (ou ao menos, tentar), ainda vimos algo marcante. Contrabandistas ou traficantes, sabe-se l, pararam o trem no meio de uma clareira. J estava muito escuro e houve uma intensa movimentao dos funcionrios do trem. Alguns seguranas corriam de arma em punho. L nos vages do fundo, na primeira classe, havia uma gritaria e uma zona geral. O pessoal que parou o trem jogava caixas e mais caixas para dentro do trem, todas embaladas com fitas adesivas, daquelas que a gente v em reportagens de apreenso de drogas. Gritos. Alvoroo. Luzes piscando. E um tiro. Caralho! Dispararam uma arma l no fundo! Ns ficamos sem saber a autoria do disparo. Partiu de dentro, dos seguranas, ou de fora, dos contrabandistas? No posso responder. Depois do tiro, os gritos se silenciaram por um instante. Eu, muito burro, me portava como alvo de bala perdida. Acompanhava a discusso com a cabea para fora da janela. O trem prosseguiu e no se tocou mais no assunto. O pessoal conseguiu carregar boa parte das caixas na primeira (ltima, lembrem-se) classe, e l os funcionrios do trem no se arriscariam a procur-las. Dormi ao som de crianas vendendo limonada fria (gelada, em espanhol).

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    3 Dia Morte de tdio, morte de cansao Trem da Morte/Sta. Cruz de La Sierra, 30/12/04. Acordei ao som de crianas vendendo limonada fria. Parecia um mantra,

    unssono. Despertei num ambiente onrico, tempestuoso. Um pesadelo. Mais de 50 crianas entraram nos vages e quase todas vendiam limonada. E todas tinham o mesmo timbre de voz. E todas repetiam no mesmo ritmo: limonada fra, limonada fra! No tinha para onde fugir, no tinha como escapar. Foi um ataque psicolgico que durou exatamente uma hora e quarenta minutos. Estvamos prximos de Robor e eram trs e pouco da madrugada. S samos de l, uma hora e quarenta minutos depois. Todas as crianas despertas como zumbis, movimentando-se e falando como tal. No dormamos um sono contnuo, eram cochilos a prestaes. Os insetos, os ambulantes, o calor, as paradas, os trancos e os solavancos no nos deixavam pregar os olhos. s 6h00 da manh, o trem fez uma longa parada em San Jos de Chiquitos, uma das maiores cidades do percurso. Mas o tamanho da cidade no a livrava da pobreza crnica e da sujeira repugnante, pelo contrrio, contribua para a perpetuao dos males. Descemos e usamos os banheiros da estao. Juntamente com os figurinhas de Floripa, demos umas bandas por toda a estao. Chamvamos a ateno dos bolivianos, que teciam comentrios entre si e riam muito. Principalmente quando o cabeludo e barbudo Otvio passava por eles. Otvio era uma espcie de reedio dos espanhis que l invadiram: baixinho, barbudo, cabeludo e fedido. Mas o mau cheiro no era privilgio exclusivo do falante e simptico Otvio. Todos ns fedamos. Eu, particularmente, estava todo melado de suor misturado com repelente. Minha camiseta branca estava imunda. Minha cueca estava praticamente grudada ao meu corpo, de to suado. Um flagelo.

    A paisagem do caminho no era absolutamente nada atraente. Vilarejos

    pauprrimos, com moradias em condies precrias que aparentavam abrigar no mais que algumas centenas de pessoas. A sujeira e o lixo em demasia continuavam a me incomodar. Os bolivianos jogavam todo qualquer tipo de dejeto pela janela do trem. Garrafas, sacos, pacotes, escarradas, restos de comida, fraldas sujas de bebs, e tudo mais que possa ser atirado por uma janela. Terras inspitas e no cultivadas contrastavam com as pequenas e densas aglomeraes de pessoas que esperavam nas paradas do trem para poderem vender algo. Os rostos eram todos muito parecidos. Uma feio pedante, quase implorando para que comprssemos qualquer coisa que fosse. Crianas magras e visivelmente desnutridas, jovens envelhecidos precocemente, idosos j na casa dos 40 anos. Sorrisos incompletos e vozes sem esperana. Definitivamente estvamos atravessando as entranhas da Bolvia. Entramos pelo intestino do pas. proporo que o trem vai se aproximando do seu destino final, Santa Cruz de La Sierra, a paisagem vai levemente alterando seus tons. Fagulhas de urbanidade e espasmos de civilizao vo surgindo aqui e acol. O percurso at Santa Cruz foi penoso e entediante. No mais agentvamos nossa condio e nem nosso cheiro. No conseguamos ficar quietos nos assentos. O ar viciado era aspirado como se fosse um veneno letal. Li e descobri que h vrias hipteses para o nome Trem da Morte. Algumas so sobre os surtos de clera que j acometeram os

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    viajantes. Outras falam sobre os perigosos traficantes que viajam no trem. Mas nenhuma mencionava o tdio que nos aniquila em precisas doses homeopticas. uma viagem muito densa e cansativa.

    J eram mais de 16h00 quando o trem felizmente encostou-se estao

    final. Uma estao ferroviria e rodoviria de bom porte, barulhenta e desorganizada. Como no h muito para se fazer em Santa Cruz, a melhor opo seria pegar um nibus direto para La Paz. As prioridades estavam bem definidas. Primeiro, comprar passagens. Rodoviria boliviana como uma feira livre, com muitos vendedores gritando ao mesmo tempo. Dentre as dezenas de opes, que variavam de B$100,00 B$180,00, compramos uma de B$130,00 para as 17h30. Ou seja, sobrou-nos pouco menos de uma hora e meia para cumprir as outras duas prioridades restantes, banho e comida. Com o tempo escasso, corremos at o banheiro, e o banho inadivel aconteceu numa cabine ptrida e ftida. No havia ralo e o buraco por onde deveria escoar a gua estava entupido, formando assim uma piscininha de gua suja com cabelos, band-aid, pentelhos e outras impurezas boiando. Fechei os olhos e tentei imaginar que estava debaixo de uma cachoeira. No funcionou. Ainda que a estao/rodoviria fosse grande e movimentada, no existia sequer uma lanchonete descente. Vagamos por todas e tentando evitar comer frituras ou porcarias industrializadas, optamos por pes de queijo. Acabamos nos dando bem, pois os pes de queijo estavam recm sados do forno, quentes e deliciosos. Mas para no falar s vantagens, comemos tambm empanadas duras e insossas. Enquanto estvamos aflitos na fila para pagar nossas taxas de embarque, encontramos dois caras de Ribeiro, Joo e o Edwin. Trocamos algumas frases e samos correndo.

    Montamos no bumba ainda com uns cinco minutos de sobra. Eram assentos

    reclinveis e um buso relativamente novo. Antes de sair eu ainda comprei um exemplar do La Nacin. Um jornal bem estruturado, com textos bem escritos, mas com uma diagramao muito formal, bem careta mesmo. Impressionei-me com a facilidade com que eu li os editoriais e as notcias. Ler espanhol mil vezes mais fcil que falar. No estou preparado para ler os originais de Cervantes, Borges, ou Cortzar, mas jornais sim. Fiquei feliz por uns catorze segundos. Duas notcias me atraram, a primeira era sobre a crise de combustveis na Bolvia. A Argentina cortara o fornecimento de combustveis por falta de pagamento. H petrleo na Bolvia, porm no h estrutura para o refinamento. Por este motivo eles so forados a exportar o leo bruto e comprar combustvel. Fazem este tipo de comrcio com o Brasil, Argentina e sabe-se l quem mais. Comecei a prestar ateno nas janelas e de fato havia filas enormes nos postos de gasolina. Pensei que isto poderia afetar nossa viagem. No deu outra, o nibus passou por uns trs ou quatro postos antes de conseguir abastecer. A outra notcia foi a ida de Vanderlei Luxemburgo para o galctico Real Madrid.

    Pelo pouco que vi, conclui que Santa Cruz uma cidade. Tambm suja, mas ao menos uma cidade. Descobri pelo jornal que a regio explora petrleo e o ouro negro evidentemente reflete em Santa Cruz. At o time da cidade chama-se Oriente Petroleiro. D para perceber que uma cidade mais rica, mas no isenta de contrastes e pobreza. Por ter o maior aeroporto do pas, por ter uma

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    malha ferroviria conectada com Brasil e Argentina, e por ter estradas asfaltadas na sua regio; Santa Cruz tornou-se assim a principal porta comercial da Bolvia. Praticamente tudo que entra ou sai do pas, passa por l. Inclusive ns. Muitos caminhes cargueiros e contineres podem ser vistos nos arredores. O nibus fez duas paradas nas cercanias, ambas para a entrada de vendedores ambulantes. O emprego informal dominante na Bolvia, e o trabalho infantil tambm. Faramos ainda outra parada para o jantar. Dois restaurantes humildes e mais uma dezena de barraquinhas compunham o cenrio do posto de parada. Reencontramos por l o estudante boliviano de enfermagem. Mijei (quase escrevi: fiz xixi!), lavei o rosto e comi um abacaxi dulcssimo. Aucarou at minha noite.

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    4 Dia Antes da Paz, Andes Estrada/La Paz, 31/12/04. Acordei bem cedo, antes mesmo das 6h00. Espantei-me com a cordilheira

    dos Andes. Uma viso celestial, a unio entre o cu e a terra. De to maravilhado que estava, nem me dei conta que meus ouvidos doam muito. Alm do mais, tive um princpio de dor de cabea. E foi tudo o que a mudana brusca de altitude causou em meu organismo. Na madrugada, medida que o nibus subia, a temperatura caa. Nada que minha jaqueta no agentasse, alm do fato de estar sentado em cima do aquecedor do nibus. Mais uma vez aproveitamos o calor para secar nossas toalhas. Estvamos ficando bons na fina arte de secar toalhas durante viagens. A cordilheira dos Andes, no ponto em que estvamos, nada mais era do que um monstruoso e gigantesco aglomerado de rochas avermelhadas e terra tambm em tons rubros. Ainda assim, era espetacular. Os desenhos, as formas (ou a falta delas), as cores, a ausncia de horizonte, as nuvens muito prximas; tudo compunha uma paisagem indita para mim. Quase lunar. A estrada que percorramos era de pista nica, bem estreita e extremamente sinuosa. Passvamos por desfiladeiros enormes e eu no vi nenhum guard rail. Os bolivianos tambm conservam o macabro hbito de colocar cruzes e pequenos altares em locais de acidentes fatais. Pela quantidade de cruzes que eu vi e pela periculosidade da estrada, devem acontecer muitos. Depois de subirmos mais algumas centenas metros, apareceram vegetaes irregulares e rasteiras, vimos tambm as primeiras lhamas e algumas parcas cabeas de gado.

    No buso, ns conhecemos um goiano que atendia pelo equivocado nome

    de Cleudismar. Ou seria Claudismar? No me lembro. Estava acompanhado de uma boliviana chamada Melvia. O cara estava na Bolvia h seis anos, fez medicina e estava j na residncia, ou internato, como ele mesmo falou. Melvia disse ser carateca, vice-campe mundial e o escambau. Com mil perdes, no sei que categoria ela lutava, mas seu fsico gorducho estava mais para personagem de um quadro do Brotero. O goiano (cham-lo assim era mais fcil) nos disse muitas coisas sobre a vida na Bolvia. Falou sobre petrleo, txis, carros, rebocos de casa, La Paz, alimentao e tal. No caminho pelas alturas, passamos por alguns vilarejos andinos, com lhamas e mulheres envergando seus coloridos trajes tpicos, as chamadas cholas. O nibus seguia parando constantemente. Ora para o pessoal mijar, ora para subirem mais pessoas. Mesmo lotado, as pessoas entravam e ficavam em p, ou se acomodavam deitadas no corredor mesmo. Era um destes nibus com uma parte trrea e um primeiro andar. Por sorte ficamos na parte de baixo, menor e sem possibilidade de algum se acomodar no corredor. L em cima estava cheio de pessoas em p, caindo uns por sobre os outros a cada tranco e a cada curva dos Andes. O compartimento superior tambm fedia a vmito e urina.

    Paramos perto de Oruro para um desayuno (caf da manh). Era uma

    lanchonete apresentvel que nos serviu um delicioso caf com leite e pes. Leite de lhama, como nos informaram. Sinceramente, acho que era mentira. Inventaram essa histria de leite de lhama para enganarem dois turistas bestas. No importa,

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    preferi acreditar. A garonete que nos serviu ficou feliz com nossa credulidade. Era um leite leve e saboroso, lembra muito o leite em p. Voltamos ao bumba e, de barriga cheia, dormimos mais um pouco. J estvamos muito prximos de La Paz quando despertamos. As primeiras vises da capital foram decepcionantes, para no dizer assustadoras. Chegamos pela Ciudad de El Alto, que fica na periferia de La Paz. Esta cidade fica a quase 4.000 metros de altitude, enquanto La Paz fica apenas a mais de 3.700. Constatamos que nas ruas no havia sequer um carro particular, somente lotaes, txis e micronibus. Um buzinao infernal. Parecia que a Bolvia tinha ganhado uma Copa do Mundo. Se o trnsito fosse catico, seria mais organizado. No h meio de explicar o trnsito boliviano. No respeitam faris, sinalizao, pedestres, nada. Os carros se jogam em todas as direes e vale a lei do mais forte. Muita poluio visual e, claro, muita sujeira. Muita mesmo.

    Depois de percorrer mais alguns quilmetros pelas periferias, avistamos La

    Paz. A cidade baixa, a parte mais antiga, fica num vale entre as montanhas. Geograficamente um lugar muito bonito. Especialmente para ns brasileiros que no estamos habituados com montanhas altas. Ao fundo h o pico Illimani, que fica a mais de 5.000 metros de altura, e tem suas encostas cobertas pela neve. No entanto, ainda no o tnhamos visto, estava nublado.

    Chegamos rodoviria. To desorganizada quanto qualquer outra que

    encontramos na viagem. Txi para a Plaza Eguino. J alertados pelo Cleudismar (ou seria Claudismar?), combinamos o preo antes. E era um rdio txi, pois qualquer outro era um potencial assaltante. E assaltos em txi realmente ocorriam com freqncia, como descobrimos conversando com outros turistas durante a viagem. Ficamos logo hotel que tnhamos uma referncia da internet. Chamava-se Hotel Continental e tinha parceria com a Hostelling International, algo que barateou nossa estadia. Pegamos um quarto sem banheiro privado, mas este detalhe no influenciou muito, pois ramos os nicos hspedes do andar, ento o banheiro ficou sendo apenas nosso. Estava dominado. Samos para almoar e entramos num local chamado Palacio del Inka. Enquanto ainda espervamos nossos pratos, eis que entra o pessoal de Ribeiro Preto. Sentamos todos juntos e comeamos a conversar sobre as viagens. A nossa, no Trem da Morte; e a deles, no Trem da Sorte, por assim dizer.

    Depois do almoo, samos para andar pelo centro de La Paz. As ruas do

    centro so em parte paraleleppedo e em parte asfalto. Tomadas por camels e lonas azuis. Repletas de lojas de artesanato, roupas e outras quinquilharias. H tambm muitas pousadas e hotis, agncias de turismo, restaurantes, Lan houses, casas de cmbio, pequenos armazns, cafs e uns poucos botecos. Numa das estreitas ruas de paraleleppedo, h um mercado de bruxos. Deve ser chamado assim para atrair os turistas, porque no h nada de anormal. Somente algumas ervas medicinais, chs, corantes, muito artesanato, artigos esotricos e fetos de lhama ressecados. Toda vez antes de iniciar alguma construo civil, os bolivianos tm o hbito de enterrar fetos de lhama para trazer proteo e boa sorte. Deve ser algo muito popular, a quantidade de lhamas secas numerosa. O

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    pessoal de Ribeiro fez algumas compras. Coisas de turistas mesmo. Eu e o meu companheiro de viagem optamos por algumas Paceas. Coisa nossa mesmo. Arrumamos um bar em um subsolo muito prximo ao nosso hotel. Era um bar sem o menor requinte, escondido e freqentado somente por bolivianos. Gostei da fua e do clima da espelunca. Fomos muito bem tratados, a cerveja era gelada e a trilha sonora de msicas latinas trouxe algumas prolas, como verses de msicas sertanejas brasileiras para o espanhol, com um tempero de mambo, salsa e bolero. Impagvel.

    Depois de relaxar o corpo e desanuviar a mente, ns fomos dar umas

    bandas pela Avenida 16 de Julio (ou Paseo de el Prado). a principal avenida da capital boliviana. l que esto as multinacionais, as empresas de comunicao, as embaixadas, os bancos, vrios prdios do governo, cinemas, restaurantes, lojas mais refinadas, etc. Descemos caminhando at a Plaza Isabel La Catlica. Ali perto ficava o Mongos, um bar indicado pelo camarada Vito. Antes de viajarmos, conversamos com algumas pessoas que j haviam feito o mesmo trajeto, o Vito foi um deles. Entramos no tal do Mongos (que nome!), sacamos o ambiente, trocamos umas idias com os funcionrios e j tnhamos um local para passar a virada de ano. Uma van. Lotao at a Plaza Eguino. Tentativas frustradas de ligar para minha famlia e para minha Marina. Hotel. Banho. Batemos novamente a p at o Mongos. Comeou a balada.

    O bar era maneiro, bem decorado e aconchegante. A luz baixa e as velas me

    agradavam. Odeio bares muito iluminados, tenho sempre a terrvel impresso de estar bebendo em uma farmcia ou num hospital. As msicas que tocaram durante a noite eram quase todas do pior do pop americano. Houve uma sesso rocknroll, com bandas britnicas, uma sesso hip-hop e, no final, somente as terrveis msicas bolivianas. A maioria absoluta do pblico era estrangeira, quase todos jovens. Muitas turmas, muitas lnguas e muita cerveja. A Bolvia tem algumas variedades de cervejas, sendo todas da mesma fbrica, a Cervezeria Boliviana Nacional fabrica a Pacea, Huari, Pilsen, Centenrio, Bock e Tropical Extra. Experimentamos todas, claro. E optamos por passar a noite com a Huari. Sentia falta da Marina e afogava minha saudade na minha caneca de cerveja. Conhecemos muitas pessoas. Trs brasileiras cocotas de So Paulo. Uma turma de duas cariocas e dois paulistas. Um casal holands, gente finssima. Uma animada e rechonchuda turma de bolivianos. E um peruano que no gostou de uma brincadeira que eu fiz com ele. Em determinado momento da conversa, ele falou: Viva su puto carnaval! Eu respondi: Viva su puto Sendero Luminoso! O peruano mudou sua fisionomia e disse-me em tom reprovador que o Sendero Luminoso no era o Peru. Para quem no conhece, basta dizer que Sendero Luminoso uma faco poltica de extrema esquerda que prega a revoluo socialista por meio de atentados. A guerrilha do Sendero j foi mais forte nas dcadas de setenta e oitenta, hoje est enfraquecida e aparentemente desarticulada. Os caras de Ribeiro apareceram por l depois da uma da manh, j no ano seguinte. Passamos a noite nos revezando para buscar cerveja. Bebemos muito e, se no me falhe a memria, os temidos efeitos do lcool na altitude no nos afetou. Weve spoken english, falamos portugus e hablamos

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    espaol. Bebemos mais algumas e fomos embora com dia raiando. Txi e cama. Feliz 2005!

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    5 Dia Primeiro dia do resto de nossas vidas La Paz, 01/01/05. A frase do ttulo bem velha, mas irretocvel. Definitiva. Acordamos tarde, j se passavam das 13h00. Banho. Passeio pelo centro.

    Almoo numa rede de fast-food boliviana. Frango frito. Mais de 80% da carne consumida na Bolvia, e no Peru tambm, de frango. O tal do pollo dominante, muito vendido e muito consumido. Nas ruas, nas bodegas, nos restaurantes, nas feiras, no pas inteiro. Aps a refeio, andamos inutilmente at a rodoviria. Encontrava-se fechada no primeiro dia do ano. Estava bem gelado e caa uma chuva fina. O trajeto era composto por subidas longas e ngremes. Bendita seja a folha de coca. Sem muita perspectiva, pegamos um txi at o Estdio Nacional Hernando Siles, o local onde a Bolvia manda seus jogos. tambm o palco do maior derby local, Bolvar X The Strongest. No pudemos entrar no estdio, mas por fora, andando por toda sua circunferncia, deu para sacar que ele bem imponente. Passamos tambm pela Plaza Tiwanaku, que nada mais do que uma rplica de uma parte das runas de Tiwanaku. O sol deu o ar da graa e veio nos esquentar. O dia estava comeando a ficar bonito.

    Descemos a p, passando por um bairro bem residencial chamado

    Miraflores. Era um pedao bacana de La Paz, arborizado e limpo. Com casas bem cuidadas, rebocadas e com pintura externa. Na Bolvia, segundo o Claudismar (ou seria Cleudismar?), h um imposto para as casas e estabelecimentos que so rebocados e pintados. Com imposto ou no, o fato que a maior parte das construes bolivianas inacabada, sem reboco e sem pintura. No so muito chegados em telhados tambm. A maior parte das casas, principalmente nas periferias, no tm telhados. Somente a laje do teto e mais nada. Os morros e montanhas tomados por habitaes deste tipo de construes do a La Paz um aspecto de uma gigantesca favela. O tom predominante, marrom tijolo, contribui para tornar o ambiente bem insalubre. Bem triste tambm. Andamos at o Parque Mirador Laikakota. o Parque Ibirapuera de La Paz. Pela quantidade de famlias e pelo tamanho da fila para entrar, dava para concluir que o feriado, agora ensolarado, atraiu os bolivianos para o parque. Por fora o Laikakota era muito bonito, com jardins floridos e rvores frondosas. Pela primeira vez na viagem eu vi uma alegria sincera e contagiante nos rostos dos bolivianos. Muitos com seus trajes tpicos, muitos jovens casais e uma infinidade de crianas. Senti-me bem. Era algo totalmente corriqueiro e banal, mas era algo genuno e real. No era encenao para turista ver. Na verdade, eu e o Anselmo ramos os nicos turistas, e ns nos sentimos muito confortveis naquela situao. At o presente momento, em La Paz, s tnhamos estado em locais tursticos, que conservam sempre um ar de distanciamento, e apresentam quase sempre um ambiente controlado.

    O povo boliviano mantm aquela amabilidade latina. uma cordialidade que

    muitas vezes chega a ser submissa e irritante. Mas so sempre educados e atenciosos. Aparentemente so pessoas de poucas palavras e pouqussimos sorrisos. At o passeio pelas cercanias do parque, em quase trs dias de Bolvia,

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    ainda no tinha visto ningum gargalhando. Como brasileiro, estranhei muito a ausncia de risadas. Definitivamente, eles gostam de brasileiros. E amam o nosso futebol. Sempre que mencionvamos que ramos do Brasil, eles j puxavam o assunto futebol. E a conversa acabava agradando os dois lados.

