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A Teologia Da Prosperidade Pastor Silas Rahal

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A Teologia da Prosperidade a teologia da prosperidade-RAHAL.pmd 1 30/09/2011, 14:24 a teologia da prosperidade-RAHAL.pmd 2 30/09/2011, 14:24 Silas Rahal A Teologia da Prosperidade OI OS EDITORA 2011 a teologia da prosperidade-RAHAL.pmd 3 30/09/2011, 14:24 © Silas Rahal – 2011 silasrahal@hotmail.com Editoração: Oikos Capa: Juliana Nascimento Revisão: Rui Bender Arte-final: Jair de Oliveira Carlos Impressão: Rotermund S. A. Editora Oikos Ltda. Rua Paraná, 240 – B. Scharlau Caixa Postal 1081 93121-970 São Leopoldo/RS Tel.: (51) 3568.2848 / Fax: 3568.7965 contato@oikoseditora.com.br www.oikoseditora.com.br R Rahal, Silas. A Teologia da Prosperidade / Silas Rahal – São Leopoldo: Oikos, 2011. 144 p.; 16 x 23cm. ISBN 978-85-7843-16?-? 1. I. . II. . CDU Catalogação na publicação: Bibliotecária Eliete Mari Doncato Brasil – CRB 10/1184 a teologia da prosperidade-RAHAL.pmd 4 30/09/2011, 14:24 DEDICATÓRIA A meu pai Ramis Rahal (in memoriam), à minha mãe Maria da Gloria Farias Rahal, ao irmão Saulo Rahal, que nunca deixaram de acreditar em mim; à minha esposa Mônica Rahal – eterno amor, às minhas filhas Sofia e Ester Rahal – esperanças minhas, presentes de Deus. a teologia da prosperidade-RAHAL.pmd 5 30/09/2011, 14:24 a teologia da prosperidade-RAHAL.pmd 6 30/09/2011, 14:24 SUMÁRIO Apresentação ....................................................................................... 9 Introdução ......................................................................................... 11 Capítulo 1 Origem ............................................................................................... 23 1.1 Pregadores Norte-Americanos....................................................... 23 1.2 New Thought Metaphysics (Metafísica do Novo Pensamento) ....... 29 1.3 O Livro do Gênesis ....................................................................... 30 Capítulo 2 Fundamentos Bíblicos e Alegações ..................................................... 33 2.1 Textos bíblicos utilizados pelos pregadores da prosperidade ........... 33 2.2 Resultados práticos da pregação da prosperidade ........................... 34 Capítulo 3 Uma Prosperidade Bíblica .................................................................. 37 3.1 O Padrão Bíblico .......................................................................... 37 3.2 Textos Bíblicos .............................................................................. 39 3.3 O termo Prosperidade nos dias de Jesus ......................................... 42 Capítulo 4 Prosperidade Contemporânea ............................................................. 45 4.1 Tradicionais x Neopentecostais ..................................................... 45 4.2 Na sua base como surgiu a Teologia da Prosperidade conforme a conhecemos hoje. A Igreja de Nova Vida do Bispo Roberto MacAlister ....................................................................... 46 4.3 Problemas Eclesiais ....................................................................... 49 a teologia da prosperidade-RAHAL.pmd 7 30/09/2011, 14:24 Silas Rahal Capítulo 5 Considerações da Doutrina Bíblica ..................................................... 53 5.1 Simonia: oferecer dinheiro para alcançar favores eclesiais e condição privilegiada .................................................................. 53 5.2 A Posição (parecer) de Gamaliel ................................................... 60 5.3 A Posição de Paulo ....................................................................... 67 Capítulo 6 Os Principais Autores ......................................................................... 73 6.1 Edir Macedo ................................................................................. 73 6.2 Kenneth Hagin ............................................................................. 90 6.3 T.L. Osborn .................................................................................. 94 6.4 R.R. Soares ................................................................................. 103 6.5 Pastor Silas Malafaia ................................................................... 112 6.6 Bispo Roberto MacAlister ........................................................... 133 Conclusão ........................................................................................ 141 Bibliografia ...................................................................................... 144 8 a teologia da prosperidade-RAHAL.pmd 8 30/09/2011, 14:24 A Teologia da Prosperidade APRESENTAÇÃO O texto que o leitor tem em mãos é fruto de um trabalho de conclusão do curso de Bacharel em Teologia no Instituto Metodista Bennett, onde Silas Rahal foi meu aluno nas disciplinas de Exegese e Teologia do Antigo Testamento. Não se trata de um texto puramente acadêmico; antes, de uma reflexão permeada por experiências e interpretações pessoais. O autor oscila entre a piedade cristã e o rigor da crítica científica. O caminho trilhado é útil para ajudar o leitor a ter uma compreensão sobre o tema e, além disso, contribui para perceber o quão profundo e complexo é o assunto. Não se pode esperar uma análise estritamente sociológica ou teológica do fenômeno, mas é perfeitamente viável mergulhar no tema e descobrir as inquietações de um estudante de Teologia que descobriu na experiência teologal um modo novo de ver e compreender a realidade e a própria vida. Um leitor que conheça profissionalmente o assunto poderá descobrir lacunas, mas a maciça maioria dos cristãos que habita as mil e uma denominações cristãs no país terá nestas páginas a chance de refletir diferenciadamente sobre a Teologia da Prosperidade. O livro abre com uma rápida viagem pelos EUA e o padrão de pregação dos pastores norte-americanos, que vêm difundindo um modo muito particular de ler e pregar a Bíblia. Em seguida, compara tal modelo com textos bíblicos propriamente ditos. Por fim, analisa o fenômeno das igrejas neopentecostais, seus principais expoentes e seu modus operandi. A experiência de vida do Pastor Silas Rahal e, acima de tudo, seu fecundo ministério corroboram as proposições deste trabalho. Ajudam a 9 a teologia da prosperidade-RAHAL.pmd 9 30/09/2011, 14:24 Silas Rahal perceber que, com todas as limitações que estudantes têm para se aprofundar nos estudos teológicos no Brasil, a Teologia tem se colocado, ainda, como uma opção séria de reinterpretar a Igreja e a sociedade. Enfim, boa leitura! Prof. Dr. Ricardo Lengruber Lobosco Docente de Teologia no Instituto Metodista Bennett Julho de 2011 10 a teologia da prosperidade-RAHAL.pmd 10 30/09/2011, 14:24 A Teologia da Prosperidade INTRODUÇÃO O universo conforme o conhecemos existe há aproximados 15 bilhões de anos (que é o ponto mais distante que se pode observar – anos-luz), o planeta Terra há 5 bilhões, o ser humano conforme o conhecemos há 200.000 anos, a primeira civilização de que se tem registro escrito há aproximadamente 20.000 anos antes de Cristo. Estamos aqui há pouco tempo. Fala-se que a primeira comunidade de que se tem conhecimento surgiu em algum lugar ao norte da Africa com aproximadamente 40.000 indivíduos. As primeiras civilizações andavam a pé e a cavalo e camelos, comunicavam-se por mensageiros. Hoje somos transportados à velocidade superior do som e nos comunicamos por uma fração de segundos de um ponto a outro do planeta ou mesmo fora dele. De fato, houve evolução em nosso modo e condições de vida. Vendo de uma forma ampla, a Escritura Sagrada nos apresenta um caminho no trato de Deus para com seu povo e para com toda a humanidade a partir de Abraão, sua descendência, os profetas, Jesus Cristo, os apóstolos, sua igreja e assim por diante. Parece-me que o presente momento manifesta o amor (a Deus, ao próximo e a si mesmo). Apresenta ainda outra forma de vida (modalidade) a Bíblia, quando profetiza que Deus será tudo em todos. Resta ainda esse passo na humanidade, a se manifestar a partir desta vida e saltando para uma existência que está além dessa modalidade de vida. Outro mundo, como afirma Jesus quando diz que seu reino não era deste. A expectativa esperada e buscada é a experiência do amor, quando Jesus está em todos os que o recebem (o grande mistério é este, segundo Paulo apóstolo: “Cristo em vós”). Se a humanidade e o próprio mundo evoluem, afastam-se, estão em movimento, a teologia também está. A reflexão sistemática da fé também avança. Ora em terrenos áridos, ora em condições mais favoráveis. Será a teologia da prosperidade uma evolução da teologia? Isso veremos juntos e tentaremos aprender soluções e propostas sobre o assunto. Esse processo de entendimento da teologia é um processo que não se encerra, mas evolui 11 a teologia da prosperidade-RAHAL.pmd 11 30/09/2011, 14:24 Silas Rahal com toda a festa da existência humana e com todas as suas catástrofes. Em tudo isso se encontra a manifestação de Deus ao homem. Estas páginas que me proponho a compartilhar não são de forma alguma a pretensão de encerrar tudo o que há para saber sobre a teologia da prosperidade. Eu não possuo tal conhecimento. Apresento em vários momentos muitas perguntas, mais que respostas, diversas reflexões. Naquilo que for achado certo que eu receba louvor, naquilo que for encontrado imperfeição que possamos juntos encontrar um caminho melhor para essa questão. Encontro-me desde já pronto para receber críticas e opiniões, informações e contribuições que possam auxiliar para que a verdadeira Teologia se manifeste, da qual somos todos estudantes eternos, todos nós que buscamos a face de Deus (antropomorfismo). Eternos, eu disse, mesmo considerando essa existência, já que cremos que um dia Deus será tudo em todos, e não haverá mais profecia e saber a não ser Deus. Abordar o tema a teologia da prosperidade é de certa forma voltar no tempo nos grandes movimentos avivalistas que varreram a Europa e, antes disso, as correntes cristãs banidas pela igreja romana. Conta as bênçãos, conta quantas são... diz o corinho antigo. Certamente é essa a palavra que nos alcança hoje como consequência dos conceitos de prosperidade bíblica que tanto nos têm abençoado. Não podemos por isso nos limitar a contar as bênçãos, isso seria por demais ingênuo; temos que examinar também os erros deste que é o maior movimento cristão contemporaneo. Creio que a referência para a salvação e a vida eterna é o amor. Digo salvação e vida eterna, que insurge no tempo presente, na medida que alguém é salvo do mal que há neste mundo. O mal se manifesta de várias formas (vícios, pecados, crimes, ganância, amor ao dinheiro, doenças, tragédias, possessão de demônios, intrigas, invejas, etc...), não conheço a origem do mal nem o seu porquê, mas posso constatar sua existência. Através do amor o ser humano pode ser salvo. Somos salvos da destruição, a que está condenado o ser humano. Somos salvos do mal. O amor se manifesta por meio de Jesus ao mundo e à humanidade, antes, durante e após sua encarnação. Os povos de todos os tempos dão nomes a Jesus; nós recebemos seu nome hebraico, que foi aquele dado por seus pais, nome bastante comum na Palestina de seus dias e mesmo antes daquele tempo, cujo referencial anterior era Josué. O nome dado a Jesus não importa tanto assim; saber que através dele o amor de Deus alcançou a criação, isso é importante. 12 a teologia da prosperidade-RAHAL.pmd 12 30/09/2011, 14:24 A Teologia da Prosperidade Outros seres humanos foram salvos antes que Jesus encarnasse, e dessa forma não saberiam seu nome; ainda assim creio que foi por meio d’Ele que foram salvos antes de Ele vir ao mundo, pois o próprio mundo foi feito por meio d’Ele; essa é nossa fé. Jesus é Deus de Deus, eterno e da mesma essência que Deus, o próprio Deus, ao mesmo tempo uma pessoa separada do Deus que chamamos Pai e do Deus que chamamos Espírito. São todos o mesmo Deus, da mesma essência com pessoas distintas. Nas igrejas neopentecostais, uma nova onda surgiu; frequentadores mais antigos começam a se apoderar de dicionários bíblicos, comentários e obras teológicas de consulta rápida, fazendo uso indiscriminado do bisturi teológico; exibem seus conhecimentos de ocasião a pequenos grupos de crentes. É a terra do futebol, onde todos sabem escalar e ordenar o time, melhor que o técnico. Estudar teologia é uma aventura que pode ser valiosa, não significando dizer que não haja perigos; do contrário, não seria aventura. A teologia pastoral ensinada nas igrejas, denominações e grupos de estudo é sempre valiosa. A teologia acadêmica lecionada nas universidades e faculdades de Teologia também é fundamental para a Igreja. A teologia intermediária é bastante perigosa, pois teologia não é uma estrada que possa ser percorrida pela metade; é preciso completar um ciclo. Por isso não sou a favor de meros estudos teológicos, desprovidos de propósito e perspectiva. Sou a favor de seminários confessionais dentro das igrejas e sob a orientação e direção pastoral. Sou a favor do estudo profissional das faculdades. Não sou a favor dos estudos descomprometidos que crentes fazem sem propósito em cursos de teologia que levam o nome de faculdade, mas não o são, desprovidos de acompanhamento e conselho pastoral; tais iniciativas são complicadoras e não ajudam ninguém a desenvolver uma vida cristã equilibrada. O mesmo vem se dando nessas igrejas onde a quase absoluta falta de teologia acadêmica (profissional) deixa o seguimento exposto a um infinito ajuntamento de ventos de doutrina. Cada ano são uma ou várias novidades a que as igrejas neopentecostais aderem aos lotes, como se já não fossem o bastante, as adversidades a que está sujeito aquele que se dispõe em seguir a Jesus. Naqueles dias, havia apenas a cruz, a perseguição, o sangue dos mártires e a mensagem do evangelho de Jesus, pela qual cada um deve carregar sua cruz para alcançar a vida eterna em Jesus Cristo. Talvez a própria teologia da prosperidade, como a conhecemos hoje, seja mais um desses ventos de doutrina a que se referia o apóstolo Paulo, 13 a teologia da prosperidade-RAHAL.pmd 13 30/09/2011, 14:24 Silas Rahal que faz levar os crentes de um lado para outro, como que açoitados. A incrível falta de suporte teológico profissional que varre os ministérios neopentecostais pode ser o campo fértil para a instalação dos modismos entre unção dos animais (crentes em êxtase imitam animais) e outras incríveis e surpreendentes manifestações. A teologia da prosperidade é uma delas. Os líderes querem adivinhar a teologia ou querem receber a reflexão teológica elaborada toda pelo Espírito Santo. Tudo é valido, menos estudar quatro anos em uma faculdade de teologia. É como se o engenheiro quisesse construir prédios de 20 andares sem passar pelo devido processo acadêmico, que acumula centenas de anos de conhecimento e pelo qual de forma sistemática o engenheiro se apodera do mesmo. É como se o médico tivesse que abrir no bisturi o corpo de alguém doente, para tateando encontrar o problema. Ferida exposta é o resultado, que muitas vezes não se consegue sanar. John Wesley, de quem me faço aluno, a quem dou a honra de um príncipe de pregadores do evangelho de Jesus Cristo, a quem cedo aprendi a amar ao lado de meu pai, o Pastor Ramis Rahal, comissionado da Igreja Metodista do Catete no Rio de Janeiro e mais tarde Pastor da Igreja Metodista Wesleyana, era defensor da existência de uma classe de pastores e pregadores que ele denominava de leigos. Ao lado de John Wesley, faço coro e aprendo das bênçãos alcançadas no ministério leigo, quer seja pelo número, quer seja pelo entusiasmo. Entretanto, isso não significa dizer que não exista necessidade do estudo teológico profissional no corpo da Igreja e na liderança. Aprendendo com Moisés, o primeiro profeta de Israel, temos um homem extremamente versado na cultura de sua época. Temos ainda, sem ignorar tantos outros que o precederam, o apóstolo Paulo, doutor da lei de Deus e da filosofia grega e de todo o conhecimento teológico judaico de seu tempo. Temos John Wesley, que estudava a Bíblia nos originais grego e hebraico. Temos o próprio Bispo Roberto MacAlister, profundo conhecedor de teologia e detentor de vários títulos entre mestre e doutor em teologia. Como pode o peixe vivo viver fora da água fria? Como pode o líder de uma grande denominação deixar de fora de sua vida a teologia profissional e ainda ensinar a seus fiéis que não devem estudar a teologia? Dá no que dá. Ventos de doutrina, erros e tragédias nos ministérios, desvios muitas vezes irrecuperáveis, nos quais muitas vidas sofrem danos permanentes. Deus dá o dom do Espírito Santo e revela sua Palavra ao entendimento humano de forma sobrenatural, eu creio assim. Mas sei também que 14 a teologia da prosperidade-RAHAL.pmd 14 30/09/2011, 14:24 A Teologia da Prosperidade Deus espera que os líderes cristãos façam o dever de casa. O dever de casa é estudar teologia. Deus nos capacitou com inteligência; por que não desejaria que utilizássemos para o conhecimento de sua Palavra? É onde Jesus diz: “Errais não conhecendo o poder e a Palavra de Deus”. Ao defender o ministério teológico acadêmico (de faculdade), não faço qualquer tipo de desmerecimento ou desprezo ao ministério leigo (não acadêmico, pastores que não cursaram seminário ou faculdade de teologia). Afinal, boa parte dos discípulos de Jesus era em primeira mão homens sem grande conhecimento das letras. Não posso por isso deixar de considerar a falta principalmente nas igrejas brasileiras de líderes comprometidos com a boa e árdua teologia acadêmica. As várias religiões do mundo desde sempre revelaram certos graus da manifestação divina; essa ideia conhecida como “logus espermatikos” é bastante antiga e já estava presente nos antigos teólogos. Jesus em sua mensagem jamais combateu religiões e práticas diversas de fé, pois sabia que Ele mesmo é a fonte de todas as religiões. Isso não significa dizer que Jesus era ecumênico; Jesus enquanto homem era judeu desde o início até o fim de sua jornada de fé. O próprio movimento inicial dos seguidores de Jesus era apenas uma seita judaica. Somente mais tarde, a igreja tomou um caminho próprio, mesmo assim a partir de rituais bastante judaicos. A própria arrumação do templo cristão é bastante judaica. Toda religião surge a partir de uma outra e carrega consigo elementos da anterior. Não existe religião pura que não advenha de outra prática. É natural dessa forma que tenhamos todos nossas experiências de fé próprias pertinentes à nossa cultura e entendimento. Isso pode variar de continente a continente, país a país, estado a estado, cultura a cultura, tribo a tribo e finalmente de pessoa a pessoa. Nesse mistério do amor por meio de Jesus, creio assim que somos desde já salvos, nós e todos quantos andarem em amor. Só se pode andar em amor através de Jesus (reconhecendo ou não seu nome hebraico). A própria Bíblia traz o relato de Abraão, que, sendo pai da fé e salvo pela justificação por meio da fé, jamais ouviu falar de Jesus, e outros tantos anteriores à encarnação de Jesus. Seria ingenuidade nossa pensar que toda a humanidade que desconhece o evangelho, conforme nós o temos (versão ocidental), está condenada. O apóstolo Paulo entendeu bem essa noção de salvação em Deus pelo amor, ante a consciência de cada indivíduo, conforme relata em Romanos. Isso não significa pensar em uma salvação univer- 15 a teologia da prosperidade-RAHAL.pmd 15 30/09/2011, 14:24 Silas Rahal sal da humanidade, mas em uma salvação que é para todos quantos a receberem por decisão livre e pessoal. Tudo o que é pelo amor é de Deus e vem de Deus, e Deus é amor por Jesus Cristo Nosso Senhor. Anunciar a mensagem de Jesus é anunciar a vida eterna. Vida eterna não apenas porque significa viver eternamente, para sempre. Vida eterna por ser vida absoluta, expressão plena de existência, abundante, vida ao grau máximo do que pode ser. A salvação, que é também a mensagem de Jesus, é a vida eterna, esse tipo de vida mencionada. Essa vida eterna começa e insurge desde agora, quer começar, quer insurgir. Não começa no mundo abstrato apenas, mas quer significar mudança até para os mais pobres, e principalmente para esses. Jesus veio para os pobres e depois para os outros. O pobre não deixa de ser pobre necessariamente no que diz respeito a seu dinheiro, mas em seu espírito e na sua forma de pensar. Vida eterna que Jesus oferece não significa riqueza, ouro e prata; pelo contrário, seu reino não é deste mundo. No outro mundo, não há materialidade, pois Deus é espírito. Anunciar a salvação de Deus em Jesus Cristo não é anunciar a riqueza financeira que poderá alcançar aquele que recebe a mensagem de Jesus; não pode haver dúvida quanto a isso. Jesus não veio para que ficássemos ricos de dinheiro, mas para que fôssemos salvos e pudéssemos alcançar a vida eterna. A grandeza da vida eterna não tem a ver simplesmente com viver para sempre, muito menos com tornar-se financeiramente rico. A salvação de Deus em Jesus, que ora anunciamos, não significa tão pouco que os pobres têm que permancer pobres no que diz respeito ao aspecto dinheiro para merecer a salvação de Deus. Afinal, é João que fala em sua carta que deseja que em tudo sejamos bem-sucedidos. Não há pecado em desejar ser bem-sucedido no aspecto financeiro da vida. A salvação é para todos em Jesus Cristo. A teologia da prosperidade também deve ser abordada nessa possibilidade de ser um ato de amor para com a igreja de Deus, por Jesus Cristo. O amor, diz a Escritura Sagrada, apaga multidão de transgressões. Devemos julgar tudo e em tudo deixar o amor verdadeiro falar mais alto. A salvação que em nós opera desde já opera pelo amor, por meio de Jesus Cristo de Nazaré. Isso deve derrubar os muros das denominações. Isso deve bastar contra a intolerância que nós evangélicos temos de nós mesmos. Se o amor não for o suficiente para entendermos a teologia da prosperidade, então 16 a teologia da prosperidade-RAHAL.pmd 16 30/09/2011, 14:24 A Teologia da Prosperidade não é amor, então não estamos salvos. Foi pelo amor que Deus entregou seu filho, é por amor que somos salvos, desde já, por meio de Jesus Cristo, início e fim de toda a criação. É inegável que a Bíblia inteira de Gênesis a Apocalipse apresenta um projeto de prosperidade, de ser bem-sucedido. Em alguns pontos, é mesmo uma garantia dada pela religião do Deus de Israel; em outros, um desejo para si e para o próximo. Geralmente acompanhada de condições de mútua responsabilidade do Deus Javé para seu povo (nessa parte era tão somente um benefício destinado ao povo de Israel) e vice-versa, às vezes contudo desacompanhado de maiores justificativas, se apresenta tão somente como um fato da vida que o Criador abençoa de forma absoluta a criatura, mais especialmente aqueles que adotam seus estatutos dados pelos profetas. Não há um porquê ontológico do fato, apenas se apresenta dessa forma. Em outros tempos, um duelo entre a noção de justiça relacionada é travado com o desconhecimento do motivo do sofrimento humano e do não prosperar, do não ser bem-sucedido, do não ser curado das enfermidades. Ser vitorioso é desde sempre associado na Bíblia ao ser aprovado por Deus, o estar doente é desde sempre associado na Bíblia ao estar distante de Deus. Seja como for, é indesculpável aquele que se aproximando da religião bíblica quer ignorar a existência de conceitos de prosperidade em todos os aspectos da vida, alegando como motivo dessa atitude os exageros cometidos. A existência na Bíblia de uma forma relacional de ser bem-sucedido na saúde, nas finanças, nas lutas da vida é um fato. É preciso que haja o resgate do conceito de prosperidade bíblica. Talvez nunca em toda a história do cristianismo uma ideia bíblica tenha sido tão distorcida, e por consequência aqueles que assim identificaram a distorção acabaram de um extremo ao outro muitas vezes deixando de ser abençoados por Deus em sua prosperidade e ignorando por medo ou receio aquilo que existe biblicamente sobre o assunto. O viver em vitória também foi alvo dessa distorção, uma vez que se insere na teologia da prosperidade; o olhar crítico sobre uma imagem distorcida acaba muitas vezes trazendo novos focos de distorção quando, evitando o triunfalismo, acaba se afastando também da vida vitoriosa que há em Cristo, sendo essas duas abordagens bem diferentes. Evitando uma fé que em tudo vê as possibilidades financeiras, acaba-se de igual maneira deixando de lado uma fé que pode todas as coisas. Afinal, a mensagem de Cristo é uma mensagem de fé. Tratar do assunto teologia da prosperidade é 17 a teologia da prosperidade-RAHAL.pmd 17 30/09/2011, 14:24 Silas Rahal mergulhar na alma da sociedade moderna; nunca o mundo esteve tão afinado com seu próprio espírito em termos de religião, pois incrivelmente essa abordagem teológica encontrou o par de sua dança desenfreada, ou digamos ao contrário, o espírito que move as cidades tenha encontrado seu mate na teologia da prosperidade. Se os homens buscavam justificativa religiosa para o consumo desenfreado e para a destruição da humanidade, acabaram por encontrar mais que isso. Nos continentes mais pobres, crianças são deixadas à própria sorte e, morrendo de fome sem ter o que comer, amargam uma dura morte, dias em que não há sentido para acordar; e tudo isso se desenrola na presença das poderosas nações acalentadas pela teologia da prosperidade em sua pior versão: a “capetalista” selvagem. Como é possível que os poderosos durmam em paz diante da miséria e sofrimentos humanos em toda parte, pais de família suspirando de terror ante a visão de suas famílias desamparadas e mesmo cometendo suicídio por não ter o que trazer para seus filhos na noite de Natal, mães se prostituindo para ter com o que alimentar seus filhos, realidades selváticas que subsistem dentro das cidades e fora delas; nada está a salvo. Por trás disso tudo o capitalismo, que na teoria se apresentou tão cristão, sendo mesmo segundo Max Weber1 fruto da Reforma Protestante, na prática completamente desumano e conveniente aos mais ricos e favorecidos. Note que o evangelho veio primeiro para os mais pobres e não para os ricos deste mundo. Interessante que os pobres não receberam o evangelho dos pobres, mas sim o evangelho dos ricos, a teologia da prosperidade. O capitalismo sufoca as massas em sua práxis à medida que avança, agora tendo como sustento ideológico a teologia da prosperidade, que, por sua vez, não apresenta ao homem meios de reverter sua condição de oprimido. Como se isso não bastasse, o capitalismo apresenta seu maior aliado: a teologia da prosperidade. É claro que existe uma prosperidade em Deus a se apresentar na vida do homem. Existe mesmo um movimento de fé que pode estar identificado aos bens materiais e que vem da palavra de Deus para o homem, mas tudo dentro de um espírito de amor e desinteresse, qual não pode a verdadeira religião ignorar; do contrário, essa busca não terá encontrado seu fim. Não pode a distorção da teologia da prosperidade ce- 1 WEBER, Max. A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo. Editora Martin Claret, 2007. 