    Pegamos uma lotao para voltar ao hotel. A noite anterior ainda provocava

    estragos. Muito lcool e pouco sono. Combinao perfeita para uma ressaca. Na cama do hotel, eu iniciei a leitura de Borracho estaba, pero me acuerdo, um livro adquirido no dia anterior. Achei uma livraria, a nica na viagem toda, e perguntei por um bom romancista ou contista boliviano. A minha vasta ignorncia no me permitia saber o nome de nenhum escritor boliviano. Porm, meus espasmos de curiosidade so muito bem-vindos nestes momentos. O autor chama-se Vitor Hugo Viscarra. So contos memorialistas autobiogrficos com tempero fictcio. Naquela noite, li apenas os dois primeiros. Parece-me ser mais um destes muitos escritores latino-americanos de origem pobre e sofrida que encontram na literatura um modo de conviver com seus fantasmas do passado, pesadelos do presente, e desiluso do futuro. No digo isto como crtica negativa, pelo contrrio, antes escolher o caminho das letras, ao caminho da autodestruio e violncia. Depois, j na metade do livro, posso dizer que a ausncia de um rigor esttico e um refinamento estilstico compensada com altas doses de brutalidades urbanas e sinceridade cotidiana. O escritor narra como foi sua vida nas ruas de La Paz. Fugiu de casa muito cedo e passou a viver como indigente.

    Para espantar a preguia que se apoderava de nossos corpos, fomos dar

    umas bandas pelo crepsculo. Camos num lugar sensacional chamado Angelos. A decorao era primorosa, e o clima muito acolhedor. Diversos mveis e objetos velhos ornamentavam os cmodos e as paredes do boteco. A trilha sonora ficou sob responsabilidade de um famoso quarteto de Liverpool, depois os rapazes deram espao para msicas instrumentais. Violeiros bolivianos. Muito bom. Um timo local para um caf. Um timo local para espantar a ressaca. Samos e ainda pegamos o fim da missa da Igreja de San Francisco. Uma catedral enorme e macia construda no sculo XVI. Os adornos e o suntuoso altar eram todos de ouro e prata. Samos para mais outras bandas e mais outras cervejas. Antes de voltar para o nosso hotel, ainda passamos no hotel do pessoal de Ribeiro e ficamos conversando. Voltamos, escrevi algumas tortas letras no dirio. Sono e tchau. Hasta maana.

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    6 Dia Uma ou duas voltas no tempo La Paz/Tiwanaku, 02/01/05. Fomos despertados a pedidos. Eram 8h00 em ponto quanto tocou o telefone

    do quarto. L fora caa uma forte chuva. Bateu um desnimo forte. Frio at vai bem, mas chuva foda. Banho. E comeamos a cogitar a hiptese de fazermos um programa indoor, museus, igrejas, galerias, sei l. O planejamento inicial era uma visita s runas de Tiwanaku. Samos para um desayuno e a chuva foi perdendo sua intensidade. Foda-se, dissemos, vamos para l.

    Pegamos um micronibus at o cemitrio. L, alm de passagem para o cu

    (ou para o inferno), tambm havia passagens para muito outros lugares. As ruas do entorno serviam tambm de ponto de embarque e desembarque. Entramos numa lotao que fazia jus ao seu nome, simplesmente abarrotada. Parando a todo o momento para entrar e descer gente, encaramos 70 km at Tiwanaku. Havia mais trs turistas na van, um casal de americanos e um italiano que falava espanhol perfeitamente. Sair da capital boliviana uma experincia muito interessante, uma subida constante e do caminho podemos ver perfeitamente o buraco onde a cidade foi construda. Passamos novamente pela Ciudad de El Alto. Vimos o Illimani pela primeira vez. Foi s o tempo abrir e as montanhas nevadas se apresentaram majestosamente. Como se algum tivesse aberto uma cortina para o espetculo comear. J vi o Cristo Redentor, a Torre Eifel, a esttua da Liberdade, o Maracan, mas nenhuma primeira viso me arrebatou tanto quanto o Illimani. Emocionante.

    O percurso passava por pequenos povoados pobres e por casas de

    agricultores. impressionante como a terra desrtica. So rarssimas as plantaes e escassas as criaes de animais. Quando em vez deparamos com algumas roas de batatas e algumas poucas lhamas, ovelhas ou porcos. A estrada tambm tinha a macabra decorao de cruzes nas suas laterais. Chegamos a Tiwanaku e compramos o pacote completo, B$25,00 por dois museus e trs stios arqueolgicos. O local patrimnio histrico mundial tombado pela Unesco e os museus foram construdos com grana do BID. Mas na Bolvia estas credenciais no significam necessariamente sinnimo de boa infra-estrutura. Os museus so pequenos, contm poucas informaes seus acervos so pauprrimos. Quase nada bilnge. No entanto, a carncia no tira o encanto da civilizao soterrada pelos anos e pelo descaso histrico.

    Tiwanaku hoje uma cidade feia, suja e decadente. Todavia, h milhares de

    anos atrs, o local abrigou uma civilizao pr-inca. Chegou a ser a maior cidade da Amrica pr-colombiana, com mais de 60 mil habitantes. A civilizao Tiwanaku, segundo alguns historiadores, pode ter originado todo o grandioso povo inca. Didaticamente, o museu dividiu a existncia do povo em trs fases: perodo de aldeia (1.500 a.C. 45 d.C.), perodo urbano clssico (45 d.C. 700 d.C.) e perodo expansivo (700 d.C 1.200 d.C.). H indcios que uma devastadora seca por volta de 1.100 d.C. tenha iniciado a decadncia da civilizao. Antes da seca, a produo de alimentos dava para abastecer toda sua populao e ainda havia

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    sobras para estocagem e comrcio com outros povos. Tinham refinados conhecimento de matemtica, engenharia, medicina e astrologia. Forjavam utenslios de bronze e outros metais, teciam suas prprias roupas. Dividiram o ano em 365,24 dias (exatamente como hoje!) para melhor planejarem suas festas religiosas, seus plantios e suas colheitas. Durante nossa visita, deu para sacar que boa parte da cidade ainda est soterrada. Depois ns ficamos sabendo que apenas 5% est descoberta, mostra, e faltam recursos tcnicos e financeiros para continuar as pesquisas e escavaes. Caa uma chuva muito fria, e o sistema de escoamento de gua, com mais de 1.000 anos, ainda funcionava perfeitamente. No resisti e tirei uma foto. foda. realmente curioso como sentimos nostalgia de um tempo que nunca vivemos e saudade de um povo que nunca conhecemos.

    Voltamos de l muito cansados. Descansamos um pouco no hotel e quando

    samos para fazer nossa primeira refeio do dia, j eram mais de 20h00. No restaurante, ns experimentamos aquela que se revelou a melhor cerveja da viagem, a Bock. Uma cerveja mais forte, encorpada, saborosa e com um retrogosto acentuado. Era to boa que tomamos mais algumas antes de irmos dormir. Uma hora de internet e cama.

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    7 Dia Nas alturas, o serto tambm vai virar mar La Paz/Copacabana, 03/01/05. Bem cedo acordamos, ou muy temprano, como dizem, 7h30 e j estvamos

    na rodoviria. Grande vacilo. Descobrimos que os nibus para Copacabana saam todos do cemitrio. Outro txi para l. O bumba era uma carroa, uma jardineira velha que carregava as malas na parte de cima, expostas garoa que caa de manh. Comprei um exemplar do La Razn para ler durante a viagem. Assustei-me com o contedo conservador do jornal. Direitista ao extremo, fascista mesmo. Um artigo assinado por sujeito o qual no fao questo de lembrar-lhe o nome defendia o uso das foras armadas contra o MST boliviano. Dizia que s o exrcito era capaz de conter os animais irracionais que invadiam as propriedades privadas. Nem de relance o artigo mencionava as palavras reforma agrria, ou igualdade. J em um subeditorial, portanto a opinio do jornal, o texto defendia o facnora chileno chamado Augusto Pinochet. Os argumentos eram rasteiros, dizia que a operao Condor acabara de descobrir milhes de dlares surrupiados do povo chileno em contas americanas do Pinochet e de pessoas muito prximas a ele. Dizia que a corrupo poderia ser aceitvel (!), uma vez que Pinochet equilibrou as contas chilenas e alou o Chile para a modernidade. No mencionava os milhares de mortos assassinados pelo regime ditatorial. Deixei o libelo fascista de lado e, indignado, resolvi distrair-me com a estrada. No incio a paisagem era bem parecida com a que pegamos no dia anterior, no caminho para Tiwanaku. Contudo, quanto mais nos aproximvamos do Titicaca, mais interessante ficava. Mais verde, mais rvores, mais agradvel. Nem era to longe, apenas 168 km, mas o nibus velho, as estradas sinuosas e as muitas paradas esticaram nossa viagem para mais de quatro horas. Paramos no Estreito de Tikina e descemos do buso. Iramos cruzar de barco, enquanto o nibus cruzaria de balsa. O lago Titicaca belssimo. Imaginar um lago gigantesco at fcil, mas imaginar um lago entre montanhas e a mais de 3.800 metros de altura, bem improvvel. Uma viso nica.

    Depois de novamente pongar no buso, tnhamos ainda que atravessar um

    mar de morros e montanhas; algo como cruzar a arrebentao em dia de guas traioeiras e ondas imprevisveis. Muitas curvas perigosssimas, desfiladeiros mortais e ns num nibus mais velho que a Dercy Gonalves. Adrenalina mesmo. O caminho to arriscado que o povo de Copacabana benze seus carros em um ritual muito colorido que pudermos acompanhar na cidade. E claro, cruzes decoram toda a extenso da estrada. Quando, logo na entrada da cidade, eu vi uma placa dizendo que o asfalto era de 1997, fiquei imaginando como seria a mesma viagem feita em estrada de terra. Um verdadeiro rali nas alturas. Chegar a Copacabana algo belssimo, maravilhoso, indescritvel. As montanhas cobertas por uma vegetao de vrios tons de verde, a cidade de veraneio vista de cima, o lago Titicaca banhando os costados, as nuvens baixas; tudo parece se encaixar perfeitamente, uma harmonia renascentista. Faltou apenas uma moldura.

    Arrumamos um hotel legal, melhor e mais barato que em La Paz. Mortos de

    fome, ns fomos comer um prato tpico, trutas. Acompanhado de cerveja, claro.

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    O peixe estava excelente e foi talvez a melhor refeio da viagem. Samos para um passeio logo aps o almoo tardio. A igreja de Nossa Senhora de Copacabana impressionante. Imensa e com seu interior praticamente inteiro de prata. Se vocs esto perguntando se h alguma relao entre Copacabana na Bolvia e a praia homnima carioca, a resposta sim. A praia foi batizada em homenagem a uma imagem que foi achada por pescadores. A virgem que acharam era uma Nossa Senhora de Copacabana e at hoje decora a charmosa igreja carioca que leva seu nome. Em frente praa da matriz, uma procisso muito colorida se armava. Muitos carros estavam pintados e decorados com fitas. Havia padres e imagens de santos. Fogos de artifcio e incensos. Perguntamos e descobrimos que se tratava do ritual mensal que o pessoal faz para benzer e proteger os carros da cidade. Voltamos ao hotel e puxamos um ronco durante uma hora e meia. Tempo suficiente para nos recompormos e sairmos novamente para caminhar pela cidade. Decidimos subir o calvrio, uma morro dentro da cidade. Foi uma caminhada de uns 2 ou 3 km. Subindo, cansando, subindo, descansando, subindo. Depois de todas as passagens da via-crcis, l em cima h cruzes, motivos catlicos, velas e muita sujeira deixada pelos devotos bolivianos. O importante a vista magnfica. uma recompensa que vale o esforo da difcil subida na altitude. O sol j estava caindo e o frio foi apertando. Descemos as longas escadarias muito mais rpido. Para descer, todo santo ajuda. Eis um sbio ditado dispensvel, mas verdadeiro.

    Decididos a achar algum lugar onde poderamos tomar um ch de coca para

    nos esquentar, fomos instintivamente guiados at o Waykis. Um boteco irado, todo grafitado por turistas. Desenhos e recados vindos de muitas partes do mundo. Reencontramos o casal de americanos que tinha estado em Tiwanaku conosco. Iniciamos uma longa e agradvel conversa. Bruce e Laurin j estavam viajando h mais de 14 meses. Ambos j haviam virado a casa dos 50, mas conservavam uma jovialidade cativante. Ele, engenheiro de computadores e ela, professora infantil. Moravam em uma pequena cidade no Colorado, perto de Denver. Iniciei a conversa perguntando se eram de Littleton. No eram, sorte deles. O papo fluiu legal e os gringos eram bem liberais, tinham opinies fortes e sensatas. Nem pareciam americanos. Laurin, como professora primria, tinha o curioso e genial hbito de colecionar verses de Parabns a voc. J tinha muitas verses, em diferentes lnguas. No tinha em portugus. No tivemos como negar, eu e o Anselmo acabamos cantando e os gringos gravaram em uma cmera digital. Cantamos animados e constrangidos. Amistosamente pattico. O simptico casal se foi, dando espao para o funcionrio do bar entrar em cena.

    Ricardo, o atendente do Waykis, era jovem e comunicativo. No hesitou em

    puxar assunto conosco. Estudante de arqueologia e antropologia, ele estava de frias e aproveitava para puxar um trampo e juntar uma grana. Bebendo e conversando com o Ricardo, acabamos recebendo uma verdadeira aula sobre os Incas, Tiwanaku, Manco Kapac, Mama Ocllo, Titicaca, etc. No decorrer do relato eu prometo que vou soltando um pouco das coisas que aprendi. Aproveitamos tambm para desenhar o primoroso e belssimo smbolo do Sport Club Corinthians Paulista na parede do bar. O autor do desenho foi o Anselmo. Entrei na histria

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    como co-autor intelectual da empreitada. Assinamos e deixamos nossa presena registrada. A trilha sonora do bar ficou entre o rock e o reggae, passando rapidamente por uma incendiria banda de rock mexicana chamada Molotov. O Waykis tambm era equipado com uma tev e um aparelho de DVD. Quando entramos no bar, a tela exibia o Cidade de Deus.

    Copacabana, como j disse anteriormente, uma cidade de veraneio. Muito

    parecida, por causa do imenso lago, com uma cidade litornea. O clima e o ritmo so de cidade de praia mesmo. tambm a Meca boliviana dos hippies e bichos-grilos. A atmosfera e os freqentadores remetem Trindade, Visconde de Mau, Arraial DAjuda, So Tom das Letras; ou qualquer outra cidade do tipo. Desencanados, neo-hippies, bichos-grilos e malucos do mundo inteiro esto por l.

    Hotel. Banho. Janta. Reencontramos um casal que de paulistas que

    havamos conhecido no embarque do Trem da Morte. Continuo sem saber o nome deles. Fomos fazendo uma peregrinao para encontrar um boteco firmeza. Paramos num tal de Buhos e por l encontramos um grupo de brasileiros que trombamos no ano novo em La Paz. Conhecemos tambm um casal de Ribeiro Preto e outro casal de no sei onde, mas que moravam em So Paulo. Muito reggae e algumas cervejas depois, s caras do bar resolveram fazer uma sesso brasileira. Veio Garota de Ipanema, Rita Lee, Gilberto Gil e at Chico Csar. Camos fora e tomamos a saideira no bom e velho Waykis. Tnhamos que despertar logo cedo. Caminhamos sob uma chuvinha minguada. Fazia muito frio. Hotel e cama.

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    8 Dia Travessia Copacabana/Yunguyu/Puno, 04/01/05. Combinamos com o cara da recepo para sermos acordados s 7h30. No

    fomos. Ainda bem que estou habituado a acordar cedo, eram 7h00 (ou 9h00 no Brasil, com duas horas de fuso) e j estava em p. Caa uma tempestade l fora e o tempo estava escuro. Tomamos banho enquanto os ventos encarregaram-se de limpar o tempo. Quando samos do quarto, tinha at um arco-ris. Um no, dois arco-ris, algo raro. Um sol morno iluminava toda a bela viso que tnhamos do lago e da orla da cidade. Realmente, foi o melhor quarto que ficamos. Samos para um rpido desayuno. Na bodega, combinaram um preo e queriam cobrar por outro. Por fim, perdemos uns 10 minutos na pendenga. Tnhamos um passeio marcado para a Isla del Sol. Ontem, fechamos o passeio de barco e tambm compramos passagens para Puno, no Peru. As passagens tambm nos davam direito a um passeio pelas Islas Flutuantes, tambm no Titicaca. So ilhas artificiais feitas de junco que abrigam algumas casas. Milhares de anos atrs, existiu um povo nmade em pleno Titicaca, viviam em barcos e ilhas flutuantes. O cara que nos vendeu o pacote foi um cara-de-pau profissional, 171 filho-da-puta. Tinha um jeito de songomongo, falava baixo e calmamente, foi atencioso e nos convenceu. Muitas agncias ofereciam os mesmos passeios, s os preos variavam. Acabamos escolhendo a tal agncia do tal Juan Carlos. No gosto de fazer turismo com agncias, eu prefiro fazer tudo por conta prpria, mas o problema que no tnhamos outra escolha, a no ser que tivssemos um barco para navegar ao deus-dar no Titicaca.

    Subimos no acanhado barco e fomos sentar no deque superior. Apesar do

    sol forte queimando nossos rostos e pescoos, ventava de uma forma glacial. Tivemos que botar gorros e usar protetor solar. Ainda no barco conhecemos aqueles que seriam nossos novos companheiros de viagem, Breno, Glria e Pedro. Breno era mineiro e estudava antropologia na Federal de Vitria, no Esprito Santo. Glria tambm morava em Vitria, e trabalhava num projeto com ndios de l. Ela era italiana, mas falava portugus fluentemente. Pedro era um carioca que estudava letras em Florianpolis, era amigo de Glria e tinha conhecido o Breno na viagem. O pessoal era muito gente fina e muito inteligente, ns cinco acabamos nos integrando muito bem. O lago Titicaca, juntamente com as montanhas, compe uma paisagem improvvel e incansvel. H ainda enormes rochas sobressalentes que formam ilhotas repletas de pssaros. A gua verde-escura e a abbada azul-celeste so muito prximas, em alguns pontos as alvas nuvens chegam a tocar a superfcie do lago. Um sol majestoso iluminava toda esta beleza e sentia-me dentro de um carto-postal. O guia nos falou que uma expedio liderada pelo francs Jacques Cousteau fez importantes descobertas no fundo do lago. Descobriram fsseis de cetceos, animais tipicamente marinhos, denunciando uma remota ligao com o mar. Esta ligao tambm pode ser confirmada com a gua salobra. Depois de intensos terremotos, o lago fechou-se, geleiras derreteram-se e a gua ficou salobra. A expedio tambm confirmou a existncia de civilizaes antiqssimas submersas e este fato gerou a hiptese de Atlntida, a provvel utopia de Plato, estar embaixo das

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    guas do Titicaca. H estudiosos se debruando sobre esta variante, mas como em toda a Amrica Latina, a arqueologia do local carece de recursos tcnicos e financeiros. Gastaram milhes para encontrar e filmar o Titanic, mas dificilmente fariam o mesmo com as civilizaes do Titicaca. O Pedro soltou uma prola definitiva: Se for para tirarem as coisas do a fundo e colocarem em museus de Nova Iorque, Londres ou Paris, melhor que fique tudo embaixo dgua. bem por a.

    Na Isla del Sol h o Templo do Sol, e a Isla de la Luna abriga, adivinhem, o

    Templo da Lua. O primeiro foi construdo para Manco Kapac e o segundo para sua irm, Mama Ocllo. Ambos representam a origem mtica do povo inca. So filhos do deus Sol, o Inti, e foram mandados para a terra para iniciarem a civilizao inca. Manco Kapac o deus que representa o sol, a terra e o dia. J sua irm, representa a lua, a fertilidade e a noite. Aportamos na ilha e iniciamos nossa caminhada. Alm de ns brasileiros, tinha tambm uma famlia de franceses, dois argelinos, um punhado de americanos e turistas bolivianos. Subimos uma longa escadaria inca que culminava numa fonte de gua lmpida e potvel. As guas da fonte, mesmo aps centenas de anos continuam escorrendo pelos encanamentos de pedras e outras engenhocas incas. Dizem que a gua mgica, e muita gente aproveita para encher suas garrafas, ou apenas beber um pouco. O guia nos disse que a gua vinha diretamente de Machu Picchu. Sinceramente, eu no botei f. Os incas eram muito bons em arquitetura e engenharia, mas espere a, para tudo h limites. H na ilha muitos terraos para plantao de gneros alimentcios e tambm plantas e flores decorativas. Outrora existia ali um belo jardim inca, cuidadosamente destrudo pelos espanhis. Sobraram algumas rvores centenrias e pedras. Fomos subindo e ouvindo as explicaes do guia, que aparentava no ter mais que 20 anos. Voltamos ao barco e partimos para o Templo do Sol, na parte sul da ilha. Descemos por l e demos umas bandas no templo. Hoje ele no impressiona tanto, uma vez que os espanhis roubaram todas suas esttuas de ouro e prata, e todos os outros possveis adornos. Nada mais restou a no ser uma casa de pedra, curiosamente construda. Todas as portas so baixas para forar quem entre a se curvar, fazendo assim uma reverncia aos deuses. H cmodos escuros e sem janelas, h tambm cmodos sem teto, onde possivelmente eram feitas observaes dos astros. Camos fora e fizemos o caminho de volta para Copacabana, mas desta vez contornando a Isla de la Luna. No tnhamos comprado o pacote completo, de um dia inteiro, tivemos que optar por metade, pois j estvamos com passagens marcadas para Puno.