18 a teologia da prosperidade-RAHAL.pmd 18 30/09/2011, 14:24 A Teologia da Prosperidade gar por medo e desconhecimento que existe um mover de prosperidade para o cristão e para aquele que busca aliança com o Deus da Bíblia, aliado à fé mais genuína no próprio Deus. Talvez o grande ataque de satanás seja este: usar a própria doutrina cristã contra a humanidade, tentando legitimar o massacre do indivíduo, a desumanização da sociedade, o capitalismo selvagem (como alguns diriam, o capetalismo selvagem) através de teologia da prosperidade distorcida. O presente artigo tem assim o objetivo de abordar o assunto apontando sua origem contemporânea, bem como suas raízes mais antigas, identificar os exageros e enganos dos pregadores contemporâneos, ao mesmo tempo destacando seus acertos. Estabelecer o limite do que é apresentado como prosperidade bíblica, sem esconder os erros de quem conscientemente ou não apresenta junto com o jardim muitas ervas daninhas, que para nada servem se não retirar a beleza e os benefícios do jardim teológico verdadeiro. Amado, desejo que te vás bem em todas as coisas e que tenhas saúde, assim como bem vai a tua alma. 3 João 1:2 Como João desejou em sua carta que fôssemos prósperos (prosper = ser bem-sucedido, no latim) em todas as coisas, podemos facilmente entender que ser bem-sucedido financeiramente não significa ser rico. Um homem rico pode não ser bem-sucedido financeiramente, antes se encontrar passando por grandes apuros financeiros, ao passo que um vendedor de pipoca na praça pode ter grande estabilidade em suas finanças, de acordo com suas posses, e ser considerado bem-sucedido. Um bom economista ou especialista em mercado financeiros poderia analisar essa situação de perto e dar seu veredito. Mas não é preciso, qualquer pessoa pode entender o que é viver em uma situação financeira controlada, mesmo sendo considerado pobre, e o que é viver em uma condição financeira de instabilidade e insucesso, mesmo sendo considerado rico. Ser próspero não é ser rico, ser próspero é ser bem-sucedido, é isso que a palavra latina “prosper” bem como o equivalente no original grego significam. Na verdade, o original grego da palavra é “åõïäïõ” (euodoo), que significa no grego alguma coisa relativa a viagens (eu = bom + doos = caminho), como por exemplo ser bem-sucedido em uma jornada expedicionária, passando por um caminho certo, ser bem-sucedido, obter sucesso em alguma coisa, mas principalmente ter êxito em uma jornada ou viagem. 19 a teologia da prosperidade-RAHAL.pmd 19 30/09/2011, 14:24 Silas Rahal Ervas daninhas sempre prejudicam, sempre atingem as flores e seus frutos. Devemos podá-las? Devemos deixá-las? Será que podando as ervas daninhas destruiremos também as flores e os frutos? Pois o reino de Deus muitas vezes foi apresentado dessa forma, com o joio e o trigo, que só podem ser ceifados juntamente e depois então separados. Não é fácil a obra que se dispõe nestas páginas, mas é sem dúvida necessária em dias tão confusos, onde pregadores poderosos pregam bem mais que o reino de Deus. APÊNDICE Examinaremos a etimologia da palavra original para o conceito grego do que alguns traduzem por prosperidade; inclusive, a título de enriquecimento de nossa pesquisa, faremos uma comparação com o mesmo termo no Novo Testamento e seu derivado equivalente no latim, que deu origem ao termo prosperidade que nós conhecemos. Na terceira epístola de João, encontramos a única equivalência da palavra prosperidade ou de onde foi traduzida a expressão latina “prosper”, isto é, prosperidade ou ser bem-sucedido. “Amado, acima de tudo, faço votos por tua prosperidade e saúde, assim como é próspera a tua alma.” O verbo grego euodomai usado por João e traduzido no latim por prosper, no portugues por prosperidade, é composto por duas palavras: “eu” – bom + “odos” – caminho = bom caminho. Vale considerar que, na tradução do texto de João por prosperidade, o tradutor não foi fiel à etimologia da palavra, que significa “bom caminho” ou “boa viagem”. Forçosamente foi mesmo assim traduzido para o latim com outra palavra: “prosper”. Na verdade, o “bom caminho” grego era um conceito bastante pertinente ao mundo grego, onde se referia como sendo uma jornada, uma empreitada bem-sucedida. De qualquer forma, temos o termo latino prosper: Prosper = prosperidade= ser bem-sucedido em todos os aspectos (financeiro). A conotação do aspecto financeiro fica, portanto, inserida no texto a partir da tradução para o latim. Isso se dá pelo entendimento da concepção grega de felicidade, a saber, abrangente à vida humana como um todo. A 20 a teologia da prosperidade-RAHAL.pmd 20 30/09/2011, 14:24 A Teologia da Prosperidade mesma expressão dualista usada por João no texto, de alma e corpo, é bastante pertinente à forma de pensar da filosofia platônica. Até mesmo o dízimo, conceito integrante da prosperidade bíblica desde suas primeiras sugestões, era prática grega antiquíssima (bem antes da tradição judaica), participante do período mítico grego em que eram ofertados dízimos aos deuses gregos de todas as conquistas (A República de Platão, 400 AC), sendo mesmo parte dos cultos, em que devidamente os deuses abençoariam fortemente a cidade caso fossem propiciados por tais dízimos, depositados no templo desse ou daquele deus. Possivelmente não eram os gregos os únicos povos praticantes do dízimo, parecendo ser mais uma prática comum da humanidade no lugar atual do Iraque, antes Babilônia, etc... Outra consideração importante é que a noção grega de “eudaimonia’ (vida feliz) possivelmente foi transmitida à igreja primitiva, já que fazia parte integrante dos valores gregos, no qual estava então inserida a igreja, contribuindo assim de alguma forma para o resultado final do conceito de prosperidade bíblica no Antigo e Novo Testamentos, o que fica de acordo com o texto de João, onde o discípulo amado deseja o “eudos” (bom caminho) em todos os aspectos da vida. Verificamos dessa forma indícios para o surgimento do conceito de prosperidade bíblica, conforme conhecemos a partir da noção grega de vida feliz, de completude em todos os aspectos da vida humana, referenciada pelo conceito “eudaimonia”; não há relato mais antigo do que o grego sobre o desejar e buscar o “ser bem-sucedido” em todos os aspectos da vida, mesmo considerando que o aspecto financeiro não era evidenciado, mas sim a virtude. 21 a teologia da prosperidade-RAHAL.pmd 21 30/09/2011, 14:24 Silas Rahal 22 a teologia da prosperidade-RAHAL.pmd 22 30/09/2011, 14:24 A Teologia da Prosperidade CAPÍTULO 1 ORIGEM DA TEOLOGIA DA PROSPERIDADE 1.1 - Pregadores Norte-Americanos Algumas abordagens apresentam origens diversas para a tão chamada teologia da prosperidade; fato é que não é assunto novo, já no início do século XX havia vários pregadores com certas doutrinas novas, e pelo menos um pregador itinerante nos Estados Unidos que, apesar de não ser pentecostal, ensinava doutrinas pertinentes a um certo investimento a ser feito na obra de Deus. Mais. Ensinava o tal pregador de si mesmo que era possível pela confissão das verdades bíblicas e práticas de ofertas financeiras e dízimos ter-se um retorno financeiro certo e multiplicado e também uma saúde inabalável (que para esse movimento passa a ser também parte das promessas de Deus para o crente), tudo isso de forma inegociável dentro de uma visão triunfalista e de confissão positiva do evangelho, onde as palavras determinam os acontecimentos no mundo material. Trata-se do pastor norte-americano Essek William Kenyon (1867-1948). Existiram outros antes de Essek2 e mesmo contemporâneos desse; é difícil identificar qual tenha sido o primeiro, ou talvez tenha havido alguns ao mesmo tempo. Trataremos, contudo, do quadro apresentado por Essek, já que foi ele de qualquer forma quem apresentou com maior projeção a inicialmente chamada teologia da fé, inclusive considerado pioneiro no evangelismo de rádio; foi seguramente aquele que passou adiante com mais vigor a nova doutrina. Inicialmente, um pastor metodista começou a ensinar uma certa teologia da fé, que caminhava lado a lado com vários conceitos complexos e não ortodoxos acerca de que cada crente seria um cristo encarnado, tendo tam- 2 HANEGRAAFF, Hank. Christianity in Crisis. Thomas Nelson Inc, 2009. 23 a teologia da prosperidade-RAHAL.pmd 23 30/09/2011, 14:24 Silas Rahal bém sido um notável pioneiro no evangelho em programas de rádio, algo completamente novo para sua época. Essek popularizou algumas palavras de fé, que foram a origem de vários verbetes de fé, hoje tão comuns no mundo cristão. “When I confess I possess” (quando eu confesso eu possuo) talvez seja o mais popular na América até os dias de hoje, na chamada teologia da fé (considerada precursora da teologia da prosperidade). Outro ponto importante é que um dos conceitos do movimento atualmente conhecido por Nova Era (teve origem no chamado movimento americano Novo Pensamento Metafísico), a confissão positiva, teve um grande impacto em Kenyon. De qualquer forma, Kenyon tinha algumas colocações bastante perigosas para os conceitos cristãos, como: “Se a morte física de Jesus era suficiente para pagar a pena pelo pecado, então cada cristão deveria ser capaz de pagar a pena por seus pecados por si mesmo com a própria morte; dessa forma ele concluía que a morte física de Jesus não tocava a questão do pecado de forma alguma”. E outras considerações do mesmo tipo. Para Essek, o mundo material seria controlado pelo espiritual (abordagem nova para o evangelho da época), acrescentando a isso que a confissão positiva do evangelho teria certas consequências práticas; dessa forma surge a base do que temos hoje como teologia da prosperidade. As ideias originais de Essek não param por aí, já que, ao se valer de princípios de confissão positiva, pode-se entender que são os mesmos utilizados pelo movimento que se denomina atualmente de Nova Era. Dessa forma, muitos atribuem à própria Nova Era o surgimento da teologia da prosperidade. A partir de Essek surgem então outros pregadores, cujo maior expoente é o pregador e pastor Kenneth E. Hagin, entre outros. Hagin teria dessa forma o título de pai da teologia da fé ou da prosperidade, mas, na verdade, ele seria um discípulo de Essek, coisa que nunca admitiu, alegando que somente algumas ideias e conceitos iniciais de Essek teriam servido no início de sua caminhada ministerial. Outro ponto interessante é que Hagin3, da mesma forma que Roberto MacAlister, não tinha ênfase no aspecto financeiro da vida cristã; esse era apenas um dos aspectos a ser considerados. Havia mais uma questão voltada à saúde do crente pela cura divina, bem como uma visão devocional da vida cristã. Também a experiência mística de Hagin era altamente desenvolvida, como ficou claro 3 HAGIN, Kenneth E. Pensamento Certo ou Errado. Rio de Janeiro: Graça Editorial, 2000. 24 a teologia da prosperidade-RAHAL.pmd 24 30/09/2011, 14:24 A Teologia da Prosperidade ao relatar e apresentar mesmo diversas narrativas em suas obras de experiências fora do corpo, viagem do espírito, e mesmo encontro com o próprio Jesus Cristo, que teria, segundo Hagin, lhe concedido um dom de cura. Fosse como fosse, há relatos de que até o dia de sua morte nunca tenha esse homem contraído qualquer doença grave e os testemunhos de curas no ministério tenham se difundido por vários continentes. Até que ponto a atual teologia da prosperidade (refiro-me à forma desumana com que o dinheiro é arrancado de pessoas pobres) teria tido sua origem em Essek e em Hagin e no Brasil com o Bispo Roberto? Seria razoável pensar em uma ligação entre esses pregadores, mas o ditado avisa que um erro leva a outro erro. Dessa forma, se em alguma abordagem tenha havido um desvio aparentemente inofensivo da doutrina original, essa curva ao longo dos anos se estendeu mais e mais até chegarmos na igreja mercado hoje instalada, completamente capitalista e selvagem, onde o crente abençoado é o crente rico em posses materiais, bastante diferente das palavras do bispo Roberto4, que dizia que para o pobre há também bênçãos. O próprio Hagin jamais apresentou colocação diferente dessa nem fez pouco caso de classes mais desfavorecidas, pois dava grande ênfase à vida espiritual, de oração, de fé e de cura das enfermidades, e nisso não pode haver nada de mal, quando guardadas as proporções devidas. Não obstante minha defesa de Hagin, devo relatar que, quando eu cursava a escola bíblica de fé, de Hagin, lendo todos os seus livros e no auge daquele mover de fé, recordome de uma colega que eu pude encontrar fora do curso e perguntei por que ela estava sem ir à aula. Essa irmã me respondeu triste que o curso a havia deixado triste, pois sua avó sofria de câncer e estava morrendo e dessa forma pelos ensinos de Hagin ela entendia que não havia fé o bastante em sua casa e em sua família para a cura de sua avó amada. Percebemos aí um grave erro teológico e de ensino que teve consequências graves para toda a vida dessa jovem e de tantas outras vidas que não alcançaram a cura. E um erro leva a outro erro, quando não corrigido. Deus não se encontra no lugar de servo. Deus é o Senhor, nós somos os servos. Muito possivelmente na teologia de fé de Essek foi deixado esse aspecto de lado em um tipo de culto hedonista, onde o homem é um pequeno Deus capaz 4 MCALISTER, Roberto. Dinheiro, Um Assunto Altamente Espiritual. Rio de Janeiro: Carisma Editora, 1981. 25 a teologia da prosperidade-RAHAL.pmd 25 30/09/2011, 14:24 Silas Rahal de ser comparado a um tipo de Cristo, um pequeno Jesus Cristo encarnado, quando eles (Kenyon e Hagin) afirmam sem medo: “Os crentes são Jesus”5. Kenneth Hagin vai ainda mais longe quando diz: “O homem foi criado em termos de igualdade com Deus, e ele pode estar de pé na presença de Deus sem qualquer consciência de inferioridade”. Isso precisamente é o que está por trás da teologia da fé, da teologia da prosperidade, da teologia do triunfalismo cristão, da teologia do supercrente; o homem está para essas teologias de frente com Deus, como diz outro líder: “Exija de Deus o seu milagre”6. Se o homem está em pé de igualdade com Deus, então ele pode exigir esse milagre. Outra colocação interessante de Hagin com relação a Kenyon é que, além de sua influência minuta sobre seu ministério, todas as ideias de Kenyon acerca das influências metafísicas no homem não seriam do agrado ou concordância de Hagin, que as condenaria tanto quanto a ciência cristã. Provavelmente Hagin deveria ter consultado os próprios escritos antes de combater assim as ideias de pensamentos metafísicos de Kenyon, não é mesmo? “Eta” classe desunida! O que dizer acerca do New Thought Metaphysics7? Essa é uma estrada que nos importa conhecer. Ao que tudo indica, conforme autores americanos, Essek teria tido considerável contato com estudantes desse movimento quando ele mesmo frequentou o Emerson College of Oratory, uma instituição bastante conhecida no que diz respeito à sua frequência de alunos partipantes do movimento New Thought; isso teve grande impacto e influência na ministração de fé e de cura praticada por Essek. Hagin foi assim seguindo os passos de Essek, sendo considerado o maior propagador de suas ideias, ainda que não tenha concordado com essa colocação. Hagin foi responsável por espalhar a doutrina e o movimento da teologia da fé ou teologia da prosperidade pelo mundo como um evangelho positivo ou de confissão positiva de verdades bíblicas, ensinando que o tipo de confissão leva à materialização dos resultados, chegando a fundar um centro de estudos do qual foram alunos muitos dos principais evangelistas mundialmente conhecidos. Todo esse movimento, guardadas HANEGRAAFF, Hank. Christianity In Crisis: 21st Century. Thomas Nelson Inc, 2009. MACEDO, Edir. O Perfeito Sacrifício. Rio de Janeiro: Universal, 2001. 7 ANDERSON, Alan. New Thought: A Practical American Spirituality. New York: Crossroad Publishing Company, 2004. 5 6 26 a teologia da prosperidade-RAHAL.pmd 26 30/09/2011, 14:24 A Teologia da Prosperidade certas características pessoais, foi trazido ao Brasil a partir de 1970 pelo Bispo Roberto MacAlister, fundador da Igreja de Nova Vida. Mesmo os cursos de Hagin foram ministrados no Brasil em alguns grupos da Igreja de Nova Vida e foram elemento fundamental para a ordenação dos ministros. A partir da Igreja de Nova Vida com o Bispo Roberto MacAlister é que o Brasil entra em contato com a teologia da fé. Fica a questão se MacAlister teve ou não contato com Hagin, com o material de Essek e com o New Tought Methaphysics, isso considerando que MacAlister veio do Canadá e não dos EUA. Mas não foi na Igreja de Nova Vida que a teologia da prosperidade teve sua maior expressão. Foi de dissidentes que surgiram as maiores referências do Brasil e talvez do mundo; trata-se da Igreja Internacional da Graça de Deus e da Igreja Universal do Reino de Deus, além da Igreja do Apóstolo Miguel Ângelo. Incrivelmente, todos os três ministérios são oriundos da Igreja de Nova Vida, onde seus respectivos fundadores eram diáconos, tendo todos eles cursado a Escola Bíblica de Fé de Hagin ou cursos com ensinamentos similares que sempre foram a tônica na Igreja de Nova Vida. Foi assim principalmente dessas três lideranças que a teologia da prosperidade alcançou o formato que conhecemos hoje, bastante diferente daquele trazido pelo Bispo Roberto MacAlister. Não é possível negar que o saldo é positivo para o evangelho e o reino de Deus. Apesar das deformações teológicas sofridas pela doutrina inicial apresentada por MacAlister, a dinâmica de vidas transformadas e resgate social nessas igrejas dissidentes no Brasil é imensa, o benefício social incalculável, pois de qualquer forma o fiel desesperançado acaba por ver uma luz no fim do túnel. Ao contrário da Igreja de Nova Vida, a IURD e a Igreja da Graça estabeleceram como alvo a ser atingido a classe menos favorecida, onde exatamente existe o maior nível de carência social. O resultado foi que supriram uma demanda há muito em falta no Brasil e de fato apresentaram ao povo a mensagem de Jesus Cristo. As consequências de um erro teológico tardam, mas não falham; isso é o que mostram as histórias do cristianismo e da igreja. Que possam as consequências do engano no que diz respeito à deformação da teologia da prosperidade ser minimizadas e as benesses do evangelho ser anunciadas para essas denominações serem potencializadas com a ajuda de Deus e empenho de todos nós. A partir da apresentação inicial feita por MacAlister, tendo sofrido modificações e diversas influências em um processo de 27 a teologia da prosperidade-RAHAL.pmd 27 30/09/2011, 14:24 Silas Rahal décadas, o atual modelo de teologia da prosperidade acabou por penetrar nas demais igrejas, até mesmo históricas reformadas e pentecostais históricas, sendo hoje uma hegemonia nas igrejas neopentecostais. Além dessas igrejas no Brasil, existem outras de expressão, entre elas a Igreja Renascer em Cristo e sua dissidente a Igreja Bola de Neve. Apesar de serem todas neopentecostais, é importante frisar que não são todas igrejas neopentecostais que atendem ao sentido dado atualmente à teologia da prosperidade de um certo comércio da fé (o crente entrega sua oferta a Deus, e Ele devolve em dobro ou mais). Nos EUA, a teologia da prosperidade não ganhou tanta força desde seu início, o que motivou o surgimento de cruzadas televisivas e em estádios, não chegando contudo a atingir a visão cristã predominantemente protestante histórica. Há de se considerar, contudo, para os EUA que hoje aquela nação atravessa um momento diferente em sua situação econômica, bastante difícil, o que pode abrir mesmo condições para uma teologia de fé mais agressiva. Já se tem notícia de grandes templos da IURD nos EUA. O tempo dirá se essa teologia passará na prova dos séculos. Por ora, no Brasil, o capitalismo encontrou seu par: a teologia da prosperidade. As igrejasempresa, ou igrejas da prosperidade, tiveram sua expressão máxima e continuam em crescimento a partir dos EUA; hoje estão em todo o planeta, principalmente no Brasil, e nas áreas e continentes mais pobres e não têm data para desacelerar seu crescimento. Talvez quando os recursos do planeta chegarem ao fim, essa estrada também encontre seu destino, ou quando os fiéis desiludidos começarem a entender que o único que ganha carro novo é o pastor dirigente. É objetivo deste trabalho de pesquisa resgatar, na medida do possível, o sentido de prosperidade e vida cristã trazido para o Brasil pelo amado Bispo Roberto MacAlister, bem como acrescentar alguns pontos de interesse bíblico e teológico sobre o mesmo assunto. No ponto de vista desse autor, o Bispo Roberto MacAlister doou sua vida por amor ao Brasil e a Jesus Cristo de Nazaré, inaugurando um novo tempo de bênçãos e alegrias em Jesus Cristo para a nação brasileira. Como diz o celebre pregador:8 “... A religião, a exemplo do amor, é uma finalidade em si mesma. Não pode ser buscada, a fim de fazer o indivíduo sentir-se bem, feliz ou próspero. Só 8 CHAMPLIN, Russel Norman. O Novo Testamento Interpretado. São Paulo: Milenium, 1980. 28 a teologia da prosperidade-RAHAL.pmd 28 30/09/2011, 14:24 A Teologia da Prosperidade pode ser buscada por sua própria finalidade, mas, uma vez que seja achada, transborda de subprodutos como saúde, felicidade e prosperidade. Não pode ser controlada ou manipulada pelos desejos pessoais do homem. Aqueles que pretendem utilizar-se de tais controles não passam de charlatões. Com frequência são seguidos por grande número de pessoas, e a única coisa que pode fazê-los parar é a verdade” (Theodore P. Ferris). 1.2 - New Thought Metaphysics (Metafísica do Novo Pensamento) O lema desse antigo movimento de intelectuais é: “a prática da presença de Deus para propósitos e finalidades práticas”9, e isso já diz muito sobre o que era o movimento aliançado com Kenyon. Novo Pensamento é um movimento filosófico-espiritual e religioso que começou no século XIX e continua a existir até a presente data, inclui teoria e prática de cura; o movimento é também intimamente ligado à chamada ciência cristã, havendo outros movimentos como CIÊNCIA DIVINA, UNIDADE, CIÊNCIA RELIGIOSA, etc... que juntamente com o SEICH-NO-IE representam hoje o expoente no movimento do Novo Pensamento. O nome New Thought Metaphysics veio, na verdade, substituir o nome inicial dado para o movimento MIND CURE ou cura da mente ou pela mente. O New Thought ou Nova Era, conforme o conhecemos, apresenta um mundo de desespero em que nos encontramos, o mundo pósmoderno, e dessa maneira, primeiramente encarando a verdade que é caótica no mundo atual, apresenta dois caminhos a ser considerados de boa opção. Um desses é o caminho da filosofia sapiencial antiga, um retorno às tradições milenares antigas e à sabedoria antiga, que o movimento apresenta como sendo o início de tudo o que existe em termos de conhecimento. Outra opção seria o pensamento da New Age ou nova era do conhecimento, conforme ficamos conhecendo apenas pela designação de Nova Era, adotada pelos estudiosos e seguidores do New Thought Movement. 9 ANDERSON, Alan. New Thought: A Practical American /Spirituality. New York: Crossroad Publishing Company, 2004. 29 a teologia da prosperidade-RAHAL.pmd 29 30/09/2011, 14:24 Silas Rahal 1.3 - O Livro do Gênesis Muito pertinente ao nosso assunto é considerar que vários ou todos os aspectos da vida cristã contemporâneos são apresentados no livro de Gênesis, que deveria talvez ser uma matriz para os demais ou uma síntese de tudo o que estaria por ser apresentado nos demais livros da Bíblia. No Gênesis, o homem sofre a “queda”, ao mesmo tempo em que lhe é apresentado o plano de Deus para sua restituição; neste livro é também proposto ao povo de Israel um tipo de acordo bilateral, onde o cumprimento de certas cláusulas implicaria a obrigação divina em cumprir outras, sempre referentes à posse territorial, aquisição de bens, gado, vitórias militares contra os inimigos e mesmo saúde física. Ora, se não temos aí os ingredientes da mais primitiva teologia da prosperidade, como negar a proposta divina para incentivar seus primeiros fiéis? Essa projeção se encontrou mais claramente expressa em Abraão e dessa forma nominado por pai da fé ou pai da teologia da prosperidade? Seja como for, Abraão foi capacitado por Deus para sua jornada de fé em separar para Deus um povo que fosse de acordo à promessa feita, terra, bens, poder, riqueza.10 De fato, a narrativa bíblica apresenta Abraão como um homem de posses e poderoso mesmo para enfrentar alguns reis. Outra abordagem importante para nossa pesquisa é que, no relato do livro de Gênesis, é inegável a proposta divina de criação a partir da confissão positiva: “e disse Deus... e disse Deus... e disse Deus”. Poderia ter sido de outra forma “e Deus pensou... e Deus pensou... e Deus pensou...”, ou mesmo “e Deus teve um sonho... e Deus teve um sonho... e Deus teve um sonho...”. Mas foi tão somente: “e disse Deus...”. Como poderemos entender tudo o que está no livro de Gênesis à luz de uma teologia coerente, de acordo com o pouco de ciência que possuímos. Não podemos entender tudo o que está escrito, mas o pouco que entendemos não pode fazer naufragar a ciência desenvolvida ao longo de milhares de anos e que, segundo Salomão, é também uma dádiva de Deus para o homem. Podemos, contudo, considerar que não sabemos todas as coisas, fazer nossas as palavras de Daniel, quando diz que “ao homem pertencem as coisas reveladas”. Precisamos nos livrar da obrigação de dar explicação 10 MACALISTER, Roberto. Como prosperar. Rio de Janeiro: Carisma Editora, 1978. Nessa obra, o bispo Roberto apresenta de forma clara a origem e fundamentação da prosperidade bíblica com base nas promessas do AT. 30 a teologia da prosperidade-RAHAL.pmd 30 30/09/2011, 14:24 A Teologia da Prosperidade para todas as coisas, da mesma forma que no século X o mais interessado cientista não poderia explicar uma lanterna elétrica. Nem tudo na Bíblia é mito, nem tudo é histórico, mas tudo é inspirado para a salvação do homem e fazer voltar a comunhão perdida com Deus. Que Moisés dificilmente teria escrito o livro de Gênesis, nós sabemos. Que o relato de Adão e Eva, enquanto início da espécie, dificilmente teria ocorrido, nós sabemos. Resta então nos ater aos fatos enquanto significação teológica básica e inegociável. O homem perdeu a comunhão que tinha com Deus em algum momento e por algum motivo; até que ponto foi essa uma vitória do mal ou um plano de Deus? Também não podemos dar uma resposta lógica a não ser por convicções de fé. Se dizemos que o diabo enganou Eva e Deus, mesmo amando o homem não pôde impedir a separação da humanidade de sua presença, fazemos Deus impotente. Se dizemos que Deus planejou essa “queda”, com todos os sofrimentos a ela pertinentes (guerras, doenças, fome, crianças em profundo sofrimento), declaramos um Deus obstinado. Melhor é nos atermos ao que conhecemos e podemos entender. O homem está distante de Deus e precisa buscar essa religação, esse “religare”, essa religião com Deus. Deus moveu-se na direção do homem, buscando o servo Abraão, um homem diferente dos de sua época o que fazia Abraão ser diferente? Não é certo, mas parece ser sua capacidade de acreditar nas coisas que não eram vistas. O normal para os dias de Abraão era que nada do que não fosse visto seria digno de crédito, a exemplo de Sara, que riu ao lhe ser informado do que viria; esse era mais o tipo da humanidade daqueles dias. Não era assim com Abraão; ele creu, a ponto de deixar a terra de sua parentela, a ponto de olhar para o céu e tentar contar as estrelas, acreditando que de alguma forma poderia fazê-lo. Teve Abraão que ser impedido por Deus em sua contagem quando lhe foi prometido: “farei de ti uma grande nação, em ti serão benditas todas as famílias da terra”. Abraão não sem motivo foi chamado de pai da fé. Abraão creu para a salvação de muitos outros. A linguagem de Deus expressa no livro de Gênesis é aquela da fé, de crer no invisível, e não somente de crer, mas de confessar o que não é visível para sua existência. Essa foi a forma relatada da criação do mundo em que vivemos; Deus professou as coisas e elas vieram à existência. O problema surge quando nos comparamos a Deus e trazemos para a humanidade a suposição de termos os poderes divinos pela palavra. Da mesma forma que Deus trouxe o universo à existência, supomos poder fazê- 31 a teologia da prosperidade-RAHAL.pmd 31 30/09/2011, 14:24 Silas Rahal lo e esquecemos que aquele que quis ser igual a Deus foi destituído de sua glória juntamente com a terça parte do céu. Consideramos também o acordo feito com Abraão no que diz respeito à pretensa prosperidade prometida por Deus, um tipo de barganha santa, um tipo de fé “toma lá – dá cá”. Por que Deus teria instaurado desde cedo um materialismo atrelado à vivência de fé, uma condição de benefícios materiais relativamente à fé e obediência em Sua Palavra? Até que ponto sermos iguais a Deus em imagem e semelhança nos dá condições de fazer o que o Deus criador elencado no Gênesis fez pelo poder da simples expressão de suas palavras? São perguntas para as quais podemos não alcançar respostas; nem por isso podemos ignorar tais questões. 