    Quando chegamos terra firme, nem deu tempo para almoar, fomos direto pegar nosso buso. Vocs se lembram da crise dos combustveis l em Santa Cruz? Pois bem, para conseguir pagar a Argentina, o governo boliviano aumentou abusivamente os preos dos combustveis. Vejam s, a incompetncia do governo foi transferida para o bolso dos cidados, prtica muito conhecida por ns brasileiros. Os bolivianos organizaram um protesto digno e necessrio. Simplesmente pararam todas as principais estradas do pas, e claro que a nossa tambm estava bloqueada. Resultado, no havia meio de ir de nibus para o Peru ou para qualquer outro destino. A sada que as agncias arrumaram era cruzar o lago de barco e descer do outro lado, j na costa peruana. At a tudo bem, se no

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    fosse necessrio pagar novamente. No foi muito, mas o caso todo no era problema nosso, as agncias no deviam ter transferido para ns um problema interno deles. Voltamos ao mesmo barco do passeio e juntamente com mais uma porrada de mochileiros nos acomodamos para cruzar a fronteira. O barco estava pesado devido ao excesso de bagagens e pessoas, no vi um extintor, um colete salva-vidas, ou uma bia. Se ocorresse algum chabu, muita gente iria morrer. Uma tragdia anunciada. Samos em dois barcos, ambos superlotados, transbordando turistas. Rumamos por mais de duas horas sob um sol ardido e traioeiro. Paramos perto da costa e quando pensvamos que o pior j tinha passado, uns seis barcos a remo encostaram e fizeram muitas viagens para levar o povo todo para a margem. No havia per e tivemos que enfiar os ps nas guas do Titicaca. Entramos nos Peru pelas portas do fundo e camos numa rea agrcola nas margens do lago. Bom, pelo menos estvamos no Peru. E quando pensvamos que o pior j tinha passado, tivemos que caminhar por mais de uma hora at a cidade mais prxima, Yunguyu. Tudo bem se no fossem as pesadas mochilas e o forte calor que nos abatia. A regio do Titicaca apresenta amplitudes trmicas enormes. Durante o dia, o calor ardido e ficamos de bermuda e camiseta. Depois que o sol se pe, o vento aperta e o frio tambm. De madrugada ento, j faz uma temperatura ainda mais baixa. Uma famlia de brasileiros carregava malas de mo e praguejavam contra os coitados dos peruanos que gentilmente os ajudavam. Que culpa tinham os peruanos? A referida famlia errou de destino, deviam ter ido para Disney.

    Chegamos cidade por volta das 13h30 e ainda tnhamos que voltar

    Bolvia para carimbar nossas sadas em nossos passaportes. Deixamos nossas mochilas em uma casa de cmbio que nos acolheu. Muita gente deixou a mochila por l. Cruzamos a fronteira e dirigimo-nos a Migracin boliviana. E quando pensvamos que o pior j tinha passado, fomos forados a pagar B$20,00 para carimbarem nossos passaportes. Detalhe, somente os brasileiros tiveram que pagar. O lance foi o seguinte, quando entramos por Corumb, o pessoal da fronteira deveria ter nos dado, alm do visto, um papel de entrada e sada do pas. No nos deram justamente para poderem nos cobrar este papel na sada. Os gringos que chegaram de avio, ganharam o tal papel no aeroporto. Os argentinos e chilenos ganharam ao cruzarem a fronteira de seus pases. Mas em Puerto Quijaro, eles querem te sacanear de qualquer jeito. Conseguiram.

    E quando pensvamos que o pior j tinha passado, conversando com outros

    turistas, descobrimos que quase todos tinham comprado passagens com direito a uma parada e um passeio pelas Islas Flutuantes, mas como este passeio no iria mais acontecer, receberam parte da grana de volta. Em Copacabana ns tnhamos perguntado para o Juan 171 Carlos sobre a possibilidade de reaver parte da grana. Convenceu-nos que o nibus j estaria nos esperando do outro lado e que o passeio seria feito. No final da histria, tivemos que esperar at mais de 17h00 para o buso chegar. Durante nosso cio, aproveitamos mais uma vez o sol para secar nossas toalhas, e conversamos com muitos outros turistas. O nibus chegou e quando pensvamos que o pior j tinha passado, o senhor que recolhia as passagens nos disse que a agncia do Juan 171 Carlos no tinha

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    pagado nossa parte. Queria que ns descssemos do buso e tudo mais. Falei grosso com ele, aquilo tudo era problema dele e do Juan 171 Carlos, nossa parte havia sido feita, ele que cobrasse o n cego filho-da-puta. Ficamos no nibus. De to cansado que estava, adormeci e acordei somente na rodoviria de Puno.

    A fome me corroia as entranhas. Chegamos s 20h00 em Puno e nosso

    bumba para Cuzco sairia s 20h30. Sobrava exatamente meia hora para comer. Como j era esperado, no havia muitas opes saudveis. Engolimos um misto quente pssimo, empurrando com refrigerante igualmente horrvel. Compramos tambm uns pes e umas salteas. No mostrador da vendinha, devia ter umas 30 salteas e eu fui escolher justamente as de vento, me disse o Anselmo. Rimos muito. As malditas salteas tinham cheiro de queijo e recheio de ar. Acabamos sentados todos no fundo do nibus, ns dois e os trs novos companheiros. Antes de dormir, ainda assisti a um filme to ruim que nem me lembro o nome. Dormi. Ou pelo menos, tentei.

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    9 Dia Projeto Primeira Quarta O meu Cuzco ningum tasca Cuzco, 05/01/05. Tive a pior noite de sono em toda a viagem. Fez muito frio durante a

    madrugada toda e atrs de mim tinha uma senhora tipicamente trajada, uma das muitas cholas. Ela estava carregando umas sacolas enormes, ocupavam o lugar vago ao seu lado, o cho e tambm seu colo. Devia ter incontinncia urinria, caganeira ou formiga na bunda, sei l. Ela levantou a noite toda para ir ao banheiro, e para conseguir fazer isto, ela me cutucava para que eu subisse minha poltrona. A velha no falava espanhol, somente quchua. Antes de me acordar, ela batia em meu banco e resmungava palavras incompreensveis. Levantou umas 15 vezes na noite. Chegamos em Cuzco umas 4h30 da manh, como estava muito escuro, ns ficamos dormindo no nibus at s 6h00. Levantamos e rachamos um txi at uma pousada. Ainda na rodoviria, achei o espanhol falado no Peru mais difcil de compreender do que o falado na Bolvia. Mas isto no se tornou, de maneira alguma, um empecilho maior na nossa viagem. Segundo o escritor mexicano Carlos Fuentes, o espanhol latino-americano uma lngua rf. Os argumentos do escritor so considerveis, pois o espanhol entrou na Amrica como lngua paterna, falada pelos exploradores. A lngua materna era o quchua, o aimara, e outras lnguas e dialetos falados pelas mulheres violentadas. Ou seja, para Carlos Fuentes, o espanhol latino-americano nasceu e cresceu rfo e desamparado, e assim se construiu perante o pai e a me. Apesar de o espanhol ser a lngua oficial dos dois pases, os dialetos ainda so muito praticados pelos bolivianos e peruanos.

    O meu encantamento com a beleza do centro de Cuzco foi imediato. Pedro,

    que j conhecia o local, havia nos alertado que Cuzco , sem dvida, uma das cidades mais bonitas da Amrica Latina. mesmo. A fuso do catolicismo espanhol com o politesmo inca produziu uma arquitetura nica no mundo todo. algo ostentoso e impactante. Por sobre os templos, casas e muros incas que os espanhis no conseguiram por abaixo, eles construram as igrejas, os prdios e os palacetes. O sol brilhava e a luminosidade estava simplesmente cinematogrfica. As ruas estreitas de calamento de pedras, ora inca, ora espanhol ainda estavam vazias, e mesmo assim emanavam um clima e uma comodidade mpar. No h como no lembrar da cena do Dirios de Motocicleta em que o jovem Ernesto visita o Peru. Um guia ainda menino aponta para os muros e diz: aqui est o muro dos incas, e aqui muro dos incapazes. Se no era exatamente isto, era algo parecido. No importa. O que os espanhis fizeram com a cidade foi um crime inestimvel, destruram a capital inca. surpreendente como a cidade conserva um ambiente amistoso e agradvel mesmo depois da violenta passagem espanhola. Para todos os lados que olhamos, encontramos uma igreja. Em todas as direes que caminhamos, deparamos com uma praa. Pelas vielas estreitas, que mal passam um carro, andamos por entre restos de construes incas e casares espanhis que remetem muito a Madrid, ou a Barcelona. Os casares esto muito bem conservados e pintados, e quase todos tm sacadas e balces bem espanhis, exatamente como vemos nos filmes do Almodvar.

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    Depois de uma pesquisa de preos e condies dos hotis, encontramos um com banheiro privativo, camas boas e preo justo. Samos para tomar nosso desayuno e iniciar a explorao da cidade. A primeira parada foi Qorikancha, ou Igreja de Santo Domingo. L era a sede do imprio inca e ainda h muita coisa da arquitetura inca clssica. Este tipo de arquitetura o mais refinado e impressiona pela preciso milimtrica. No h cimento, ou outro tipo de rejunte, apenas encaixes perfeitos. So to perfeitos que no so visveis. As pedras so recortadas em diferentes formas geomtricas. So todas lisas e, em alguns lugares, todas simtricas. As portas e janelas so em forma trapezoidal, sendo que esta maneira de construo a mais resistente aos terremotos. Os templos que formavam o centro do governo inca foram categoricamente destrudos, mas ainda restou muita coisa. E por sobre e entre estas runas e muros, os espanhis construram uma igreja colossal e um mosteiro. No ptio central podemos ver algumas salas remanescentes dos incas, uma fonte e altares. Do lado de fora, h ainda muitos muros e fortificaes tambm incas. O jardim dos imperadores incas foi assassinado e hoje no passa de um imenso gramado com pedras. Em 1950, Cuzco sofreu um violento abalo ssmico. Muitas construes espanholas ruram, enquanto as construes incas ficaram todas em p. Santo Domingo tem uma histria interessantssima, dividida em trs partes: antes dos espanhis, depois dos espanhis e depois do terremoto. H partes espanholas remanescentes do sculo XVI, h partes recentes que foram construdas depois do terremoto e h os setores incas que resistiram ao ataque espanhol e ao forte tremor.

    O choque entre culturas deve ter sido algo muito forte, inimaginvel nos dias

    de hoje. A imposio do catolicismo e do modo de vida europeu foi brutal. Foi uma luta em todos os campos, inclusive no campo simblico. Para impor sua cultura, os espanhis tiveram que construir algo altura dos incas. Por isso, as igrejas so enormes e imponentes. Tinham que dar o troco na mesma moeda. A catedral de Cuzco o terceiro maior templo catlico do mundo, perdendo apenas para as catedrais de Aparecida do Norte e de So Pedro, no Vaticano. As medidas desproporcionais no so ao acaso, os invasores europeus tinham que mostrar para os nativos e para eles mesmos, seu poderio, sua fora. Uma necessidade de auto-afirmao diante de uma cultura to diferente e to desenvolvida. No podendo co-existir em comunho com a diferena, os colonizadores exploraram, estupraram e destruram os diferentes. O que aconteceu na Amrica Latina foi o maior genocdio da histria da humanidade. Assassinaram no apenas homens e mulheres, tambm suas diferentes culturas.

    Depois da nostlgica Qorikancha, fomos ao Museu Inka. No caminho

    passamos mais uma vez pela espetacular Plaza das Armas, a belssima praa principal. Em seu entorno h igrejas, universidade, museus, restaurantes, bares e lojas. Dezenas das ruas estreitas confluem na Plaza das Armas, fazendo com que ela seja passagem obrigatria. No importa para onde amos, sempre passvamos por l. A catedral, como j disse, gigantesca. Sua nave central desproporcional e, evidentemente, ela decorada da maneira mais luxuosa possvel. Muita prata, ouro e esculturas em pedras, bronze e madeira. Hei de admitir que os espanhis fizeram um bom trabalho tocando seu projeto de

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    disseminao do catolicismo e dominao dos nativos pagos. Nossa passagem pelo Museu Inka nos rendeu uma longa e densa aula de histria. Conseguimos uma guia excelente que nos explicou diversos pontos. Gostei muito do repertorio e da abordagem dela, totalmente histrica e antropolgica. Em nenhum momento ela mencionou as diversas teorias sobre contato dos incas com extraterrestres, esoterismo e outras correntes alternativas, digamos assim. Um dos pontos que gostei bastante foi sobre a mitologia que percorreu milhares de anos e centenas de culturas. Os povos andinos, desde muito tempo antes dos incas, j cultuavam a serpente, o puma e o condor. Os trs animais tm toda uma importncia mitolgica e simblica. Basicamente a serpente representa o reino debaixo da terra, obscuro, sombrio e traioeiro. O puma representa o reino terrestre, vivaz, perspicaz e matreiro. J o condor representa o reino dos cus, livre, misterioso e amplo. A trinca seguiu sendo admirada e respeitada em diferentes culturas, at chegar entre os incas. A fora simblica dos trs animais impressionante. No museu, no faltam objetos que os representam ou fazem alguma forma de referncia aos trs. A guia tambm relatou a origem mtica dos incas, falando sobre Manco Kapac e Mama Ocllo. A ltima parte do museu dedicada conquista espanhola. H gravuras e relatos das torturas e humilhaes que os povos nativos sofreram, algo assustador. H tambm uma seo que mostra a interessantssima influncia da cultura europia nos artesanatos dos incas, produzindo peas nicas e curiosas, como representaes catlicas com feies nativas, mantos e batinas com bordados incas, prataria com motivos religiosos e locais, e muitas outras coisas. Samos do museu encantados e satisfeitos.

    O Peru notadamente apresenta melhores condies de vida que seu vizinho,

    a Bolvia. O povo mais bem cuidado, melhor alimentado e at mais alto. As cidades so mais limpas e mais organizadas. O turismo no Peru uma atividade mais profissional e com melhores estruturas. H uma maior presena de multinacionais. No que seja positivo, ou negativo, apenas uma constatao. Enfim, um pas um pouco mais justo e hospitaleiro. A pobreza infelizmente tambm marcante, mas como aqui no Brasil, algo mais segregado. Em Cuzco, por exemplo, h muita misria nos bairros mais afastados, no no centro, como em muitas cidades brasileiras.

    Ainda em La Paz, eu cometi algo instintivamente que me custou caro.

    Arranquei com os dentes um pedacinho de pele que sobrava ao lado da minha unha do indicador esquerdo. Inflamou, inchou e em Cuzco o dedo latejava como uma bateria de escola de samba. Doa muito. Um tormento. Parecia que latejava a mo inteira. Uma dor aguda e lancinante. Dois comprimidos de dipirona sdica depois, eu consegui sair do hotel e encarar a primeira quarta. No sem antes tambm tomar outras duas drgeas de diclofenaco de potssio. O Projeto Primeira Quarta (PPQ) uma iniciativa conjunta de alguns amigos. um projeto fraterno-etlico-futebolstico, no necessariamente nesta ordem. o seguinte, toda primeira quarta de cada ms, a gente se rene em So Paulo para tomar cerveja, conversar e ver jogo de futebol. H uma rotatividade e cada ms acontece em alguma casa diferente. Basicamente, o pblico majoritariamente masculino, procedente de Assis e residente em So Paulo. Muitas vezes h excees e

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    surpresas, alguns PPQ j contaram com mseras trs pessoas, enquanto outros, mais abastados, j viram mais de 50 pessoas desfilarem no interior de alguma casa que o abrigue. Em Cuzco, no tinha como passar em branco, o PPQ iria acontecer e em verso internacional.

    No sei qual Cuzco mais bonita. De dia, com o sol; ou de noite, com a lua.

    A Plaza das Armas iluminada belssima, as ruas estreitas e cheias de pessoas tambm. uma cidade muito turstica e muito bomia que oferece muitas opes para a noite. impressionante o assdio do pessoal que trabalha nos bares e casas noturnas. A concorrncia acirrada e cada turista disputado aos berros, literalmente. Muitas vezes, o pessoal at nos puxava pelo brao e pelas roupas. Um grupo de cinco pessoas, como no nosso caso, era um prato cheio que gerava discusses entre os promotores. As baladas de Cuzco fazem uma promoo atrativa, no cobram nada para entrar e ainda do uma bebida grtis. Fizemos uma via-crcis experimentando os drinques na faixa. Passamos pelo Tacuba Club, Extreme, Mythology e Mama Amerika antes de terminar a noite no mais famoso, o Mama Afrika. Eram baladas todas muito parecidas e no me lembro direito como que foi em cada uma delas. Lembro-me que as primeiras baladas estavam cadas, muito vazias. E as duas ltimas estavam lotadas, bombando. A bebida grtis comeou com uma caipirinha que mais parecia limonada fria e depois passou para uma Cuba Libre. Teve outra coisa entre as duas, mas no me recordo, Bacardi, Martini, sei l. As duas ltimas estavam cheias de turistas, muitos argentinos e chilenos. Muitos americanos e europeus. A minoria era composta de peruanos. Danamos muito e nos divertimos pela madrugada adentro. Tocou at ax da Bahia. Confesso que dancei coreografia e tudo mais, que vergonha. O que o lcool no faz com uma pessoa, no mesmo? Continuei o tratamento qumico do meu dedo com algumas cervejas a mais. Fui dormir com duas dores desmedidas. Uma na alma, de saudades da minha Marina, e outra no maldito dedo. Nunca pensei que uma pessoa me faria tanta falta. Tambm nunca pensei que a ponta de um dedo pudesse doer tanto.

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    10 Dia Expurgo moral Cuzco, 06/01/05. 8h00, ou mais cedo, tanto faz. Acordei de tanta dor no dedo. Uma dor

    insuportvel e aflitiva, bem chata. At me esqueci que estava de ressaca. Decidi tomar um banho quente e abusei da gua pelando no meu dedo enfermo. Sa do banho decidido, iria lancin-lo. Peguei meu canivete e.. zs! Uma mistura de dor, alvio e pus. Foi uma pequena inciso cirrgica ao lado da unha, sobre o amarelo do pus. O lquido putrefato saiu aos borbotes. Massageava e pressionava meu dedo com lgrimas nos olhos de tanta dor, no parava de sair pus. O indicador (ou o indica a dor) estava muito inchado, bem maior que o polegar, no parava de sair pus. Algo que no me seduz. Depois de muito pus, fortes e cortantes dores, veio o sangue; ento eu pus um curativo e pronto. J era.

    Tomamos um desayuno que tinha omelete bom, porm sem sal. Tinha

    tambm o pior caf que j provei na minha vida. Caf agora, s no Brasil. A partir de agora vai ser s ch. Serviram-nos um composto viscoso e muito preto que misturado gua quente deveria ter gosto de caf. claro que a alquimia peruana no deu certo e virou um chaf horrvel e alm de tudo, malcheiroso. Fomos andando at a Plaza das Armas e iniciamos nossas pesquisas para descolar a melhor maneira de chegar em Machu Picchu. A famosa trilha inca estava infelizmente descartada. Era muito caro e consumiria muito tempo. Em outros tempos havia como fazer a trilha sem necessitar de agncias de turismo, hoje j no h mais esta possibilidade. Mesmo no passeio sem fazer trilha de quatro dias, os preos variavam de US$80,00 US$120,00. Achamos tudo muito caro e nada muito seguro. Um cara cmico e muito bom ator tentou de todas as maneiras nos convencer que sua agncia era a melhor, que seu preo era imbatvel, prometeu mundos e fundos. Sentamos nos bancos da Plaza de Armas e conversamos por uns 10 minutos sob um sol chato e irremitente. Resolvemos ir nos informarmos no Centro de Informaes Tursticas (CIT). Foi uma das decises mais oportunas da viagem toda. Iramos para Machu Picchu por conta prpria e gastaramos uns US$40,00. Cogitamos at a possibilidade de alugar um carro e encarar as estradas peruanas para fazer os passeios passando pelas muitas runas incas da regio de Cuzco, o chamado Vale Sagrado dos Incas. Mas de nibus ficava tudo mais barato, obviamente. Tivemos um almoo ruim e muito engordurado. Comemos pollo, s para variar. Foi pssimo e o barato acabou saindo caro. Durante tarde iramos fazer uma caminhada pelas runas mais prximas de Cuzco. No CIT, adquirimos um passe turstico que nos dava direito de entrada em vrios locais legais.

    Chegamos ao terminal e a excelente impresso da organizao de Cuzco

    que eu tinha at o momento, comeou a desaparecer no ar. Mais precisamente, desaparecia na fumaa negra dos micronibus velhos e na fumaa mida e pesada das frituras que esto em muitas barracas das ruas. O terminal pattico. Cho de terra batida, sem conforto nenhum para os usurios, sem lixos, sem banheiros e com apenas um porto para entrada de nibus, algo que prejudicava muito o trnsito na regio e a funcionalidade do prprio terminal. Uma zona

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    imunda onde ningum sabia dar uma informao que no contrariasse a informao anteriormente recebida. Todo mundo queria tirar proveito do nosso aspecto de turistas. Depois de nos desvencilhar de alguns aproveitadores de planto, conseguimos pegar um nibus at a runa de Tambomachay. Este passeio foi indicao do Pedro, que j o conhecia. Proporcionava-nos a possibilidade de visitar quatro runas. Iramos de nibus por uma estradinha que ligava Cuzco a Pisaq, desceramos perto da runa de Tambomachay, e depois andaramos de volta at Saqsaywaman, j bem perto de Cuzco, passando por Pukapukara e Qenqo. A caminhada teria algo em torno de 7 km.

    Tambomachay um conjunto de runas com umas fontes que funcionam at

    hoje, e a gua potvel. O complexo era usado para banhos e rituais religiosos. Parece-me que as maiores construes incas eram usadas para rituais religiosos, foi uma impresso que tive na viagem. Como se ningum se divertisse e mundo era trabalhar e rezar. Desconfio seriamente que no era assim. evidente que a vida cotidiana inca era orientada pela religiosidade marcante e pela f nas crenas mticas. Tudo era feito respeitando os deuses, seguindo pressgios e atravs de oferendas. Desde os plantios rotineiros, at construes complexas ou guerras. Mas em meio a tudo isso, tinha vida normal: brigas de casais, paqueras, crianas brincando, adolescentes se achando, passeios, descansos, tudo. Portanto, duvido dessa historinha que Tambomachay era usado apenas para banhos e rituais religiosos. Eles devem ter se divertido bea l. Quem sabe no rolou at umas orgias incas.

    No caminho de volta ns atravessamos um pobre vilarejo cheio de crianas

    simpticas que carregavam filhotes de cachorros. Senti que iniciei uma purificao pessoal logo aps atravessar o povoado. Tudo convergia para isto, o clima ensolarado e frio, o silncio espectral, a cor exuberante do cu e das montanhas, as runas geometricamente construdas, a confiana nas minhas companhias, tudo. Comecei a refletir sobre minha vida de rpidos 25 anos. Comecei a viajar sobre como havia chegado at aquele dia, e o que iria fazer dali pra frente. Pensava na minha famlia, nos meus amigos, em minha carreira. Pensava mais no passado que no futuro. Vivia o presente. E que presente! Meia hora depois e estvamos em outra runa, Pukapukara.