32 a teologia da prosperidade-RAHAL.pmd 32 30/09/2011, 14:24 A Teologia da Prosperidade CAPÍTULO 2 FUNDAMENTOS BÍBLICOS E ALEGAÇÕES 2.1 - Textos Bíblicos Utilizados pelos Pregadores da Prosperidade Os fundamentos da teologia da prosperidade são encontrados em uma leitura bíblica fora do contexto, isto é, uma leitura isolada de trechos bíblicos pertinentes a algum tipo de bênção financeira para o crente. Tais referências bíblicas são fartas no Antigo e Novo Testamentos. O verdadeiro significado do texto é modificado pela interpretação dessa teologia, deixando seu caráter subjetivo (do espírito e sentimento do crente) para ser de caráter objetivo (as riquezas e valores financeiros deste mundo); e nessa base toda uma varredura sistemática é feita nas Escrituras. O homem passa a constituir certo posicionamento hedonista e mesmo se divinizar à medida que ele mesmo passa a ter direito em exigir de Deus tudo o que ele desejar com base nas promessas bíblicas. O homem passa a ser senhor de seu destino, e estando em lugar de exigir de Deus, que, por sua vez, passa a ser servo do homem. Caso não seja atendido o pedido do crente, o motivo alegado será a falta de fé ou de estar o homem em pecado; nesse caso, o inimigo (diabo) agiria de forma contrária, isto é, destituiria o homem de todos os seus bens e riquezas. A saúde também é ponto integrante desses interesses, e da mesma forma é abordado o assunto. Ao final de tudo, tem-se o supercrente em superigrejas. Com a operação de Deus diretamente no culto litúrgico perde-se o caráter essencial do cristianismo, onde Deus passa a atender especificamente os problemas e necessidades individuais, e como em uma prática mágica os crentes passam a exigir de Deus o cumprimento e atendimento de suas petições. Para o fiel cumprimento de tais pedidos, faz-se necessário pronunciar corretamente e com vigor determinadas palavras bíblicas, ao fim das quais deve-se dizer “em nome de Jesus”. Ainda há de se ponderar 33 a teologia da prosperidade-RAHAL.pmd 33 30/09/2011, 14:24 Silas Rahal que, aliado a esse ritual, deve-se exorcizar a pessoa que estaria invariavelmente presa nos braços de satanás, fazendo desse momento uma ocasião de grande impressão emocional. Acreditam, na verdade, que todo o mal que existe na humanidade e no indivíduo é ação direta de satanás e dessa forma deve ser exorcizado, retirando assim o fator subjetivo das diversas situações abordadas pela fé cristã. Os textos bíblicos usados são, como dito acima, retirados do contexto; são do Novo e Antigo Testamentos, sendo usados nas pregações através de repetidas mensagens os mesmos princípios: “Dê a Deus e ele te dará em dobro”; “saúde, dinheiro e tudo o mais o que você pedir”11. Dar dinheiro à igreja para que Deus devolva em dobro é, no mínimo, uma deturpação vil das Escrituras e, de forma torpe, típico do mundo consumista em que vivemos e no melhor modelo da religião pagã. Não podemos esquecer que em At 8.18 Simão foi severamente repreendido por pensar tal coisa. Mateus 17.20 / Lucas 17.6 / João 14.12 / 2 Coríntios 9.6 / Lucas 5.6 Malaquias – exemplo de texto utilizado fora do contexto: 3:8 Roubará o homem a Deus? Todavia vós me roubais, e dizeis: Em que te roubamos? Nos dízimos e nas ofertas. 3:10 Trazei todos os dízimos à casa do tesouro, para que haja mantimento na minha casa, e depois fazei prova de mim nisto, diz o SENHOR dos Exércitos, se eu não vos abrir as janelas do céu, e não derramar sobre vós uma bênção tal até que não haja lugar suficiente para a recolherdes. 2.2 - Resultados Práticos da Pregação da Prosperidade As consequências das práticas apresentadas na teologia da prosperidade, além de pastores ricos e verdadeiros impérios – igrejas, podem ser sentidas naqueles mais pobres que ali depositam tudo o que têm, ou quase tudo, na esperança de ver atendidas suas necessidades imediatas; e feito isso, não têm dinheiro sequer para retornar às suas casas e, o que é pior, ao 11 MAINOTH, Carolina Chalfun. Os grupos neopentecostais nos jogos de poder do tempo presente. Rio de Janeiro: Revista Eletrônica Boletim do Tempo, ano 3, n. 23. Em seu artigo, Carolina define de forma bastante clara o nível de articulação exercido de forma atual pelos pregadores da prosperidade. 34 a teologia da prosperidade-RAHAL.pmd 34 30/09/2011, 14:24 A Teologia da Prosperidade voltarem para sua vida normal, acabam entendendo que, de acordo com sua fé professada na teologia da prosperidade, ainda não alcançaram o nível de fé e vida espiritual necessário para “romper em fé”; muitas vezes acabam moribundos e perdidos nas ruas da amarga desilusão religiosa12. A teologia da prosperidade não é uma doutrina verdadeira da forma como se apresenta, pois contém inverdades as mais diversas. Algumas autoridades já questionaram mesmo o quanto dever-se-ia prover meios de fiscalização das instituições religiosas, mas as consequências da ingerência estatal nas religiões têm mais problemas que soluções, e mesmo os fiéis quando desiludidos são poucos os que buscam os meios legais para o processo contra a igreja13. O evangelho de salvação de Cristo foi modificado para uma salvação da vida material, e para tal busca se voltam os fiéis; é a religião paga e pagã, bem de acordo com o presente tempo capitalista que vive o mundo, bastante conveniente aos ricos deste mundo, para assim justificarem suas riquezas e opulência. Para uma perspectiva dos resultados sociais, econômicos e políticos de tais igrejas da prosperidade, e sua influência na sociedade, no indivíduo, no estado, há de se fazer uma séria pesquisa, que não comporta a presente exposição. Pode-se, contudo, averiguar que, como principal resultado, temos que os movimentos de fé, que são práxis da teologia da prosperidade, o quanto mais se distanciam da real significação dos textos bíblicos, ofuscam a visão dos que dele se aproximam e mais se distanciam da fé verdadeira e da paz que é oferecida na mensagem de Cristo. O tipo de consolação pertinente aos valores de Cristo é deixado para trás em busca de uma conceituação financeira e de saúde e de vitória em todos os aspectos da vida. A religião muda de prática espiritual para material-financeira, e a vida em Cristo deixa de ser vida em Cristo para ser qualquer outra coisa. Um dia a casa cai. A desilusão da massa é algo que normalmente leva alguns anos ou décadas, o que já vem ocorrendo nos EUA com o crescente esvaziamento das igrejas neopentecostais; entretanto a desilusão do indivíduo já é algo que se faz sentir e não passa desapercebido ante as frustrações de uma religião que não funciona como prometido. Não é possível, só o pastor é que ganha o carro do ano? ROMEIRO, Paulo. Decepcionados com a graça: esperanças e frustrações no Brasil neopentecostal, São Paulo: Mundo Cristão, 2005. 13 Idem 12. 12 35 a teologia da prosperidade-RAHAL.pmd 35 30/09/2011, 14:24 Silas Rahal 36 a teologia da prosperidade-RAHAL.pmd 36 30/09/2011, 14:24 A Teologia da Prosperidade CAPÍTULO 3 UMA PROSPERIDADE BÍBLICA 3.1 - O Padrão Bíblico Gostaria de buscar uma conciliação do verdadeiro sentido da prosperidade bíblica, que está ao alcance de todo crente, que foi distorcida na dita teologia da prosperidade. Existe uma vontade de Deus para o cristão que em dadas circunstâncias possa se revelar em bênçãos materiais e em uma dita prosperidade bíblica; são vários os textos que merecem nossa análise. Inegável é que existe fundamento na assim chamada teologia da prosperidade; é o próprio apóstolo Paulo que salienta que quem plantar mais vai colher mais14, isso após se referir à coleta para as igrejas de Jerusalém. Mas se não houvesse qualquer tipo de base bíblica, não seria teologia bíblica de qualquer forma. Existe legalidade temática e bíblica para abordagens as mais diversas, que vêm atender um sem-número de possíveis interpretações dos ensinos de Jesus. Negar isso é ir de encontro à pluralidade de denominações e manifestações da fé cristã. Até mesmo algumas doutrinas tidas pelo cristianismo ortodoxo como não cristãs encontram suas bases na Escritura bíblica. Por outro lado, não é possível negar as palavras de confissão positivas do Cristo, posto que é o mesmo Jesus que apresenta o poder da fé para dar ordens às montanhas e árvores e outras considerações, como a do grão de mostarda e também a parábola do servo mau, que deveria ter multiplicado seus bens, e também a multiplicação de pães e peixes, etc... Isso para não 14 Bíblia, 2 Cor 9.6. 37 a teologia da prosperidade-RAHAL.pmd 37 30/09/2011, 14:24 Silas Rahal falar nos textos veterotestamentários, onde é o próprio Deus que manda fazer prova d’Ele, se Ele não há de dar retribuição dobrada pelo dízimo, etc... Como contestar o que se apresenta de forma irredutível? Há de se analisar o contexto e, mesmo assim, não se poderá negar o positivismo contido em certos trechos bíblicos. Uma das considerações dos estudiosos15 é que de forma paradoxal a doutrina da nova era, combatida pelos neopentecostais, seria ela própria a origem provável do evangelho de confissão positiva e da teologia da prosperidade. Mas o que dizer se a própria origem de tal pensamento encontra aceitação em certos trechos bíblicos? A IURD seguramente apresenta uma caricatura do material bíblico acerca da relação oferta – bênção de Deus e do movimento de fé contido nas Escrituras. Isso não nos permite, contudo, ir de um polo a outro, sem paradas. Afinal, a religião cristã é, antes de tudo, um movimento de fé; quando diz a Escritura, sem ela é impossível agradar a Deus. Corremos o risco de, ao rebater a teologia da prosperidade (movimento de fé), acabar no fim de tudo em combate à própria religião ensinada por Cristo, uma religião de fé. O que dizer também acerca de certos efeitos socializadores trazidos pelas igrejas neopentecostais; os benefícios da confissão positiva do evangelho têm como efeito entre outros a propagação da ética moral cristã nas suas mais intensas verdades. Seguindo essa linha de pensamento, não é difícil ver a luz divina nas ideias weberianas16, onde o ascetismo cristão adentra pela vida cotidiana e faz com que a simples função do autônomo mergulhe nas profundas verdades cósmicas da salvação. Se o capitalismo começou pelas ideias cristãs da reforma, onde em dado momento deixa para trás o mundo da salvação exclusiva pela fé ensinada por Lutero, agora contempla os caminhos puritanos em um novo entendimento, onde o simples artesão passa a ser instrumento do criador do universo e mesmo em seu ofício está a serviço do Criador. Ora, se o capitalismo de fato começou na igreja e o que era tido como mundano assim deixou de ser para entrar na esfera do que é sagrado, da Hank Hanegraaff em sua obra best-seller Christianity In Crisis: 21st Century assegura a existência do gérmen, mesmo na sua base de todo o movimento da nova era, nos textos bíblicos. 16 WEBER, Max. A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo. São Paulo: Editora Martin Claret, 2007. 15 38 a teologia da prosperidade-RAHAL.pmd 38 30/09/2011, 14:24 A Teologia da Prosperidade mesma forma o que era mundano, a saber a multiplicação das riquezas, antes somente para sustento, agora para grandeza, passou mais uma vez promovido pela própria prática de fé a uma dimensão do sagrado, a saber a teologia da prosperidade. Como Jung denota17, todos os males da mente estariam ligados ao sagrado ou, em última instância, à falta do sagrado e ao arquétipo Deus. Também pode ser considerado o governo deste mundo a uma adequação do sistema financeiro consumista a uma correspondente ideologia, por etapas, primeiro a sacralização do sustento (ética protestante ascetista mundana) e, em um segundo momento, a sacralização da multiplicação de riquezas (multiplicação de pães e peixes – teologia da prosperidade). Nessa sequência de provisões teológicas, encontra-se o abuso / caricatura promovido por igrejas neopentecostais, mas de forma alguma pode ser confundida essa deformação e vista na forma de uma absolutização da ideia do erro. Existe uma prosperidade bíblica. 3.2 - Textos Bíblicos Os inúmeros registros bíblicos apontam para germes da confissão positiva do evangelho em Jesus e nos discípulos, apóstolos e na própria igreja primitiva; podemos assim enumerar entre vários outros no Antigo e Novo Testamentos: Mateus 17.20 confissão positiva nas palavras de Jesus: E Jesus lhes disse: Por causa de vossa pouca fé; porque em verdade vos digo que, se tiverdes fé como um grão de mostarda, direis a este monte: Passa daqui para acolá, e há de passar; e nada vos será impossível Lucas 17.6 confissão positiva nas palavras de Jesus: E disse o Senhor: Se tivésseis fé como um grão de mostarda, diríeis a esta amoreira: Desarraiga-te daqui, e planta-te no mar; e ela vos obedeceria. 17 ANDERSON, Alan. New Thought: A Practical American Spirituality. New Yourk: Crossroad Publishing Company, 2004. 39 a teologia da prosperidade-RAHAL.pmd 39 30/09/2011, 14:24 Silas Rahal João 14.12 confissão positiva nas palavras de Jesus: Na verdade, na verdade vos digo que aquele que crê em mim também fará as obras que eu faço, e as fará maiores do que estas, porque eu vou para meu Pai. 2 Coríntios 9.1-15 princípio de recompensa atrelado à oferta a ser feita à igreja: 6 E digo isto: Que o que semeia pouco, pouco também ceifará; e o que semeia em abundância, em abundância ceifará. esclarimento quanto ao caráter da oferta a ser entregue e estado de espírito do ofertante: 7 Cada um contribua segundo propôs no seu coração; não com tristeza, ou por necessidade; porque Deus ama ao que dá com alegria. princípio de recompensa atrelado à oferta a ser feita à igreja: 8 E Deus é poderoso para fazer abundar em vós toda a graça, a fim de que tendo sempre, em tudo, toda a suficiência, abundeis em toda a boa obra. esclarimento quanto ao caráter da oferta a ser entregue e estado de espírito do ofertante: 9 Conforme está escrito: Espalhou, deu aos pobres; a sua justiça permanece para sempre. princípio de recompensa atrelado à oferta a ser feita à igreja: 10 Ora, aquele que dá a semente ao que semeia, também vos dê pão para comer, e multiplique a vossa sementeira, e aumente os frutos da vossa justiça. Lucas 5 4 E, quando acabou de falar, disse a Simão: Faze-te ao mar alto, e lançai as vossas redes para pescar. confissão positiva nas palavras de Pedro: 5 E, respondendo Simão, disse-lhe: Mestre, havendo trabalhado toda a noite, nada apanhamos; mas, sobre a tua palavra, lançarei a rede. 6 E, fazendo assim, colheram uma grande quantidade de peixes, e rompia-se-lhes a rede. 7 E fizeram sinal aos companheiros que estavam no outro barco, para que os fossem ajudar. E foram, e encheram ambos os barcos, de maneira tal que quase iam a pique. Atos dos Apóstolos 19.25 40 a teologia da prosperidade-RAHAL.pmd 40 30/09/2011, 14:24 A Teologia da Prosperidade referência ao significado do têrmo prosperidade=dinheiro: Aos quais, havendo-os ajuntado com os oficiais de obras semelhantes, disse: Senhores, vós bem sabeis que deste ofício temos a nossa prosperidade; 1 Coríntios 6.2 referência ao significado do termo bíblico prosperidade=dinheiro: No primeiro dia da semana cada um de vós ponha de parte o que puder ajuntar, conforme a sua prosperidade, para que não se façam as coletas quando eu chegar. 3.3 - O termo prosperidade nos dias de Jesus Certa feita, quando me encontrava em um culto neopentecostal bastante emotivo e dinâmico, muito bom mesmo, ouvi quando o pregador de forma veemente tentou ensinar que o vinho que Jesus havia transformado a partir da água, nas bodas de Caná da Galileia, na verdade não era vinho, mas suco de uva. Aquilo doeu fundo no coração e na alma; não fosse o imenso amor daquele pastor pelos jovens que compunham a assistência daquele culto, eu me teria feito sair daquele lugar, tamanha ignorância dos assuntos bíblicos. Seguramente, as boas intenções daquele homem estavam além de sua ignorância e dos enganos exegéticos de quem pouca instrução teológica teve, estavam no esforço desmedido em salvar aqueles jovens e os levar a uma conversão em suas vidas. E desse ponto chegamos à questão do termo prosperidade nas Escrituras Sagradas. Algumas diferentes aplicações nas Escrituras: Significando continuidade da descendência: Ester 10.3 – Porque o judeu Mardoqueu foi o segundo depois do rei Assuero, e grande entre os judeus, e estimado pela multidão de seus irmãos, procurando o bem do seu povo, e proclamando a prosperidade de toda a sua descendência Significando riqueza material generalizada: Jó 21.13 – Na prosperidade gastam os seus dias, e num momento descem à sepultura Vida vitoriosa em todos os sentidos: Salmo 73.3 – Pois eu tinha inveja dos néscios, quando via a prosperidade dos ímpios. 41 a teologia da prosperidade-RAHAL.pmd 41 30/09/2011, 14:24 Silas Rahal Significando mantimentos: Salmos 122.7 – Haja paz dentro de teus muros, e prosperidade dentro dos teus palácios. Significando paz em tudo: Eclesiastes 7.14 – No dia da prosperidade goza do bem, mas no dia da adversidade considera; porque também Deus fez a este em oposição àquele, para que o homem nada descubra do que há de vir depois dele. Significando ganhos financeiros e dinheiro: Atos dos Apóstolos 19.25 – Aos quais, havendo-os ajuntado com os oficiais de obras semelhantes, disse: Senhores, vós bem sabeis que deste ofício temos a nossa prosperidade. Significando medida e nível de vida e dinheiro (de ganho financeiro médio): 1 Coríntios 16.2 – No primeiro dia da semana cada um de vós ponha de parte o que puder ajuntar, conforme a sua prosperidade, para que não se façam as coletas quando eu chegar. Prosperidade (do latim prosperitate) refere-se à qualidade ou estado de próspero, que, por sua vez, significa ditoso, feliz, venturoso, bem-sucedido, afortunado18. Naturalmente, pode-se depreender diversos outros significados para a palavra prosperidade, mas nos importa especialmente aquela descrita nos trechos de Atos dos Apóstolos e em Coríntios. Sim, prosperidade podia significar dinheiro e valoração de finanças em geral. Dessa forma, podemos sem sombra de dúvida avançar nesse terreno bastante confuso, estabelecendo o que o apóstolo de fato quis dizer quando haveria um presenteamento financeiro por parte de Deus aos fiéis bastante e precisamente identificado em 2 Coríntios 9 – ele diz que Deus há de retribuir e multiplicar os recursos financeiros daqueles que muito semeiam... 2 Coríntios 9.1-15 princípio de recompensa atrelado à oferta a ser feita à igreja: 6 E digo isto: Que o que semeia pouco, pouco também ceifará; e o que semeia em abundância, em abundância ceifará. esclarimento quanto ao caráter da oferta a ser entregue e estado de espírito do ofertante: 18 Novo Dicionário Eletrônico Aurélio, versão 5.0 e Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, 2001. 42 a teologia da prosperidade-RAHAL.pmd 42 30/09/2011, 14:24 A Teologia da Prosperidade 7 Cada um contribua segundo propôs no seu coração; não com tristeza, ou por necessidade; porque Deus ama ao que dá com alegria. princípio de recompensa atrelado à oferta a ser feita à igreja: 8 E Deus é poderoso para fazer abundar em vós toda a graça, a fim de que tendo sempre, em tudo, toda a suficiência, abundeis em toda a boa obra; esclarimento quanto ao caráter da oferta a ser entregue e estado de espírito do ofertante: 9 Conforme está escrito: Espalhou, deu aos pobres; a sua justiça permanece para sempre. princípio de recompensa atrelado à oferta a ser feita à igreja: 10 Ora, aquele que dá a semente ao que semeia, também vos dê pão para comer, e multiplique a vossa sementeira, e aumente os frutos da vossa justiça. Essas ofertas aqui relatadas são aquelas referidas em 1 Coríntios 16.1 e 2 para os crentes de Jerusalém/Judeia, que naquela ocasião passavam necessidades financeiras. Tratava-se de uma campanha de arrecadação em todas as igrejas do ministério do apóstolo Paulo, onde, apresentando o exemplo de uma igreja, ele encorajava outras a ofertar ainda mais. Nessa específica arrecadação em Corinto, o apóstolo dá instruções em relação ao primeiro dia da semana, como em um tipo de primícias, explicando também o que deve ser feito conforme as possibilidades individuais quando diz “conforme sua prosperidade”. A mesma recomendação o apóstolo apresenta em 2 Coríntios. Em ambas as cartas, o apóstolo apresenta características de uma coleta que seria individual, sistemática, proporcional e cuidadosamente administrada, deixando claro um modelo bastante racional nesse negócio das ofertas. Apesar da orientação para que cada um ofertasse segundo sua possibilidade (2 Co 8.12). O apóstolo não mede elogios à igreja da Macedônia, que, mesmo sendo pobre, ofertou bem acima de sua possibilidade para a mesma campanha da igreja de Jerusalém, conforme se apresenta em 2 Coríntios 8.2-5. Em 2 Coríntios 8.7, o apóstolo faz nova exortação à igreja de Corinto, onde ele elogia e afirma as virtudes da igreja em fé, palavra, ciência e em toda a diligência e no amor para com o apóstolo, exortando que da mesma forma pudesse a igreja proceder na arrecadação da oferta para Jerusalém. A mim parece uma campanha financeira bastante acirrada, uma daquelas petições de dinheiro tão desconfortáveis nos cultos, às quais dificilmente 43 a teologia da prosperidade-RAHAL.pmd 43 30/09/2011, 14:24 Silas Rahal alguém pode dizer não sem se sentir deslocado. De forma um pouco paradoxal e conflitante, o mesmo insistente pedinte apresenta certos sentimentos com que se deve praticar essa doação: 2 Coríntios 9.5 – oferta como bênção e não como avareza; 2 Coríntios 9.7 – oferta com alegria e não por tristeza ou por necessidade. Após tantos e insistentes pedidos do apóstolo, até mesmo sugerindo umas igrejas em relação ao valor de oferta dada por outras: 2 Coríntios 8.1 – a oferta dada pela igreja da Macedônia; 1 Coríntios 16.1 – a oferta dada pela igreja da Galácia. Note que há indícios de que a igreja da Macedônia seria um tipo de rival da igreja de Corinto; se assim fosse, o apóstolo com tais comentários teria esperado alcançar maior motivação da igreja de Corinto para que sua oferta fosse maior que a da Macedônia; estratégia pura, não é? Outra consideração sobre o pedido do apóstolo à igreja de Corinto é que ele identifica na muita oferta financeira uma submissão espiritual de caráter fundamental à vida do crente, como que sendo um selo de um modo de vida altamente espiritual. 2 Coríntios 9.2 e mais que isso fica apresentada a oferta em dinheiro como uma “submissão ao evangelho de Cristo”, como em 2 Coríntios 9.13. O apóstolo ainda apresenta o ato de ofertar aos irmãos pobres como um ato de louvor a Deus em 2 Coríntios 9.12. 44 a teologia da prosperidade-RAHAL.pmd 44 30/09/2011, 14:24 A Teologia da Prosperidade CAPÍTULO 4 PROSPERIDADE CONTEMPORÂNEA 4.1 - Tradicionais x Neopentecostais Em meio a todos os enganos neopentecostais e da igreja histórica, incrivelmente pode haver salvação. O que é impossível aos homens, para Deus é possível.19 Quero dizer com isso que não adianta trocarmos acusações, como a igreja católica fez com a protestante em séculos passados; no fim das contas, ambas cometiam os mesmo erros. Não adianta agora igrejas históricas trocarem farpas com igrejas neopentecostais e pentecostais e entre si todas essas, se no fim todas cometem os mesmos erros ou com algumas variações outros de forma ímpar. Cada igreja tem seu formato e seu chamado em atendimento a um tempo e às vezes até mesmo a um certo lugar. Algumas se adaptam ao tempo e necessidades, outras não; nem por isso deixam de cumprir sua finalidade na multiforme graça e ação divinas. Em todas parece que penetrou o mal deste século, quando consideramos o capitalismo selvagem em todo o seu furor e desumanização para com o homem e o planeta (escassez crescente de recursos planetários); está presente nas igrejas (em quase todas não católicas) através da teologia da prosperidade. Mesmo assim, no seio da comunidade cristã opera a salvação da mensagem de Jesus Cristo. E não era assim na Arca de Noé: junto com os animais estava o mau cheiro, e ali mesmo estava a salvação de Deus. Também na mesa com Cristo estava o traidor; parece mesmo que essa seria a sina da salvação em Deus para o homem, o joio e o trigo crescendo juntamente na seara da igreja. 19 Bíblia, Mt 19.26. 