    Depois de visitar a runa de nome mais simptico e infantil da viagem,

    entramos na parte mais longa e bela da jornada. Foram quase duas horas de caminhada passando por entre montanhas de todos os tons de verdes possveis, por vales alagadios e floridos. Por caminhos milenares, sempre pensando nos significados da vida, da minha especificamente. Acho que so justamente as questes que movem a humanidade, qual a origem da vida? Qual o seu significado? E como fim? So as trs questes metafsicas talvez mais discutidas em nossa efmera existncia e v filosofia, bl, bl, bl. O Anselmo falou algo que procede, disse que estava se sentindo no cenrio do Senhor dos Anis. verdade, as paisagens lembravam sim a Terra Mdia evocada e cantada por Tolkien. Teve at um cavalo branco que, do nada, passou correndo pela gente. Era o prprio Scadufax, o cavalo branco de Gandalf (puta observao

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    nerd!). A regio tambm era palco de passeios eqestres para turistas. O curioso que os turistas seguiam trotando em seus cavalos e os guias peruanos iam correndo atrs! Durante o trajeto, ns nos distancivamos e at nos perdamos de vista. Esta sensao de solido e paz era tambm uma fora motriz para seguir meu embate ntimo. Chegamos runa de Qenqo.

    De novo o poder inca me arrebatou. Totalmente. Qenqo um templo

    labirntico que aproveita formaes rochosas naturais e acrescenta construes e intervenes incas. Pouco antes de alcanarmos as runas de Qenqo, passamos por um cachorro moribundo que tinha sido recm atropelado, ou estava muito doente mesmo. Agonizava e tropeava na prpria morte. Todos ns ficamos tristes ao ver o cachorro. Depois, fiquei ainda mais triste ao me lembrar da compaixo que tivemos com o co. triste, mas a realidade. Mesmo em So Paulo, deparamos muitas vezes com flagelos humanos que se arrastam e imploram moedas para sobreviverem, vemos crianas magras trabalhando e mendigando. Vemos amputados, deformados e outras terrveis mazelas da carne. Vemos o inferno nossa porta e nos acostumamos com isto. Passamos a achar que normal. Fazendo agora uma sesso de autocrtica, vejo o quo bruto e insensvel que o ser humano pode tornar-se. Na viagem mesmo, j tnhamos visto muita pobreza e abandono, ficamos chateados e impressionados. Um cachorro a mais e foi o suficiente para ver que j estvamos ficando acostumados com a tragdia humana, passando a encarar como se fosse algo natural.

    Mais uns 30 minutos de caminhada e estvamos prximos da maior runa

    inca da regio de Cuzco, Saqsaywaman. No caminho, vi uma cena que me alegrou. Passando por um povoado, vimos um campo de futebol improvisado e muita gente jogando bola. Era uma alegria festejada sem grandes motivos aparentes. Estavam felizes e ponto final. Celebravam nada mais alm da prpria vida. Crianas, idosos, mulheres, adultos, todo mundo no mesmo jogo. No queriam ganhar nada. Queriam rir, se divertir. Pedro e Anselmo, em momentos diferentes, tambm comentaram a cena. De to poucos sorrisos que vimos nos povos bolivianos e peruanos, aqueles vistos no futebol foram muito reconfortantes.

    Dizem que a cidade de Cuzco vista de cima tinha antigamente a forma de um

    puma. Saqsaywaman seria a cabea do puma. Nem os castelos europeus me impressionaram tanto quanto Saqsaywaman. algo maisculo, poderoso e gigantesco. Um complexo que servia muitos usos. Em um setor h anfiteatros que eram usados para grandiosas cerimnias festivas e religiosas. Tambm poderia servir para uma reunio de lderes com seus exrcitos, pois bem provvel que Saqsaywaman era a principal muralha de defesa da capital inca. Havia trs imponentes torres que proporcionavam uma viso panormica e estratgica de todas as entradas e sadas de Cuzco. As torres foram meticulosamente destrudas e suas pedras perfeitamente cortadas foram usadas na construo da catedral catlica dos espanhis. Saqsaywaman algo to importante que, para constru-la, os incas fizeram at maquetes para atingir o resultado desejado. Vimos algumas maquetes antiqssimas no Museu Inka. As pedras que sustentam as muralhas so desproporcionais e precisamente encaixadas. A maior tem um peso estimado

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    em 180 toneladas. A muralha segue uma forma semicircular, com muitas arestas pontiagudas, como se fosse a boca aberta de um puma, com os dentes mostra.

    Apesar da destruio sistemtica promovida pelos exploradores, as runas

    esto muito bem conservadas. Ficamos conversando e imaginando como seria Saqsaywaman completa, antes da chegada dos espanhis. Durante a visita s imensas escadarias das runas, eu, Anselmo e Breno nos sentamos e iniciamos uma conversa muito franca. O clima de sentimentalismo, busca interior e redeno no estava apenas na minha cabea, atingiu a todos. Pedro chegou um pouco depois e conversamos sobre decepes amorosas, arrependimentos, planos malfadados e saudades. A conversa final foi o ltimo estgio da minha purificao. Um expurgo. Eliminou, como do meu dedo, o pus da minha alma. Sentia-me leve, exausto e apaixonado. No me restavam mais dvidas, a Marina era a pessoa que eu queria que tivesse ao meu lado naquele momento. Voltamos ao hotel dividindo um txi. Eu trajava uma dessas calas de material sinttico, leves e quentes. Seus bolsos eram lisos e pouco confiveis, j haviam me deixado na mo em outra oportunidade. Aconteceu que meus culos escuros deslizaram do bolso direto para o banco, e de l, encarregaram-se de deixar-se cair no cho do carro; no contente ainda, chutei-os para debaixo do banco do motorista. Pronto, estavam devidamente escondidos. S me dei conta quando cheguei ao hotel, por muita sorte, tnhamos pegado o nmero do celular do taxista para eventualmente utilizarmos seu servio no dia seguinte, na ida para o terminal, de mala e cuia. Sa do hotel e liguei para o maluco. A conversa em portunhol ao telefone foi bem truncada, mas ele entendeu e, muito solcito, disse que retornaria exatamente no mesmo local onde tinha nos deixado h uns 15 minutos atrs. Voltou e recuperei minhas gafas, como eles dizem. A sorte, desta vez, prevaleceu. Hotel. Banho. Janta. Internet. Dirio. E cama. Foi um dia especial. Amanh iniciaremos a jornada para Machu Picchu. O auge da viagem, o apogeu do que restou da cultura inca. Estou ansioso. Estou feliz. E meu dedo, que vazou o dia inteiro, de noite estava so.

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    11 Dia Dia que ganhou asas Cuzco/Urubamba/Ollantaytambo/Aguas Calientes, 07/01/05. H dias em que eu realmente me surpreendo com a preciso bio, fisio e

    psicolgica do corpo humano. Despertei precisamente s 5h30, exatamente no horrio previamente combinado. E nem precisei de despertador. Descobri que nosso corpo, entre outras coisas, pode ser tambm programvel quando necessrio. Txi para o terminal. nibus para Urubamba. E no caminho percebemos que a periferia de Cuzco to pobre quanto a da Bolvia, ou do Brasil. Dormi a viagem inteira. Acho que no durou mais que duas horas. L em Urubamba ficamos apenas o tempo suficiente para pegar outra van at a cidade de Ollantaytambo. Chegamos cedinho e fomos direto para a estao de trem comprar passagens para Aguas Calientes.

    Abre-se aqui um parntesis para explicar a sacanagem que acontece no

    caminho para Machu Picchu. Todo mundo no Peru, o pessoal das agncias de turismo, o povo nas ruas, os guardas, o pessoal do CIT, os funcionrios dos terminais, os taxistas, enfim, todo fala que s d para chegar em Aguas Calientes de trem. Mentira. Aguas Calientes a cidade mais prxima de Machu Picchu. Em Machu Picchu tem um hotel luxuosssimo, mas a maioria absoluta dos turistas fica em Aguas Calientes. No fatdico governo Fujimori, enquanto ele dissolvia o congresso, o judicirio e institua uma ditadura democrtica, segundo a curiosa classificao da Organizao dos Estados Americanos (OEA), ainda sobrou tempo para privatizar a estrada de ferro que liga Ollantaytambo a Aguas Calientes. Uma empresa americana a comprou. O resultado que aquilo se transformou numa mquina de fazer dinheiro, pois a empresa pe os horrios que achar conveniente e os preos que achar necessrio. O fluxo de turistas ininterrupto durante os 365 dias do ano, e todo mundo obrigado a pegar o trem. Todo mundo menos uma minoria que eu no saberia informar em porcentagem. Trata-se do pessoal que faz a trilha inca, que chega em Machu Picchu por outro caminho. Todo mundo diz que no chegam carros em Aguas Calientes, que no h estradas, que isso, que aquilo. mentira. L na cidade lotado de vans, carros e nibus. Agora me respondam, como que os veculos chegaram at l? Ser que foi de helicptero? Ou ser que foi nos mesmos discos-voadores que pousam em Machu Picchu? evidente que existe uma estrada, mas eles escondem as informaes justamente para obrigarem os turistas a pagarem a passagem de trem, assim o moto-contnuo de fazer dinheiro no pra o ano todo. Os preos das passagens so todos em dlares, repito, em dlares. As mais baratas custam US$12,00. Ida e volta sai por US$24,00. Depois de tentar conversar com a nica funcionria do nico guich da estao de trem turstica talvez mais freqentada da Amrica Latina, conseguimos comprar a ida no trem mais barato, mas na volta tivemos que comprar uma passagem de US$35,00, pois as baratas j tinham se esgotado. A mulher que nos atendeu tratava todo mundo com desdm e ficava fechando portinhola na nossa cara, assim, sem mais nem menos. Bom, ela no precisa ser educada, naquela altura do trajeto no resta outra opo para os turistas. Ou voc vai trem, ou voc vai de trem. Na estao, se que d para assim cham-la, havia dois bancos de madeira e um teto de zinco suficiente para abrigar umas 10

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    pessoas, no mais. O cho era de terra batida e com as chuvas estava todo lamacento. Apesar de ser freqentada durante todos os dias do ano, a estao no tinha banheiro, lixo, lanchonete, nada. Nada mesmo. Um absurdo incompreensvel. Demonstra um amadorismo e precariedade que contrasta com o profissionalismo turstico de determinados locais em Cuzco. Contrasta tambm com o preo que eles cobram nas passagens. Cobram alto e no oferecem um servio altura.

    Era uma sexta-feira, curtiramos Machu Picchu no sbado e gostaramos de

    retornar no domingo para passar pelo mercado de Pisaq antes de retornar Cuzco. O mercado acontece aos domingos, teras e quintas. Dizem que imperdvel. Portanto, como queramos ver para crer, pagamos a passagem de volta mais cara, no domingo de manh. Samos da estao com a Glria praguejando contra a desorganizao total que havamos encontrado. Como que a Amrica Latina quer se organizar se no conseguem acertar algo simples como uma estao?, dizia a europia. Quem que disse que a Amrica Latina quer se organizar?, retrucava Pedro. Glria, voc est em crise de identidade, alfinetava Breno. E para concluir, Glria fulminava: uma vergonha! Uma vergonha!. Esfriados os nimos, esquentamos os corpos com mate de coca e pes num agradvel desayuno ao ar livre. Enquanto comamos fomos surpreendidos por uma linda e colorida procisso crist. Como aconteceu no Brasil, principalmente no Norte e Nordeste, com rituais e cones pagos sendo incorporado nas festas catlicas, ocorreu o mesmo no Peru, e tambm certamente deve ter ocorrido pela Amrica Latina afora. A procisso era composta por alas e cada uma delas estava devidamente fantasiada. Mscaras de pumas, serpentes e condores, diversas mscaras antropomrficas, roupas coloridas, espadas, arcos e flechas. Havia at um sujeito que carregava dois grandes galhos de coca, danado e protegendo a Virgem da procisso. Tamborins, flautas e instrumentos de corda dos quais no me recordo os nomes. S dei que no eram violo, viola e nem cavaquinho. Muito se assemelham ao nosso cavaquinho, porm com seis cordas duplas, como a nossa viola caipira. Muitas crianas entoando as msicas e muitos estandartes e flmulas. Um espetculo visual que pegou-nos de supeto e nos rendeu muitos comentrios e sorrisos. No confortvel restaurante onde tomvamos caf, descobri o que veio a ser, sem o menor resqucio de dvida, o melhor banheiro encontrado em toda a viagem. Era limpo, cheiroso, tinha assento e papel bom, gua corrente e sabonete, azulejos nas paredes, janela para ventilao e toalha. Um banheiro digno e completo. Depois do banheiro, digo, depois do restaurante, fomos explorar as gigantescas runas de Ollantaytambo.

    As impressionantes runas de Ollantaytambo eram majoritariamente usadas

    para a agricultura e estocagem de alimentos. Mas claro que elas tambm eram dotadas de uma parte religiosa e outra residencial. Os incas aproveitaram a montanha e construram enormes degraus na sua encosta. Eram bem largos e muito compridos. Plantavam seus produtos nestes degraus. Duas longas escadarias de pedra cortavam verticalmente as plataformas de plantio e seguiam para o topo da montanha. L em cima ficava o templo e outras construes tambm usadas para rituais. Subimos. A vista era deslumbrante, vamos o rio

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    Urubamba correndo por entre as montanhas. Vamos tambm toda a cidade de Ollantaytambo. Naquela regio a mata vigorosa e bem cerrada, muito diferente do deserto avermelhado que domina os Andes. Conversando com os locais, descobri que a mata existente a sobrancelha da floresta tropical. No chega a ser uma mata atlntica, at porque estvamos mais perto do Pacfico. Chamemos de sobrancelhas, me apeguei a este termo. Seria algo intermedirio entre a rala vegetao andina e a exuberante floresta tropical. Andamos por mais de trs horas nas runas de Ollantaytambo. As construes e a geografia nos faziam sentir como o prprio Indiana Jones, ou um personagem de um vdeo game em um jogo de plataforma. H muitos pontos para subir, escalar e pular. Um local perfeito para brincar de pique-esconde, o sonho arquitetnico concretizado (petrificado, melhor dizer) de qualquer criana de 10 anos. Voltamos nossa infncia irresponsvel e despreocupadamente. Escalamos por caminhos ngremes e tortuosos para alcanar o cume da montanha. Foi uma aventura arriscada e lenta. Glria ficou. Eu, Pedro, Anselmo e Breno fomos. A morte era uma possibilidade real, estava a um escorrego de distncia. No topo ainda tinha um muro inca e um caminho rente s paredes de rocha, interditado. O perigo do caminho interditado era visvel, s mesmo com equipamentos de alpinismo daria para andar por aquele estreito caminho. Sentamos e ficamos apreciando a vista. Tomvamos flego e coragem para descer. Ainda deu tempo de conversar com um sujeito que se expressava por meio de um ingls latino, pssimo em vocabulrio e rico em grias. Claramente tratava-se de um mexicano, ou porto-riquenho, seus fortes traos indgenas denunciavam suas origens. Disse que era espanhol da Califrnia. Foi o maior eufemismo patritico que eu j ouvi. Espanhol da Califrnia preconceituoso, eufmico, mas timo! Ser que ele tinha vergonha de se assumir latino? Ou ser que assumir uma nacionalidade europia e uma residncia norte-americana massageava seu alto ego e sua baixa auto-estima? Seus amigos que subiram logo em seguida, disseram-nos que eram mexicanos e confirmaram nossas suposies. O espanhol da Califrnia ficou envergonhado. No nos dirigiu mais a palavra.

    Descemos at o setor dos templos e de l partimos para descer ainda mais,

    por outra escadaria, que dava numas amplas casas que deveriam ser usadas para armazenamento dos bens alimentcios. Descemos de novo e chegamos no cho por outra encosta da montanha, estvamos agora em um setor curiosssimo, repleto de plataformas e canaletes. Pronto, saltando sobre as plataformas e divertindo-me, sentia-me definitivamente um dos irmos Mrio, ou o prprio Alex Kidd. Mesmo depois de sculos e sculos, havia gua correndo por entre os encanamentos incas. Digo encanamento por fora do hbito, pois os incas no usavam canos, eram galerias e canaletes de pedra. Aproveitamos para nos refrescarmos nas bicas de gua gelada e leve. Tipo um mini-banho, molhando a cara, braos e pescoo. Depois de trs horas subindo e descendo montanha com o sol sob nossas cabeas, foi timo. A meta agora era descolar um restaurante barato para almoarmos. Conseguimos depois de uma pesquisa rpida. Pedi peixe, fui o nico. No restaurante tinham vrios CDs e um aparelho de som. Assumimos o comando da bagaa e mandamos Beatles, Nirvana e Pearl Jam. As conversas do almoo foram pautadas pelo som e descobri muitas afinidades

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    musicais com o Breno. Conversamos tambm sobre cinema e carnaval. Camos fora e andamos sem rumo para matar o tempo e fazer a digesto. Desta vez o papo foi mais para o lado escatolgico, precisamente desceu at os confins do intestino grosso. Ficamos conversando sobre os prazeres de uma cagada. Cagar cultural, dizia Breno. srio! A posio que voc senta, a relao entre voc, seu corpo e a merda, tudo cultura!, bradava o estudante de antropologia. A conversa nos animou. Voltamos ao mesmo restaurante, aquele com banheiro bom, e pedimos umas cervejas para acompanhar a conversa. Enquanto conversvamos, nosso grupo se revezava nos dois banheiros da casa. Percebemos que os banheiros eram bem requisitados, vrios turistas entravam l s para irem cagar. O banheiro era a vedete do restaurante. A cerveja de um litro tambm era requisitada e ajudou a manter a conversa animada at 15 minutos antes da partida do trem. Conversamos sobre violncia urbana, poltica, cinema e drogas. Um bate-papo com pessoas inteligentes sempre interessante, h argumentao, defesas e ataques. O auge da conversa foi, mais uma vez, quando comeamos a falar sobre culinria. Era engraado, durante a viagem, conversando o tempo todo, sempre a conversa rodava, rodava, rodava e caa na seara da culinria. Conversvamos sobre comida o tempo todo. Breno adorava cozinhar e comer, eu tambm. Anselmo, Glria e Pedro tambm desnudavam suas receitas secretas e prediletas. Conversamos at sobre o saboroso captulo do O Povo Brasileiro, do Darcy Ribeiro, que fala sobre a culinria mineira e sertaneja. um deleite e serviu para abrir nosso apetite. Jantamos. Os pratos no Peru so quase todos precedidos por sopas. Tomei muita sopa na viagem, minha me ficaria contente ao ler isto, ela fala que eu detesto sopa. E o dia que temamos por sua durao, que poderia ser uma espera chata e entediante, ganhou asas e voou.

    Samos correndo em direo estao de trem. Cinco minutos de

    caminhada e percebi que estava sem minha mquina fotogrfica. Voltei correndo enquanto o pessoal seguia para a estao. Nunca mais vou ralhar com jogadores e tcnicos que culpam a altitude por maus resultados. impossvel correr mais que 100 metros na altitude. Parava a todo instante para respirar e puxava o ar com fora, mas o ar simplesmente no vinha. Um tormento. Entrei no restaurante com os bofes de fora, fui logo perguntando pela minha mquina. Nada. Fui at a mesa que estvamos e nada. O restaurante estava vazio, todos os turistas j tinham partido para a estao. O pessoal do restaurante se desculpou muito e disseram que freqentemente encontram coisas esquecidas pelos turistas e sempre as devolviam para seus donos. Convenceram-me, afinal eles precisam tratar bem os turistas para sobreviverem e agentarem a forte concorrncia com as dezenas de outros restaurantes. Percebi que fui roubado por turistas mesmo. Um grande vacilo de cinco minutos foi suficiente para perder a minha mquina. Fiquei putssimo. Mais pelas fotos do que pela mquina. Perdi as melhores fotos da viagem, em Cuzco, Saqsaywaman e da procisso. Iria para Machu Picchu sem mquina. No poderia registrar o ponto alto da viagem. Ainda tnhamos a mquina do Anselmo, porm ele a achava no muito confivel, j era muito rodada. Voltei correndo do restaurante e senti que no daria tempo de pegar o trem, estava em cima da hora. Peguei carona com um triciclo que partia em frente de uma

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    pousada. Esqueci-me de mencionar sobre os triciclos. o seguinte, no Peru, os caras transformam, por meio de uma gambiarra master, uma moto em um triciclo. uma verso peruana do riquix oriental. Fazem isto com bicicletas tambm. Rachei a fatura do carreto com uma gringa. Encontrei com o Anselmo minha espera, com a minha mochila e j aflito do lado de fora do vago. Entramos e o trem j estava apitando, nervoso. A esta altura eu j tinha mudado meu semblante e estava muito triste por ter perdido a porra da mquina. Decidi trocar umas idias para me distrair e tentar calar o grilo que ficava martelando minha conscincia. Na minha frente tinha um casal de alemes, Klaus e Marget. Troquei umas frases com eles, mas meu alemo est pssimo. Acabamos conversando em ingls mesmo. O casal era boa gente. Notei que o pessoal atrs de mim conversava com outros brasileiros, estavam eufricos. Conhecemos uma famlia catarinense, de Brusque. Nilton, sua esposa Silvana e seus filhos Leandro e Mnica. Todos eram gente finssima e parecia que ns j nos conhecamos h tempos.

    Chegamos em Aguas Calientes depois de 1h15 de viagem. Estava frio e caa

    uma garoa de serra. Mais uma vez ns fomos aliciados por diversos agentes de diversas pousadas e hotis. Conversamos com vrios e fechamos um bom preo. O hotel era razovel. Pegamos um quarto com cinco camas e um banheiro, amos ficar todos juntos. O banheiro era pssimo, fedia esgoto. As camas tambm eram pssimas e o meu colcho era o pior de todos, parecia que tinha sido escavado, tamanho a depresso no seu centro. Antes de tomar um banho, me dirigi ao banheiro coletivo, fora do quarto, e vi o estrago que o peixe (provavelmente) tinha causado em meu organismo. Uma diarria cortante e dores de barriga que me fizeram curvar sobre minhas pernas. Se ontem foi o expurgo moral, hoje era o expurgo intestinal. Caguei at suar e cansar. Devo ter sado plido do banheiro. Nada como um bom banho quente para recompor-se. Anselmo e Breno ainda iriam tomar umas brejas com o Nilton e o Leandro, tinham combinado um horrio na praa central, a duas quadras distante do hotelzinho. No queria deixar o abatimento causado pela perda da mquina estragar a minha viagem. Decidi acompanh-los na cerveja. Estava deitado pensando nas fotos perdidas, refazendo-as e relembrando em minha mente. Senti uma baita saudade da Marina e antes mesmo de levantar da cama, j tinha desistido das cervejas. Estava triste, fraco e cansado. E ainda tinha que encarar uma noite na pior cama da viagem.

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    12 Dia Machu Picchu Aguas Calientes/Machu Picchu, 08/01/05. Enfim, chegamos ao dia que certamente o clmax da viagem toda. Durante

    o trajeto eu j estava ansioso para chegar em Machu Picchu. Agora, transcrevendo minhas anotaes, tambm estava apreensivo para chegar aqui. Depois deste dia, quem quiser, pode at abandonar a leitura e dar por encerrado o relato. O resto a ida para Lima e a viagem de volta. Adianto que muitas coisas aconteceram em Lima e, principalmente, em La Paz. No final ainda pretendo fazer uma concluso, sei l, dar um n em todas as pontas soltas destes fios do destino. Corro o risco de criar uma cama-de-gato e cair na minha prpria armadilha. Veremos. Escrevi muitas pginas do meu caderno, mas a transcrio na verdade uma transcriao, como diriam os irmos Campos. Estou modificando muito minhas garatujas e o resultado disto, apesar dos originais j estarem escritos, eu sinceramente no sei como vai sair. Veremos. Aviso de antemo que este dia vai ser longo e cansativo. Preparem-se.

    Pulamos da cama. Todos estavam com Machu Picchu na cabea e no foi

    nada difcil acordar s 7h30. Vesti minha melhor roupa para o dia especial, tinha previamente separado minha camiseta do Corinthians para passar o dia em Machu Picchu. Fizemos umas compras e tomamos caf no mercado municipal de Aguas Calientes. Compramos gua, pes e bananas, e seria nossa refeio durante o dia todo. Na praa encontramos o Leandro e a Mnica nos esperando, eles iriam a p conosco. Seus pais iriam de nibus. Leandro fazia cursinho em Curitiba e planejava prestar vestibular para Desenho Industrial, Mnica estudava Administrao. Envoltos numa neblina e caminhando sob a garoa, partimos. O caminho agradabilssimo. Seguimos andando 1,8 Km s margens do agitado e turbulento rio Urubamba. um rio ideal para esportes radicais como rafting, bia-cross e outras modalidades. O empecilho maior a altitude que faz quase explodir pulmes no acostumados e a temperatura das guas, extremamente gelada. Depois de cruzar uma ponte sobre o Urubamba, comeam as escadas incas. uma subida de uns 40 minutos. Os degraus so altos e distantes uns dos outros, exigindo mais esforo para subir. O caminho entre a mata vioso e bem fechado, contribuindo para aumentar a umidade do ar. Logo aps os primeiros metros, ns j estvamos encharcados de suor. Paramos algumas vezes para descansar e retomar o flego. Cruzamos na subida com uma dupla de americanas e uma turma de brasileiros. Percebemos que tempo foi se abrindo e o sol j estava forte, fazendo-nos suar ainda mais. Eu, Anselmo e Breno abrimos certa dianteira e chegamos na entrada do parque nacional onde est a antiga e misteriosa cidade inca. Tive um choque ao chegar entrada do parque.

    L em cima, h boutiques sofisticadas, lanchonetes, restaurantes refinados e

    at um luxuoso hotel cinco estrelas. Um padro altssimo e tudo, evidentemente, com preos astronmicos, para l de abusivos. Para vocs terem uma idia, em Aguas Calientes, pagamos 2,50 soles (S$) numa garrafa de 1,5 litro. Na lanchonete do parque, a mesma garrafa custava S$8,00. E uma cerveja de 300 ml

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    custava S$3,50 normalmente, mas l estava pela bagatela de S$12,00. No compramos nada. Ficamos sentados nuns bancos sombra, papeando e esperando o resto da turma chegar. Estava cheio de turistas de todas as partes do mundo, inclusive muitos brasileiros. Nos 15 minutos de espera aproveitamos para comer uns pes. Com a gangue completa, fomos comprar as entradas do parque. Bom, no poderia ser diferente, os preos eram em dlares, US$20,00 inteira e US$10,00 para estudantes. Eu, Anselmo e Pedro estvamos com carteirinhas de estudante. Breno se virou com uma carteirinha cabrita e vencida, de um clube l em Vitria. J a Glria estava sem nada que comprovasse que ela era estudante, pagou o preo total. O tempo estava timo, ensolarado, cu azul e nuvens brancas muito perto da gente. A primeira vista de Machu Picchu arrebatadora, foi uma sensao surpreendente. Por mais fotos e postais que eu j tinha visto, nada se compara realidade. A entrada mais alta que a cidade, proporcionando uma viso completa de todas as edificaes l embaixo. A cidade construda num plat que fica a 2.500 metros de altitude, atrs do plat h montanhas com formaes rochosas pontiagudas. No cenrio de fundo, uma das formaes rochosas, a mais alta, lembra bem vagamente o Po de Acar, a diferena a que o morro carioca praticamente liso, e Wayna Picchu (o nome da montanha) bem talhada e repleta de sulcos.

    Wayna Picchu o nariz do ndio. Sim, as montanhas do fundo formam a face

    de um ndio na horizontal, como se estivesse deitada, olhando para os cus. impressionante e os limites entre uma grande coincidncia e alteraes deliberadas ficam muito tnues. Abrindo brecha para uma gama de teorias esotricas e pseudo-histricas. Para um povo to desenvolvido como os incas, que construam templos e cidades magnficas, no seria impensvel pensar que eles possam ter alterado as rochas para se parecerem com o uma face. No sei. Andamos quietos e cada pessoa do grupo, instintivamente, seguiu um rumo diferente, procurvamos algum ponto de equilbrio. Sentei-me numa pedra e fiquei admirando a maravilha diante dos meus olhos. O sol batendo nas encostas das montanhas, a cidade toda iluminada, as diferentes coloraes de verde das matas que pareciam brilhar. Silncio apaziguador. Olhei para cima e quase conseguia tocar nas nuvens, de to prximas que elas estavam, movendo-se lentamente e carregando suas sombras pelas paredes verdes das montanhas, formando desenhos e formas inusitadas. Alm de toda a preciso e ousadia arquitetnica, a rea de Machu Picchu (ou a Montanha Velha, em portugus) tambm muito bonita geograficamente. um exagero visual, quase um desperdcio. H beleza em qualquer direo que voc possa olhar. A abbada celestial para cima, a cidade a mata e as montanhas para os lados, de novo a mata, os vales e o caudaloso rio Urubamba para baixo. A mata ainda mais vistosa do quem em Ollantaytambo, muito mida e com rvores de um timo porte, muito diversificada, mas no tanto como a nossa ainda resistente Mata Atlntica. Toda a beleza, sculos e mais sculos de uma cultura ainda oculta e pouco estudada. Sabe-se muito pouco sobre a real funo da cidade. Em uma escavao encontraram cerca de 6.000 ossadas femininas e apenas umas 300 ossadas masculinas. H quem diga que Machu Picchu era a cidade sagrada dos incas, porm esta tese rebatida por estudiosos que dizem que para os incas, todas suas cidades eram

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    sagradas. Tem outra corrente que defende Machu Picchu como uma enorme fazenda de descanso dos imperadores incas, um spa, por assim dizer.

    Esforava-me para no pensar em nada, tentava em vo esvaziar minha

    mente. No adiantou, pois os julgamentos e as reflexes interiores j tinham tido espao durante a caminhada feita em Cuzco. Cada um encara Machu Picchu do jeito que lhe achar conveniente. Muitas pessoas do importncia para o lado mstico, para as eventuais energias que por l circulam. Eu no. Prestava ateno nos detalhes e me concentrava em imaginar o modo de vida daquela cidade. Pela beleza natural e pelo clima mais agradvel do que no restante da regio andina, eu penso que Machu Picchu devia ser uma cidade muito ativa e festiva. H vastos espaos gramados que eram usados para festas e rituais. So verdadeiras praas que tambm poderiam ter sido usadas para grandes reunies. A multido ruidosa de turistas atrapalhava minhas divagaes. Turistas riem muito e falam alto. Sem combinarmos, nossa turma se reencontrou em um dos caminhos da cidade, tiramos umas fotos e decidimos pegar uma trilha que levaria a uma ponte inca. Partimos eu, Anselmo e Breno. Foi fcil, 15 minutinhos de caminhada e chegamos. No dava para atravessar pela ponte, o caminho era muito acidentado e estava interditado. Era uma trilha feita com pedras sobrepostas umas sobre as outras, que acompanhava uma encosta rochosa gigantesca. O paredo de pedra era muito legal, e o destino do caminho da ponte era um mistrio, pois a mata tomou conta do restante da trilha. A vista tambm era privilegiada e l embaixo vamos um rio cortando um vale. Era o rio Urubamba, que dava uma imensa volta por trs da face do ndio e abraava todo o entorno da montanha onde fica Machu Picchu.

    Voltamos e ns trs fomos dar umas bandas pela parte urbana e religiosa da

    cidade. Tambm em Machu Picchu encontramos a clssica diviso inca, o setor urbano, o setor religioso e o setor agrcola. A parte agrria seguindo a arquitetura vista em outras runas, composta por encostas e plataformas preparadas para o plantio. Podem ser enormes faixas de terra, formando uma arquibancada gigante; ou faixas estreitas, ainda assim bem compridas. O setor urbano a rea residencial propriamente dita. As muitas casas foram projetadas e construdas para sobreviverem abalos ssmicos, e ainda muitas esto em p. So casas de um cmodo apenas. No sei dizer se os moradores faziam divises de palha ou madeira, os mesmos materiais dos telhados. claro que os telhados originais apodreceram depois de sculos de intemperismo, mas h replicas para ilustrar como eram feitos. Aparentemente os incas faziam quase todas as atividades ao ar livre, os tetos serviam para se protegerem do frio, do sono e da chuva. A seo religiosa a mais bem elaborada, com o milimtrico estilo arquitetnico do perodo inca imperial, o apogeu da existncia do povo andino. As pedras, assim como as encontradas em alguns locais de Cuzco, so cortadas com exatido e encaixadas com uma preciso que dispensa cimento, concreto ou qualquer outro tipo de argamassa. Os templos so em forma trapezoidal, visando maior resistncia aos terremotos. Inclusive as portas, janelas e reentrncias so feitos na forma de trapzio. As paredes trazem reentrncias que eram usadas, provavelmente, para colocar suas esttuas e outros utenslios usados nos rituais. Tudo o que tinha de

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    ouro e prata foi sorrateiramente surrupiado h sculos atrs. O interior e o exterior dos templos, com pedras e altares, foram construdos em sintonia com os pontos cardeais, astros e estaes do ano. Preciosismo e apuro tcnico que despertam a curiosidade dos turistas e contentam os prestativos guias, que se inflam e esmiam os pormenores. Solstcios, equincios e outros fenmenos astronmicos eram muito conhecidos e respeitados pelos incas. E eu olhava tudo aquilo com admirao e respeito. Olhava com olhos de peixe morto, apaixonado. Queria que a Marina estivesse comigo.

    A cidade cheia de altos e baixos, escadas, plataformas, bem labirntica

    mesmo, e h certas passagens bloqueadas por motivos de conservao, aumentando ainda mais a sensao de labirinto. Se perder por l uma delcia. Andamos bastante e resolvemos encarar a subida at o topo de Wayna Picchu. No sei dizer quantos metros acima da Machu Picchu, mas afirmo que a caminhada foi longa. Antes de subir, aproveitamos para sentar por perto da famosa pedra energtica. uma pedra enorme que est colocada como se fosse um painel, todos os turistas passam a mo nela, dizem que ela tira as energias negativas e substitui por positivas. No fugimos regra e tambm encostamos. No custa nada tentar. De onde estvamos sentados podamos ver o porto de entrada para Wayna Picchu. O povo ia saindo e os comentrios eram todos muito prximos. Algo como quase morri, quero gua e preciso descansar. No porto h uma cabana que, por medidas de segurana, registram o nome das pessoas que sobem e o horrio. O parque fecha s 18h00, e o caminho para Wayna Picchu fecha mais cedo, s 16h00, pois se algum subir depois deste horrio, quando retornar j vai ter passado das 18h00. Ou seja, o tempo mnimo de caminhada duas horas para ir at o topo e voltar. No topo h o templo do sol, umas casas e tambm um pequeno setor agrcola. O povo que morava l no devia subir e descer todo dia para a cidade, isto seria algo muito exaustivo. Demos entrada na cabana s 12h15 e encontramos uma famlia de Ribeiro Preto que acabava de descer. Vocs so novos, vocs agentam. Se eu agentei, vocs tambm podem, dizia a mulher do casal, que julgando pela idade do seu filho, ela deveria ter mais de 50 anos. Seguimos.

    A primeira parte da caminhada foi moleza, somente descida por entre as

    matas seguindo uma trilha composta por escadarias de pedras. Depois do mamo com acar inicial, vem uma subida ininterrupta de uns 45 minutos. Falando assim, pode soar como algo fcil. Mas dificlimo, e a altitude no nos permite respirar normalmente. Meus pulmes ardiam, meu corao pulsava como uma britadeira querendo abrir caminho e sair do meu corpo. Raramente as escadas tinham corrimes ou cordas improvisadas. Era uma subida perigosssima e ainda bem que o dia estava ensolarado, no devia ser fcil subir com chuva ou garoa, pois as pedras ficariam um sabo. at uma temeridade deixar os turistas subirem at o topo, pois o perigo real e podem acontecer muitos acidentes. Desde os banais, como uma toro no tornozelo, at os fatais. Em algumas partes tinham escadas de madeira e a inclinao da subida era quase 90. A umidade da selva tambm atrapalha muito na respirao, aumentava a sensao de calor e suvamos como bicas. No caminho ns nos juntamos com outro grupo de

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    brasileiros. Duas meninas de Curitiba e um cara de Piedade, no interior paulista. Recordo-me apenas que uma das meninas chamava-se Carol, o nome da minha irm. A ltima parte da subida foi bem extenuante, era muito ngreme e com os degraus bem distante uns dos outros. No ltimo plat antes do cume de Wayna Picchu, existiam duas possibilidades, o caminho mais abrupto, subindo uma escadinha estreita e traioeira; ou o caminho que dava uma volta e subia por trs, mais leve e persuasivo. Escolhemos o caminho mais difcil, claro. No pain, no gain, dizem os gringos. Numa traduo mais que livre, poderamos dizer: ajoelhou, tem que rezar. Chegamos.

    O cu estava aberto e reluzia um azul intocvel. A vista era realmente

    indescritvel. Vamos toda a cidade de Machu Picchu de um lado e a natureza nos arredores. Procuramos uma sombra e sentamos para nos recompor. Tiramos nossas meias, calados e camisetas. O calor ardia e refletia nas pedras do topo da montanha rochosa. Minha camiseta estava molhada de suor e aproveitei para estic-la sob o sol. O Anselmo chegou at a dormir por uns bons 15 minutos. Depois de um tempo sentados sendo devorado por pernilongos, subimos pelas pedras at a ltima ponta da montanha. No havia mais escada, e era tudo na base da raa e coragem mesmo. Brincava com meus amigos: se minha me souber que eu estou aqui, vou tomar uma bronca. E de fato, o corao da minha me deve ter palpitado de forma diferente. O instinto materno muitas vezes capaz de sentir quando o filho est em perigo. As pedras estavam quentes e os passos tinham que ser lentos e, como diria o Chapolin, friamente calculados. Sim, estvamos no topo de toda a regio de Machu Picchu, no havia como ir mais alto. Somente de avio, helicptero ou, como acreditam alguns, de disco-voador. E toda a vez que eu ver alguma foto ou imagem de Machu Picchu, vou poder me encher de orgulho e dizer: Eu subi l no topo. L na ponta do nariz do indio. Praticamente a catota da napa do indio. Sim, eu consegui. Fui l. E agora eu queria descer.

    Juntamente com os outros brasileiros, decidimos seguir uma placa que

    indicava um caminho ao templo da lua. Foi uma longa descida, passando por escadas de madeira, trilhas escorregadias e caminhos quase completamente tomados pela mata. Andamos mais de uma hora at chegar ao tal templo da lua, que deveria ser muito interessante se no estivesse completamente pelado, sem esttuas e ornamentos. Hoje no passa de um buraco escavado entre as rochas, com alguns altares e outras pedras espalhadas. O lugar era escuro e emanava um forte cheiro de urina, certamente deixado por turistas vndalos. Sentamos, tiramos umas fotos, conversamos um pouco partimos. Seguimos a trilha indicada, e no aquela que usado para chegar. Agora sim. Foi nesta volta justamente o trecho mais complicado. Subamos trilhas e escadas que pareciam no ter fim. Nunca tinha me cansado daquela maneira e, por mais de uma vez, achei que no fossemos conseguir chegar ao fim. Estvamos todos mortos e uma das meninas chegou at a chorar. Parvamos a cada 10 minutos de caminhada e eu sentava-me de ccoras, tentando recuperar meu flego. Nossa gua tinha acabado e j comevamos a fazer piadas da nossa condio. Hoje ns vamos ter que ser resgatados, dizia um. Vamos sair nos jornais, respondia outro. Meu corao

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    parecia prestes a explodir. Inclusive meu pulso latejava com fora e minha presso arterial devia atingir nveis astronmicos. Os msculos superiores das minhas pernas doam como se estivessem rasgando a cada passo e mais abaixo, as panturrilhas estavam tesas e ardentes, numa espcie de cibra constante. Os passos hesitavam e os ps rastejavam roando o solo. Os braos tambm j no respondiam prontamente os comandos e tive que me concentrar para no acabar escorregando e caindo de bobeira e cansao. Sentia-me entorpecido pela ausncia de oxignio e extrema fatiga corporal. Pensvamos que depois da longa e estafante subida, j estaramos prximos do fim. Grande erro foi o tal do templo da lua. A verdade que tivemos que subir at muito prximo do topo para depois voltar pela trilha principal. Quando percebemos isto, bateu um desnimo. Eu estava com a sede do Cear, cansado, dolorido, e ainda tinha um longo caminho pela frente. No tinham mais muitos turistas, estava ficando tarde e o pessoal j tinha descido. Sem muita disposio, seguimos claudicantes e lentamente. Nem conversvamos para no gastar energia desnecessria, mas o olhar de todo mundo demonstrava um cansao absoluto. Depois de muitas paradas para descanso, enfim, chegamos.

    Eram precisamente 3h45. Tnhamos entrado s 12h15 e ficamos mais de

    trs horas subindo e descendo o morro. O alvio da chegada foi visvel em todo o grupo. Aproveitamos para descansar deitados sobre uns bancos. Junto com o alvio, vieram as risadas, os comentrios e as confisses. Senti-me melhor em saber que no fui o nico a sentir vontade de chorar de cansao. Bom, fica a dica para quem deseja ir para Machu Picchu e subir em Wayna Picchu. No v ver o templo da lua, no compensa. um desgaste absurdo para ver uma runa depredada, escura e fedida. Ainda demos umas bandas pela parte urbana e reencontramos a Glria, o Leandro e a Mnica. J se passavam das cinco da tarde, o parque estava praticamente vazio. Fomos embora. E o dia mais esperado da viagem tambm tinha criado asas e alava vo. Na sada, pagamos para ir ao banheiro e bebemos gua da torneira mesmo. O preo da gua da lanchonete era um acinte. Com as pernas doendo e o corpo todo muito fraco, eu, Anselmo e Breno optamos ir embora de nibus e pagamos US$6,00 para um viagenzinha de 20 minutos at Aguas Calientes. Pois , em Machu Picchu paga-se para entrar e tambm para sair. O Pedro, a Glria e os dois irmos catarinenses descerem a p mesmo. Apaguei e s acordei quando chegamos em Aguas Calientes.

    Passamos rapidamente no hotel e samos para almoar/jantar. Estvamos

    famintos e no era por menos, o dia fora totalmente alm para nossas condies fsicas. Exigimos muito do nosso corpo e para compens-lo, decidimos comer bem e ir at o balnerio de aguas calientes da cidade. Pois , o povoado no tinha este nome impunemente. Alm de ser prximo de Machu Picchu, a cidade tambm contava com uma estncia de guas termais. Escolhemos um restaurante bem transado, que contava at com uma lareira. De dia tinha feito muito calor, mas de noite, as ruas estavam glidas. Comemos bem, com direito a sopa de entrada, salada e prato principal. Bebi uns trs refrigerantes e mais um suco. Ainda estava desidratado e com uma sede fora do normal. Antes de irmos relaxar nas guas quentes, passamos novamente no hotel e pegamos nossas toalhas e outras

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    tralhas. Aproveitamos tambm para trocar meu colcho. No hotel tinha um quarto vazio com a porta aberta e no hesitamos, fomos l e pegamos um colcho bom. O pico das guas quentes no ficava longe, uns 10 minutinhos de caminhada. O local era at mais arrumado que nossas expectativas e j estava lotado de turistas. Tinham quatro piscinas. Uma vazia, de gua fria. Duas de guas quentes. E uma quarta de gua muito quente. Tinham tambm cascatas artificiais e duchas espalhadas. Nadar de noite, sob as estrelas sempre uma experincia agradvel. Ficou ainda mais interessante com o clima frio e a gua quente da piscina. Definitivamente estvamos precisando de um relaxamento muscular. As guas quentes foram uma grande idia, todo mundo que se acabava de tanto andar em Machu Picchu, depois ia para dentro das piscinas termais. Depois do cansao intenso e brutal, aquelas guas eram um batismo, sentindo novamente minhas pernas, me senti nascendo de novo. Reencontramos as cocotas paulistanas que havamos conhecido no ano novo. Mais uma vez, elas nos trataram com soberba e nos olhavam por sobre os ombros. No demos muita bola. O Pedro chegou e fomos conversar com os brasileiros que tinham feito a fatdica caminhada ao templo da lua conosco. A piscina mais quente no me agradou, sentia-me num caldeiro de sopa. Era demasiado quente e no cho depositaram uma areia fina, deixando a gua escura. A gua era muito oleosa e parecia azeitada, aquilo tudo lembrava um sopo de gente mesmo. Um verdadeiro banquete antropofgico. Como todos ns estvamos cansados, partimos cedo. Sem antes passar num bar e tomar algumas cervejas, claro. Tomamos com calma e relembrando os melhores momentos do dia que estava chegando ao fim. Sentamos em um bar na praa central e ficamos observando o movimento que comeava a se formar. Um trem estava para chegar e o pessoal dos hotis e pousadas iniciavam suas manobras para pegarem os turistas. Apesar de ser tarde, havia ainda havia presena de crianas brincado, rindo e falando alto, bem do jeito deles. A lua sorria, as estrelas brilhavam e a cerveja flua fcil. Fomos dormir satisfeitos e enfastiados. Tnhamos que acordar cedo. Apaguei.