45 a teologia da prosperidade-RAHAL.pmd 45 30/09/2011, 14:24 Silas Rahal 4.2 - Na sua base como e quando surgiu a teologia da prosperidade conforme a conhecemos hoje. A Igreja de Nova Vida do Bispo Roberto MacAlister Até 1970, as igrejas históricas dividiam o espaço brasileiro com algumas igrejas pentecostais; foi quando surge a Igreja de Nova Vida com o Bispo Roberto Macalister, que introduz o culto neopentecostal conforme nós o conhecemos, além, é claro, da teologia da prosperidade. Até que ponto, entretanto, era a teologia da prosperidade apresentada por Roberto Maclister equivalente à forçosa teologia da prosperidade apresentada no seu expoente máximo na IURD? Cabe neste ponto do nosso trabalho uma volta às obras de Roberto MacAlister20 para desvendarmos esse fato e sanarmos essa dúvida. Teria Roberto MacAlister apresentado a prosperidade capitalista para a igreja brasileira? A apresentação de um conceito selvagem de prosperidade foi obra da IURD ou seria anterior a essa? Surgiu mesmo no Brasil? Na revista NOVA VIDA de número 06, de 1982, p. 7 e 8, o Pastor Tito Oscar21, um dos braços de Roberto MacAlister, no tópico “Como ser rico mesmo sendo pobre”, orienta acerca de dar e receber a partir do texto bíblico da viúva pobre de Lucas 21.1-4. Bem como no texto da viúva de Sarepta, 1 Reis 17, em ambos os casos o futuro bispo Tito orienta, no melhor estilo MacAlister22, que se deve dar na medida do que se tem e não do que não se tem; fica isso claro no início da matéria “Jesus está tentando fazer-nos compreender que Ele jamais pede o que não podemos dar; do rico Ele requer o que lhe é possível oferecer, procedendo igualmente com relação ao pobre”. Parece mesmo que, em toda a citada revista, uma singela parte é reservada ao assunto dinheiro, e no mais é enfatizada uma linguagem de devoção e dons do Espírito Santo. As principais obras de Roberto MacAlister em relação à prosperidade bíblica são: Dinheiro, Um assunto Altamente Espiritual e Como Prosperar, onde em termos básicos de forma resumida o autor apresenta suas linhas de entendimento. 21 Tito Oscar ficou conhecido como um dos mais fiéis discípulos do Bispo Roberto MacAlister no que diz respeito à sua doutrina. 22 O estilo de pregar e ensinar as doutrinas bíblicas ficou praticamente sem comparação a qualquer outra antes ou depois dele, com características ímpares e expressões que ficaram célebres. 20 46 a teologia da prosperidade-RAHAL.pmd 46 30/09/2011, 14:24 A Teologia da Prosperidade No livro “Dinheiro: Um assunto altamente espiritual”23, o Bispo Roberto faz a seguinte declaração: “Durante mais de 25 anos de ministério sem falhar uma única vez, tenho assumido o púlpito com duas coisas preparadas: minha mensagem bíblica e o apelo às ofertas. Pois eu sempre soube que nenhuma das duas pode ser improvisada, resultando quase sempre a improvisação em fracasso”. A visão sobre o dinheiro que MacAlister tinha ganharia em seus diáconos Edir Macedo, R. R. Soares e Miguel Ângelo uma abordagem diferente, bem mais agressiva, principalmente no caso de Edir Macedo. Não seria o caso de aplicar-se aqui aquele dito popular onde o aluno se tornou superior ao mestre, pois, nesse caso, o mestre Roberto jamais pretendeu distorcer os ensinos de Jesus relativos ao dinheiro das ofertas. Bispo Roberto, para aqueles que tiveram o privilégio de conhecê-los pessoalmente, tinha um modo de vida bastante simples, com residência modesta em um apartamento no Flamengo/RJ. Recordo-me que, em certo culto, ao final, ele anunciou que havia recebido uma grande bênção de Deus e que era algo que ele muito esperava. Ao fim do culto, ele deixou a igreja dentro de um veículo Mercedes Benz, bastante antigo... No interior do veículo podia-se ver a expressão de alegria do querido Bispo Roberto, acenando a todos, como que dizendo: “Tá vendo só, Deus é bom...” Ele acenou na minha direção e com um sorriso foi embora. A concepção de prosperidade financeira que tinha o Bispo Roberto estava mais no aspecto da satisfação pessoal de ter um Mercedes Benz velho do que em alguma loucura megalomaníaca imperial. Com uma análise eclesiológica da Igreja de Nova Vida poderemos entender um pouco da obra iniciada pelo Bispo Roberto; dessa forma poderemos ter uma visão mais clara da distorção sofrida pela doutrina inicial. A Igreja de Nova Vida, fundada pelo Bispo Roberto MacAlister no Rio de Janeiro em 1970, desde seu início apresentou conservadorismo no que diz respeito à eclesiologia. A teologia é de prosperidade, ou teologia da fé, onde com certo equilíbrio é feito o convite para que o fiel entregue a Deus dízimos e ofertas com vistas à sua bênção NÃO apenas material, mas de forma a alcançar todos os setores da vida humana. Ficou conhecido o 23 MACALISTER, Roberto. Dinheiro, Um Assunto Altamente Espiritual. Rio de Janeiro: Carisma Editora, 1981. 47 a teologia da prosperidade-RAHAL.pmd 47 30/09/2011, 14:24 Silas Rahal dito do Bispo Roberto “que Deus os abençoe rica e abundantemente”. Conforme já vimos, a práxis do Bispo Roberto nada tem a ver com o que é praticado hoje nas igrejas. Na teologia da prosperidade, apresentada pelo Bispo Roberto, até hoje é mantida uma certa cautela no quesito finanças, um tipo de discrição com ênfase na vida devocional dos fiéis. A pregação é feita com leitura bíblica mediante interpretação livre do pregador, que busca empregar as verdades bíblicas em diversas interpretações ao cotidiano do crente (outra das práticas do Bispo Roberto que penetrou nas igrejas no Brasil). Não é raro o caso de um mesmo texto bíblico pregado por pastores da Igreja de Nova Vida apresentar vários significados diferentes, sempre de cunho devocional aplicado ao cotidiano. Com o falecimento do Bispo Roberto, muitas ramificações da Igreja de Nova Vida surgiram, sendo que em todas elas praticamente permanece o modelo eclesial conservador. Um colégio de bispos, tendo à frente o Bispo Primaz e abaixo os pastores, diáconos e obreiros. A administração das igrejas é mediante um tipo de aliança e concordância mútua, não havendo centralização do poder administrativo a nível de ministério nacional, a não ser na igreja local, onde o pastor ou bispo em seu lugar representa autoridade máxima e inquestionável. Grosso modo, o pastor ou bispo tem poder total de decisão, não sendo preciso que qualquer questão seja submetida a voto. Existe, entretanto, em vários casos, um tipo de aconselhamento em que o Bispo ou Pastor dirigente pode ouvir conselhos do corpo de bispos ou demais pastores; quase sempre os conselhos são atendidos ou pelo menos considerados. O modelo é episcopal, onde os membros são relacionados como fiéis, sem poder de voto ou decisão nas questões de ordem administrativa ou doutrinária. Não é incomum, a exemplo do que fazia o fundador, serem pastores ou membros convidados a se retirar quando discordam da opinião da liderança. Quanto ao proselitismo, não é dada grande ênfase, parecendo que o ministério está firmado em um pequeno, mas coeso rebanho. A teologia é neopentecostal com certos diferenciais desses que foram os pioneiros no Brasil. Em um antigo folder de assinatura impressa pelo Bispo Roberto é informado o que permanece a marca da Igreja de Nova Vida e seu modelo eclesial e teológico: “Em nossas igrejas certamente você desfrutará do poder de Deus através da oração...” Outra ênfase eclesiológica da Igreja de Nova Vida, um pouco sem novidade atualmente, mas certamente presente no ministério até hoje, é a liberalidade no que diz respeito a usos e costu- 48 a teologia da prosperidade-RAHAL.pmd 48 30/09/2011, 14:24 A Teologia da Prosperidade mes. Na revista Nova Vida, numero 6, o Bispo Roberto orienta e interpreta os dizeres apostólicos no sentido de que “o reino de Deus não consiste numa lista de proibições ou de qualquer tipo de legalismo”. Dessa forma, o aspecto cúltico da Igreja de Nova Vida sempre foi e continua sendo uma expressão tranquila de louvor e ritos sagrados, sem exageros de forma, não atrelados a maneirismos passageiros, por um lado, e, por outro lado, não sujeitos às limitações da tradição mais formal. Podemos elencar a eclesiologia da Igreja de Nova Vida como conservadora, mas não tradicionalista. É conservadora no sentido de que a centralização de poder administrativo, doutrinário e de prática de culto seja fortemente mantida. Não é, contudo, tradicionalista, considerando que as diversas congregações têm peculiaridades respeitadas e consideradas pela liderança; nesse sentido, o ministério teve sempre um olhar amistoso para com as diferentes tendências das igrejas locais (e mesmo para outros ministérios). É tradicional por outra abordagem, ao preservar tradições desenvolvidas no âmbito ministerial interno e preservadas já há décadas, como o conselho de bispos, a reunião do presbitério, etc... O positivismo expresso no carisma da igreja, bem como cultos de cura e busca de dons pentecostais são uma das marcas litúrgicas dessa igreja, que, de forma incomum, se não único, apresenta um tipo de equilíbrio entre o modelo teológico reformado e o carismático. Pode mesmo ser considerado um ministério reformado carismático na sua forma de culto, já que preserva mesmo trajes de culto reformado (gola clerical, veste roxa para os bispos, etc...) e outras tradições. A confissão positiva do evangelho é também largamente empregada e ensinada no seio da igreja, como foi deixado por seu fundador. 4.3 - Problemas Eclesiais Um dos conhecidos problemas do ministério, apontado por ex-membros e simpatizantes, é que nunca foi apresentada uma abordagem doutrinária mais profunda ao corpo da igreja, havendo sempre um tratamento igualitário no que diz respeito a pregações da Bíblia, com interpretação livre e aplicação à vida cotidiana. Certa feita, no ano de 1988, enquanto o Bispo Roberto pregava, um homem levantou no culto de domingo de manhã e gritou: “O povo quer doutrina!”. Repetiu o grito até ser colocado para fora pelos obreiros. Essa tônica permanece em um tipo de eclesiologia de cristandade, onde pastores 49 a teologia da prosperidade-RAHAL.pmd 49 30/09/2011, 14:24 Silas Rahal leigos apresentam mensagens e meditação bíblica, vulgarmente chamadas de “água com açúcar”, normalmente mensagens de fé. Ao contrário das eclesiologias neopentecostais contemporâneas, onde o assunto dinheiro é levado ao extremo, na Igreja de Nova Vida parece não haver grande interesse nesse aspecto; antes de forma moderada é abordada uma mensagem de cura para o corpo, estabilidade emocional do cristão e certa prosperidade financeira, como disse de forma equilibrada. Tal como o fundador, essa tradição de mensagem continua a ser apresentada no ministério em todas as suas ramificações. Não parece ser o caso de uma falta de condições em apresentar um melhor estudo teológico, haja vista que, a começar pelo Bispo Roberto e mesmo seu filho, o Bispo Walter, ambos tenham realizado profundos estudos teológicos de nível superior em grandes centros de estudo fora do Brasil. Nada impediria, portanto, que os bispos pudessem ensinar a teológica acadêmica a seus pastores, mas isso nunca foi feito anteriormente. Atualmente já existem algumas iniciativas. Renovar eclesiologicamente a Igreja de Nova Vida é tarefa tão árdua quanto seria convencer o Bispo Roberto MacAlister a não desligar administrativamente as igrejas da sede, como ele fez no primeiro racha que houve na Igreja de Nova Vida. Entretanto, se os pastores do ministério pudessem ter o devido ensino teológico e com a orientação correta, dadas as características de profundo zelo e amor ao ministério que possuem, creio que a Igreja de Nova Vida seria tremendamente impactada de forma positiva, pois onde falta a instrução teológica, ali estão a fé e a vontade para realizar a obra de Deus e para levar a mensagem de Jesus a todos os aflitos, tal é o espírito desses pastores da Igreja de Nova Vida. Essa tarefa ficaria, contudo, limitada, já que a Igreja de Nova Vida sofreu nos últimos anos grande quantidade de evasão de líderes, pastores e membros, que iniciaram “outras” igrejas de Nova Vida. Dois maiores referenciais permanecem ativos, sendo um desses a Igreja Cristã de Nova Vida, com o Bispo Walter MacAlister, filho do Bispo Roberto, e as demais no Rio de Janeiro, com o Bispo Tito, Miguel Incuto e outros. Nesses casos, atualmente, esforços têm sido feitos pela liderança quanto ao estudo teológico para os pastores. Quanto ao sistema eclesiológico, no que diz respeito ao modelo de governo, administrativo e doutrinário, pouco se poderia fazer, já que o modelo episcopal centralizado e absolutista foi a marca de modelo e doutrina do que foi ensinado pelo fundador ao ministério desde o princípio. Se algo assim ocorresse, já não seria a mesma igreja, mas outro ministério que estaria surgin- 50 a teologia da prosperidade-RAHAL.pmd 50 30/09/2011, 14:24 A Teologia da Prosperidade do. Uma eclesiogênese seria a única possibilidade de um surgimento de um novo modelo de governo para esse honrado e já tradicional ministério; mesmo assim, é impossível dizer como o corpo de fiéis poderia reagir na igreja que apresenta sinais de desgaste por tantas evasões de membros e líderes para outros ministérios mais “comerciais” e agressivos. A tradição da Igreja de Nova Vida manteve o rito e a doutrina do ministério e de seu fundador quase fiéis e intocados às mensagens missionárias, e, para a época, revolucionárias, do saudoso Bispo Roberto MacAlister; foram, são hoje e para sempre uma contribuição inestimável para o alargamento do evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo no Brasil. 51 a teologia da prosperidade-RAHAL.pmd 51 30/09/2011, 14:24 Silas Rahal 52 a teologia da prosperidade-RAHAL.pmd 52 30/09/2011, 14:24 A Teologia da Prosperidade CAPÍTULO 5 CONSIDERAÇÕES DA DOUTRINA BÍBLICA 5.1 - Simonia: oferecer dinheiro para alcançar favores eclesiais ou condição privilegiada24 Em Atos 8.9-24, o caso de Simão, o mágico, é dos mais assustadores relatos do livro de Atos dos Apóstolos. Vendo “sinais e grandes maravilhas” e também que sobre todos os que eram impostas as mãos vinha o Espírito Santo, Simão ofereceu dinheiro para receber esse poder, ao que foi imediatamente e severamente repreendido por Pedro para a sua perdição. Pedro não somente repreende, mas adverte que o dom de Deus não é alcançado por dinheiro.Veja que, nesse caso, o texto se refere sob uma abordagem aos dons do Espírito Santo e de outra forma aos dons, dádivas dadas por Deus ao homem. Pode muito bem, sem qualquer constrangimento da Escritura, ser compreendido que se refere a uma bênção divina, que o entendimento de que as bênçãos de Deus podem ser comercializadas e estão à venda não somente é um engano, mas pode se reverter contra aquele que assim procede25.O texto bíblico é rico em advertência e explicação do fato, uma vez que Pedro faz uma série de exposições em relação ao coração de quem assim procede: 1 - “tu não tens parte nem sorte nesta palavra”; 2 - “teu coração não é reto diante de Deus”; 3 - “tua iniquidade”; 4 - “estás em fel de amargura”; 5 - “estás em laço de iniquidade”. 24 25 Dicionário Brasileiro de Teologia/Fernando Bortolleto Filho, organizador, São Paulo: ASTE, 2008. Em sua obra O Novo Testamento interpretado, Russel Norman enfatiza a condenação divina sobre os que são mercenários com as coisas sagradas e pertinentes ao evangelho de Jesus Cristo. 53 a teologia da prosperidade-RAHAL.pmd 53 30/09/2011, 14:24 Silas Rahal São feitas por Pedro quatro diferentes colocações em relação ao estado espiritual de quem tenta comprar os favores de Deus com dinheiro. Eu digo de quem tenta comprar, pois é lógico que os favores de Deus não podem ser comprados, nem haveria, como diz o livro de Salmos, dinheiro algum no mundo ou recursos capazes de pagar nossas vidas. A misericórdia de Deus sobre o homem não pode ser mensurada, medida ou pesada, muito menos comprada. Ainda assim Pedro muito bem apresenta os erros graves que incidem sobre aquele que dessa forma se aproxima de Deus, pensando poder comprar seus favores. Pedro apresenta também consequências: 1 - “o teu dinheiro seja contigo para perdição” (o próprio dinheiro de quem procede dessa forma será para essa pessoa sua ruína e destruição, e quantas pessoas não conhecemos que encontraram sua desgraça na própria riqueza). 2 - “tu não tens parte nem sorte nesta palavra” (a pessoa que assim procede não participa ou deixa de participar na Palavra de Deus em suas promessas e bênçãos contidas na Bíblia; Pedro apresenta aqui um verdadeiro processo de exclusão das bênçãos, ao contrário do que promete a distorção da teologia da prosperidade). A proposta de Pedro feita àquele homem foi uma proposta de arrependimento e salvação, não de destruição, não de condenação, mas Pedro desejava que o erro fosse corrigido e o mal extirpado. Pedro desejava a salvação da alma de Simão e mediante tais advertências e correções da doutrina de Deus convidou aquela vida ao arrependimento. Nós cremos que o discurso apologético não seja para a condenação, e sim para a salvação das almas, para o arrependimento e o conserto do coração, para o conhecimento da verdadeira vontade de Deus para com o homem. Pedro buscou aquela alma dentro de seu engano e, apresentando a Palavra de Deus, exortou e obteve a resposta que desejava: o arrependimento. É o que Deus deseja que façamos em relação às distorções da teologia da prosperidade; é o que o amado Bispo Roberto MacAlister gostaria que fizéssemos, um convite ao arrependimento, uma apresentação da sã doutrina, para a salvação e não para a condenação dos irmãos. Existe uma prosperidade bíblica, e queremos encontrá-la e alcançá-la com a ajuda de Deus. A ação de Simão diante da exposição petrina não poderia ser outra, já que havia presenciado tudo o que vinha sendo manifestado pelos apóstolos: 54 a teologia da prosperidade-RAHAL.pmd 54 30/09/2011, 14:24 A Teologia da Prosperidade 1 - “orai vós por mim ao Senhor, para que nada do que dissestes venha sobre mim” (Simão arrepende-se diante de Deus e diante dos homens e se humilha). Ora, muitas considerações podemos e devemos ainda fazer sobre Simão: a citação de Simão no livro de Atos, ao que tudo indica e em concordância com escritos não bíblicos, é que de fato era ele pessoa de grande expressão nos dias apostólicos e conhecido por seus poderes psíquicos muito desenvolvidos26. Em todos os povos e tempos, tem-se conhecimento de certos indivíduos com poderes psíquicos desenvolvidos, entre eles o dom de curar, a telepatia, a premonição ou a profecia, o falar em línguas estranhas, etc... Não há razão para não acreditar que Simão tivesse tais poderes e que isso o teria tornado pessoa bastante conhecida em Samaria. Havia mesmo um tipo de culto oferecido a Simão, que era em concordância com certo deus romano. Quando Simão, que tinha em seus poderes seus ganhos financeiros, percebeu que sua hegemonia estava sendo ameaçada pelos feitos dos apóstolos, tratou logo de se apegar aos tais. Talvez Simão estivesse a princípio de forma sincera buscando encontrar o reino de Deus, mas sua motivação nunca foi sincera, posto que tinha consigo as tradições pagãs. O grande risco de se misturarem tradições pagãs com a doutrina de Jesus é que nunca se sabe ao certo onde começa uma e termina a outra. O coração humano é um grande palco de enganos, fato bastante e devidamente advertido pelas Escrituras. O que é marca evidente da fé em Jesus é o arrependimento; isso anunciado desde o início em João Batista, faltando no caso de Simão; o que ficou foi uma mistura de tradições e convicções pagãs (a estipulação do valor financeiro pelos dons sobrenaturais), posto que assim Simão ganhava sua vida, aliado a alguns princípios rituais cristãos (a imposição de mãos, etc...). Inegável que Simão se autoproclamava um tipo de deus, pois o termo “grande personagem”, que é citado no início do texto, era atribuído um nome equivalente no hebraico a Javé, o que fazia dele um tipo de emanação ou centelha divina. Fosse assim ou de outra forma, o que motivou a 26 Outro destaque da obra de Norman Champlin para o referido episódio é reconhecer historicamente em Simão a figura de um personagem notório naqueles dias, o que dá maior ênfase ao cuidado que se deve ter ao se estreitar com o assunto dinheiro no meio da igreja e em todas as suas projeções de relação com a liderança da igreja cristã. 55 a teologia da prosperidade-RAHAL.pmd 55 30/09/2011, 14:24 Silas Rahal aproximação de Simão aos apóstolos não foi uma genuína busca pelo reino de Deus, mas ao poder que, emanando de Filipe, era superior aos feitos sobrenaturais de Simão. Quando o texto diz que Simão enganava muitos, no original é dito que os colocava em êxtase; no caso de Filipe, o texto diz que ficavam todos maravilhados. Seguramente foi o sentimento de competição que moveu a aproximação de Simão aos apóstolos. Isso nos traz de volta ao nosso tempo, onde o sentimento que aproxima pessoas da igreja de Deus passa longe de ser uma busca pela água que Deus tem para oferecer, que é seu próprio Filho, e se parece mais com um tipo de materialismo e compra de favores divinos. Note que não é sem motivo a presente analogia a Simão, o mago; o motivo da aproximação de Simão aos apóstolos foi sua condenação de perdição; grande perigo é nos aproximarmos de Deus movidos pelos sentimentos errados. No caso de Simão, apesar de ter se aproximado dos apóstolos e aceitado a mensagem e sido batizado nas águas, como confissão pública de sua fé, suas ideias e objetivos continuaram fixos no presente século e ligados o seu coração e mente aos princípios pagãos de compra das bênçãos, e de rituais de pagamento, e de dádivas aos deuses pagãos que de fato se compravam, ou se acreditava dessa forma. A aproximação de Simão da obra de Deus deu-se de forma bastante diferente do trato com Deus, onde esse é galardoador dos que o buscam e não pagador de suas promessas ou retribuidor de pagamentos financeiros. Após os fatos narrados no livro de Atos, os Pais da Igreja em seus escritos enumeram várias histórias fantásticas e sobrenaturais de como Simão se desviou absolutamente da fé em Cristo, se é que um dia esteve nessa fé, e passou a ser considerado um dos mais poderosos hereges da era apostólica, mesmo com demonstrações de poder sobrenatural, tendo havido, conforme os mesmos relatos, vários combates com o apóstolo Pedro, onde, por fim, o mesmo Simão teria encontrado sua morte. Ao que parece, a aproximação errada de Simão com a doutrina cristã lançou-o em profunda perdição, atribuindo a si mesmo e a certa Helena, prostituta que atribuía ter sido resgatada da perdição pelos poderes simoníacos, uma fagulha da centelha divina. O termo usado para designar Simão em Samaria era o “grande poder de Deus”; isso seria uma clara alusão à palavra Javé, e mesmo assim a heresia de Simão em comprar os favores de Deus não foi por nada impedida entre seus seguidores, a quem ele vendia e tentava por meio de pagamentos transferir seus poderes. Note que a prática 56 a teologia da prosperidade-RAHAL.pmd 56 30/09/2011, 14:24 A Teologia da Prosperidade de Simão em tentar comprar o dom do Espírito Santo já era uma prática de fora da Igreja, trazida naquele momento para dentro do convívio cristão; não fosse a enérgica e condenadora resposta petrina, poderia ter tido algum resultado. Se é que não teve, se não tivermos os escudos apologéticos em ordem e prontos para rebater heresias, a todo momento podemos também nós ser alvos de erros de doutrina, que não têm outro fim senão a perdição dos que neles perecem. A partir de Simão, o termo simonia passou a definir até nossos dias o ato de se comprarem cargos eclesiásticos ou favores do clero, havendo nisso uma certa distância em indicar a compra dos favores divinos. Mas indiretamente se consideramos que é o ministro, tanto quanto eram os apóstolos, eleito de Deus para pastorear as igrejas, encontramos aí um certo condutor da ideia de Simão em comprar o dom de Deus. Simão seguia Filipe de perto, tendo sido mesmo batizado; isso não foi o suficiente para que ele deixasse de cair no terrível engano de tentar comprar o dom de Deus com dinheiro. Também o interesse de Simão mostra que ele não era um cético, isto é, Simão estava crendo que o que era operado através de Filipe era de fato ação do poder de Deus; isso, contudo, não foi suficiente para que Simão não caísse em pecado. Interessante notar que, após haver sido batizado nas águas, havia Simão sido excluído do Batismo com o Espírito Santo pela imposição de mãos, o que o moveu a tentar comprar o dom do Espírito Santo. Não é citado no texto por qual motivo Simão havia sido excluído, mas podemos pensar que Filipe já havia percebido em Simão um certo interesse diverso do amor de Deus, não o impedindo de seguir os apóstolos, reservando uma certa misericórdia sobre ele, ao mesmo tempo não o incluindo, esperando talvez que Simão entendesse ainda o verdadeiro espírito da mensagem de Cristo: o dom de Deus não se compra. Simão acompanhava os discípulos, havia sido batizado nas águas, observava os milagres e a pregação, e nada disso foi o bastante para impedir que Simão tentasse comprar o dom de Deus; estava na igreja, mas ainda pensava com valores materialistas e ligados a rituais pagãos. A conversão de Simão não havia sido autêntica, mas uma ação externa e egoísta visando ao dom de Deus para a satisfação de seus próprios interesses, e não desinteressado em favor do próximo. Esse talvez seja um dos grandes e inquestionáveis perigos expoentes da distorção que sofreu a teologia da prosperidade em nossos dias, uma teologia voltada para a satisfação das necessidades pessoais e não do próximo. Sempre o que “eu” posso ganhar, “eu” serei 57 a teologia da prosperidade-RAHAL.pmd 57 30/09/2011, 14:24 Silas Rahal abençoado, “eu” serei vitorioso. Quanto a isso, olhemos para o caso de Simão com mais seriedade, percebendo em nossas vidas onde nos encontramos com o pensamento de Simão e então nos voltamos ao nosso Deus, rico em misericórdia e pronto para nos perdoar e nos ajudar a voltar para o caminho do amor ao próximo e a Deus. A oração, petição que se faz a Deus, consiste no que seja feita a vontade de Deus, e não a nossa; na teologia da prosperidade, a oração tem sido frequentemente que seja feita a nossa vontade e não a de Deus. A religião não pode ser comprada, mas é uma busca que tem fim em si mesma; e quando encontrada, transborda em subprodutos de felicidade, entre eles a prosperidade. Não se pode buscar a religião por outro motivo; a verdadeira religião é o amor. O amor não se compra nem está à venda, é um terrível e simoníaco engano, não é apenas demoníaco, mas é simoníaco. A comunhão com Deus não podemos comprar para obter a prosperidade; é buscada como finalidade em si mesma, a saber, a completude do homem, que pela religião se liga a Deus; no caso da religião cristã, através de Jesus Cristo se liga a Deus; esse caminho já foi comprado por um alto preço. Simão buscou se ligar a Deus através do dinheiro, teve sua condenação; ainda que depois tenha buscado perdão pela oração dos apóstolos, não foi o bastante. Comprar coisas é típico do sistema capitalista e típico da filosofia materialista; tudo se pode comprar, substituir, encomendar. A essa semelhança Simão tentou comprar o incomprável, tentou pagar pelo que não tem preço nem está à venda. Hoje tentam comprar o favor de Deus e a prosperidade que a Bíblia oferece como consequência de quem está no reino de Deus, e não como produto. A teologia da prosperidade distorcida apresenta a prosperidade bíblica como produto, e não como consequência do reino de Deus; não é produto, mas é subproduto da comunhão com Deus em Jesus Cristo. O pecado da simonia está assim intimamente ligado à incredulidade no amor de Deus, bem como com o materialismo. A experiência de Simão mago remete-nos também à prática antiga das artes mágicas e ocultismo, onde por dinheiro se compram feitiços e poderes sobrenaturais no mundo material. Ao que parece, estabelecemos ainda hoje algum tipo de ligação a isso quando dentro de igrejas se estabelecem “sacrifícios “ em dinheiro para alcançar determinado dom financeiro e material27. 