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    13 Dia Nada como um dia aps o outro Aguas Calientes/Ollantaytambo/Urubamba/Pisaq/Cuzco, 09/01/05. Nosso trem partiria s 08h35, portanto acordamos umas 06h30, pois ainda

    tnhamos que arrumar nossas mochilas. Levantamos. Banho. Arrumao. Fechamos a conta do hotel e rua. No estava com nenhuma dor nas pernas e o resto do povo tambm no. Temi pelos efeitos do acmulo de cido ltico em meus msculos. No dia anterior, me cansei tanto que pensei que no ia conseguir ficar em p. Se bem que j estvamos acostumados a andar bastante, desde o comeo da viagem no tnhamos feito outra coisa. Samos para tomar um caf da manh e partimos para pegar o trem. A estao de Aguas Calientes, apesar do pouqussimo tempo que ficamos nela, era mil vezes melhor que a estao de Ollantaytambo. Ao menos tinha mesas, cadeiras, bancos para sentar, lanchonete e banheiros. Entramos no trem e ficamos surpresos ao ver que ele s tinha um vago, no muito confortvel e em nada justificava seu custo de US$35,00. Sentei-me ao lado do Breno e fomos ouvindo o espetacular lbum de estria do Mundo Livre S/A, o Samba Esquema Noise. Foi bom escutar msica brasileira de qualidade depois de tanto tempo. A viagem foi bem agradvel, passando por bonitas paisagens e mais algumas runas. Tambm atravessamos alguns vilarejos pauprrimos. Em pouco mais de uma hora e j estvamos em Ollanta, como dizem os peruanos. Era evidente que uma cidade com um complicado nome de Ollantaytambo precisava ter um apelido diminutivo. Na sada do trem, ns nos despedimos da famlia catarinense e rumamos para pegar a van para Urubamba. Foi uma viagem apertadssima, nem um pouco acolhedora, e eu fui piscando duro durante todo o percurso. Agora sim o cansao comeava a me castigar de maneira implacvel. Em Urubamba, mais uma vez, ficamos apenas o tempo suficiente para pegar um nibus at Pisaq. Eu e o Breno fomos escutando msica brasileira novamente, agora era Chico Buarque. Escutei as duas primeiras msicas, acabei dormindo novamente. Um sono monstruoso se apoderava do meu corpo. Acho que era capaz at de dormir em p. Chegamos em Pisaq junto com o sol, que agora ocupava o lugar de nuvens cinzentas e instveis. Rapidamente descolamos um local para deixar as mochilas. Chegamos ao tal mercado.

    Era um mercado montado para turistas, para ingls ver mesmo. A maioria

    das barracas era de artigos para turistas, objetos de decorao, jias e bijuterias, roupas tpicas de l de alpaca, souvenirs e mais uma poro de quinquilharias. Depois de meia hora andando, todas as barracas ficavam parecidssimas e, de fato, assim eram. um mercado dilatado, que ocupa uma praa e as ruas adjacentes, mas muito repetitivo. Apenas a minoria das barracas era de gneros alimentcios, como bolos, pes, frutas, batatas, carnes, peixes. Tambm havia barracas restaurantes, que serviam pratos com muito arroz, batata e frituras. As carnes expostas no cho, rodeadas de moscas. Os peixes, tambm no cho, exalando aquele odor caracterstico no nos animou para comer. Passeamos longa e calmamente. Comprei um jogo de xadrez decorativo, com peas que representavam os incas contra os espanhis. Comprei tambm um gorro para a Sofia, minha recm chegada afilhada. Vamos as barracas com calma, mas no

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    nos empolgamos muito com o mercado. Se soubssemos como seria, no teramos pagado a passagem mais cara apenas para poder passar por l. Poderamos ter ficado mais um dia em Aguas Calientes para descansar e depois pegar o trem mais barato. Enfim, no podemos acertar todas.

    Almoamos decentemente, tambm um prato com salada e sopa de entrada.

    A forte pimenta peruana quase estragou nosso paladar. Com o tempo nos habituamos e o resultado final foi satisfatrio. As cervejas desciam com facilidade e ficamos mais tempo que o necessrio no restaurante, bebendo e conversando. Todo mundo estava muito cansado e resolvemos voltar para Cuzco antes do anoitecer. Pegamos novamente nossas mochilas e entramos num nibus para Cuzco. A trilha sonora foi uma tortura. Tocava uma fita de uma banda boliviana chamada Los Puntos (ou seria Los Putos?), conforme os outros passageiros nos contaram. Era uma gritaria infernal que acompanhava um ritmo maante, marcado por malditos teclados eletrnicos. A banda devia ter uns cinco vocalistas, era uma zorra insana. Pior, era uma gravao ao vivo e o furdncio do palco misturava-se algazarra do pblico. No ramos os nicos no nibus incomodados com a msica e com o volume altssimo. Outros passageiros tambm estavam visivelmente incomodados. Aquilo ia entrando na minha cabea como um mantra do mal e no me deixava pensar, dormir, nada. Era uma msica entorpecente, no pior sentido txico da palavra. Contamina os ouvidos, o humor e a alma. Temos que agradecer todos os dias pela presena dos negros na nossa cultura. Sem a influncia africana, certamente nossa msica seria mais pobre e, em alguns momentos, to ruim quanto o pior do pop peruano e boliviano. Temos o samba, o chorinho, a bossa nova, o maracatu e muitos outros ritmos; e temos tambm a antropofagia tupiniquim que devora influncias externas e vomita algumas prolas.

    Paramos em Cuzco e agora havia chegado o momento que todos ns, em

    diferentes propores, mas ainda assim invariavelmente, odiamos: a despedida. Foi triste e alegre. Triste por nos separar de nossos amigos Breno, Pedro e Glria. E alegre por termos conhecido estas pessoas fantsticas. Iramos direto para a rodoviria na tentativa de embarcar para Lima. Nossos amigos retornariam ao mesmo hotel que nos hospedamos na primeira estadia em Cuzco, com um preo bem camarada. Na rodoviria no foi difcil descolar passagens para Lima. Escolhemos uma empresa que se apresentava em um guich maneiro, assim a possibilidade do nibus ser melhor seria aumentada. Na hora de pagar a atendente recolhe minha nota de S$50,00, analisa, olha-a na contra-luz e diz que falsa. Como?, eu disse espantado. Falsa, sem validade, respondeu a atendente. Peguei a nota de volta e comprovei que era uma falsificao muito grosseira, com textura e cores diferentes. Puta que o pariu, caralho! Fiquei irado. S tnhamos trocado dinheiro em uma casa de cmbio de Cuzco, e notas grandes como uma de S$50,00, eu no tinha conseguido de troco, foi trocada na casa de cmbio mesmo. Nosso nibus sairia s 19h00 e ainda eram um pouco alm das 17h00. Fui trocar a porra da nota. O Anselmo ficou com as malas na rodoviria e eu parti em direo casa de cmbio falsria. Peguei um txi e logo quando fui entrando no local, ainda da calada, pude ver a mulher deixar seu posto rapidamente e sair em disparada para a parte de trs da loja. Era uma loja que

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    vendia filmes, cmeras, postais e outros produtos relacionados fotografia. Num dos cantos tinha um balco onde acontecia o cmbio. Igual a esta, tinham muitas outras lojas em Cuzco, na mesma rua inclusive, a poucos metros de distncia. Expliquei a situao para a funcionria e ela me respondeu dizendo que o cmbio era totalmente independente da loja, que nem conhecia a outra mulher. Tudo bem, me engana que eu gosto. Esbocei pular o balco e dirigir-me parte de trs da loja para tentar achar a funcionria fujona do cmbio. Pensei melhor e desisti, seria uma demonstrao de fora intil, a funcionria do cmbio j deveria ter fugido. Sa para chamar algum policial. O guarda encontrado poderia muito bem ter participado do exrcito de Brancaleone. Era um tipo nanico, franzino e no demonstrou o menor interesse em me ajudar. Eu o ouvi falando em seu rdio, mais um problema com notas falsas. Pela naturalidade de sua voz, eu percebi que o acontecimento deveria ser algo pra l de corriqueiro. Contei o caso e o levei at a loja. Ele fez exatamente as mesmas perguntas que eu j tinha feito e obteve tambm as mesmas respostas. Perguntei se no poderamos entrar na parte de trs da loja. No, sem um mandato. Perguntei se ele no poderia fechar a loja ou lacrar a barraca de cmbio. No, sem uma autorizao. No perguntei mais nada, sa de l com vontade de estapear a dissimulada funcionria e surrar o gamb de merda. A grana perdida nem era tanta, mas a raiva por ter sido enganado em um lugar que deveria ser confivel, a raiva pela funcionria mentirosa, e a raiva pela incompetncia e complacncia do policial, motivaram-me tomar outras atitudes. Segui at o Centro de Informaes Tursticas para fazer uma reclamao e tentar, ao menos, fazer algum barulho e alguma propaganda negativa da loja desleal. O CIT estava fechado. A nota era uma falsificao to rudimentar que eu no teria a menor chance em tentar pass-la para frente. A hiptese at passou pela minha cabea, mas depois de olhar para a nota novamente, prontamente desisti. Antes de voltar para a rodoviria, ainda passei no hotel para tentar encontrar o pessoal. Falei com o tio responsvel e ele me disse que os brasileiros estavam l sim, mas tinham sado, achava que tinham ido comer. Na LAN house ao lado do hotel eu encontrei o Breno. Contei a histria e deixei a nota falsa com ele. No dia seguinte ele iria l na loja com outro policial e iria tentar trocar a nota. Iria tambm fazer a reclamao no CIT, como eu havia tentado. Nos despedimos mais uma vez e voltei para a rodoviria.

    Reencontrei o Anselmo e desabafei com ele. Eu estava realmente muito puto

    comigo mesmo. Primeiro foi a mquina, agora era a grana. E tudo por vacilo meu. Erros exclusivamente meus. Idiota, vocs devem estar falando. Sim, podem xingar. Foi assim mesmo que eu me senti. Um idiota, um vacilo, um loser. E toda aquela bobagem de purificao espiritual e fsica escorria para dentro de um ralo da minha auto-estima. Provao? Renascimento? Para qu? De nada adianta. Nada. Entrei no nibus emputecido. Fazia muito frio. Antes de dormir ainda assisti ao filme Tria. Tinha lido e ouvido crticas devastadoras, mas no poderia imaginar que o filme fosse to ruim. As crticas foram leves. pssimo, horrvel. Bateu o sono forte. E o frio, tambm forte, no deixou de bater at a manh do dia seguinte.

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    14 Dia Suco e bagao da Lima Estradas/Lima, 10/01/05. O nibus de Cuzco at Lima, apesar da distncia no ser to longa, demora

    mais de 20 horas. Ele segue descendo a cordilheira por uma estrada desrtica, erma e sinuosa. O itinerrio do buso era bem lusitano, pois ele voltava at Nazca, j no nvel do mar, a depois, seguia acompanhando o oceano Pacfico at a capital Lima. Mal conseguamos dormir de tantas curvas que o nibus fazia na descida dos Andes, sentia-me viajando em algum destes brinquedos desagradveis de parques de diverses. O frio da madrugada venceu minhas roupas e tremi durante boa parte da estrada. Quase congelei na madrugada mais fria da viagem.

    Por volta das 8h30 o bumba parou em um restaurante sujo e soturno, bem

    perto de Nazca. Pensei que no dia anterior tivesse chovido urina l pelas bandas do restaurante, pois o odor estava fortssimo, dentro e fora, em cima e em baixo, em todos os lugares. Um cheiro acre envolvente que contaminava o ambiente todo. Na tev passava Chaves. Por diversas vezes vimos Chaves ou Chapolin nas telas, eram programas muito populares e pareciam ser televisionados o dia todo, manh, tarde e noite. Os passageiros tinham direito a uma refeio. E era uma refeio mesmo, arroz, batatas, molho e alguns escassos nacos de carne. No tivemos disposio de bater um PF logo no desayuno, os trocamos por dois chs de coca e quatro pes com ovo. Sem sal. Ficamos rindo impressionados com o tamanho do prato de um tiozinho. Era uma montanha de arroz com a mistura transbordando pelos lados. Era s o caf da manh, imaginem como seria o almoo. No contente, o tiozinho ainda pediu uma cesta de pes para acompanhar e reforar seu pratinho. De volta ao nibus tivemos que encarar mais um filme. Desta vez foi uma fita peruana, chamada Flor de Aratama, dirigida por Martn Landao. Animei-me com a possibilidade de ver um filme peruano, algo at ento indito para mim. Assisti ao filme com ateno redobrada. Foi pssimo. Muito pior que Tria. Um novelo ridculo gravado em pelcula, um desperdcio. A histria era mais ou menos assim: um sujeito (branco) de meia idade herda uma fazenda e resolve mudar-se para l juntamente com sua bela filha jovem e sonhadora. O sujeito, que sempre tratado como El Patrn pelos funcionrios, consegue fazer a abandonada fazenda prosperar. Organiza os trabalhadores (todos com feies indgenas, claro) e a vem uma infindvel seqncia de cenas mostrando o pessoal trabalhando sorrindo, com uma trilha sonora mais que piegas, constrangedora. Enquanto todo mundo trabalha, El Patrn passeia pelos campos doutrinando sua jovem filha bela e sonhadora, isto tudo um dia ser seu. A serelepe jovem e sonhadora, como todas as demais belas jovens saltitantes e sonhadoras, gosta muito de passear pelos campos, colher flores silvestres, fazer amizade com coelhinhos e tomar banho nua nos rios. Um amontoado de clichs. Como era de se esperar, a adorvel jovem sonhadora acaba envolvendo-se e apaixonando-se por um rapaz trabalhador ndio. O filme alega ser baseado em fatos reais e se passa no princpio da dcada de 80. H tambm uma personagem muito ambgua mal acabada, uma ndia mucama que trata El Patrn como rei e os empregados como cachorros, aos berros e improprios. Em determinado

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    momento do filme, depois de muita pasmaceira e uma avalanche de lugares-comuns, guerrilheiros do Sendero Luminoso comeam a rodear a fazenda planejando uma invaso, todos muitssimos caricatos, com cara de mau e lenos vermelhos em seus pescoos, quase cmicos. O lder deles era um sujeito hediondo, um banguela que carregava uma bandeira vermelha em um brao e um fuzil no outro. Depois de um conflito armado, no faroeste final, morrem todos os guerrilheiros malvados e alguns trabalhadores honestos; sobrevivem El Patrn, sua jovem filha bela e sonhadora, o namorado dela, e tambm a ndia mucama. Um filme chapa-branca. Exalta e defende valores como trabalho honesto, prosperidade e respeito. Nada contra estes valores, pelo contrrio, o problema que o filme passa por cima de outros valores, como a explorao do trabalho humano e o respeito aos ndios, para exaltar os j mencionados. E, se no bastasse, o filme ainda abusa de clichs, lugares-comuns e esteretipos. A mensagem final clara, uma dispensvel defesa da propriedade privada. Filme idiota para espectadores idiotas. Dormi.

    Acordei j bem prximo de Lima, e a viso no foi nada agradvel. Soldados

    pararam o buso e fizeram uma revista procurando drogas. Truculentos chegaram e truculentos saram. Logo na entrada j deu para sacar que Lima era grande e pobre, tal como as demais capitais da Amrica Latina. Grandes avenidas, rodovias largas. Pontes, entradas, sadas e ceboles. Muitos carros, nibus velhos. Muita sujeira e muita pobreza. Chegamos pelas beiradas, pela periferia, e com mais de trs horas de atraso. Este outro ponto muito peculiar na Bolvia e no Peru, os nibus nunca saem no horrio marcado e sempre se atrasam, muitas vezes a diferena de horas. Uma total desorganizao e um total desrespeito. A primeira impresso de Lima foi de uma cidade em colapso estrutural e social, como se estivssemos atravessando uma zona de guerra. Pobreza e sujeira saltavam aos olhos. O trnsito era uma corrida maluca e as ruas estavam tomadas por barracas e multides. Acreditem, a cidade de Lima, capital do Peru, no possui rodoviria. E cada nibus pra em um lugar diferente do centro. Paramos numa espcie de 25 de maro de Lima. Estava uma loucura s, camels e muita gente nas ruas, e ns sem a mnima idia onde podamos estar. No centro de Lima, assim como no centro de La Paz ou So Paulo, a economia informal dominante. Certa vez eu li um artigo do Delfim Neto, que pode ser tudo, ter todas os passivos e rabos presos que conhecemos, mas ainda um dos caras que mais conhecem a realidade econmica brasileira. No texto, ele falava da importncia da economia informal na circulao de capitais no mercado interno brasileiro. O peso da economia informal muito importante, imprescindvel. Penso que este peso, na Bolvia e Peru, deva ser to, ou at mais imprescindvel para suas respectivas economias. Pegamos um txi e fomos para uma pousada de mochileiros que tnhamos o endereo conosco. Ficava num bairro chamado Miraflores.

    Vimos que Lima, apesar da pssima impresso inicial, tinha alguns atrativos.

    A avenida principal era bonita, com prdios antigos bacanas, praas arborizadas e um atraente parque, com museus, anfiteatro e fontes. O taxista era falastro e muito simptico. No tinha a menor idia da lngua que estvamos falando e perguntou se ramos americanos. No, brasileiros. Ainda insistiu: E que lngua

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    vocs falam no Brasil, ingls? No, portugus. H um mistrio lingstico muito curioso entre falantes do portugus e do espanhol. Entendemos o espanhol com relativa facilidade, mas o inverso no acontece. Quando o pessoal no queria que ns escutssemos alguma coisa, eles falavam em lnguas nativas, como o quchua e o aimara, por exemplo. O caso da lngua portuguesa interessante, no sei se o ritmo, a velocidade, os sons nasais, ou se so os nhs, e nhe nhe nhens que dificultam o entendimento dos nossos hermanos falantes de espanhol. Deve ser um pouco de tudo, mas a verdade que o portugus uma lngua incompreensvel para eles. Salvo o pessoal da fronteira, ou que est acostumado a lidar com turistas brasileiros, o resto no entende uma vrgula. muito curioso, perguntaram se ramos chilenos, argentinos, bascos, americanos, franceses... At que surpreendiam com nossa resposta: brasileiro. H ainda, segundo o Claudismar (ou seria Cleudismar?), uma maneira de tornar o portugus mais incompreensvel ainda, elev-lo categoria de cdigo secreto. Basta falar tudo no diminutivo e eles no entendem bulhufas quando abusamos dos sons inhos e inhas. Tentamos at arriscar a dica; Anselminho, voc no acha que o precinho deste restaurantezinho est carinho? Acho Dieguinho, e a comidinha est uma porcariazinha. Desistimos. Como vocs puderam notar, parecamos um casal de bichonas trocando afagos e confisses. Quando queramos ter certeza absoluta que no estvamos sendo compreendidos, bastava falar rpido e cheio de grias. Ou ainda, quando queramos tirar um sarro e desvencilhar vendedores insistentes que tentavam nos empurrar as mais variadas quinquilharias, conversvamos com palavras em tupi-guarani. Pacaembu pipoca no asfalto do Anhangaba? Morumbi e Maracan de ponta cabea em Ubatuba! verdade! Itanham tem Tiet de bicicleta em Piraju. Os vendedores caam fora com cara de tacho. Evidentemente eles no entendem nada de tupi-guarani, tampouco ns.

    Perguntamos ao taxista se ele tinha idia de quantos habitantes teria a

    cidade de Lima. O homem fez uma pausa teatral, pensou, e disse que j deveria estar em torno dos 40 mil habitantes. 40 mil? Respondeu afirmativamente. Anselmo disse eu 40 mil cabem no estdio, passvamos exatamente perto do estdio nacional de Lima, onde em 2004 o Brasil ganhou a Copa Amrica vencendo a Argentina nos pnaltis. O tiozinho no tinha a menor idia do que estava falando. No fizemos mais perguntas difceis, ficamos conversando amenidades. Futebol, mais precisamente. Saamos do centro e seguamos em direo ao mar, andamos por uns bons 15 minutos e chegamos em Miraflores. o melhor bairro de Lima, moradia da classe mdia alta e elite peruana. muito arborizado, limpo e organizado. Lembra os bairros Jardins, em So Paulo. Tem ruas, avenidas e rotatrias claramente inspiradas no projeto urbanstico de Paris. Todas as grifes famosas esto l. Todos os bancos poderosos tambm. Embaixadas e consulados. Agncias internacionais de publicidade, escritrios de design, arquitetura e advocacia. Supermercados, rede de cinemas, shoppings e rede de fast-food. Restaurantes, pet shops, cafs e boates. Sedes de multinacionais, hotis e cassinos. Luxuosos prdios residenciais e condomnios. Casa maneiras e ruas exclusivamente para residncias. A piada infame no tardou a aparecer. Primeiro vimos o bagao, agora sentamos o suco de Lima. Era

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    um suco com gosto industrializado, bem artificial. A disparidade abissal, um contraste at mais violento que em cidades brasileiras.

    A pousada de mochileiros estava lotada. Fomos bem recebidos e nos

    disseram que ao lado havia uma senhora vizinha que locava quartos para viajantes. Acabou saindo mais barato e melhor que a pousada, com um quarto com banheiro privado e uma rea de servio com mquina de lavar roupas. A simptica senhora atendia pelo nome de Maria Noriega e sua casa era incrustada entre a pousada e um prdio de trs andares. O vo livre era uma vila fechada, com porto independente, e alm da casa de Maria Noriega, havia tambm mais umas quatro ou cinco outras. Samos para trocar dinheiro e fazer compras no Sta. Isabel, que uma rede de supermercados que muito se parece com a rede Po de Acar, que por sua vez, assemelha-se muito rede Carrefour... a tal globalizao, no ? Homogeneizao capitalista do pensamento e do modo de vida. Miraflores, So Paulo, Paris, Nova Iorque ou Berlim, tanto faz. As lojas, restaurantes, supermercados, bancos e outras coisas so todas exatamente as mesmas. O cheiro, o visual e o paladar tambm. Para ver isto no precisava ter sado do Brasil. Antes de dormir, ainda demos umas bandas e andamos at o mar. Vimos o Pacfico de uma encosta transformada em jardins. O mar estava logo mais abaixo, teramos que pegar uma trilha, descer e atravessar uma movimentada autopista. Como j era tarde da noite, no tivemos disposio. Ficamos apenas admirando e conversando sobre como tnhamos a atravessado horizontalmente o continente. Pouco antes do Natal, Eu, Anselmo, Marina e Andra passamos um final de semana no Guaruj, s margens do oceano Atlntico, e l conversamos muito sobre o planejamento da viagem. Agora, pouco tempo depois, l estvamos ns, relembrando o fato, do outro lado do continente. Conversamos sobre a no mais existncia da frica como referncia frente, agora a sia que ocupava o lugar de referncia. Discutimos sobre os primrdios da colonizao americana, com a possvel chegada dos homens asiticos. Falamos sobre as viagens dos povos andinos, que retornaram comprovadamente at a Oceania e, quem sabe, at a sia. Voltamos casa da Senhora Noriega com a cabea cheia de interrogaes e pouqussimas certezas. A nica era o sono. Fomos dormir.