27 Este é o caso bem típico do que o Bispo Macedo apresenta em sua obra O Perfeito Sacrifico: o significado espiritual dos dízimos e ofertas, onde sugere que de fato o crente em Jesus deve oferecer 58 a teologia da prosperidade-RAHAL.pmd 58 30/09/2011, 14:24 A Teologia da Prosperidade Nesse ponto, não há como ser benevolente ou buscar não ferir esse ou aquele leitor. O amor de Deus não está à venda, nem os dons de Deus, nem suas misericórdias, nem seus benefícios que Ele dá a quem quer, como e quando quer. Terrível engano é esse que pode atrair sobre quem assim pratica grandes males de perdição material e espiritual. Simão misturou conceitos materialistas com o cristianismo e nesse momento se revelou o motivo de sua busca a Cristo; não pode ser assim a busca no reino de Deus. A busca de Deus tem que ser em Deus e como finalidade em si mesma, e não busca material, pois nisso consiste o materialismo, e esse seria outro evangelho diferente do que foi anunciado por Cristo. Simão considerou que, da mesma forma como fazia nas artes mágicas, poderia ser praticado o comércio do poder de Deus e de seus favores. Note que ainda hoje nas artes mágicas existe o comércio do sobrenatural, e temos podido observar esse mesmo fenômeno no mundo cristão, muito parecido ao que foi descrito em Simão. Jesus disse “de graça recebestes, de graça deis...”28, e isso mesmo é o que vai de encontro ao comércio do dom de Deus. O cristianismo não pode estar associado ao materialismo de forma alguma, e é Pedro que chama a atenção de Simão para os terríveis perigos a que estava fadado em tais pensamentos materialistas. Como já foi dito, os pais da igreja em seus escritos apontam o terrível fim e heresias vividas posteriormente por Simão. Grandes perigos cercam as vidas daqueles que buscam o mundo material, atrelados às verdades bíblicas em um tipo de sincretismo cristão materialista. As várias condenações proferidas por Pedro a Simão apresentam e esclarecem a gravidade do problema, ao mesmo tempo que Pedro considera a possibilidade de arrependimento; é assim que vemos nas palavras de Pedro o caminho a ser trilhado, mesmo hoje, por aqueles que se perderam no caminho materialista-cristão. Há esperança em Deus mesmo para o “crente”, como houve para Simão, se firmemente nos arrependermos de nossos caminhos errados e diante da Escritura, dos irmãos, de Deus e dos anjos fazemos endireitar sacrifícios em dinheiro e que é essa uma necessidade da manutenção da vida cristã e sua prosperidade, chegando a condenar lideranças evangélicas que dessa forma não ensinam, acusando tais líderes de não pregar o evangelho na sua totalidade, mas um evangelho mais fácil, sem sacrifícios... 28 Bíblia, Mt 10.8. 59 a teologia da prosperidade-RAHAL.pmd 59 30/09/2011, 14:24 Silas Rahal nossos pensamentos. Deus, rico em misericórdia, ofereceu salvação a Simão e ainda oferece hoje a todos nós, para que estejamos aliançados com a sã doutrina e com o amor verdadeiro do caminho que há em Jesus Cristo e nos seus ensinamentos. O dom de Deus não se compra, os favores de Deus não estão e nunca estiveram à venda, a prosperidade bíblica não é alcançada por pagamentos de doações e carnês de dízimo às igrejas, o dom de Deus é dom de Deus, favor imerecido a nós por seu infinito amor. 5.2 - A posição (parecer) de Gamaliel Em Atos 5.33-42, é relatada a perseguição feita pelos saserdotes judeus aos apóstolos e sua missão de anunciar a Cristo. Em dado momento, os seguidores de Cristo eram considerados criminosos, pois por sua pregação temia-se que Roma pudesse identificar aí algum tipo de facção ou levante. Mesmo o poder dos sacerdotes barganhando a fim de manter suas posições perante o domínio de Roma era também posto à prova até certo ponto. Em toda a forma, a pregação dos apóstolos representava riscos para os sacerdotes judeus. Essa perseguição revelava-se extrema, posto que era o objetivo dos sacerdotes e do sinédrio a morte dos discípulos de Jesus; somente o sinédrio tinha o poder para a execução da pena capital. A expressão utilizada no texto no v. 33 denota a mesma expressão utilizada anterior e posteriormente, quando se tratava de impor a penalidade capital sobre alguém, como no caso de Estevão em Atos 7.54 e outros. O mesmo cuidado se nos deve fazer valer quando julgamos e observamos ações e ritos e práticas de fé diferentes das nossas ou das que estamos acostumados. O cuidado para que um zelo errôneo se apodere de nossas mentes, posto que, no caso do julgamento precipitado dos saduceus, esses estavam já decididos a matar os apóstolos, tão convencidos que estavam. Não apenas isso, mas ficou claro que estavam com ódio em seus corações por aquilo que não haviam compreendido. Apesar de ser a seita dos saduceus marca de luxúria e vida extravagante, não podemos esquecer que, por pior que fossem, eram representantes políticos/religiosos de seu povo; não podiam estar tão distantes assim da justiça. Mesmo assim, o ódio cegou momentaneamente o entendimento desses e estavam prestes a fazer falhar a lei que juraram defender e preservar, representada na instituição do sinédrio. Muitos de nós, da mesma forma movidos por um zelo consumidor, quantas vezes não avançamos na mesma direção. 60 a teologia da prosperidade-RAHAL.pmd 60 30/09/2011, 14:24 A Teologia da Prosperidade Outro ponto é que a acusação contra os apóstolos na sua forma estava correta, isto é, eram acusados de espalhar uma falsa doutrina na cidade santa. Ora, se de fato aqueles homens estivessem espalhando heresia ou falsa doutrina, de fato seriam merecedores da atenção eclesiástica e, dependendo do caso, até das autoridades. Não é, porventura, isso o que muitas vezes nos motiva a investigar os vários movimentos cristãos, entre eles o neopentecostal? Não é esse zelo nosso semelhante, nesse caso, ao do sinédrio, que investiga uma possível falsa doutrina? Bem, no caso do sinédrio, não houve investigação da doutrina, apenas uma tentativa rancorosa e desmedida em condenar e destruir aqueles homens; não é esse o nosso caso, posto que apenas investigamos e na mais profunda das especulações estaremos atentos e orando a Deus e ensinando apologeticamente a defesa do verdadeiro evangelho. O evangelho que buscamos viver e conhecer e ensinar é aquele da cruz, da época de meu pai, o amado pastor Ramis Rahal, daquela época em que não era moda ser pastor, e era mesmo quase sinônimo de ser pobre. Mesmo assim, a grande crise que atingiu em cheio os saduceus é a que muitas vezes nos atinge, como combater aqueles que cheios de fé anunciam o evangelho de Jesus e estão convencidos de que vão em nome de Deus para salvar, curar e libertar do pecado? Como negaremos as vidas transformadas e libertas nos assim chamados movimentos neopentecostais? Mesmo considerando todo o equívoco da teologia da prosperidade, conforme a conhecemos, podemos ignorar o saldo positivo das vidas salvas? Nesse ponto nos fazemos um pouco saduceus, só um pouco, posto que estamos prestes a levantar nossos olhos com aqueles que invocam o nosso Deus e vão, em nome de Jesus, para fazer sua obra, ainda que de certa forma erradamente. Vale notar que o maioral do sinédrio era saduceu e não fariseu. Embora os dois grupos tenham sido combatidos por Jesus, os saduceus eram bem diferentes dos fariseus, posto que os saduceus eram ricos e mundanos e em nada davam importância às tradições e à religião. Os fariseus eram conhecidos por seu tipo de vida simples, não dado a prazeres mundanos e completamente ligados às tradições e à fé judaica. Muitos homens piedosos era fariseus, inclusive Nicodemos, o próprio Gamaliel, Paulo, etc... Nesse caso em terem sido os apóstolos presos por saduceus, importa considerar que de toda forma seria bom negar ou interferir nessa ação. Dessa maneira, Gamaliel buscou argumentos lógicos para se interpor ao curso de destruição que estava sendo proposto. O sinédrio era a instância 61 a teologia da prosperidade-RAHAL.pmd 61 30/09/2011, 14:24 Silas Rahal máxima de justiça local, onde os acusados se punham no centro de um semicírculo e eram interrogados. Nessa hora, não estavam os discípulos preocupados com sua segurança, posto que, tendo sido milagrosamente livres do cárcere, voltaram para o templo e continuavam a pregar. Mesmo o desejo maligno que começou na crucificação de Jesus permanecia em alta. Todo o que era posto no madeiro era tido como amaldiçoado e não se poderia falar ou mencionar seu nome. Essa foi a tradição invocada pelo sumo sacerdote fariseu e pelos fariseus que com ele estavam. Seguramente Gamaliel, esse que era homem poderoso em seus dias e conceituado mestre das leis judaicas, tendo sido referenciado como mestre de Paulo, percebeu de alguma forma que naquele negócio havia algo de novo. Dizem a tradição e alguns relatos em Josefo29 que Gamaliel seria filho de Simeão, que segurou o menino Jesus em seus braços, que o mesmo Gamaliel posteriormente se converteu ao cristianismo e foi ele próprio alvo da perseguição romana e judaica. Fosse como fosse, a defesa apresentada por Gamaliel foi um tanto precipitada. Às vezes, não basta que uma doutrina prospere para que essa seja de Deus; há muitos trabalhos ímpios que prosperam e suscitam o clamor do salmista pela prosperidade dos ímpios, e há trabalhos de justos que não prosperam de forma alguma. Nesse caso, Gamaliel faz analogia aos insurgentes Teudas e Judas. No caso de Teudas, alguns anos antes de Jesus, conforme descreve Josefo, esse fanático arregimentou mais de 400 pessoas sob a promessa de que passariam o rio Jordão e o atravessariam em um tipo escatológico popular bastante frequente naqueles dias, em um tipo de “revival” do que havia ocorrido no passado. Esse tipo de ação já havia ocorrido antes e era mesmo um lugar-comum na Palestina de Jesus, onde o povo judeu ansiava por um messias, por um libertador messiânico nos moldes e com os sinais dos grandes feitos relatados pela tradição. Teudas não foi bem-sucedido nem mesmo em chegar ao Jordão, foi antes disso detido e preso; muitos dos que o acompanhavam foram mortos ou preso. Por fim, Teudas foi decapitado pela soldadesca romana e trazido de volta seu corpo. Ter Gamaliel comparado a ação dos apóstolos e o movimento cristão a um movimento escatológico que deu em nada é de real significação para entendermos o que 29 Flávio Josefo. História dos Hebreus, CPAD, 1990. 62 a teologia da prosperidade-RAHAL.pmd 62 30/09/2011, 14:24 A Teologia da Prosperidade acontecia naquele momento, em que no interior do imponente sinédrio era decidido quanto à vida dos apóstolos. Outro caso citado por Gamaliel, já no caso de Judas outro revolucionário, esse não fazia menção em cingir o rio Jordão, mas se investia do mesmo espírito messiânico, dessa vez somado a certa beligerância, o que resultou na revolta dos zelotes. Mais tarde, Gamaliel faz considerações comparativas com os dois eventos, utilizando-se de expressões que, se essa obra não fosse de Deus, ela cairia como uma casa que desmorona Gamaliel usa a palavra KATALUO, que sugere um desmoronamento, tanto quanto se deu nos casos citados, que desfaleceram completamente. Se bem que isso não poderia ser dito com propriedade acerca de Judas da Galileia, já que o mesmo movimento é apontado como sendo uma das referências mais fortes dos zelotes, que bem sabemos culminou com o grande cerco. Mesmo quando Gamaliel sugere que o propósito dos apóstolos pode ser obra de Deus, Gamaliel o faz de tal forma a ser quase parcial como um advogado tendencioso em defender seu cliente, quase sugerindo que os apóstolos estavam certos, quase condenando ao juízo divino quem interferisse na obra apostólica. É fácil perceber essa entonação de Gamaliel no sentido em defender a obra apostólica com precaução. Gamaliel faz a defesa prévia daqueles homens. Na verdade, os saduceus não baixaram suas armas, somente não puderam usá-las, sendo obrigados pela lei a libertar os apóstolos, graças à defesa de Gamaliel. Comparar esses movimentos ao da pregação do evangelho, feita pelos apóstolos, nos deixa com algumas considerações possíveis dessa defesa feita por Gamaliel: a) Gamaliel não dava a mínima e estava mesmo preocupado em vencer seu oponente partidário, o sumo sacerdote, que era saduceu, ao contrário de Gamaliel, que era fariseu; tratava-se assim de uma oportunidade sem igual para marcar ponto no sinédrio contra seus oponentes partidários. b) Gamaliel já estava sentindo em seu coração uma certa simpatia pela mensagem do evangelho; por isso queria defender a vida dos apóstolos a todo custo, o que revela Josefo. Mais tarde, o próprio Gamaliel será perseguido por levar o mesmo ensino, havendo quem considere que o mesmo era secretamente cristão e um daqueles que ouviu o menino Jesus no templo, conhecendo sua sabedoria. c) Gamaliel realmente considerava o ensino e a pregação dos apóstolos mais uma loucura messiânica que não iria dar em nada, nesse caso agin- 63 a teologia da prosperidade-RAHAL.pmd 63 30/09/2011, 14:24 Silas Rahal do por um sentimento de humanidade para com aqueles que eram os agentes desse movimento. Seja como for, o que quer que estivesse conduzindo a mente desse poderoso doutor da lei judaica aponta para uma ação divina decisiva naquele momento e um tipo de conduta que até hoje nos inspira. Outro aspecto a ser considerado é que, no caso dos discípulos de Jesus em questão, tratava-se para Gamaliel e os demais integrantes do sinédrio de algo que saiu de dentro do farisaísmo. Se considerarmos, por exemplo, traços da igreja cristã na Etiópia, ainda hoje podemos perceber de que se tratava do culto cristão primitivo, bem próximo ao tempo de Jesus. Posto que o cristianismo como o conhecemos ainda não existia, apenas havia um tipo de seita de origem farisaica conhecida como “os do caminho” e é exatamente isso que estava sendo julgado. Julgar algo de fora é às vezes mais fácil do que alguma situação que diz respeito ao próprio juízo. No caso da teologia da prosperidade, conforme a temos visto, é também algo que saiu do nosso meio, senão de nós mesmos e da nossa congregação. Em algum momento de nossas vidas, todos a temos aceitado de uma forma ou de outra. Mais uma vez, o conselho de Gamaliel e sua cautela são bem-vindos. Se a obra é de Deus, será bem-sucedida e não pode ser combatida, ou melhor, pode sim, mas não haverá êxito nesse combate. É possível combater a obra de Deus, mas não será o bastante para impedir sua ação e deter seu curso. Note que combater a obra de Deus é uma coisa, combater aqueles que fazem erradamente a obra de Deus é outra coisa, e por fim, não por menos, combater o próprio Deus é ainda um outro lugar. Gamaliel faz menção de serem achados lutando contra Deus, ainda que não poderiam destruir os apóstolos. Cada caso é um caso, mas seguramente o caso do combate dos apóstolos, proposto pelo sinédrio, não pode comparar-se a nenhum outro na história do cristianismo. O que podemos analisar são os parâmetros de verificação apontados por Gamaliel, bem como as consequências de tais atos. Gamaliel não diz quais seriam essas consequências; ele apresenta, contudo, que a condição de combater contra Deus é inaceitável; ele apresenta que não seria possível destruir homens que estão a serviço de Deus. Nós sabemos que essa destruição dos homens a serviço de Deus é parte da história e que mesmo os apóstolos foram destruídos um a um. A tradição aponta que foram crucificados de cabeça para baixo, decapitados, torturados até a morte, imersos em óleo fervente e outras tantas descrições 64 a teologia da prosperidade-RAHAL.pmd 64 30/09/2011, 14:24 A Teologia da Prosperidade da tradição. Mesmo a história relata os cristãos trucidados nos coliseus romanos, destruídos por feras, leões e outras criaturas que eram mantidas sem alimento para aquele propósito. Nesse ponto, Gamaliel estava usando todos os seus argumentos possíveis para salvar a vida dos apóstolos, argumentos esses não por isso verdadeiros. É possível destruir aqueles que anunciam o evangelho e que fazem a obra de Deus. Esse mesmo é o evangelho da cruz, bem diferente do evangelho sempre vitorioso apresentado pela teologia da prosperidade, como a conhecemos. A perseguição do obreiro e sua destruição são mesmo, muitas vezes, parte do ministério. Um dos fundadores do movimento batista chegou a dizer que os crentes não deviam fugir ou evitar a perseguição e que deviam sim receber a perseguição e mesmo morrer por ela.30 O ponto maior da defesa de Gamaliel pelos apóstolos é que não poderiam ser achados lutando contra Deus. Nessa colocação nos detemos: lutar contra Deus é, sem dúvida, um lugar em que crente algum quer se encontrar. Há precipitação do doutor da lei nos seus argumentos de defesa; não são todos bem-vindos. Como disse antes, muitas obras permanecem e nem por isso são de Deus ou estão corretas, mas depende de quanto tempo se espera. Às vezes, é preciso esperar mais, mais, mais, mais... Alguns trezentos anos podem ser um tempo incrível, comparado à sombra que é a nossa vida, mas não para a história da igreja. Movimentos neopentecostais já expressam considerável perda de força na América do Norte31. Há contestação disso que estou dizendo; há quem diga que com a grande crise americana atual os movimentos neopentecostais começam a surgir de novo. A teologia da prosperidade e seus desvarios podem estar encontrando um novo e fértil terreno para conseguir mais adeptos. Mesmo assim, tendo começado com grande vigor, a teologia da prosperidade ou o que seria o primeiro start atualmente caiu no ridículo mesmo em seu berço norte-americano. Se irá começar outro momento, será outro momento, e não mais aquele, isto é, outra etapa com base na atual 30 31 Dicionário Brasileiro de Teologia. Fernando Bortolleto Filho (Org.). São Paulo: ASTE, 2008. Na obra “Decepcionados com a graça: esperanças e frutrações no Brasil neopentecostal”, Paulo Romeiro faz também menção que não apenas no Brasil, mas no exterior, há inúmeros casos de pessoas que tiveram projetos de vida frustrados ante ao não cumprimento das promessas anunciadas pelos pregadores da prosperidade após haverem dado à igreja, mediante os apelos financeiros, todas as suas economias, em alguns casos de uma vida toda. 65 a teologia da prosperidade-RAHAL.pmd 65 30/09/2011, 14:24 Silas Rahal crise. Para isso não foi preciso condenar ninguém à morte, pois Deus é de amor, Deus é amor e não quer que ninguém seja destruído ou se perca, mas que todos se salvem. Precisamos entender que não combater a Deus não significa estarmos imóveis e apáticos enquanto heresias avançam, enquanto enganos acontecem no mundo cristão. Não é preciso combater líderes cristãos, mas estarmos atentos enquanto igreja de Deus que somos. Não é preciso levar “apóstolos” ao sinédrio, mas deixar que a lei humana se cumpra e examine suas contas e movimentação bancária e de registros legais da igreja; isso não é combater a igreja, mas é fiscalizar. A igreja tem que andar em acordo com a lei vigente dos países; não está acima da lei, pelo contrário, é a instituição que tem que cumprir a lei com propriedade. Não há teologia que vá justificar o descumprimento da lei dos impostos, principalmente quando de tais isenções eclesiais resultaria o enriquecimento dos líderes da denominação no caso de haver um tipo de indústria (qualquer tipo) maquiada dentro da instituição. Há que se dizer que os apóstolos, no caso de Gamaliel, descumpriam a lei que determinava a não proclamação do evangelho, mas nesse caso o único resultado seria a decapitação dos apóstolos e não o seu enriquecimento, bastante diferente um caso do outro. Valem, mesmo assim, eternamente as sábias palavras de Gamaliel: não se detenham com esses homens, deixem eles estarem livres; se essa obra é de Deus, não poderão ser destruídos. Gamaliel não disse que não poderiam ser presos. Criminosos têm que ir para a cadeia, isso é bem diferente de combater a Deus. Mas cremos que, se alguns líderes cometem ou cometeram crimes, Deus é bom e justo para perdoá-los e conduzi-los novamente ao aprisco, depois de cumprirem suas penas na cadeia certamente. Não podemos tampouco confundir a liderança das igrejas com as igrejas e as pessoas fiéis a Deus que as compõem, nem mesmo com a obra de Deus realizada nessas mesmas igrejas. O homem peca, nós pecamos, vós pecais, eles pecam... Deus perdoa, Deus reconstrói, Deus é amor, Deus conduz à salvação, e a obra de Deus não pode ser impedida pelo erro de alguns, a obra de Deus não pode ser combatida (até se pode combater a obra de Deus, mas não será impedida, assim cremos). Precisamos, contudo, de novos “gamaliéis” para fazer a justa defesa daqueles que fazem a obra de Deus e são confundidos com Teudas, com Judas e são postos no mesmo nível, e mesmo assim serão perseguidos, mas não serão impedidos, pois estão marchando em nome de Deus. A nós resta ter cuidado para não ser 66 a teologia da prosperidade-RAHAL.pmd 66 30/09/2011, 14:24 A Teologia da Prosperidade achados combatendo o próprio Deus. Cuidado em nossos juízos, o fruto da obra neopentecostal, mesmo com todo o engano que envolve a dita teologia da prosperidade, é o ganho de vidas para o reino de Deus, a transformação e salvação de vidas que agora estão livres do pecado, do alcoolismo, das drogas, da perdição, etc... Estejamos atentos a tudo isso. 5.3 - A posição de Paulo O conceito moderno da prosperidade bíblica (teologia da prosperidade) tem muito a ver com a ideologia capitalista, o que impede Paulo de possuir uma visão crítica sobre o fenômeno que atinge atualmente o mundo cristão. Isso não significa dizer que não havia então qualquer referência à teologia retributiva, “dar para receber”; na verdade, esse conceito já se apresenta bem definido nos livros do Antigo Testamento. Não há razão para ignorarmos o conhecimento do apóstolo acerca das verdades pregadas no Antigo Testamento; no caso da teologia retributiva, essa não apenas existia, como era combatida por muitos autores bíblicos anteriores. Nesse caso, entretanto, na carta aos Gálatas, Paulo empreende defesa do evangelho frente a várias correntes, não apenas essa. Paulo faz questão de definir que se trata do evangelho da Graça, “receber de graça” x “dar para receber”. Esse ponto nos interessa em nossa reflexão. Pois não é preciso dar para receber, mas apenas receber de graça e pela graça de Deus. Na teologia da prosperidade, é firmemente apresentado e defendido que é preciso dar para receber; o apóstolo, contudo, evidencia que no evangelho genuíno o recebimento é, sem que haja qualquer mérito, a salvação e a bênção alcançados pela graça de Deus. Na abordagem das bênçãos materiais do crente, isso não pode ser diferente. Paulo era de uma convicção teológica judaica onde o ser humano não possui as divisões gregas firmadas e introduzidas no evangelho ocidental posteriormente (corpo, alma e espírito). Dessa forma, Paulo considera sempre o ser humano na concepção holística. Para Paulo, o crente será abençoado por Deus na perspectiva judaica como um todo em uma realidade que alcança o não físico e o físico, pois são uma só dimensão existencial. No capítulo primeiro de Gálatas, fica estabelecido desde logo o que é para Paulo o evangelho: sacrifício (v. 4: “Se deu a si mesmo por nossos pecados”), livramento e salvação do mal (v. 4: “Para nos livrar do presente século mau”), a graça de Cristo (v. 6: “Vos chamou à graça de Cristo”). 67 a teologia da prosperidade-RAHAL.pmd 67 30/09/2011, 14:24 Silas Rahal Para Paulo, importa estabelecer as bases do evangelho e que o crente não seja destituído dessas bases e que não passe para outros fundamentos de fé; se essa é a advertência, então fica o entendimento de que isso de fato ocorre. Pessoas que são firmemente chamadas à salvação do evangelho tem seu entendimento corrompido a outras noções e entendimentos diversos do evangelho genuíno. Tais deformações do evangelho podem seguir diversas abordagens de acordo com o interesse de cada pessoa. Do portador dessa distorção, o apóstolo não faz por menos, diz que tal sujeito é anátema, não importando para Paulo que função o mesmo tenha no reino de Deus, podendo até ser um anjo do céu (o que dirá um pastor, bispo ou apóstolo?). A posição de Paulo é que não são negociáveis as bases do evangelho de Jesus Cristo, sob qualquer pretexto e sob nenhuma direção, não havendo quem tenha nem no céu, nem na terra ou em qualquer outro lugar autoridade para mudar o evangelho da graça, da cruz e da salvação em Jesus Cristo. A palavra usada pelo apóstolo no v. 6, no original grego é “methatiteme”, significa no contexto um “vira-casaca”, um “traidor”. O caso abordado por Paulo para a igreja da Galácia era o legalismo. Mesmo assim, vale completamente para nossa reflexão o entendimento de Paulo, já que além do legalismo os Gálatas tinham também grande influência farisaica no que diz respeito à vida material e carnal sob o ponto de inserir tais princípios na vida religiosa cotidiana. A riqueza financeira (prosperidade financeira) era um dos pontos em destaque da prática de vida farisaica, uma vivência religiosa conciliada a um estilo de vida extravagante e rico. Jesus exercia grande combate aos fariseus devido a isso e muitas vezes proclamava o lugar dos pobres no reino de Deus. O apóstolo não via possível a condição de que crentes que deixassem o evangelho da graça pudessem ainda manter Cristo como Senhor e invocar seu nome como antes. As igrejas cristãs da Galácia estavam se transformando em sinagogas devido ao alto grau de legalismo, de seguimentos de rituais judaicos que pouco significavam para a nova aliança. Paulo não negava tais ritos ante o pacto mosaico, mas sim frente à promessa e ao evangelho de Cristo. Outro ponto interessante no texto é que o verbo grego se encontra no tempo presente: “estais em processo de perder...”, significando que tal condição de afastamento de Cristo não se dá de forma imediata, mas pode ocorrer gradualmente. A apologia faz-se completamente importante frente a tais perigos, cujo fim é para Paulo a consideração de que tal pessoa já não se encontra, no fim do mesmo, em Cristo. A palavra graça, 68 a teologia da prosperidade-RAHAL.pmd 68 30/09/2011, 14:24 A Teologia da Prosperidade para Paulo, é sempre posta em contraste com um evangelho legalista e de pré-condições, de imposição de um fazer humano, para que Deus possa abençoar; tais proposições faziam parte do estilo de vida farisaico, que penetrava cada vez mais na igreja da Galácia através dos judaizantes Contra o atual evangelho da prosperidade nós fazemos coro com o apóstolo quando dizemos que o evangelho é da graça e não da retribuição. Deus irá ou não prosperar o crente por seu amor e pelo recebimento por parte do crente de seu amor e não por qualquer coisa que façamos em troca disso. O evangelho de Paulo combate firmemente qualquer menção de um evangelho que não seja o da graça. No caso de Gálatas, o combate era contra os judaizantes; em nosso caso, o combate é contra o ensino de que Deus abençoará você somente se você der uma oferta em dinheiro para sua igreja. O conceito de graça para o apóstolo era bastante abrangente: o chamamento pela graça (isto é, sem dar nada em troca para ser chamado ao amor de Deus), a maneira do chamamento gracioso (pela bondade de Deus e nada além disso), a forma de viver o evangelho pela graça e somente pela graça (a experiência da vida em Cristo continua sendo não retributiva). Jesus é quem nos abençoa independente do que possamos fazer por ele – servos/ amigos/irmãos. Fomos chamados graciosamente para viver pela graça e em graça divina – estilo de vida. Para Paulo, não estamos sob a lei judaica (judaizantes da Galácia), não estamos sob o legalismo, não estamos sob condição alguma de ter que dar alguma coisa a Deus para que Ele nos abençoe. Continuamos vivendo sob essa mesma graça pela qual fomos chamados. A palavra grega usada quando Paulo fala “para outro evangelho” no v. 6 é “eteros”, que significa “outro de espécie diferente”. Outra opção de vocábulo seria “allos”, que seria “outro da mesma espécie”, que ele usa no v. 7. Isso significa dizer que, para o apóstolo, sair do evangelho da graça significa sair do evangelho totalmente, ao mesmo tempo que no v. 7 ele confirma negativamente o que diz no v. 6, quando usa o termo “allos”, significando e enfatizando que realmente esse evangelho condicional não é e não pode ser mesmo o evangelho da graça. Paulo, usando os dois vocábulos seguidamente, diz que esse evangelho não gracioso é outro evangelho de espécie diferente (não é evangelho) e não é outro tipo de evangelho (não existe outra possível interpretação do evangelho de Cristo fora da graça). Esse recurso de linguagem é amplamente usado por Paulo em outras cartas, quando o apóstolo por meio de um exagero de expressões e vocábulos repetidamente de formas diferentes afirma a mesma ideia central. 