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    15 Dia Redescobrindo o bagao Lima, 11/01/05. Dormimos e acordamos num forno. O quarto era bem apertado e ficava com

    suas paredes e teto expostos ao sol o dia todo. As duas frestas da janela no refrescavam muita coisa. Lima, situada ao nvel do mar, fica na mesma latitude que Salvador e faz um calor to forte e baiano quanto. Antes de sair para o supermercado e comprar nosso caf da manh, ainda retiramos as roupas do varal, secas e esturricadas. Algumas at bem duras. A mquina de lavar da Sra. Noriega foi um bom negcio, eu e o Anselmo estvamos com pouqussimas roupas limpas. O calor apertava e j me fazia temer por um dia to quente como em Puerto Quijaro. Sempre prestativa e atenciosa, a Sra. Maria Noriega no s nos ensinou qual nibus deveramos pegar para irmos at o centro, como tambm nos levou ao ponto, parou o buso e deu orientaes ao motorista. Ficamos um pouco constrangidos, mas no cortamos o barato dela. O bumba fez um caminho completamente diferente do txi do dia anterior e deu para sacar que Miraflores praticamente outra cidade, completamente distinta de Lima. Passeios de nibus em cidades que no conhecemos so proveitosos. Presenciar o cotidiano das pessoas trabalhando, andando, indo e vindo por mais banal que possa ser em uma cidade desconhecida, sempre uma experincia bacana.

    Descemos no local indicado pela Sra. Noriega, perto que de um grande hotel

    de uma cadeia internacional. Andamos em uma rua transversal avenida principal at a agncia onde poderamos comprar passagens de volta. Nossa inteno era ir at Arequipa. Poderamos sair no dia seguinte, de noite, chegar em Arequipa pela manh, aproveitar a praia de l e zarpar para La Paz de noite. Compramos a passagem em um local e teramos que embarcar em outro. Como j disse, por mais irracional que possa soar, Lima no tem rodoviria e cada agncia tem uma garagem em algum lugar da cidade, que serve de ponto de embarque e desembarque. Sempre a p, e sempre envoltos em uma bruma de calor, andamos at o parque onde ficava o Museu de Arte de Lima. O Parque de Exposicin foi construdo para uma grande feira mundial que aconteceu em Lima no ano de 1872. La Paz tem o Mirador Laikakota; Berlim, o Tiergarten; Nova Iorque, o Central Park; So Paulo, o Ibirapuera; e Lima, o Parque de Exposicin. O parque bem cuidado, com vielas e alamedas floridas, rvores frondosas, fontes, lanchonetes e bem vivo, como devem ser todos os parques. O local estava vibrante, tomado por famlias, casais de namorados e adolescentes. Era uma alegria visvel, pulstil, e senti-me muito bem com a energia que circulava por l. O museu era do tipo arquitetnico bolo de noiva, todo simtrico, com marquises que pareciam babados e ornamentos que se assemelhavam a confeitos. Um timo museu, com um acervo relativamente pequeno, espalhado em apenas um andar, porm muito abrangente e consistente. Conseguimos ter um excelente panorama das artes peruanas, pr-colombianas e ps. Belo passeio.

    To ou mais belo que o museu, foi o seu subsolo. Lotado de salas de aula e

    lotado de jovens e crianas. Havia diversos cursos e oficinas acontecendo ao mesmo tempo. Pintura, cermica, desenho, fotografia, bijuterias, e muitas outras

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    coisas bacanas. Uma excelente iniciativa da administrao do museu do governo ou de sei l quem financiava aquilo tudo. Samos do museu e vagamos embaixo de um sol perverso. Estvamos sem soles, sem um puto nos bolsos. Custou para acharmos uma casa de cmbio. Pelo menos a busca serviu para conhecer o centro de Lima, com praas, ruas estreitas e muitos prdios governamentais. Trocamos uma grana e sentamos numa espelunca para tomar um refrigerante e, para no perder o embalo, uma cerveja. Depois, fomos at o mosteiro de So Francisco. Construdo em 1553, o mosteiro impressiona pela robustez e beleza ainda bem conservadas. O tour completo, acompanhado por um guia, saa por apenas S$2,50 para estudantes. E a relao custo/benefcio acabou sendo a melhor possvel. H uma biblioteca linda, forrada de livros antiqssimos, dos ps clarabia do teto. Todos pessimamente acomodados, juntando poeira sob o sol que invadia atravs da clarabia. Deveriam estar aclimatados numa temperatura constante, protegidos do sol e da umidade. Deveriam ser microfilmados e fotografados antes que se estraguem. Deveriam ser salvos! H muitos aposentos com mveis e quadros antigos. O ptio central tem azulejos e painis bblicos da poca colonial. Suas salas e aposentos so cheios de passagens secretas; umas vo para outros quartos, que, sabe-se l que fins teriam em um local cheio de homens castos; outras davam para o subsolo das duas igrejas do mosteiro. Igrejas muito bonitas e com a aquela temperatura frescal tpica. Os vitrais varados pela luz vespertina pareciam ter vida e queriam descer das paredes. O local na nave da igreja reservado aos monges era todo em madeira de lei, como uma grande escultura, toda talhada nos mnimos detalhes. Os rgos tambm impressionavam pelo porte.

    Porm, a vedete do mosteiro ainda estava por vir, as catacumbas. Embaixo

    do mosteiro h uma rede de catacumbas onde esto ossadas de mais de 25 mil mortos. Isso mesmo, no erro, so 25.000! So milhares de ossos e crnios espalhados em centenas de tumbas e cmeras morturias. H ainda muito que se descobrir, o subsolo do mosteiro ainda conserva setores desconhecidos. uma imagem pungente e inesquecvel. Poderia servir de cenrio para um filme do Indiana Jones, ou um jogo da Lara Croft. A maioria das ossadas de nobres, burgueses ou pessoas do clero. O guia nos explicou que o fmur, o crnio, o rdio e o mero so os ossos mais presentes, pois so os que apresentam maior resistncia deteriorao natural. A quantidade assusta qualquer um. O cheiro algo umedecido, mofado e metlico. Minha alergia se manifestou e espirrei, no mnimo, umas 73 vezes. Samos de l e partimos andando sem rumo pelas ruas do centro. Camos em uma rua sinistra, habitat de malandros e falsrios. Perguntavam-nos sobre nossos passaportes e documentos. Todos falavam muito rpido e ao mesmo tempo. Pela primeira vez na viagem, eu me senti ameaado. Com quatro ou cinco malucos te rodeando e te puxando, no h muita coisa a se fazer, era estufar o peito, respirar fundo e apertar o passo sem olhar para trs. Conseguimos sair da zona de risco e pegamos um nibus de volta a Miraflores. Trocamos de roupa e fomos praia. O bairro termina em um barranco. Abaixo deste enorme barranco de areia e pedras, h uma pista expressa. Para chegar praia, preciso descer o barranco por um caminho tosco e atravessar a estrada na curva e sem viso de onde vinham os carros velozes e furiosos. Uma

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    insanidade. Perigosssimo. No h faixa de pedestre, semforos ou passarelas. Sobrevivemos.

    Adianto e digo que a praia feia. Alis, bem feia. uma praia de pedras,

    com uma faixa de areia muito estreita. No h caladas, quiosques, estacionamentos, banheiros, salva-vidas e nenhuma outra estrutura turstica ou comercial. A maior diferena que eu notei entre o Atlntico e o Pacfico o horizonte. O oceano Pacfico no tem linha do horizonte. Dificilmente d para diferenciar onde termina a gua e comea o cu, e vice-versa. Alm das tonalidades prximas, h tambm uma nvoa, como se algum tivesse passado um esfuminho na linha do horizonte. A gua no gelada, afinal estvamos praticamente em Salvador. Porm, a gua mais salgada. Notavelmente mais salgada. As pedras do solo so de um tamanho propcio para machucar os ps e causar tombos. Quase todos os surfistas que se aventuravam no mar estavam com aqueles calados especiais de neoprene ou sandlia de borracha. Entramos na gua e nos arriscamos em alguns jacars. Depois da praia, passeamos pelo bairro, passando por um sofisticado clube de tnis e por uma galeria beira-mar infestada de redes de fast-food, fliperamas e outras bobagens que todos ns em diferentes momentos da vida ou durante a vida toda, depende de cada um adoramos. Voltamos para tomar um banho e samos para jantar. O papo temperado com algumas cervejas foi do rspido ao confessional. O Anselmo uma das nicas pessoas que eu consigo discordar em alto e bom som sem que isto prejudique nossa amizade. O respeito mtuo e a histria de mais 15 anos falam mais alto. Terminamos a conversa numa boa, falando de nossos amores. A Marina nunca esteve to presente como nesta noite. As pessoas que mais se fazem presentes so justamente as mesmas que sentimos mais falta. o paradoxo da saudade.

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    16 Dia Limando a pacincia Lima, 12/01/05. No acordamos to cedo. Desayuno. Refazer as malas. E um bumba at o

    centro de Lima. Deixamos nossas mochilas no terminal e samos para andar. O dia estava quente, no tanto quanto o dia anterior. Enquanto passvamos por trs quadras imundas e superlotadas, abriram nossa mochila de ataque, uma menor que usvamos nos passeios, e roubaram o caderno de anotaes/dirio do Anselmo. Portanto, o nico relato escrito que sobrou este aqui. Foi tudo muito rpido e quando olhei para as costas do Anselmo, notei que o bolso de zper estava escancarado. L dentro tinha uma pequena lanterna, um canivete e o dirio. Levaram-nos justamente o artigo sem valor comercial e com maior valor sentimental. Filhos da puta. Vacilamos e cometemos um erro. preciso ficar atento durante o dia todo, 24 por 48 mesmo. Desconfiamos da audcia dos malandros e danamos. Ficamos putos e muito chateados. Principalmente o Anselmo. Refizemos em vo o caminho de volta na esperana de tentar encontrar o dirio jogado no cho, afinal s era um bloco com anotaes escritas, tinha serventia para ns e mais ningum. Vo-se os anis e ficam os dedos. O velho e conformista ditado foi pronunciado pela terceira vez na viagem.

    Nossa inteno era visitar o Museu do Ouro. No entanto, cidade que no

    turstica foda. Como So Paulo, Lima no famosa pelo turismo, mais uma cidade administrativa, centro comercial e financeiro. Ou seja, no havia informao alguma para turistas e ningum nas ruas sabia informar nada. Ningum mesmo, nem pedestres, nem policiais, nem taxistas. Muitas pessoas at desconheciam a existncia do museu, nunca tinham ouvido falar. Voltamos ao Museu de Artes de Lima e, depois de falar com quatro funcionrios diferentes, uma boa alma nos passou o endereo, os preos e o horrio de atendimento do Museu do Ouro. Desanimamos. Na capital do Peru no havia como chegar de transporte pblico no museu mais famoso e comentado entre turistas do mundo inteiro. Somente de txi. A entrada era cara, S$30,00 e o txi sairia mais caro que isto. Pesamos os prs e os contras. No fomos. No sou e nunca fui atrado por jias, ouro e prata. As mulheres que me desculpem, mas tenho a impresso que elas se encantam muito mais com estas coisas do que os homens. No estou dizendo que as mulheres so mais gananciosas que os homens, de forma alguma. Por favor, no me entendam mal. Na mesma proporo que a maioria dos homens se encanta mais por futebol, a maioria das mulheres se encanta mais por jias. E ponto. No sei se eu iria curtir muito o museu. O museu que merecia ser visitado, o de artes, j fora visto. Ainda nos arredores do Museu de Arte de Lima, fiquei contente de ter presenciado a enorme fila que se formava para fazer inscries nos diversos cursos oferecidos pelo museu.

    O Estdio Nacional no era muito longe, dava at para v-lo de onde ns

    estvamos. Fomos caminhando at o palco da ltima deciso de Copa Amrica, entre Brasil e Argentina, em 2004. Era um desses estdios redondinhos, tipo coliseu, muito simptico. No foi nada difcil entrar e ir at as arquibancadas. Sentamos, vimos, sentimos e nos encantamos. O estdio era espetacular, muito

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    bem conservado e com um gramado impecvel. Certamente foi reformado para abrigar a Copa Amrica, pois tudo era novo e de cores vistosas. O calor irresolvel nos guiou para um bar na frente do estdio. Era um boteco firmeza com vrias fotos e psteres dos grandes jogadores atuais. Tomamos sei l quantas cervejas e samos para andar sem rumo. Foi uma caminhada desorientada e sem destino, apenas seguamos por lados por ainda no tnhamos passado. Sem muito que fazer e tambm sem muita disposio, andvamos com calma para matar o tempo e a pacincia. Aproveitamos para almoar uma comida engordurada e de gosto repugnante. Ainda fizemos uma hora sentados numa praa e vendo o dia acabar, triste e cabisbaixo.

    De volta ao local de onde partiria nosso nibus, ainda tivemos que esperar. O atraso todo foi de 1h15. Entramos no buso e vimos que no tinha janelas. Quero dizer, at tinha, mas no abriam. Era um nibus com ar-condicionado e as janelas eram vidros inteirios, no abriam. Mas, como j era de se esperar, o ar-condicionado no funcionava e, conseqentemente as janelas tambm no. Somente duas aberturas superiores que serviam mais para fazer barulho do que como entradas de ar. Antes de dormir na sauna, ainda assistimos mais um filme americano bobo que nos rendeu dois ou trs esboos de sorrisos. No fiz questo de guardar o nome. Era com aquele Martin Lawrence.

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    17 Dia Dia besta Estrada/Arequipa, 13/01/05. Caro leitor, estimada leitora. O presente captulo realmente no acrescenta

    absolutamente nada ao desenrolar da narrativa. Sintam-se vontade para pul-lo e no ler. No haver revelaes deslumbrantes e nem constataes pertinentes. Salvo um pequeno e inslito episdio ocorrido na madrugada, no aconteceu mais nada de interessante. Bom, que fique por sua conta e risco. Quem avisa, amigo .

    Lutando e resistindo contra o calor, eu dormia a prestaes, suando muito.

    Pelas frestas das escotilhas superiores entrava muita poeira e meus olhos j estavam irritados. Minhas lentes de contato pareciam duas lixas. Meu nariz estava seco, assim como minha garganta. Da minha testa minava um suor espesso e viscoso, to salgado quanto s guas do Pacfico. Acordava a cada 10 minutos e abria olhos para um pesadelo. As janelas estavam embaadas das respiraes ofegantes das quase cinqenta pessoas que tambm suavam. O que no incio era uma sauna seca, com algumas horas de viagem, virou uma sauna a vapor. O nibus parecia envolto numa neblina nefasta de calor e odores sudorparos. Sem um motivo aparente, o nibus parou no meio da estrada. Quando iniciou sua reduzida na velocidade, eu pensei que iramos passar por um pedgio, parar num posto, sei l. Parou tambm o movimento de ar que entrava pelas aberturas no teto. O calor atingiu nveis insuportveis, despropositais para a vida humana. J havia muita gente do lado de fora do buso, ento resolvi descer tambm. Estvamos na beira de um vilarejo pobre e poeirento, e, por algum motivo desconhecido, estava acontecendo um protesto h quilmetros de distncia. O suficiente para paralisar a rodovia toda. Tudo parado. A fila de veculos era desanimadora, no dava para ver o fim.

    Muito cansados, suados e com o saco pra l de cheio, eu e o Anselmo

    sentamos na mureta de uma casa e ficamos praguejando o infortnio. Vimos que aquilo tudo iria se estender por horas. Cachorros latiam, crianas sadas dos nibus gritavam e corriam por todos os lados, alguns imbecis inutilmente buzinavam e ns dois l, parados no meio do nada. Tirei as meias e os calados, tirei a camiseta e deitei na mureta tentando descansar e espantar o calor. O que mais nos falta acontecer? indagamos. Em determinados momentos, h certas perguntas que devem ser cautelosamente evitadas, a questo h pouco formulada era uma delas. Catapowrwr! Um estrondo rpido e vibrante pipocou no ar. Barulhos eltricos e toda a luz eltrica do vilarejo se foi. Um apago! No nos restou outra opo a no ser rir. Rir muito. Gargalhamos at escorrerem lgrimas. Com calor, com sono, cansados, fodidos, famintos, sujos e rindo. Rindo como no se fosse nada. Rindo uma boa risada. O estrondo e o apago serviram para amedrontar e calar as crianas. Muitos outros barulhos tambm se cessaram. Foi uma piada da providncia divina. Deus tem um timo senso de humor. Depois de quase trs horas parados, o fluxo de carros comeou a esboar uma lenta movimentao. Entramos no buso e tentei dormir. At consegui por curtos espaos de tempo, mas pessimamente, muito incomodado pelo calor. Logo depois do raiar do dia, paramos exatamente no mesmo local imundo que j havamos

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    parado na viagem de Cuzco a Lima, um restaurante perto de Nazca. A pedida foi a mesma da estadia anterior, dois pes com ovo e um mate de coca para cada. O forte cheiro de urina, podrido, mofo e descaso no contribua em nada no nosso paladar. Eu tambm estava todo suado e me sentindo sujo. Dois perdidos sujos numa lanchonete ainda mais suja. Sim, era mais um desayuno no inferno.

    Depois da parada, nada mais relevante aconteceu, passamos o dia todo no

    buso e s chegaramos em Arequipa com o sol j se pondo, por volta das 18:30. Foi o trecho mais entediante de toda a viagem. Eu estava louco para tomar um banho. As paisagens s me agradavam quando era possvel avistar o mar. No mais era uma viso desrtica, arenosa e monocromtica, muito extenuante. Muita poeira. As frestas do combalido nibus pareciam cuspir mais poeira do que ar. O fino p pegajoso grudava em tudo e em todos, dando uma aparncia desgastada e uniforme nas feies e mesmo nas roupas dos passageiros. No conseguia pregar os olhos e me retorcia de tdio e cansao. Implorava para que colocassem um filme na tev, por mais imbecil que fosse, implorava por um walkman, implorava por qualquer coisa que ajudasse a distrair e passar o tempo. Foi uma viagem durssima. Chegamos exaustos em Arequipa, exaustos. Conseguimos comprar passagens para Desaguadero, j na fronteira com a Bolvia, para as 20:00 horas. Restava-nos ento pouco mais de uma hora para providenciar um banho e comer alguma coisa. O banho foi facilmente negociado num hotel na prpria rodoviria, e a comida ficou a cargo de salteas de ar e pes velhos e secos. Embarcamos para mais uma viagem de nibus e antes de dormir ainda assisti a mais um filme idiota. Novamente no fiz questo de lembrar o nome.

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    18 Dia Alto preo da honestidade Arequipa/Desaguadero/Guaqui/La Paz, 14/01/05. Por volta das 4h00 da madrugada ns chegamos em Desaguadero. Poderia

    ser mais tarde, ou mais cedo, tanto faz, o frio que fazia no teria mudado muito. Nem nossa disposio. Subimos novamente os Andes e o frio voltou com toda fora. Dessa vez acompanhado de um vento cortante, afiado como uma navalha, e de uma glida chuva, bem fininha. Desaguadero fica bem na fronteira, a poucos metros adiante podamos ver a ponte que cruzava para Guaqui, j na Bolvia. Nem vimos direito as cidades, que aparentemente eram tambm muito pobres e no apresentavam atributos que chamassem ateno. A pobreza em certos locais to brutal que chega a parecer um castigo perptuo; como se fosse endmica. Samos do Peru sem problemas, com os oficiais apenas olhando nossos passaportes e nossos cartes de sada, sem carimbar nada, ou trocar uma palavra sequer. Eles tambm estavam com muito frio e visivelmente sonolentos. Entramos na Bolvia tambm sem maiores percalos. Os guardas da fronteira deram uma olhadela rpida em nossos documentos e nos deixaram passar. Perguntamos pela Migracin. Responderam que estava fechada e abriria somente s 9h00. Nem cogitamos a hiptese de esperar a Migracin abrir. Poderamos carimbar nossos passaportes em La Paz.

    Montamos numa van lotada e fedorenta. Dentro de mais ou menos duas

    horas passando frio, cansados e famintos, estaramos em La Paz. Pisquei duro e apaguei em muitos trechos. Chegamos em La Paz e ficamos no mesmo hotel que j conhecamos. Eram mais de 7h00 quando eu ca na cama e, em oito segundos, j estava praticamente em estado vegetativo. Foi praticamente um coma, dormi e acordei na mesma posio, sem sonhar e sem sobressalto algum. Esquecemos que havamos perdido uma hora ao cruzar a fronteira, pois o fuso boliviano uma hora a mais que no Peru. Nosso relgio marcava 10h00, mas descobrimos depois que j eram 11h00. Samos, trocamos uma grana, tomamos caf e fomos para a Migracin carimbar nossos passaportes. Tentar fazer as coisas direito muitas vezes mais custoso. Os honestos quase sempre pagam mais caro. Sei que esta ltima frase parece e soa como um rano de moral pequeno-burguesa duvidosa, como num contexto niilista onde s os trapaceiros so vencedores. Ou pior, prolongando a mesma linha de raciocino sofista, poderamos afirmar j que nada e ningum se salvam, tudo est permitido. a lei do salve-se quem puder, se que podemos chamar um preceito to socialmente destrutivo de lei. Se eu tivesse ignorado as leis e as autoridades bolivianas na mesma medida que elas me ignoraram, nada teria acontecido. Toda a divagao foi para dizer que eu me arrependi de tentar o procedimento virtuoso, legalmente falando. Enfim, prossigamos.

    Um bosta de um funcionrio pblico, todo engomadinho em seu terno mal

    cortado, reteve nossos passaportes. Pois , perdemos na Bolvia nossos nicos e vitais documentos. O merdinha no aparentava mais que 30 anos. Disse-nos que havamos invadido ilegalmente o territrio boliviano, furando a fronteira e ignorando as austeras leis do to nobre pas. Explicamos longa e calmamente a

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    situao toda, havamos chegado de madrugada, a Migracin estava fechada, os oficiais viram nossos passaportes, no nos barraram e nem fizeram objees a nossa entrada. O aprendiz de barnab corrupto tentava nos envolver numa teia burocrtica absurda e sem lgica nenhuma. Um pesadelo kafkiano. No seu entender, teramos que desembolsar B$150,00 cada um para ele liberar os passaportes. Pedimos para ele nos mostrar a legislao onde estaria expressa nossa infrao e tambm onde estaria o valor exato da multa. bvio que no tinha nada. Era apenas um idiota amparado por um cargo de merda e por uns quatro ou cinco oficiais do exrcito tentando tirar uma grana fcil. A raiva preenchia todos os poros do meu corpo e minha vontade era quebrar o filho-da-puta no meio. Agora escrevendo me lembro da cara de asco e paisagem do idiota e sinto a mesma raiva. Tentamos raciocinar com frieza e dissemos que iramos ao hotel pegar dinheiro. De fato ns fomos ao hotel, mas pegamos nossas passagens de Arequipa a Desaguadero, que poderiam comprovar que tnhamos chegado de madrugada, quando a Migracin estava fechada. Varados pela fome que corroia nossas entranhas, almoamos um bife digno de um Fred Flintstone. Se o prato no primava pela qualidade, satisfez-nos na quantidade. Depois do almoo fomos at a embaixada brasileira.