69 a teologia da prosperidade-RAHAL.pmd 69 30/09/2011, 14:24 Silas Rahal Gálatas não considera a possibilidade de uma interpretação do evangelho que não seja a interpretação da graça, isto é, da gratuidade do dom de Deus (em qualquer que seja a esfera: espiritual, dons pentecostais, material, saúde, emocional, familiar, bens, financeira, vitória sobre os inimigos ...) que permeia toda a vida do crente. Qualquer outra interpretação do evangelho de Cristo, para Paulo, significa estar fora de Cristo, em outra doutrina, com outro senhor, outro caminho. Para Paulo, tudo o mais que não seja o evangelho da graça nem mesmo é evangelho, posto que não passa de distorção, não comportando a salvação de Deus em Cristo, que para Paulo se dá exclusivamente pela graça. Para Paulo, não existe outra “boa mensagem de salvação”, já que não existe “outro” evangelho legítimo. Não por legalismo, nem por dinheiro ofertado à igreja, nem por rituais, mas exclusiva e unicamente pela graça. O maior problema dos gálatas se tornara o cerimonialismo, o que não deixa de fazer o crente estar em atenção para tudo o que não seja a graça de Deus em Jesus Cristo. Outro vocábulo grego que merece atenção no texto de Gálatas é “perturbar”, quando diz o texto “vos perturbam”. O vocábulo grego é o verbo “tarasso”, que significa: agitar, desequilibrar, perturbação, lançar na confusão. O mesmo termo é usado em Atos, significando grandes distúrbios e perturbação, provocados nas cidades entre o povo e todo o governo romano. Por emprego de tal vocábulo podemos entender o que significa para Paulo a introdução de outra ideia no evangelho que não seja a graça de Deus, grande perigo para todos os que recebem tais ideias; não é por menos que o apóstolo declara anátema os responsáveis por divulgar tais conceitos. “Querem perverter...” Nesse ponto, o apóstolo deixa claro que, ao se modificar de uma coisa para outra, não está envolvido o sentido de melhor para pior, mas se algo é bom, então certamente a transferência de tal significado somente pode indicar algo que não é bom, uma perversão do já estabelecido. A modificação da natureza do evangelho (da graça) para um “evangelho estranho” só pode significar a destruição do evangelho autêntico. A exaltação do que é carnal e material já era um problema nas igrejas primitivas e também na Galácia, e contra isso Paulo estava atento. Note que o evangelho não estava sendo negado frontalmente, pois isso dificilmente teria êxito, mas mediante uma estratégia bem planejada satanás pode investir contra o evangelho, desviando gradualmente seu foco. Esse processo de modificação do evangelho culmina, não raras vezes, na eliminação final do evangelho para aqueles que participam desses processos diabólicos. 70 a teologia da prosperidade-RAHAL.pmd 70 30/09/2011, 14:24 A Teologia da Prosperidade Gálatas 1 – Análise parcial dos vocábulos gregos do trecho citado – v. 6 – Methatiteme, grego = transportar para outro lugar, notemos o tempo presente tão importante no original grego, “... estais no processo de ...”, isso significa que, embora os crentes gálatas continuassem professando ser seguidores de Cristo, as igrejas da Galácia estavam se transformando em sinagogas judaicas. Dessa forma, não é um fato imediato essa apostasia, mas um processo que demanda tempo, não ocorre da noite para o dia. Outro significado sugerido: vira-casaca, traidor, no caso abordado por Paulo para a igreja da Galácia era do legalismo farisaico com respeito à vida material (riquezas e prosperidade financeira exagerada) e um estilo de vida extravagante, bem como das tradições judaicas. A igreja da Galácia havia se tornado um culto de sinagoga com tradições e ritos que não faziam sentido para o evangelho. Jesus exercia grande combate ao modo de vida farisaico, proclamando que o reino de Deus era primeiramente dos pobres. v. 6 – Eteros, no grego, significa “outro de espécie diferente”. Paulo quis dizer que seria outro evangelho completamente diverso do evangelho de Cristo em um tipo de figura de linguagem, isto é, se é outro evangelho de espécie diferente, logo já não é o mesmo evangelho, logo não pode haver outro evangelho, só existe um evangelho autêntico. v. 7 – Allos, no grego, significa outro evangelho, da mesma espécie, logo ele faz contraposição com o vocábulo eteros significando outro, da mesma espécie; o apóstolo quer dizer assim que seria outro evangelho completamente diferente do original, um evangelho de espécie diferente é uma figura de linguagem, é outro evangelho, em contraposição com o vocábulo do v. 6, já seria então algo que não é evangelho. Portanto nos v. 6 e 7, a palavra “outro” possui radicais gregos diferentes. v. 6 – outro = eteros = outro de espécie diferente. v. 7 – outro = allos = outro da mesma espécie. Não é incomum trechos em que o apóstolo Paulo faz uso de contraposições para destacar uma ideia central; nesse caso, só existe um evangelho: o da graça. v. 7 – vos inquietam = tarasso = agitar, desequilibrar, perturbar – o tipo de perturbação que era feito pelos agitadores nas cidades romanas; o mesmo vocábulo é usado no livro de Atos várias vezes. Lutero afirmava que “... todo mestre de justiça pelas obras é um perturbador... que agem como se fossem os únicos e verdadeiros pregadores do evangelho...” Oferecer dinheiro à igreja para obter justiça de Deus é tentar 71 a teologia da prosperidade-RAHAL.pmd 71 30/09/2011, 14:24 Silas Rahal fazer justiça pelas obras. Deus justifica e abençoa o homem exclusivamente por sua graça, não por ritos, nem por ofertas financeiras, nem por nossa justiça.32 Calvino também afirma: “A subversão é um crime enorme, é pior que a corrupção... quando a glória da justificação é atribuída a outrem e uma armadilha é armada para apanhar a consciência dos homens, o salvador não mais ocupa seu legítimo lugar, e a doutrina do evangelho se vê totalmente arruinada...”33. Faço coro com esses príncipes da pregação de Cristo, atribuir a sacrifícios financeiros de ofertas à igreja; as bênçãos advindas de Deus aos homens, é substituir o lugar de Cristo, é arruinar o evangelho da graça, é errar o caminho. Para Paulo, sair do evangelho da graça é errar o caminho, absolutamente. Além disso, vale considerar o que Paulo considera mais importante: II Cor 11.1-4 Abraçar outro evangelho que não o anunciado por Paulo significa sofrimento. Fp 1.15-18 Importa ao apóstolo que Cristo seja anunciado, pois somente da pregação de Cristo pode resultar a salvação do homem. Trecho extraído da obra de Russel Norman Champlin, O Novo Testamento Interpretado, versículo por versículo. 33 Idem 32. 32 72 a teologia da prosperidade-RAHAL.pmd 72 30/09/2011, 14:24 A Teologia da Prosperidade CAPÍTULO 6 OS PRINCIPAIS AUTORES 6.1 - Bispo Edir Macedo O nome do fenômeno religioso de nossos dias é Igreja Universal do Reino de Deus, que existe no Brasil desde 1977, fundada então por Edir Macedo. Hoje a IURD está presente em vários países do mundo, sendo possivelmente a maior expressão da teologia da prosperidade os ensinos propagados pelo Bispo Macedo e seus seguidores em todo o mundo, principalmente no Brasil. Apesar de ter aprendido inicialmente com o Bispo Roberto MacAlister, logo o discípulo surpreendeu o mestre, não parando por aí, mas criando seus próprios conceitos e dogmas, muito além de seu mestre, de outras igrejas e da Bíblia como um todo. Na verdade, os conceitos de prosperidade do Bispo Macedo são únicos de um tipo, não encontrando semelhança em ministério algum conhecido no planeta, pelo menos não neste. Inegáveis os efeitos sentidos pelo ministério da IURD. Onde chega, é fácil perceber a mudança no perfil da sociedade e notório o beneficio social que propaga, principalmente nas camadas mais baixas da população. Prostitutas, mendigos, o povo de rua em geral é rapidamente alcançado pela mensagem impactante promovida na religião do Bispo Macedo. Não é apresentada a possibilidade de derrota, mas apenas a de vencer o mal, que os pregadores da IURD apresentam claramente identificado como o demônio possuindo as pessoas e os sacrifícios de fé relacionados principalmente a quanto dinheiro a pessoa está disposta a “sacrificar” por Deus. Essa relação sacrifício financeiro x bênção acaba tendo resultado quando se trata de pessoas apegadas ao dinheiro, pessoas que simplesmente têm amor ao dinheiro. O que promove em tais casos uma mudança de pensamento bastante complexo é um dar para receber. Em meio a isso tudo, verdadeiramente o evangelho de Jesus Cristo é proclamado; não há como ne- 73 a teologia da prosperidade-RAHAL.pmd 73 30/09/2011, 14:24 Silas Rahal gar que a mensagem libertadora do evangelho é pregada nas igrejas da IURD; a questão é que essa mensagem é acompanhada dos dogmas da IURD. Na maior parte, são doutrinas que vão ao encontro da mensagem e do contexto bíblico, deixando muito longe os mais ousados conceitos de prosperidade bíblica. Ficou famoso o vídeo do bispo Macedo na rede Globo, onde ele orienta seus pastores como devem pedir: “ou dá ou desce”. De forma bastante pejorativa apresenta o comércio das almas e as técnicas de pedir dinheiro ao povo. Os conceitos-base utilizados pelo Bispo Macedo em suas obras são bastante próximos aos ensinados por seu mestre, o Bispo Roberto. Como dito anteriormente, não podem ser negados no que diz respeito a seu caráter bíblico os conceitos de dar e receber, abençoar para ser abençoado, plantar para colher, ofertar e dizimar para receber multiplicado. O que, entretanto, faz completa diferença na forma apresentada pelo Bispo Macedo é o caráter mercantil e altamente capitalista da oferta dada, em que o objetivo é dar para receber em dobro e em triplo, e assim por diante. Vale ressaltar que há também nas fileiras da IURD elenco dos mais respeitáveis segmentos da sociedade civil, entre intelectuais, empresários e pessoas de grandes posses e esclarecimento, que por livre entendimento decidem apoiar completamente o ministério da IURD. O texto bíblico ensina dar ofertas com amor e receber em dobro como consequência; Bispo Macedo ensina a dar para receber em dobro e não faz grande alusão ao espírito com que se oferta; a ênfase está no dinheiro e não na paz, que é motivadora dessa oferta, SENDO esse o senso comum dos cristãos que não pertencem à IURD quando comentam acerca da IURD. Isso faz grande diferença, já que a religião bíblica é algo em tudo gerado pelo amor. A oração feita pelo fiel não é movida pelo amor, mas pelo que se quer receber. O mesmo espírito de egoísmo e não altruísmo espalha-se facilmente pelos outros aspectos da vida do fiel da IURD. Faz-se a oração para que o marido deixe sua esposa, sendo a crente a amante. Quase um tipo de prática de mistério movida pela determinação de ser vitorioso em tudo, custe o que custar. De fato, em muitos pontos, alguns cultos da IURD se assemelham a rituais de religiões de matiz africana. De outra forma, a abordagem agressiva nos cultos da IURD no que tange o pedir dinheiro aos fiéis causa indignação a alguns presentes e motiva erradamente críticas despreparadas e generalizadas. Na igreja primitiva, o ato de pedir dinheiro para propósitos missionários, para manutenção da 74 a teologia da prosperidade-RAHAL.pmd 74 30/09/2011, 14:24 A Teologia da Prosperidade obra, abertura de novas igrejas, sustento de missionários, auxílio de outras igrejas em necessidades era uma prática comum e sagrada. As campanhas financeiras da igreja dos primeiros séculos ultrapassava em muito qualquer campanha financeira atual. Os relatos do livro de Atos é de serem vendidos todos os bens e depositados aos pés dos apóstolos. Isso não é completamente distante dos pregadores da prosperidade contemporâneos. Lembro bem do relato da fundação da Igreja de Nova Vida (do Bispo Roberto) em Botafogo/ RJ, onde não foram poucos os fiéis que venderam todas as suas posses e depositaram aos pés do Bispo Roberto. Dessa forma, nesse quesito não tem sido feito justiça ao Bispo Macedo e suas campanhas milionárias, pois isso é prática bíblica e tradição na igreja cristã desde sempre. Dou preferência por ter campanhas milionárias e ver o evangelho sendo pregado a todas as nações e tribos e povos e a ver obreiros e pastores vivendo dignamente a ter visto um pastor de uma humilde igreja, a que meu pai, o Pastor Ramis Rahal, tinha que levar mantimentos para que esse honrado pastor não passasse fome com sua família, pois não era sabido naquela denominação como se deveria pedir dinheiro. Nesse ponto, o Bispo Macedo pede e sabe pedir e pede bem. Quem pede pode receber muitas vezes. O problema encontramos quando os pastores da IURD começam a justificar e ensinar pretensas motivações bíblicas para se fazer a oferta, ocasião em que um ouvinte pode até pensar que tais pastores e obreiros da IURD estejam falando por si só. Problema surge quando a partir do que é pedido o líder da denominação passa a ostentar vida muito acima da média dos habitantes de seu país, de sua igreja, mesmo se comparando aos mais ricos empresários da nação. Aviões a jato da ordem de dezenas de milhões de dólares, residências da ordem de complexos residenciais inteiros e reservados. Aquele que foi um dia diácono do Bispo Roberto MacAlister, por conta própria não satisfeito com os ensinos revolucionários para sua época (ao mesmo tempo totalmente bíblicos), transmitidos pelo Bispo Roberto, passou a criar, sabe Deus como, seus próprios conceitos ultrabíblicos, que não encontram respaldo nem nos mais atrevidos pregadores da prosperidade. Esses dogmas personalíssimos sobre a prosperidade o Bispo Edir Macedo apresentou em seu livro “O perfeito sacrifício”34, onde em meio a refe- 34 MACEDO, Edir. O perfeito sacrifício: o significado espiritual dos dízimos e ofertas. Bispo Macedo. Rio de Janeiro: Universal, 2001. 75 a teologia da prosperidade-RAHAL.pmd 75 30/09/2011, 14:24 Silas Rahal rências bíblicas precisas e abençoadoras (as flores) ele apresenta seus ensinos pessoais e coloca-os na qualidade de dogmas perfeitos e inquestionáveis, os quais passa à sua poderosa religião IURD. Não se trata aqui de condenar ou atacar moralmente ou de qualquer outra forma o Bispo Macedo na qualidade de cidadão brasileiro e cumpridor de seus deveres cívicos. Ficar rico não é crime. Líderes religiosos que enriqueceram pela religião não são fato novo na humanidade. Pelo que sei de pessoas que tiveram contato pessoal com o Bispo Macedo e sua família, trata-se de pessoa amável e caridosa em amor para com sua família e o próximo, bem como sendo pessoa honesta e cumpridora das leis de nosso país. Tratamos aqui da compreensão e ensino revolucionários que divulga a IURD, tendo como base a teologia de seu líder. Não é fácil julgar; eu nem mesmo me habilito saber dos méritos, dos prós e dos contras, das vidas transformadas pela mensagem do evangelho anunciada na IURD, das vidas atrapalhadas pelos conceitos pessoais do Bispo Macedo, que ele apresenta como bíblicos. Não dá para ignorar, não dá para condenar, podemos apenas ficar impressionados, refletir sobre o assunto, elencar diferenças, esperar que em algum momento cada um saiba o que é melhor para si após tomar conhecimento do que é o ensino bíblico sobre a prosperidade. Talvez cada crente deva por si só identificar o que lhe parece o melhor caminho. Na p. 15 de sua obra “O perfeito sacrifício”, Bispo Macedo elenca a entrega de Jesus como sendo um sacrifício de Deus ao homem para a redenção da humanidade, um sacrifício dado por Deus à humanidade, uma oferta perfeita, conforme ele designa em sua obra. A partir daí o livro apresenta todas as ofertas como representações de Jesus, uma oferta perfeita; por isso todas as ofertas devem ser perfeitas, a fim de ser aceitas. Outra afirmação que causa espanto é dizer que o dinheiro é o sangue da igreja (p. 19), sugerindo que como o sangue de Jesus foi ofertado por Deus pelo homem, também o homem deve ofertar seu sangue (dinheiro) para aproximar-se de Deus. Diz ainda que a oferta representa o próprio Jesus Cristo ofertado pelo homem (p. l9). Ora, apresentar um Deus que tem que dar ofertas por alguma coisa é de alguma forma destituir esse Deus de sua divindade ou de sua potência, e o ato de entrega de Jesus pela humanidade passa a ser, no entendimento do Bispo Macedo, um tipo de toma ládá cá (expressão desde sempre comum nos pregadores da prosperidade). O ensino do Bispo Macedo acaba por destituir o ato de amor por Deus (João 76 a teologia da prosperidade-RAHAL.pmd 76 30/09/2011, 14:24 A Teologia da Prosperidade 3.16) em troca de um ato legalista, comercial, condicional, mercantil (a vida pela vida). Deus, conforme ensina a Bíblia, entregou Jesus por amor e não por outro motivo, amou tanto que entregou, não ofertou. Oferta se faz à divindade; a divindade não carece de ofertar coisa alguma. Do momento em que fica estabelecida uma semelhança da oferta em dinheiro que o crente faz à igreja (deveria ser um ato de amor, a entrega de Jesus foi um ato de amor), a “oferta” de Jesus pelo homem, em uma condição de recebimento, deixa a oferta em dinheiro de ser um ato movido por amor para ser um ato movido por interesse; temos então outra religião. O dia em que o dinheiro for o sangue da igreja, essa igreja deixará de ter o sangue de Cristo. Jesus é o sangue da igreja, não há como substituir o sacrifício de Cristo por um pretenso sacrifício financeiro dado pelo crente à igreja. É este o objetivo doutrinal do Bispo Macedo: motivar os crentes a dar ofertas financeiras à igreja como forma sacrificial cúltica. Ora, não há o que possamos fazer para nos aproximar de Deus; o sacrifício já foi feito. Não digo com isso que não exista sacrifício de amor quando crentes se esforçam em dar o seu melhor em dinheiro para a igreja; é o caso da viúva que deu tudo o que tinha para a igreja. O próprio apóstolo Paulo diz ter recebido as ofertas financeiras em dada ocasião como sacrifício a Deus. Um fato isolado não pode, entretanto, referenciar toda a prática de entregar ofertas financeiras para a igreja, para os crentes, como forma de se aproximar ou adquirir bens da parte de Deus e supostas vitórias. Quando desprovido do motivo maior da religião cristã, o amor, o ato de ofertar dinheiro à igreja pode facilmente ser degenerado em algo tão frívolo e materialista, que um homem corrupto pode chegar a ofertar e dizimar de seu dinheiro alcançado ilicitamente sob a pretensão de ter sido abençoado por Deus, mesmo estando mergulhado na lama do pecado. Como me referi anteriormente, é tarefa árdua apontar o dedo para os que pregam o evangelho. Paulo não se importa como é pregado o evangelho ou por qual motivação, desde que seja pregado o evangelho35. Em suas obras, Bispo Macedo enfatiza a salvação da alma pela fé em Jesus Cristo, bem como a santidade inegociável que deve ser levada a cabo pelo crente, como se apresenta em seu livro “O perfeito sacrifício”, na p. 43, onde apregoa a santidade como responsabilidade exclusiva do crente. Mesmo assim, 35 Bíblia, 2Cor 11.4. 77 a teologia da prosperidade-RAHAL.pmd 77 30/09/2011, 14:24 Silas Rahal quando Bispo Macedo se refere a bênçãos a serem alcançadas, a ênfase dada é das finanças, sugerindo que, para ser abençoado financeiramente, o crente deve levar vida de santidade e consagração. Algo bem próximo do que é tipificado na célebre obra “A Ética Protestante e o Espírito Capitalista”36, na p. 139 dessa obra, onde é destacado o sentido de vocação para o trabalho e assim ser possível alcançar riquezas financeiras “abençoadas”. O que Macedo apresenta não é de forma alguma novo, contudo a forma como apresenta o objetivo de ganhar dinheiro, ofertando primeiro à igreja, isso sim nunca foi visto antes. Mais impressionante é que o fator mais importante para a apresentação do sacrifício, no dogma da IURD, não é o amor (Deus amou o mundo de tal maneira que ... João 3.16), mas é a fé. No capítulo 5 de sua obra “O perfeito sacrifício”, uma abordagem quase inter-religiosa e universal é apresentada para o conceito de sacrifício, que bem valeria para qualquer outra religião que não cristã, posto que sequer é mencionado o nome de Cristo; o termo “troca” é apresentado sem qualquer cerimônia em sua definição mais “não cristã” de todos os tempos: “O sacrifício inclui o ato de renunciar voluntariamente a alguma coisa em troca de outra muito mais valiosa”. Incrivelmente, nada se pode perceber em relação ao amor de Deus em entregar seu filho, ao amor que a viúva pobre demonstrou ao depositar todo o seu sustento no gazofilácio, ao amor daquele que oferta seu dinheiro à igreja tudo não passa de uma negociata da fé. O crente entrega para, pela fé, receber algo em troca. Não é o amor que move, é o interesse que movimenta tal oferta. Essa é uma nova religião ou nova forma de ver a mensagem de Cristo, algo único e inédito; não admira que as igrejas IURD estejam por todo o mundo. O espírito que rege o mundo é capitalista, é financeiro, todos querem ficar ricos, mas não é o que Cristo desejou, nem o que Ele ensinou quando disse: “Meu reino não é deste mundo”37 e nem o que o apóstolo ensinou quando disse: “O reino de Deus é alegria, paz e justiça”38, e novamente Jesus quando disse: “Não ajunteis para si tesouros que a traça e a ferrugem tudo consomem”39, e ainda: WEBER, Max. A Ética Protestante e o Espírito Capitalista. São Paulo: Editora Martin Claret, 2007. 37 Bíblia, João 18.36. 38 Bíblia, Rm 14.17. 39 Bíblia, Mt 6.19. 36 78 a teologia da prosperidade-RAHAL.pmd 78 30/09/2011, 14:24 A Teologia da Prosperidade “O amor ao dinheiro é a raiz de todos os males e o motivo das guerras...” (carta de Pedro), etc... Isso é exatamente o oposto do interesse que existe nos ensinos do Bispo Macedo em relação ao dinheiro e à riqueza. Fala ainda Macedo de uma obrigação em fazer sacrifícios para manter a salvação, conforme consta em sua obra “O perfeito sacrifício”, na p. 46, algo que em muito lembra a Igreja Católica Romana na Idade Média com relação às indulgências tão combatidas e motivo da Reforma Protestante (coisa que já foi completamente revista pela igreja católica romana). Parece em certo ponto que o Bispo Macedo tenta voltar à Idade Média e suas práticas cristãs absurdas. Diz o texto: “O que temos que pagar para manter nossa salvação...”. Isso é seguramente voltar aos tempos medievais, onde a cristandade vivia com medo da morte e do inferno e dessa forma tinha sua motivação religiosa. Ora, para isso Jesus se revelou para livrar o homem do medo da morte e assegurar a vida eterna; por isso pagou um preço eterno e de uma só vez foi pago a dívida que pesava contra a humanidade. A morte foi vencida na cruz do calvário. Com hábeis palavras, entretanto, o livro do Bispo Macedo conduz o leitor ao convencimento de que é preciso haver sacrifício contínuo (como nos dias do povo no deserto). Isso sugere a não suficiência do sacrifício de Cristo. Após isso, com raciocínios decorrentes leva o leitor a entender o sacrifício espiritual (que para Macedo é a fé, não o amor – novamente abre a porta para outras crenças que nada têm a ver com a fé cristã, apontando para um sincretismo religioso). Por fim, envereda o leitor em uma obrigação de um sacrifício material (p. 47) de moedas, de dinheiro. Outro aspecto incrível da leitura do Bispo Macedo no que diz respeito a sacrifícios é o que ele faz do texto em Marcos 12.42-44, onde ele afirma que a viúva deu todo o dinheiro que tinha, pois “acreditava que Ele lhe devolveria multiplicado” (p. 49). Faltou informar ao leitor que Jesus apreciou a oferta da viúva, mas de forma alguma se utilizaria daqueles recursos “sacrificiais”, ao contrário do que faz Macedo com suas residências milionárias. Não apenas Jesus, mas também a história da igreja primitiva não faz qualquer relato de discípulos que tivessem enriquecido com o dinheiro da oferta. Alguém há de dizer que aqueles eram dias diferentes, ao que eu posso retrucar que, no sentido de enriquecimento, havia homens ricos como há hoje. Se Jesus e os discípulos quisessem enriquecer com as ofertas e dízimos, teriam feito. Mas não era esse o objetivo e continua não sendo. Sim, a viúva fez um sacrifício, mas de amor, não por interesse; do contrário, não seria sacrifício. Esses pensamentos e ideias sobre o ato da 79 a teologia da prosperidade-RAHAL.pmd 79 30/09/2011, 14:24 Silas Rahal viúva pobre partiram exclusivamente do entendimento do Bispo Macedo, que, entretanto, apresenta em seu livro “O perfeito sacrifício” como dogma inquestionável. Não é de admirar que a IURD tenha templos construídos que não são comparáveis aos que já existem. Se considerarmos os templos da IURD, os demais são pequenas capelas ou templos secundários. Isso se explica, pois a religião do Bispo Macedo é uma religião capitalista, que ensina uma questionável fórmula para ficar rico: dê à igreja, Deus te dará tudo de volta multiplicado. Será mesmo que é sempre assim? Ou essa fórmula mágica só vale mesmo para a liderança da igreja? Como era de se esperar, Macedo também faz uso de certa dose de pensamento positivo, conforme se vê em seu livro “O perfeito sacrifício”, na p. 50 e 51, mas isso seria o de menos. A leitura da obra do Bispo Edir Macedo leva aos desavisados certo temor e medo de perder a salvação tanto quanto sutis ou mesmo explícitas ameaças são feitas aos crentes. Na p. 54, apresenta o sacrifício de Jesus como não sendo definitivo nem suficiente, “mas isso não significa que não haja mais necessidade de outros tipos de sacrifícios...”. Não é preciso profunda pesquisa na obra do Bispo Macedo para entender que parece tratar-se de outro evangelho, de outra pregação, de outra religião, que envolve conceitos cristãos, palavras de Jesus Cristo e mesmo os mais nobres ensinos de prosperidade bíblica perpetrados pelo Bispo Roberto MacAlister. Aconteceu, entretanto, o que diz o ditado popular: “O aluno se tornou mais atrevido que seu mestre”. Ainda quando Macedo menciona os “serviços de ofertas financeiras apresentados para patrocinar a pregação do evangelho por todo o mundo” (p. 54), ele se esqueceu de mencionar que por tais ofertas ele, Edir Macedo, é dono de um multimilionário patrimônio, que nada tem a ver com o Jesus Cristo de Nazaré e seus discípulos, e muito menos com os crentes da IURD, que regularmente deixam no gasofilácio tudo o que têm na promessa de que receberão de Deus em dobro. Vários crentes da IURD vivem, entretanto, diariamente passando grandes necessidades financeiras e de todo tipo. “Aliás, o movimento financeiro de uma determinada congregação reflete o seu grau de espiritualidade” (p. 61 do livro “O perfeito sacrifício”). São afirmações como essas que deixaram o império da IURD com uma certa abordagem estranha no meio evangélico e secular. Que palavra estranha essa para os seguidores de Jesus Cristo de Nazaré, que nasceu numa manjedoura, que foi carpinteiro toda a sua vida, que morreu numa cruz, pobre de dinheiro, mas rico de paz. Imaginemos uma missão cristã no inte- 80 a teologia da prosperidade-RAHAL.pmd 80 30/09/2011, 14:24 A Teologia da Prosperidade rior do país: as pessoas se dirigem para o local de todas as formas para escutar a mensagem de Deus. Ao fim da reunião, o pastor, humilde, serve um café com bolo para os convidados, que alegremente entoam um cântico e se despedem. O que poderá determinar o movimento financeiro naquele lugar: nada a não ser que Jesus veio ao mundo, dando em sua mensagem uma preferência aos pobres e não aos ricos. A religião a que se refere Macedo com seu termômetro espiritual parece não ser cristã. Em seu livro “O perfeito sacrifício”, Bispo Edir Macedo é apresentado como sendo Doutor em Divindade, Teologia e Filosofia Cristã; não informa, contudo, onde ele alcançou esses graus de instrução teológica. Apontar os possíveis erros é relativamente fácil, julgar é difícil. O evangelho de Jesus Cristo é pregado nas igrejas da IURD? Se for, então para o apóstolo Paulo isso basta. Certa vez, estive a convite de meu pai em uma igreja da IURD. Não pude ouvir, além dos apelos financeiros continuados, o anúncio de que Jesus Cristo morreu para salvar a humanidade; na verdade, não ouvi falar o nome de Jesus em tempo algum; eu estava acompanhado. Os templos da prosperidade É impossível encerrar este tópico sobre o Bispo Edir Macedo sem mencionar os templos da Igreja Universal do Reino de Deus, que nessa ocasião tomo por exemplo de todos os outros semelhantes em grandeza e característica de luxo e custos milionários. Sem dúvida alguma, não encontro qualquer outro ministério que possa competir com a IURD no quesito que chamo de “os templos da prosperidade”. Já passam longe aqueles dias em que se usava a ditosa expressão: “isso parece obra de igreja”. Agora, obra de igreja é sinônimo de construção feita às pressas, de empresas de engenharia da mais avançada tecnologia de construção. Milhões de dólares empregados em projetos dos mais arrojados. No interior das igrejas então, o que há de mais caro é empregado na sua finalização. Alguns insatisfeitos chamam o fenômeno vulgarmente de templolatria. Outros dizem nada, apenas meneiam a cabeça. Eu digo que muito me agradou quando cheguei na época no prédio da Nova Vida em Botafogo/RJ e me sentei naquelas cadeiras superconfortáveis. Os banheiros pareciam de hotel. E o ar-condicionado... para a época era um luxo, poucos estabelecimentos tinham refrigeração. O que ficou na minha memória, contudo, foi quando eu perguntei a um diácono sobre o 81 a teologia da prosperidade-RAHAL.pmd 81 30/09/2011, 14:24 Silas Rahal motivo de um lugar tão luxuoso; ele me disse: “É tudo para Deus”. Essa resposta por muitos anos eu levei comigo. Até que um dia acordei indo à praia e pensei: “Para Deus nada, é para a gente mesmo!”. Afinal, Deus é espírito, Ele não precisa de ar-condicionado; nós é que precisamos, não só do ar-condicionado, mas de um ambiente gracioso e agradável, limpo e apreciável. Nós precisamos disso, ou talvez não chegamos a precisar, mas de fato é bastante agradável. Nas vezes em que eu vinha do Rio de Janeiro e o ônibus passava por Niterói, eu vinha maravilhado olhando os vários templos evangélicos e nunca deixava de me assustar quando me deparava com uma construção da Igreja Universal do Reino de Deus. Para comparar na ordem de tamanho, era no mínimo 10 vezes maior que as demais, e no que diz respeito ao luxo, era 100 vezes mais luxuosa que as demais. Ora, nessa altura não estamos falando de um lugar mais confortável para estarmos, com ar-condicionado, etc... Falamos aqui de algo mais, de algo que remonta às catedrais da Idade Média, em que o povo pagava taxas religiosas (parece que a IURD quer voltar à Idade Média), indultos, etc... Falamos aqui dos templos da prosperidade. Verdadeiras catedrais de proporção e luxo incomparáveis se erguem de norte a sul do Brasil, a pretexto de que é para a glória de Deus. Eu duvido muito que, em um Brasil onde crianças passam fome e sofrem todo tipo de injustiça, que fez com que nosso amado presidente Lula declarasse mesmo GUERRA contra a fome, que Jesus Cristo estaria feliz com tais templos de absurda grandeza. Onde pode estar a misericórdia de Deus nesse negócio? Quantas crianças seriam alimentadas com o dinheiro empregado nessas construções? Não me refiro aqui ao fato de ser preciso construir templos grandes para receber o povo para o culto, mas com tal grandeza de luxo e dimensões de visível ostentação de poder? Voltamos, por acaso, à Idade Média e a tudo aquilo que foi feito? O que mais nos resta? Afinal, sabemos que as primeiras basílicas e templos da Idade Média tinham o teto bastante alto com a finalidade de mostrar a distância de Deus para com os homens, a empreitada de apresentar a condenação do homem frente à grandiosidade de Deus. Quando o crente já havia percorrido os corredores, observado a altura do arco, etc... quando já se assentava, estava já em si mesmo condenado, pronto para receber o perdão de Deus. Tal era a dramaticidade dos templos medievais, que o homem que ali entrava tinha mais consciência de sua condenação do que da possibilidade de ser salvo. Não era sem motivo que eram cobradas indulgências para a construção do 82 a teologia da prosperidade-RAHAL.pmd 82 30/09/2011, 14:24 A Teologia da Prosperidade templo, que passou a ser, sem sombra de dúvida, uma grande orquestração de opressão ao espírito e ao pensamento humanos. Ao abordar a questão da influência que as catedrais exercem no espírito e na emoção, é preciso estabelecer os conceitos básicos que deram origem à forma de arquitetura gótica e suas influências em determinado período da história. De alguma forma, experimentamos hoje algum tipo de revival cultural gótico da Idade Média, que atinge não apenas a arquitetura das modernas catedrais da prosperidade, mas também o próprio estilo de vida dos jovens. O estilo gótico orienta uma parte da história da arte ocidental, que tem influências em toda a forma de vida daquele período, na arte, construções, filosofia e religião. O estilo gótico surge como resposta à ênfase e à seriedade do estilo romântico, sendo assim sua evolução.O estilo gótico está associado ao germânico e aos godos (bárbaros) no início da Idade Média. Mais precisamente nasceu em França, na catedral de St. Denis em 1130-1144, expandindo-se após isso para outros lugares da Europa e do mundo. Foi nessa abadia que surgiu a partir das obras de remodelação do templo antigo. Note-se que as catedrais ou monumentos góticos do período estavam sempre imbuídos de um enquadramento da escolástica (período da idade medieval em que as escolas existiam apenas nas igrejas e mosteiros) e tendências neoplatônicas (contraste entre o bem e o mau, o mundo é mal, o espírito é bom, etc...). A força por trás das construções das catedrais góticas era a burguesia, em torno da qual todo o comércio florescia. Em uma competição de poder e prestígio, o clero e os burgueses de cada cidade disputavam entre si quem construiria a maior e mais bonita catedral gótica. Das mais altas torres das catedrais poderia ser avistada ao longe a grandiosidade da catedral (cidade). Desde sempre, a construção de templos esteve associada à grandeza dos povos. As igrejas podiam ser vistas de longe, anunciando a grandeza do burgo e sua gente. O exagero decorativo bem como a altura das torres caracterizavam bem o estilo gótico. As catedrais góticas transformaram-se rapidamente em uma fogueira de vaidades, em uma mistura absurda de intenções religiosas, políticas e financeiras, bastante longe dos interesses do reino de Deus na verdade. O fato de terem surgido naquele período novas técnicas de construção das abóbodas sustentadas pela nervura de arcos permitiu as grandes alturas a que chegava a catedral gótica, o que por si só marcou o gótico, sua 83 a teologia da prosperidade-RAHAL.pmd 83 30/09/2011, 14:24 Silas Rahal verticalidade. A presença da luz natural contribuiu de forma decisiva para a elaboração da mística elevada na dinâmica do culto. Havia ainda um respeito ao posicionamento das naves e diversas partes da catedral gótica, que sugeria uma aproximação mais fácil do crente com seu Deus. Devemos aqui lembrar que falamos de um prédio cuja verticalidade é a mais elevada de que se tem conhecimento, considerando o estreito comprimento. Quando o crente se assentava em uma das abóbodas laterais (o coro), sentia-se, por assim dizer, mais perto de Deus, representado no prédio pela altura descomunal das torres (mais de cem metros de altura). Outro detalhe que foi somente possível a partir das novas técnicas de construção inseridas no período gótico foi que as paredes foram afinadas, permitindo a abertura de espaços abertos, preenchidos prontamente com vitrais (vidros coloridos recortados por filamentos de chumbo), que tinham o objetivo de, somado à mística da luz, contar os detalhes dos relatos bíblicos para o povo analfabeto. Nesse quadro complexo que é uma catedral gótica, a luz era considerada manifestação do divino e por isso agia diretamente sobre a mística do povo. Nesse quesito já se veem muitos templos da prosperidade com belíssimos vitrais. Uma grande catedral gótica com belos vitrais pode ser um motivo de bênção para o povo de Deus e local de grande salvação mediante a pregação do evangelho de Jesus Cristo, não temos dúvida disso. Se, entretanto, alguém promove essa construção para diretamente tirar dela de forma premeditada e condenável proveito da emoção humana e assim fazer apelos para a manutenção de uma teologia que não é aquela da tradição da igreja, ficamos quase sem palavras para dizer o quanto isso pode ser reprovado por Deus, que está no céu. As poucas palavras que sobram, contudo, são o bastante para estas páginas. A grandiosidade das catedrais góticas está de volta nos templos da prosperidade. Quem diria que isso poderia acontecer? De volta à Idade Média ou idade das trevas, alguns poderiam dizer. Uma das características das construções góticas do período medieval que não podem ser relacionados na construção dos templos da prosperidade são, sem dúvida, as figuras fantásticas e monstruosas, gárgulas e outras criaturas míticas que adornavam o exterior da cadedral, que alertavam para a possibilidade de que as pessoas fossem condenadas ao inferno. Ora, se, por um lado, não se podem colocar gárgulas do lado de fora dos templos da prosperidade, do lado de dentro homens que se apresentam como pastores, muito bem treinados, apresentam a todo instante os riscos de não se oferecer 84 a teologia da prosperidade-RAHAL.pmd 84 30/09/2011, 14:24 A Teologia da Prosperidade a Deus o sacrifício esperado (dinheiro em espécie), cogitando sempre a possibilidade de, ao invés da salvação, encontrar-se naquele lugar a condenação. A construção das catedrais esteve desde sempre ligada à prática católica romana das indulgências, que vigoraram até o século X como sendo donativos piedosos. A prática das indulgências é uma forma de aplacar a consequência dos pecados, conforme indicava a teologia católica medieval (esse conceito já foi revisto pelo catolicismo). Essa prática sofreu ao longo dos anos da história da igreja muitas mudanças, o que não faz apagar o seu passado obscuro medieval, contra o qual se insurgiu prontamente o padre Martinho Lutero, reformador protestante. De certa forma, na IURD é como se a teologia apresentasse uma volta às indulgências medievais, onde através de donativos piedosos é possível alcançar bênçãos. Todo esse sistema é bem ligado ao novo modelo de templos da prosperidade, onde, conforme tive a experiência de constatar na IURD em Niterói, uma catedral bastante assemelhada na forma e tamanho descomunal a catedrais católico-romanas do início do período medieval, naturalmente em uma apresentação mais contemporânea, sem contudo perder as características de verticalidade e penetração própria da luz, fundamentais para a abordagem mística das construções. É impressionante que, em um tempo em que a própria igreja católica romana está revendo seus conceitos para uma aproximação mais coerente ao mundo cristão contemporâneo, alguns grupos que se apresentam como evangélicos, no caso a IURD e outros, estejam retornando às práticas católicas de outros tempos, hoje reprovadas. Não faz muito tempo pude ouvir uma piada em que o Bispo Macedo dizia em tom solene de missa cantada para o papa as seguintes palavras: “Eu sou você amanhã”. Outro motivo pelo qual não se precisa de gárgulas do lado de fora desses templos é que, do lado de dentro, a constante evocação de demônios em pessoas supostamente endemoninhadas e o efeito culto-espetáculo em que o exorcista pastor conversa com o suposto demônio causam não poucas vezes a sensação de medo nos fiéis, para quem o pregador aponta como possibilidade de condenação o não cumprimento do que é dito. Não há necessidade de colocar gárgulas do lado de fora. O mais incrível parece que voltamos à Idade Média, no período em que as catedrais tinham a função de influenciar o estado emocional do povo que ali estava para que assim pudesse dar ofertas que, longe de ser atos de 85 a teologia da prosperidade-RAHAL.pmd 85 30/09/2011, 14:24 Silas Rahal amor pela obra de Deus, eram de interesse e vaidade ou por medo do chamado infernum (= mundo inferior). Talvez assim os templos da prosperidade que temos visto ser erguidos tenham também essa finalidade de constranger o crente a uma condição forçosa de pecador oprimido e dependente da igreja (denominação) e do pastor (que pede e pede muito). Em um tipo de indulgência moderna, o crente passa de uma situação de livre e salvo em Cristo a cativo, condenado e oprimido no templo da prosperidade. Nesse caso, a única coisa a fazer é contribuir generosamente, não é mesmo? Do contrário, só restarão àquela alma aflita as chamas do inferno. Que, aliás, é bastante pregado nos templos da prosperidade, ou não? Uma grande confusão que o povo evangélico faz no que diz respeito ao templo é a noção israelita de templo. Para o povo judeu em Jerusalém, nos dias de Jesus, e antes mesmo de Jesus, o prédio dedicado a Deus era o centro político e social da nação, não apenas religioso. Mesmo após sua instituição no reinado de Salomão, para o povo de Israel o templo era o centro do universo, situado exclusivamente em Jerusalém. Essa versão judaizante de evangelho, tão combatida por Paulo, torna a trazer ao templo todo o significado da vida cristã. Ora, devemos lembrar que até o ano 300 d.C. dificilmente se encontraria um lugar de reunião e culto dos crentes que fosse mais do que duas residências palestinas, o que não passava de 30 metros quadrados. Isso considerando que uma parede tivesse sido derrubada para a abertura do salão. De fato, alguns arqueólogos já fizeram essa constatação do que parece ter sido a primeira utilização exclusivamente cristã de uma construção da época. Importa também saber que a prática de construção de templos a divindades teve origem (primeiro registro do fato) em Babel, isto é, na Torre de Babel, mencionada em Gênesis 11.1-9. Após Babel, praticamente todos os povos idólatras tiveram edificações dedicadas às diversas divindades, todas elas bastante suntuosas e grandiosas. Houve tempo em que praticamente cada cidade tinha um templo erguido à sua divindade. Mais precisamente isso aconteceu na Mesopotâmia, terra de onde saiu Abraão. Vemos assim que a construção de templos suntuosos dedicados a divindades é prática que tem sua origem no politeísmo e não no cristianismo ou judaísmo. No caso do povo de Israel, foi mais que necessário que tivesse um templo bastante definido, exatamente para proteger o povo da prática pagã de outros povos não monoteístas. Adoração somente no templo em 86 a teologia da prosperidade-RAHAL.pmd 86 30/09/2011, 14:24 A Teologia da Prosperidade Jerusalém. Praticamente todas as vezes em que na Escritura aparece a palavra Templo, significa a construção ou o prédio em Jerusalém destinado para esse fim. Não havia qualquer outra edificação do mundo antigo que teria mais interesse para o povo de Deus do que o templo em Jerusalém. Outro ponto importante a ser destacado no assunto é que as primeiras grandes catedrais na Idade Média surgem a partir dos arcos. A única forma conhecida de fazer as coberturas de grandes construções era a arquitetura. O teto era formado por arcos sequenciais que, apoiados um contra o outro, sustentavam o que hoje conhecemos por abóboda. Não havia qualquer outra espécie de construção para fechar um grande edifício a não ser os arquitetos. Daí surgiu o oficio que hoje conhecemos como arquiteto. Tal era o poder de controle exercido pelos arquitetos na construção de grandes basílicas, que há quem diga que a partir da confraria desses homens teriam surgido os maçons, a ordem de cavaleiros templários (cavaleiros do templo), que a serviço dos arquitetos dariam a vida para proteger os segredos de construção dos templos e etc... Com tudo isso envolvendo a construção de templos, resta-nos saber por qual motivo eram tão altos e góticos, com figuras de gárgulas nos cantos altos e etc... A transição do Antigo para o Novo Testamento, da antiga para a nova aliança, não é possível sem que seja dissociada a relação do povo de Deus do templo. Hoje, sob a nova aliança, vivemos no tempo do derramamento do Espírito Santo sobre toda a carne. Deus fala aos corações de forma direta, pelo Seu Espírito enviado por Jesus. É exatamente a manutenção desse velho conceito de templo de Israel que permite aos pregadores da prosperidade a campanha milionária para a construção dos templos da prosperidade. É preciso entender que Jesus clamava contra o templo, referindo-se a ele como casa de Seu Pai em Jo 2.16, mas que o fazia já condenando sua eminente destruição e referindo-se ao templo judeu em Jerusalém, não ao lugar de encontro da igreja cristã que surgiria. Um engano que se repete em praticamente toda interpretação feita pela teologia da prosperidade é que tudo o que foi dito para o povo de Israel vale também para os nascidos em Jesus Cristo. Nesse caso, os pregadores da prosperidade somente consideram o que lhes é conveniente para a arrecadação financeira. Fica claro, entretanto, a partir do evangelho, que o novo templo passa a ser a pessoa de Jesus Cristo (em Jo 1.14) e que ele mesmo passará a ser o centro da adoração a Deus para aqueles que o recebem (em Jo 2.18-22). 87 a teologia da prosperidade-RAHAL.pmd 87 30/09/2011, 14:24 Silas Rahal Logo os prédios religiosos ou destinados ao culto ao Deus da Bíblia a partir de Jesus deixam de ter o mesmo significado dos prédios religiosos antes de Jesus. O templo passa a ser o próprio Jesus derramado por seu Espírito Santo em todos os crentes. Esse é o grande mistério há muito guardado: “Cristo em vós” (Cl 1.27). É dessa forma que a própria Escritura Sagrada faz cair por terra essa verdadeira templolatria, que serve de pretexto para campanhas multimilionárias promovidas por pregadores da prosperidade. Sim, nós precisamos de prédios para que a igreja esteja reunida. Sendo grande o número de pessoas em volta de um ministério, é natural que o espaço tenha que ser grande. Ser grande não significa ser luxuoso. Deus é espírito e não carne. Nós gostamos de conforto; quanto a isso não vejo mal algum. A falácia de construir templos luxuosos e ornados quase a ouro puro sob alegação de serem para Deus já ficou há muito enterrada junto com os exageros e pecados da igreja católica medieval. Enquanto crianças morrem de fome no mundo inteiro, há quem diga que, se todo o ouro do Vaticano fosse negociado e suas fortunas, a fome das crianças no mundo terminaria. Não sei se isso é verdade, mas é verdade que o acúmulo de riquezas e gastos milionários com a construção de templos frente a um mundo que padece de pobreza só pode ser pecado. Os evangélicos que vão para a televisão dar chutes na imagem de veneração católico-romana, acusando a Igreja Católica de idolatria, são os mesmos que idolatram seus templos faraônicos (iguais aos do faraó egípcio), onde apresentam suas ofertas financeiras, para que lhes seja dado tudo em dobro e em triplo. Paulo Apóstolo diz que nós somos agora “o templo do Deus vivo” (2 Cor 6.16) e faz de tal forma que relaciona a isso severa repreensão à idolatria. O modelo de igreja deixado pela igreja primitiva não era de prédios públicos luxuosos para o encontro da igreja, mas sim do partir do pão de casa em casa. O que foi escrito para o povo de Israel não deve ser lido de forma diferente, mas entendido como de fato para aqueles dias e para aquele povo. Em Jesus Cristo, temos a nova aliança, a nova igreja, o novo templo, que é Jesus em nós, por seu Espírito Santo derramado. Mais um terrível equívoco da teologia da prosperidade: como já disse antes, em um Brasil de crianças que sofrem terrivelmente com a pobreza, como pode ser abençoada por Deus a construção de um templo luxuoso e faraônico (um dos maiores templos que já foi construído foi o de Carnac no 88 a teologia da prosperidade-RAHAL.pmd 88 30/09/2011, 14:24 A Teologia da Prosperidade Egito, dedicado à divindade Amom) envolvendo milhões de dólares? Para Deus é que não pode ser, pois Deus é espírito e não habita em templos feitos por mãos. O templo de Israel tinha o objetivo de proteger o povo da idolatria. Ah sim, a despeito de mais esse engano da teologia da prosperidade, tenho certeza de que Deus poderá usar esses templos (que não são para Ele) por amor às vidas e derramará da sua salvação sobre o povo por meio de Jesus Cristo e da pregação de seu evangelho. A multiforme graça e amor de Deus farão de tudo para alcançar as almas sequiosas de salvação, mesmo que seja no interior de um dos templos da prosperidade. A despeito de todos os enganos e desvios da sã doutrina, a IURD, onde quer que esteja, sempre e prontamente se manifesta pelos pobres e necessitados. O nordeste brasileiro conhece bem os projetos implementados pela IURD, representada na pessoa do Bispo Marcelo Crivella, esse homem que eu tive o privilégio de conhecer e que chegou a orar por minha vida e ministério. Tantos pobres são alcançados pelo ministério de ação social da IURD, que não seria tarefa fácil apontar aqui as diversas frentes de trabalho. Na tragédia que ocorreu em Nova Friburgo, em janeiro de 2011, enquanto o governo começava a se preparar para prestar assistência ao povo vítima das enchentes, a IURD já estava chegando na cidade com carretas fechadas trazendo toneladas de alimentos e mantimentos para as vítimas. O trabalho que a IURD faz nos presídios em todo o Brasil é somente louvável e nos remete ao pioneiro dos presídios nos tempos do avivamento inglês: John Wesley. Apontar erros não é tarefa das mais dificeis. Apresentar os êxitos de um ministério no que diz respeito à Sagrada Escritura é tarefa mais árdua. A IURD de fato tem feito diferença por onde passa e permanece. Homens e mulheres regenerados pela palavra do evangelho de Cristo, testemunho de ética e santidade, tudo isso é verdade também em relação aos frequentadores da IURD. Julgar é tarefa para Deus; podemos apenas analisar, discutir, tentar entender e buscar caminhos preciosos de conciliação com a mensagem redentora e graciosa do evangelho de Jesus Cristo. 89 a teologia da prosperidade-RAHAL.pmd 89 30/09/2011, 14:24 Silas Rahal 6.2 - Kenneth Hagin Por muitos anos, a ideia de ser cristão esteve ligada ao conceito de humildade e de viver uma vida de aparência simples e/ou pobre. No Brasil, por muitas décadas, o mundo evangélico ficou relacionado a pessoas de classe mais baixa, o que de certa forma caracterizou a classe de crentes denominada de assembleianos (da Igreja Assembleia de Deus). Essa concepção de vida humilde é a herança católica do despojamento de bens e riquezas terrenas, consideradas como passageiras; um tipo de ascetismo evangélico foi dessa forma a marca do cristão não católico no Brasil por muitos anos. Esta presente obra não tem o objetivo de abranger somente o mundo cristão brasileiro, entretanto, devido ao fenômeno religioso no Brasil ser tão completamente ligado à teologia da prosperidade, não há como não ligar o fato ao que é vivenciado hoje nas igrejas brasileiras em sua maior parte. É nesse ponto que mencionamos o nome de Kenneth Hagin, um dos grandes responsáveis pela propagação da teologia da prosperidade no Brasil e no mundo, talvez em sua raiz mais próxima do New Thought Methaphysics ou Corrente do Pensamento Positivo. O mundo evangélico, em alguns momentos tão “em pé de guarda” contra os movimentos da chamada “Nova Era” (considerada a era de aquário do zodíaco – ocasião planetária em que ocorreu determinado alinhamento de estrelas e planetas), não pode imaginar que, no curso de seu desenvolvimento até chegarmos ao que se tem hoje, pode em grande parte ser atribuído à influência dos chamados movimentos e filosofias do pensamento positivo. Vale considerar que em meio a isso tudo não passa de uma hipótese, uma vez que os possíveis introdutores de tais propostas negam taxativamente que tenham sofrido essas ou outras influências, alegando de si mesmos serem tão somente propagadores do mais genuíno evangelho e ensino bíblico. Alguém já disse que não existe religião pura, o que é facilmente verificado pela religião comparada nas várias características e atos rituais identificados ao mesmo tempo em várias religiões e tempos distintos e lugares e culturas que incrivelmente apresentam em suas manifestações de fé os variados atos simbológicos ativos como sendo os mesmos. Assim se entende que o batismo nas águas, por exemplo, está presente em incontáveis religiões do mundo. Outro elemento presente em várias práticas é algum tipo de ceia, e assim por adiante. Isso pontuamos para identificar que os elementos da chamada corrente do pensamento positivo estão, na verdade, presentes em 90 a teologia da prosperidade-RAHAL.pmd 90 30/09/2011, 14:24 A Teologia da Prosperidade várias práticas religiosas e filosóficas espiritualistas. É, contudo, a pretensão evangélica fundamentalista que suas práticas, seus dizeres, sua teologia sejam, por assim dizer, só suas. Se Jesus é o único caminho, então pensam eles que a religião cristã e suas práticas e doutrinas têm que ser também únicas em sua essência. Esquecem tais pensadores do fundamentalismo evangélico que o homem é um em toda a sua expressão e que as religiões são práticas às vezes aparentemente diversas do mesmo ser humano. Kenneth Hagin faz em suas obras exaustiva defesa de ser ele portador de um único e revolucionário evangelho, que consiste em voltar às bases da fonte bíblica (teologia fontal), apresentando conceitos que, segundo ele, são as premissas do evangelho, que estavam lá desde o início, mas que somente ele pôde enxergar40. Não deixa de estar certo o irmão Kenneth de forma parcial; de fato, os ensinos que apresentam ou sugerem a prática de um “pensar positivo”, de um “agir positivamente”, de um “exercitar da mente humana” encontram-se bem presentes nos textos bíblicos, em todos eles, principalmente nos textos neotestamentários. Por que a ampla defesa feita de Kenneth em praticamente todas as suas obras no que tange a “não pertencer às correntes do pensamento positivo”? Como diz outro autor, o fato de Paulo Apóstolo reivindicar em suas cartas sua “autoridade apostólica” significa forçosamente que essa “autoridade” era o tempo todo alvo de sério questionamento. Dessa forma, a autodefesa de Kenneth Hagin em suas obras, excluindo-se de qualquer influência do pensamento positivo, indica também que existe um contexto para tal, tão próximo está o ensino desse mestre dos principais fundamentos doutrinários do pensamento positivo. Seja como for, em um detalhado exame das Escrituras, o Reverendo Kenneth E. Hagin, em sua obra intitulada nada mais nada menos que “Pensamento certo ou errado”, elenca onde e de que forma nas Escrituras poderá o crente orientar sua forma de pensar no que ele chama de “crer e confessar”. Ora, isso nada mais é do que a base filosófica de todos os segmentos norte-americanos acerca do pensamento positivo. Se as correntes do pensamento positivo (existem muitas) ou os pregadores da prosperidade beberam todos eles na fonte que é a palavra inesgotável de Cristo, que diferença 40 HAGIN, Kenneth E. Pensamento certo ou errado. Rio de Janeiro: Graça Editorial, 2000. 