    Depois de uma habitual dificuldade para entrar no prdio, ficamos esperando

    a funcionria atender uma menina que foi roubada por colegas de quarto e estava totalmente sem grana, sem destino e sem pacincia. Chegada a nossa vez explicamos o ocorrido para a funcionria. No me lembro o nome dela, mas afirmo que a mulher era a irm gmea do Hlio de La Pea, do Casseta & Planeta. A ssia do Hlio no acreditou na petulncia do funcionrio boliviano, chamou o seu superior. Chegou ento o primeiro-secretrio da embaixada, um tipo que atendia pelo suspeito nome de Pedro Miguel de Costa e Silva. O sujeito foi muito prestativo e solcito, tambm ficou indignado com o ocorrido. Disse-nos o que espervamos: que a reteno dos passaportes era um processo ilegal, em outras palavras, extorso. Pelas normas internacionais, temos 24 horas para apresentar nossos passaportes depois de entrar em algum pas. Tem mais outra, como estvamos na Bolvia antes de irmos ao Peru, nosso primeiro visto de 30 dias ainda estava vlido, independentemente de um carimbo de sada. Resumindo, foi sacanagem mesmo. O pessoal da embaixada falou que ns fomos usados de bodes expiatrios, pois os bolivianos esto reclamando muito do tratamento que recebem da Polcia Federal brasileira ao cruzarem as fronteiras. Ah bom, essa a principal diretriz da diplomacia internacional, a reciprocidade. Fodemos os bolivianos por aqui e eles procuram fazer o mesmo com a gente por l. E assim caminha a humanidade.

    O primeiro-secretrio ligou na Migracin, falou grosso com o chefe de l,

    discutiu, mas no teve jeito, no liberariam os passaportes se no pagssemos a taxa. No pagamos. Antes pagar para tirar outro passaporte a pagar uma propina ilcita para um sacana de merda. O chefe burocrata boliviano chegou a falar com todas as letras para o primeiro-secretrio, o meu pas, so as minhas leis. Ento est feito, como prosseguir discutindo frente a um argumento irrefutvel como este? O tal Costa e Silva nos assegurou que nossos passaportes

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    seriam cancelados, no teria risco de falsificao e tambm que iram fazer uma reclamao formal, numa esfera mais alta, nvel ministerial, coisa e tal. Na embaixada mesmo fizeram-nos um salvo-conduto e abandonamos nossos passaportes. Mesmo que decidssemos pagar a multa, no poderamos. J se passavam das 16h30 e a Migracin estava fechada. Detalhe, eles trabalham das 11 s 16h30, parando por mais de uma hora de almoo, afinal ningum de ferro. Se quisssemos reaver os passaportes teramos que esperar at segunda, e iria atrasar muito a viagem, j que estvamos na sexta. claro que ficamos chateados por perder nossos passaportes, mais pelo um valor sentimental e simblico.

    O dia transcorreu rapidamente com as ocupaes burocrticas e a noite j

    saa carregando as estrelas e o frio. Restava-nos apenas uma nica coisa a fazer, beber. Camos num mesmo local que j havamos estado antes. Um boteco copo sujo, bem boliviano. Todas as vezes que passamos por l, ramos os nicos forasteiros. Para mim, isto um bom sinal. ramos finalmente tratados como pessoas normais e no como turistas gastadores, falastres e desastrados. Decorao tosca, msicas locais, banheiro imundo, servio preguioso, cinzeiros transbordando, nvoas de fumaa, homens sem muito futuro, mulheres com muito passado e cerveja gelada a um preo digno. Bares assim, com esse clima, h em todos as cidades, ainda bem. Bebemos, voltamos ao hotel, tomamos um banho e para no deixar o desnimo imperar, samos para dar umas bandas e beber mais um pouco, mesmo embaixo de chuva e enfrentando o frio. Passamos rapidamente por um barzinho ajeitado chamado Luna. Estava vazio, mas, como j estvamos confortavelmente sentados, tomamos umazinha. Zarpamos descendo o Paseo de El Prado olhando os tipos notvagos da fauna pacea. Como em muitos outros lugares do mundo, a noite dominada pelos jovens. J no havia muitos turistas como da primeira vez, mas La Paz definitivamente uma cidade interessante. Compramos numa bodega algumas cervejas Bock e fizemos o caminho de volta. J na rua do hotel uma faixa nos chamou a ateno. Era um anuncio de um bar chamado Pachamama, que dizia ter msica ao vivo e cerveja barata. Comentei com o Anselmo que vrios locais tm a palavra mama. curioso. No perdi mais que 37 segundos especulando, estava sem disposio. Viva o matriarcado! Entramos no bar.

    Mais se parecia com um salo de dana do que um bar. Tinha mesas

    dispostas em semicrculo e no meio uma pista de dana, bem em frente ao palco onde uma banda de msicas tpicas bolivianas se apresentava. Deviam ser msicas bem conhecidas, pois muitos cantavam junto com a cantora. E assim, ao vivo e em cores, a msica boliviana no to ruim quanto soava nos rdios. O violo e outro instrumento j mencionado nesse relato, um cavaquinho de seis cordas duplas, faziam o acompanhamento e marcavam o ritmo nas batidas e passadas. A percusso era bem discreta, feita por uma bateria eletrnica. E os solos eram executados por uma flauta nativa, daquelas que estamos acostumados a ver sendo envergada por bolivianos e peruanos no centro de So Paulo. O vocal feminino estava entrosado com a banda e afinado, utilizando alguns falsetes, sustentava os prolongamentos. E tudo isso junto era agradvel, serviu para

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    desfazer a pssima impresso que tnhamos da msica local. Conversamos, bebemos, e quando o sono bateu forte, voltamos ao hotel.

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    19 Dia Compras La Paz, 15/01/05. Despertamos. Banho. Caf. Malas no saguo. Rua. Parada na rodoviria

    para comprar passagens para Santa Cruz. Certificamos que o buso tivesse janelas e arrumamos boletos para as 19h30. Ainda nos restava um dia em La Paz. Samos em busca da sede da Empresa Ferroviria Andina, tnhamos, depois de muito custo, conseguido o endereo na internet. Percebemos claramente por quantas anda a incluso digital na Bolvia. Pssimo. Vejam s, procurvamos pela empresa em sites de busca que informam as pginas por ordem de acessos. Ou seja, as mais acessadas aparecem primeiro. E as pginas que encabeavam as listas eram praticamente todas do governo. Da deu para ter uma idia de quem tem maior acesso internet na Bolvia, ningum menos do que a prpria mquina estatal. Duvido muito que a populao entrasse nas pginas do governo com assiduidade, quem iria se interessar por assuntos tcnicos e meramente burocrticos onde se tratavam de legislaes e licitaes? No foi nada fcil localizar a informao que buscvamos.

    Chegamos com a inteno de garantir antecipadamente passagens de

    Ferrobus de Santa Cruz at Puerto Quijaro. No foi possvel. Esse trecho era operado por outra empresa, a Ferroviria Oriental. No souberam nos informar se esta empresa tinha uma representao em La Paz. Na Bolvia ningum sabe de nada e as informaes so sempre fragmentadas e, muitas vezes, at contraditrias. Arriscamos um palpite inteligente. Entramos no maior e mais luxuoso hotel de La Paz, e, como em muitos grandes hotis, l havia uma agncia de turismo. Depois de uma esclarecedora conversa de uns dez minutos fomos informados que era impossvel comprar passagens com antecedncia em La Paz. Nem mesmo por telefone, usando cartes de crdito. O tal Ferrobus a categoria mais luxuosa do trem, tem apenas dois vages com 24 lugares cada. Provavelmente no conseguiramos passagens no dia seguinte, l em Santa Cruz. Era um risco.

    Voltamos ao centro e fomos s compras. Presentes para a minha querida

    Marina. Presentes para minha querida me e minhas queridas irms. Presentes para a minha mais nova querida, a Sofia. E presentes para mim, ningum de ferro. O Anselmo tambm fez compras. Depois da sesso de consumismo, era a fome que nos consumia. Almoamos em um restaurante familiar e novamente ramos os nicos estrangeiros. Bom sinal. Ou no, na Bolvia nunca se sabe. Fomos atendidos muito bem e at com certa cerimnia por destoarmos da paisagem geral. Comemos bem e decentemente, at salada, algo rarssimo na viagem. Retornamos ao hotel e demos uma pausa de uns 15 minutos no saguo. Sem muita pacincia para sentar e esperar a banda passar, voltamos rua. Andamos sem rumo pelas estreitas ruas do centro e quando nos demos conta estvamos prximos a Plaza Murillo, onde fica a sede do governo boliviano. Os prdios antigos e a catedral eram bem bonitos, agradaram-me. Porm, a praa me causou indignao. Infestada por pombos e lixo, o local abrigava uma enorme esttua/monumento hedionda, repleta de plumas e ornamentos rococs. Era algo

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    que homenageava a repblica, de um mau gosto mpar. O monumento uma ofensa cultura e ao povo boliviano. Todos os bustos e esttuas tm feies e roupas europias e estavam protegidos, vejam vocs, por lees. ndios, pumas e quaisquer outras referncias verdadeira Bolvia foram esquecidos pelo monumento. No tiramos uma foto sequer, no merecia. No caminho de volta ao hotel ainda fizemos um providencial pit stop etlico no nosso simptico bar boliviano. Sim, depois de umas quatro ou cinco vezes, j nos considervamos habitus do boteco. Cervejas para passar o tempo, espantar o tdio e animar a alma. O lcool muitas vezes um placebo e uma panacia no mesmo remdio. Quase perdemos a hora. Samos correndo, pegamos as malas e partimos rodoviria. Rapidamente compramos gua, bolos e salteas. Montamos no buso. Destino: Santa Cruz.

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    20 Dia Volta do calor e volta da sorte Santa Cruz, 16/01/05. Chegamos em Santa Cruz por volta das 11h00. O clima no era diferente

    das nossas mais tristes esperanas, um calor fortssimo. O terminal integrado de nibus e trens estava bem mais tranqilo. Fomos direto bilheteria dos trens e confirmando nossas mais pessimistas expectativas, o Ferrobus estava lotado. A vantagem dessa classe de trem que a viagem direta, sem parada alguma, durando 12 horas, dentro de um vago confortavelmente equipado com ar-condicionado, tev e at servio de bordo. E no tinha mais vagas, merda! Pronto, agora sim estvamos enrascados. O Anselmo tinha que voltar o mais rpido possvel para trabalhar e no havia como esperarmos at tera, quando sairia o outro Ferrobus. Nem mesmo esperar at o dia seguinte, na segunda, para pegar o Trem da Morte novamente. Sobrava a opo de pegar um nibus e encarar mais de 600 km sob um calor ultrajante, sendo a maior parte do percurso em estradas de terra. Calejados com pssimas experincias em nibus anteriores, ficamos muito ressabiados. Seria mais uma viagem durssima, talvez ainda mais difcil que as anteriores. Nos guichs que vendiam passagens at Puerto Quijaro os preos e as promessas variavam. Alguns diziam que saindo entre 17h00 e 17h30, estaramos no destino final antes das 11h00 do dia seguinte. Outros diziam ser impossvel chegar antes das 14h00. Conversamos com um motorista muito cara-de-pau que nos assegurou que a viagem s levaria mais que 16 horas se acontecesse algum imprevisto. Certamente a viagem iria demorar um dia inteiro, tanto quanto ou mais que as 21 horas de Trem da Morte.

    No restava alternativa, compramos passagens para as 17h30 e, enquanto

    isso, ns iramos preparando-nos psicologicamente para enfrentar a viagem. Samos do terminal, atravessamos a rua e camos num ambiente multicolorido das barracas e pessoas que circulavam por l. O povo de Santa Cruz no usa os tpicos trajes andinos e, devido ao calor, preferem roupas mais leves. Muitas barracas vendiam absolutamente tudo, como numa feira livre de alimentos, roupas e milhares de quinquilharias falsificadas. Andamos um pouco e encontramos um local onde poderamos tomar um banho e deixar nossas mochilas guardadas durante nossa espera. Conseguimos somente o banho, as mochilas iriam nos acompanhar durante a tarde. Os chuveiros no eram muito melhores e nem muito mais limpos que os da rodoviria, mas mesmo assim o conforto causado pela sensao de gua gelada escorrendo pela minha cabea e nuca foi bem-vindo. Sa do banho mais leve, disposto e limpo. Deixamos nossas toalhas secando ao sol e samos para descolar alguma coisa para comer. No descobrimos nada muito agradvel nas redondezas, somente alguns bares sujos com mesas nas ruas ocupadas por muitas pessoas suando e mandando bala na cerveja. Voltamos para comer na rodoviria. Tambm l no tivemos muita sorte e acabamos almoando um prato-feito gorduroso com arroz, batatas, uma salada nfima e um bife de procedncia duvidosa. Foi uma pssima refeio.

    Mais uma vez no restava nada a fazer seno tomar algumas geladas. E

    para tal tarefa, as mesas na rua do lado de fora da rodoviria eram mais atraentes.

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    Sentamos numa mesa de metal e pedimos uma variante indita da Pacea, a Tropical. Entornamos os copos com facilidade, o clima contribua. Uma tev gigantesca no interior do bar estava passando algum show de msica profundamente irritante, com o barulho nos incomodando e impedindo nossa conversa. Camos fora e fomos beber dentro da rodoviria mesmo. Demos sorte, pois nas tevs de l estavam transmitindo um jogo ao vivo do Real Madrid. Compramos uns pes de queijo e ficamos prestigiando o time de Zidane, Ronaldo, Beckham, Figo, Raul derrotarem seu adversrio por 3 X 1. O jogo caiu como uma luva e o tempo passou despercebido, quando acabou j estava praticamente na hora de embarcar.

    Quando estvamos seguindo para a plataforma de embarque, passamos em

    frente ao guich do trem e o funcionrio nos chamou. Duas pessoas desistiram da viagem e os locais esto vagos, querem? lgico que aceitamos! Foi uma cagada providencial! Cagada nos dois sentidos. Explico. Pouco antes de embarcar, eu e o Anselmo demos uma passada no banheiro para cagar e evitar que sentssemos vontade no buso. Acontece que por um vacilo meu, acabei derrubando depois de me limpar, ainda bem nosso papel no vaso sanitrio. No queramos de maneira alguma embarcar numa viagem de um dia inteiro sem papel higinico, ento fomos comprar outro. E foi logo depois de comprar o papel, quando passvamos em frente do guich, o cara nos chamou. Contamos nosso dinheiro e vimos que faltava. Enquanto o Anselmo ficou no guich segurando as passagens, eu sa em disparada para tentar devolver nossas passagens de nibus e recuperar nossa grana. O nibus j estava na plataforma, pronto para partir. No queriam devolver o dinheiro de jeito nenhum, mesmo porque tinha um aviso expresso dizendo que s aceitavam devolues de passagens com duas horas de antecedncia. J estava me conformando e desistindo quando entrou em cena um senhor baixinho esbaforido e todo suado. Queria embarcar. Vendi uma das minhas passagens para ele e recuperei pelo menos a metade da grana. J era o suficiente para pagar o restante dos bilhetes do trem. Voltei correndo feito um louco pela rodoviria, me desviando de malas e pessoas por todos os lados. Encontrei o Anselmo e compramos as passagens de Ferrobus. Sorte, muita sorte.

    O trem j estava apitando, impaciente. Entramos. O vago no era l to

    deslumbrante quanto haviam nos dito, mas era sim infinitamente melhor que o Trem da Morte. O ar-condicionado era uma beno e foi fcil nos acomodar nas poltronas reclinveis. O servio de bordo era regular e nos serviram frango com molho agridoce. Nada a ver. Tentaram fazer algo refinado, com sotaque francs, sei l, mas erraram feio. Teve ainda ch e bolachas. Bom, ao menos tive a oportunidade de assistir ao pior filme da carreira do Robert De Niro. Chama-se Showtime e ele contracena com o Eddy Murphy. um pssimo filme, com uma pssima histria. Um desperdcio de talentos e dinheiro. Teve ainda outra sesso com uma comdia idiota muito mais risvel que o filme anterior. O ar-condicionado gelou e s consegui dormir depois de me cobrir com meu poncho boliviano. Capotei.

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    21 Dia O incio do fim da viagem Puerto Quijaro/Corumb/Campo Grande, 17/01/05. A viagem e o sono foram tranqilos, sem interrupes. Fomos despertados

    muito cedo pelo servio de bordo com o caf da manh. A ansiedade em chegar apertou e o trecho seguinte foi um saco. Estava com pressa para voltar para casa. A proximidade torna ainda nossa ansiedade mais incontrolvel. Desembarcamos na infeliz Puerto Quijaro por volta das 9h00. Nosso plano era ficar o menos possvel por aquelas bandas. Combinamos um bom preo com um taxista e fomos at a fronteira. A travessia era tambm motivo de preocupao. Afinal, estvamos sem nossos passaportes e as dignssimas autoridades bolivianas poderiam querer tirar alguma casquinha. Junto com o passaporte, o Anselmo tambm perdeu o comprovante de vacinao internacional e isto poderia vir a criar um empecilho. Tnhamos escutado histrias de pessoas que tiveram que deixar uma grana para que os bolivianos liberassem a sada sem o comprovante. Optamos em cruzar a fronteira sem parar na Migracin, fazer como os corumbaenses e quijarenses fazem. H um movimento constante de ida e volta na fronteira. Muitos bolivianos trabalham no Brasil e vice-versa. Andamos sem olhar para os lados e ignorando os chamados de taxistas, aproveitadores que gritavam se queramos visto. Foi mais fcil do que pensvamos. Por aquela fronteira passa absolutamente tudo. Vista grossa e descaso a norma usual. Acredito que se um dia passar por l um elefante roxo de bolinhas amarelas tambm vai entrar e sair sem ser incomodado.

    J no lado brasileiro, colamos numa vendinha em frente ao ponto de nibus

    e tomamos um guaran. Tentei usar o orelho, mas no funcionava. Esperamos, contentes de estar no Brasil, por uns 20 minutos. Montamos no buso e partimos para Corumb. Andamos algumas centenas de metros e paramos em frente Polcia Federal. Alguns guardas entraram revistaram algumas bolsas dos bolivianos e pediram os documentos de todo mundo. Mostramos nossos salvo-condutos e o cara at riu. No sei se foi minha foto, ou nossa situao que o sujeito achou engraado. Babaca. Quando a gente est com pressa parece que tudo conspira contra nossa vontade. Assim, nosso nibus caiu atrs de um funeral. Uma fila de carros se arrastava a menos de 10 km/h e nosso nibus no conseguiu realizar uma ultrapassagem pelas estreitas ruas de Corumb. S depois de passar pelo cemitrio que conseguimos progredir. A cobradora nos informou o ponto perto da rodoviria. No era to perto assim. Ainda mais com mochilas pesadas nas costas sol na cabea. Nosso plano era comprar passagens para o fim da tarde. Poderamos aproveitar o dia em Corumb para comer um bom peixe e dar umas bandas pelos mirantes que ficam nas margens do rio Paraguai.

    Conseguimos uma passagem para Campo Grande, s 13h00. O peixe e o

    passeio em Corumb ficaram para a prxima. O tempo que nos restou serviu para tomar banho num hotelzinho e almoar num restaurante por quilo. Foi timo comer arroz e feijo bem temperados, carne de verdade e uma boa salada de alface com tomates. Ns dois repetimos os pratos, as comidas mais corriqueiras pareciam novidades frente nossa voracidade. Enquanto comamos acompanhamos no jornal a morte do sambista nas horas vagas e malandro profissional, Bezerra da

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    Silva. Montamos no bumba. O ar-condicionado e os vidros escurecidos atenuavam os efeitos do sol. Conversamos bastante e no conseguimos pregar os olhos. Estvamos muito excitados e irrequietos. Fizemos uma parada num posto perto de Miranda e seguimos ora conversando, ora nos distraindo com outras atividades. Eu ia atualizando meus relatos, ou ento fazia palavras cruzadas. As paisagens j no me atraam mais, tudo me parecia enfadonho e fugaz. A viagem de mais de seis horas foi bastante corriqueira.

    Aportamos em Campo Grande quando j se passavam das 19h00.

    Conseguimos adquirir passagens para Assis num nibus que partiria s 23h00. Era o tempo necessrio para passar na casa dos meus avs, filar uma bia e tomar outro banho. Pegamos um txi e em poucos minutos estvamos atravessando os portes do modesto condomnio Tupinambs. Meus avs ficaram muito contentes com a visita e nos esperavam com bifes acebolados, arroz de av quem j provou, sabe que no h outra comida igual e salada farta. Findamos as cervejas da geladeira e conversamos com meus avs a respeito de algumas impresses e peripcias da viagem. Fiz alguns telefonemas para minha me, para a Marina e para o Andr. Meu primo Andr tambm apareceu por l e papeamos at a hora de seguir novamente para a rodoviria. Despedimos-nos e cinco minutos depois j estvamos novamente com latas de cerveja nas mos. Nosso nibus iria atrasar, mas nada que o contedo lquido em nossas mos no refrescasse. Bebamos rapidamente para atingir um grau de sonolncia necessria para dormir rapidamente. Menos de dez minutos depois de embarcar, o nibus parou na garagem da empresa para abastecer e lavar o banheiro. Tempo para mijar e tomar mais duas ou trs latas cada. Recostei minha cabea sobre o banco e apaguei. Foi sem dvida a melhor noite de sono em todos os nibus e trens que eu peguei na viagem toda.

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    22 Dia Chegada Assis, 18/01/05. Pela primeira e nica vez na viagem eu fui acordado pelo Anselmo, o normal

    era justamente o contrrio. Chegamos disse, me cutucando. Abri os olhos e reconheci a paisagem em minha volta. Estvamos na rodoviria de Assis, minha Macondo. E agora, terminada a jornada, segue o final e uma talvez esperada concluso. No vou dizer que a desigualdade social da Amrica Latina abissal. No vou dizer que nosso continente uma bomba relgio. Estas observaes seriam bvias e esperadas. No vou perder meu tempo e nem aborrecer possveis leitores e leitoras com ideologias desgastadas e utopias em frangalhos. No.

    Vou apenas dar um conselho, se que tenho o direito. Acho que sim, depois

    de 20 dias de relatos, acredito poder dizer ao menos um conselho. Faa sua mochila e v viajar. No importa aonde voc v; no interessa com quem voc v; no importa o que voc faa. Pedras que no rolam criam limbo. Caia na estrada. Rpido.

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    Nota final Para quem teve pacincia em chegar at aqui, no entendeu o ttulo e acha

    necessria uma explicao, a vai: Iracema um anagrama de Amrica, ou seja, as mesmas letras,

    reordenadas, formam duas palavras diferentes. Mon amour frescura minha mesmo, referncia ao filme Hiroshima, mon amour (Alain Resnais, 1959),

    clssico da Nouvelle Vague francesa.