91 a teologia da prosperidade-RAHAL.pmd 91 30/09/2011, 14:24 Silas Rahal faz? Como saberemos de fato se a origem da palavra do pensamento positivo que invadiu os EUA na década de 1940 foi ou não inspirada no evangelho? Como saberemos se a prática do crer e confessar que se instalou nos pregadores de broadcast norte-americanos da mesma década de 1940 foi ou não influência dos pensadores das filosofias de pensamento positivo? Não há mesmo uma forma correta de identificar a questão. Os pregadores da teologia da prosperidade negam invariavelmente qualquer influência sofrida em sua pregação dos tais movimentos; os opositores da teologia da prosperidade (principalmente Hank Hannergraff) apontam de forma explícita que tudo o que há hoje acerca da teologia da prosperidade tem íntima ligação com os movimentos de confissão positiva. Não há como saber, restando a certeza de que ambos os movimentos, seja como for, surgiram nos EUA nos anos 1940; a partir de então foram se desenvolvendo em ambos os lados. Indubitavelmente, o movimento da fé pentecostal deixou para trás qualquer expressão das filosofias de confissão positiva que não chegam nem de longe perto do que acontece nas igrejas da prosperidade no que diz respeito à dinâmica do pensamento positivo. Não é possível fechar essa questão, mas tão somente identificar sua íntima correlação entre a prática da confissão positiva, esteja ela participando de um sistema filosófico específico ou não, e a pregação da prosperidade. Em sua obra “Pensamento certo ou errado”, o irmão Kenneth apresenta na p. 8 uma defesa direta de sua doutrina em relação ao que ele chama de “religiões metafísicas” ou de “ciências da mente”; alega em sua obra que pessoas confundem seus ensinamentos de confissão positiva com tais religiões. Ora, acontece aqui o que falamos acima: Hagin faz sua defesa prévia do que é indefensável, posto que ambos os ensinos são os mesmos, o de Hagin e o das religiões metafísicas. A referência é precisamente “new thought methaphysics”, que foi a febre do pensamento positivo nos EUA entre os anos 1940 e 1950. Pensar de forma pendular nesse assunto é cair em um extremo ou outro. É inegável que a Bíblia tem muito a dizer sobre a mente, sobre a confissão feita pelo crente e pelas consequências dessa confissão. Negar a doutrina bíblica em detrimento de exageros cometidos por pregadores que acabam por desvincular a prática da religião bíblica de seu cerne, Jesus Cristo de Nazaré, é um erro tão grande quanto quem faz tal coisa. A expressão “lavagem cerebral” em relação a novos cristãos ficou bastante conhecida, como que se referindo ao processo de fanatismo que 92 a teologia da prosperidade-RAHAL.pmd 92 30/09/2011, 14:24 A Teologia da Prosperidade passa a atingir a vida do novo cristão. Na verdade, os ensinos bíblicos têm muito a ver com uma lavagem cerebral, não no que diz respeito ao método de terapia médica, mas no sentido de limpar a mente dos pensamentos negativos e de derrota, em troca incutindo pensamentos de vitória, positivos, de esperança, de salvação do corpo e da alma. A própria pregação de Cristo é algo bastante arrojado no que diz respeito ao pensamento positivo. O que pode valer mais ao ser humano quando visto de forma integral, holística? A ideia da doença e do sofrimento pode habitar no ser humano que, mergulhado em sua tragédia pessoal, aguarda o fim. De outra forma, temos a mensagem de que Jesus (o mesmo poderoso da Galileia), que se dinamiza na mente e emoção de certo crente, por fim irá ressuscitá-lo da morte. São dois quadros bastante diferentes e que inegavelmente geram diferentes consequências nas pessoas que as recebem. Vista dessa forma, a pregação do irmão Hagin, com grande ênfase na confissão positiva, é algo muito bom para qualquer ser humano. Por outro lado, o exagero de Hagin em não aceitar doenças é um conceito que percorreu todo o mundo evangélico em todos os continentes e penetrou mesmo nas mais tradicionais congregações cristãs. O que hoje parece ter existido desde sempre nas igrejas não foi sempre assim. Havia em um evangelho mais antigo a ideia de aceitar o sofrimento, a doença e a dor, um tipo de resignação mórbida, quase lembrando a ideia do “ já morri”. A mensagem inspiradora de Kenneth Hagin mudou esse quadro, não mencionando os exageros; lançou a perspectiva da mensagem cristã em um acordo com a energia emocional inicial bem apresentada nos textos bíblicos, principalmente no Novo Testamento. Hagin, contudo, também explora bem a exposição de confissão positiva elencada no Antigo Testamento. Como boa parte dos pregadores da prosperidade, Hagin também se apresenta como alguém que teve contato pessoal, por meio de aparições, com o próprio Jesus Cristo, o que sempre exerce um tipo de descrédito na mensagem do pregador. Mesmo assim, o ensino de Hagin foi grandemente difundido a partir de seu ministério de ensino, o Rhema, hoje presente em várias denominações e continentes. Os ensinos de Hagin dizem respeito principalmente à salvação da alma e à cura do corpo, tudo intimamente ligado à prática de confessar o que se crê e o que se espera alcançar. Sem sombra de dúvida, um dos grandes autores e pregadores da prosperidade em nosso século. Sua doutrina resume-se principalmente na ênfase dada ao trinômio de forma diretamente associada à pessoa de Cristo: pensar, crer e confessar. 93 a teologia da prosperidade-RAHAL.pmd 93 30/09/2011, 14:24 Silas Rahal 6.3 - T. L. Osborn Alguns homens deixam sua marca pelo que fazem, outros pelo que são. Esse é seguramente o caso do Dr. T. L. Osborn, que a partir de 1945 começou a atuar como missionário na Índia, nunca mais parando sua atividade. Autor de várias obras, que alcançaram em todo o mundo a marca de mais de dois milhões de cópias, traduzidos para mais de cem idiomas. A simplicidade é a marca desse que é um dos pioneiros da pregação da prosperidade; ele apresenta ênfase em um estilo de vida abundante, não necessariamente ligada à questão financeira. Osborn não ignora o assunto das finanças no que diz respeito à prosperidade bíblica, mas não é o tópico pelo qual ficou conhecido. A ênfase do ministério de Osborn bem como de sua pregação diz respeito à cura divina. Existem charlatões em todo o campo da atividade humana, mas certamente não é esse o caso. Basta ver algumas das fotografias antigas e filmagens feitas ainda em preto e branco na velha câmera 8mm para constatar nas multidões de centenas de milhares que em todo o mundo se aglomeravam para ouvir o que esse pregador chamava de “nova vida de milagres agora”, o que também ficou sendo o título de um dos seus livros mais circulados em todo o mundo41. A noção deturpada de pregação da prosperidade que conhecemos hoje, como já foi visto, deu-se por motivo de alguns pregadores contemporâneos, principalmente no Brasil, como o Bispo Edir Macedo e outros da mesma linha teológica. Entretanto, com T. L. Osborn temos uma mensagem de esperança para qualquer pessoa, independente de credo, religião, cultura, que se torna irresistível sem tornar-se ecumênica. Um dos pontos da prosperidade pregada por T. L. Osborn é que “todas as demais tentativas de aproximação (religiões) de Deus são fúteis e sem valor”42. Nisso não pode ser dado louvor a T. L. Osborn quando ele resume toda a cultura religiosa da humanidade, em todos os tempos, à expressão: “procura fútil da humanidade pela divindade” (p. 176 da obra “Uma nova vida de milagres agora”). Mesmo assim, isso não torna sem valor a obra que é o ministério da prosperidade em T. L. Osborn, bem como sua pregação rica em abordagens bíblicas e práticas da vida, de ensinos cristocêntricos, em exercício da confissão positiva, em es- OSBORN, T. L. Uma nova vida de milagres agara: a busca global. Rio de Janeiro: Graça Editorial, 2005. 42 Idem 41. 41 94 a teologia da prosperidade-RAHAL.pmd 94 30/09/2011, 14:24 A Teologia da Prosperidade clarecimentos ético-morais, em mensagens ao povo e sobretudo no cuidado e atenção que Osborn em toda a sua vida dispensou aos mais pobres. Nunca em uma cruzada de Osborn foi apresentada mensagem que pudesse sugerir ao pobre que esse era pobre por sua falta com Deus (ensino típico da teologia da prosperidade contemporânea). Osborn apresentava sempre um caminho de esperança em Cristo para o pobre, enquanto pobre mesmo, bastante diferente das pregações contemporâneas completamente deturpadas, onde o pregador sugere que o pobre é pobre por falta de fé, que os empregados devem deixar de sê-lo para se tornar patrões, que anda de ônibus quem não tem fé para ter um carro, etc... Ensinos tais que penetraram dessa forma os mais tradicionais ministérios, principalmente no Brasil (a partir do Brasil avança para o mundo em todas as direções), sempre aliados ao movimento neopentecostal e pregadores carismáticos. Essa movimentação causa danos ao evangelho por levantar suspeitas, promovendo assim um eclipse das verdades bíblicas sobre a prosperidade. Percebendo que há algo que não faz sentido nessa mensagem distorcida da prosperidade, boa parte dos cristãos joga para o fundo de um baú empoeirado qualquer coisa que se pareça com pregação da prosperidade (deixando de ser abençoado pela verdadeira doutrina), bem como assustando e afastando de vez aqueles que ainda estão por ser alcançados pela mensagem salvadora de Cristo. Na p. 38 de sua obra “Uma nova vida de milagres agora”, T. L. Osborn apresenta claramente seu conceito de prosperidade bíblica, ao qual pregador algum dos mais equilibrados teria qualquer acréscimo a fazer: “De acordo com as Sagradas Escrituras, ser salvo significa ser perdoado, absolvido, resgatado, sarado e curado física, mental e espiritualmente, ser preservado, protegido, guardado e próspero, ter vida em abundância, ter vida eterna, experimentar uma nova vida de milagres agora”. Note que, ao apresentar seu conceito de prosperidade bíblica para salvação, Osborn considera ser bem-sucedido em todos os aspectos da vida, demonstrando uma certa afetação, um algo de não aceitar as doenças. Nesse ponto, o ilustre Osborn ignora os relatos bíblicos apostólicos de vários seguidores e ajudadores dos apóstolos, que se encontravam em enfermidade, o mesmo sendo considerado sobre o próprio apóstolo Paulo, que para muitos estudiosos tinha graves problemas de saúde. Fora esse pormenor de não aceitar doenças (característica de grande parte dos pregadores da prosperidade), fica também de forma muito interessante e oposta a pregação da prosperidade mais habitual, que Osborn sequer cita aqui a questão de ser 95 a teologia da prosperidade-RAHAL.pmd 95 30/09/2011, 14:24 Silas Rahal rico ou alcançar bens financeiros, o que não significa que em sua doutrina Osborn tenha excluído esse aspecto; apenas não lhe parece tão importante. Menos mal. Já na p. 53 da mesma obra, se, por um lado, Osborn não apresenta o “ficar rico” como um alvo, ele deixa claro que a prosperidade de Deus envolve “ficar livre da pobreza”; isso também se torna um exagero frente à realidade da vida. Há muitos pobres que têm sua condição perpetuada pelo sistema financeiro, status quo, etc... Isso dificilmente será revertido na vida de muitos crentes fiéis em Jesus. Essa pregação afetada, quando se faz referência a pregadores da prosperidade, é quase sempre um ponto comum em todos eles: o absoluto de ser bem-sucedido, que simplesmente não combina com a existência humana, com a tragédia que é a vida humana, para a maior parte da população do mundo. Dessa forma, Osborn está longe de ignorar a questão financeira; apenas não faz dessa questão um ponto de enriquecimento ou estímulo para ganhar dinheiro através de supostos mecanismos espirituais financeiros de dar e receber. Outro ponto maravilhoso da doutrina da prosperidade em Osborn encontra-se na mesma obra na p. 138. Osborn declara explicitamente que “não é preciso fazer coisa alguma, pagar qualquer tipo de preço adicional, ... dar ofertas, ... oferecer sacrifícios, a fim de somá-los ao que Cristo fez para redimi-lo do pecado... Nunca faça qualquer coisa ou ofereça sacrifício... Creia que o sacrifício de Jesus na cruz foi suficiente... Suas ofertas ... não podem melhorar sua condição de salvação”. Tais afirmações bastante esclarecidas são quase que opostas aos ensinos do Bispo Edir Macedo, que sugere em seus ensinos a necessidade de darmos ofertas de todos os tipos e financeiras para fazer a manutenção da salvação, inclusive elencando as ofertas financeiras como tipos de sacrifício. Dessa forma, temos uma abordagem no ensino da prosperidade diametralmente oposta entre dois grandes nomes da teologia prática. É possível fechar essa questão? Eu penso que não, pois são dois homens bastante capazes, ensinando a mensagem de Jesus Cristo da forma que entendem (não há dúvida de que o Bispo Edir Macedo prega em suas reuniões o evangelho de Jesus Cristo), cada um com suas diferentes abordagens. Por outro lado, Osborn alega, da mesma forma que Hagin e Benny Himm, que várias aparições de Jesus Cristo se deram em suas reuniões pelo mundo afora, bem como teria Jesus aparecido para ele próprio. Isso já não acontece nas mensagens do Bispo Edir Macedo. 96 a teologia da prosperidade-RAHAL.pmd 96 30/09/2011, 14:24 A Teologia da Prosperidade Modelos de igreja Um aspecto maravilhoso elencado na mensagem de T. L. Osborn é o da igreja enquanto congregação dos salvos, necessária à manutenção da fé cristã e seu fortalecimento. O texto-chave dessa mensagem se encontra em Hb 10.24-25; muitos pregadores adotam essa passagem para garantir legitimidade bíblica ao controle exagerado que fazem dos frequentadores de seu culto. Quando Paulo disse “não deixando a nossa congregração” na referida passagem, como muito bem explica T. L. Osborn, o apóstolo não quis dizer essa ou aquela igreja, mesmo porque não existiam denominações evangélicas naquele período em que a carta de Hebreus foi escrita. O apóstolo se refere à necessidade que tem o crente de estar congregado com outros crentes de uma forma ou de outra. Isso interrompe o monopólio da fé, em que líderes evangélicos vão dizer aos seus seguidores até quem devem ou não namorar e quando casar. Esse modelo já caiu por terra há muito tempo. Não faltam exemplos de líderes evangélicos extremistas que, enquanto conduziam seu rebanho no mais extremo rigor de controle, chegando a influenciar decisões de negócios dos quais pouco entendem, levavam vida secreta e dissoluta, coisa que sempre vem à tona de uma forma ou de outra. A Bíblia não é um livro para controle dos cristãos, mas para fortalecimento e esclarecimento. A congregação também não é um grupo destinado a controle dos seguidores de Jesus, mas para fortalecimento mútuo, crescimento na fé, evangelização daquele que se aproxima. Osborn no capítulo 22 de sua obra “Uma nova vida de milagres agora” faz um dos mais belos discursos a favor da igreja, apresentando sólidos motivos e argumento bíblico por que deve o crente frequentar a igreja. Osborn esclarece seu conceito de congregação como estando muito além do pálido entendimento de que igreja somente pode ser aquela devidamente instituída e certificada pela existência de um corpo devidamente registrado e orquestrado. Normalmente, nesse modelo de igreja neopentecostal, um líder dá as regras do bom viver, decidindo os casos mais bizarros da vida humana. Um seguidor chega ao absurdo de consultar seu líder para fazer ou não um negócio, comprar ou não uma casa, enquanto a esposa se questiona que religião é essa. O apóstolo Paulo adverte que nossa liberdade foi comprada por bom preço, por preço de sangue. Essa prática de controle dos crentes não é coisa 97 a teologia da prosperidade-RAHAL.pmd 97 30/09/2011, 14:24 Silas Rahal nova na cristandade, vem desde o princípio. Quem ama não controla, mas ensina, admoesta, aconselha e acompanha seja qual for a decisão do crente. Osborn chega a apresentar o modelo possível de congregação bastante underground (alternativa), quando afirma em sua obra que, caso o crente não encontre uma igreja (congregação) por um motivo ou outro que lhe agrade, passe a estudar a Bíblia sozinho e que receba em seu estudo todos quantos Deus lhe enviar. Ora, isso é uma afirmação poderosa, que relaciona o Espírito da liberdade e santidade que habita no crente. Se é o Espírito de Deus que em nós habita, então em tudo estamos supridos, como diz o apóstolo Paulo. O modelo de igreja apresentado por Osborn não afirma a não existência da congregação dentro da igreja denominacional, conforme a conhecemos; pelo contrário, fortalece esse modelo e leva a vida cristã para além das paredes denominacionais, quando a Escritura afirma: “quando dois ou mais estiverem reunidos em meu nome, ali Eu estarei...”. Osborn defende e ensina que o crente precisa estar reunido com outros crentes para crescer e se fortalecer, mas deixa claro que o crente traz em si mesmo o Espírito de Deus e uma fonte de água viva. Seja como for, a partir de um ajuntamento de crentes (congregação) já existente ou a partir da própria devoção pessoal, Osborn nos ensina a estar congregados (dentro ou fora de uma denominaçao existente) em nome de Jesus, para nosso crescimento, fortalecimento, louvor, oração, aprendizado, consolação, alegria. Parece mesmo que T. L. Osborn previu o que aconteceria nesses dias da virada do milênio, quando um novo conceito de congregação se torna cada vez mais popular no Brasil e no mundo. No meu caso, eu chamo de Igreja underground ou alternativa; nos Estados Unidos da América, tais congregações são chamadas de Nondenominational Church (Igreja não denominacional), e alguns observadores da teologia no Brasil dizem que são as igrejas familiares ou que se reúnem em casa. Seja como for, tem se tornado uma realidade que pequenos grupos não maiores do que 50 irmãos se reúnem nas casas para estudar a Bíblia, ter comunhão e participar da Ceia do Senhor. Isso nos remete à igreja dos dias apostólicos do livro de Atos; parece que T. L. Osborn se adiantou em seu tempo quando previu a legalidade e a conveniêencia de tais congregações. 98 a teologia da prosperidade-RAHAL.pmd 98 30/09/2011, 14:24 A Teologia da Prosperidade Igreja underground Nesse ponto, somos forçados a um comentário breve sobre o que tem sido chamado de movimento underground cristão. Grupos de cristãos geralmente voltados ao tipo de música rock, com toda a sua indumentária, estilo, costumes e modo de viver, encontram aqui plena realização ao compartilhar do seguimento de Jesus como padrão a ser vivido, sem deixar de lado o estilo de vida característico do seguimento. Outra denominação para o tipo de igreja é o de tribos urbanas, que faz referência ao fenômeno contemporâneo urbano, onde jovens se agregam para encontrar paradigmas de sua própria cultura e jeito de entender o mundo ao seu redor. Nos vários tipos de tribos urbanas se definem peculiariedades; têm-se dessa forma os emo, os black metal, punk, góticos, extremos, skinhead, glam, heavymetal, metaleiros, etc... Cada estilo faz menção a um tipo de rock ou metal e possui regras de comportamento, na maior parte das vezes, não mencionada, mas subentendida na forma de vestir e falar. As igrejas underground ou de missões urbanas destinam-se a congregar esses que pertencem a uma dessas tribos ou a partir de um núcleo comum para evangelizar esses que alguns sugerem seriam a última fronteira a ser alcançada (no entendimento de missão evangélica). Inicialmente contestada pela maior parte das grandes denominações evangélicas, agora cada vez melhor recebida e entendida pelo povo evangélico, onde se percebe que a palavra de Jesus não está presa a conceitos préformulados, mas se estabelece onde quer que deva chegar, a fim de anunciar a salvação de Deus aos homens. Pelo Brasil e pelo mundo, nos últimos dez anos, cada vez mais ministérios underground se estabelecem no cenário de missões. No Rio de Janeiro, temos principalmente o Metanoia, tendo à frente o Pastor Enoque Galvão, que faz evangelismos de impacto nos lugares onde dificilmente outro ministério teria qualquer acesso, tais como grandes eventos de rock e conhecidos lugares de frequência do mundo underground rock carioca. No Rio, também a comunidade S8, onde acontece o encontro das tribos, que veio a tornar-se uma referência no ministério underground cristão em todo o Brasil e no mundo. Não podemos deixar de mencionar o esforço da Tribal Generation, organização mundial que tem suas bases também em terra brasileira. Em São Paulo, temos inúmeros ministérios underground, entre eles o Crash Church, o CMF e outros. Em Minas Gerais, destaque para Caverna do Rock e para Avalanche Missões Ur- 99 a teologia da prosperidade-RAHAL.pmd 99 30/09/2011, 14:24 Silas Rahal banas. Pelo Brasil afora não são mais contáveis os nomes que surgem e as vidas por trás desses nomes, que se colocam no seguimento de Jesus Cristo de Nazaré com muito rock e louvor. Além de igrejas underground propriamente ditas, temos também as bandas de rock cristão, que se tornaram ministérios por si mesmos, onde toda uma movimentação característica faz com que uma comunidade cristã se desenvolva ao redor. É o caso do Ministério Metal Nobre, tendo à frente o irmão JT, vocalista e líder do grupo, bem como da Igreja das Américas-Christian Rock Ministry, do qual sou eu o pastor. Na Europa, várias bandas de rock cristão já têm suas reuniões próprias para ceia, comunhão e estudo da Bíblia, o que parece ser uma tendência a ser seguida pelo mundo afora e no Brasil. As igrejas históricas têm recebido cada vez mais os eferventes membros dos ministérios underground, demonstrando assim grande maturidade e conhecimento da doutrina de Jesus. Algo que causa certa curiosidade nos ministérios underground é o que eu chamo de teologia do caixão ou teologia da morte. Os símbolos do evangelho primitivo referentes ao sinistro e morte têm sido descritos com maior ênfase a fim de ser utilizados como estratégia para alcançar a mesma simbologia usada na juventude envolvida no rock contemporâneo de tendências ao sinistro e ao mórbido. Para o evangelho de Jesus, a sepultura vazia, o sangue derramado e a cruz significam vida e ressurreição. Para os participantes do movimento de rock contemporâneo, símbolos como cemitério, caveira e a cor preta significam um tipo de revolta contra o sistema ou não aceitação do mundo como ele é. Tal fenômeno possivelmente tem a ver com a juventude pós-punk da Alemanha no pós-guerra, onde uma verdadeira frustração tomou conta dos jovens, culminando no movimento punk. Também o que hoje se chama vulgarmente de gótico ou goticismo talvez tenha suas raízes remotas no movimento pós-romantismo da arquitetura e das artes na França e que, mais tarde, se arrastou por outros lugares do mundo. Entender o fenômeno do mórbido e do sinistro, que tomou conta dos jovens no mundo, é tarefa bastante complicada. As superproduções envolvendo vampiros e homens-lobo parecem ficção aos olhos do mundo leigo. Na verdade, pouco tem de ficção se for examinada mais a fundo a rotina dos jovens envolvidos em tribos urbanas, quando em muitos casos há relatos já em jornais de grupos de jovens ouvintes de rock vestidos de preto, envolvidos em suicídio, sacrifício humano, rituais bizarros envolvendo animais e ingerindo grandes quantidades de sangue humano. É preciso tomar 100 a teologia da prosperidade-RAHAL.pmd 100 30/09/2011, 14:24 A Teologia da Prosperidade muito cuidado com as tais superproduções de vampiros heróis, romantizando o sinistro e o mórbido, onde se cumpre a palavra do profeta bíblico quando diz: “dirão da morte, eu sou sua amiga, e da sepultura, você é minha companheira, com a morte fizeram aliança...”. Nesse caso, os ministérios underground mostram a que vieram: cumprir a ordem do Cristo ressuscitado, que ordena: “vão a todos os povos, e tribos ... e proclamem esse evangelho”. É dessa forma que, nesse modelo de igreja previsto por Osborn, uma volta ao princípio, surgem os ministérios e igrejas underground, para cumprir de forma apropriada o anúncio do evangelho, indo onde outras igrejas e ministérios dificilmente poderiam chegar. Vale ainda dizer sobre os ministérios underground que o grito da teologia da prosperidade e seus apelos para a riqueza financeira e material não alcançaram êxito em corromper os sentidos do christian rock. Efetivamente, a teologia da cruz permanece soberana no rock cristão, desde os pioneiros como a banda Stripper, passando pelo Petra e mais recentemente por projetos como Narnia, Metal Nobre, Oficina G3 e tantos outros. O ministério underground cristão permanece firme em sua origem e identidade na vida real, na salvação que há em Jesus, na mensagem da cruz e do evagenlho dos antigos, graças a Deus por isso. Até hoje não conheci em nenhum outro lugar um conceito de igreja e congregação tão completo e livre como o apresentado por T. L. Osborn. Eu creio que, se hoje vivo uma vida de alegria e prosperidade e paz e justiça, isso devo em parte aos mais de quinze anos em que estive congregado em igrejas denominacionais. Nessas igrejas, pude receber de tudo um pouco no fortalecimento de minha vida espiritual e, acima de tudo, um intenso amor por parte de irmãos na fé e pastores. Não existem igrejas melhores que as outras; existem igrejas cristãs para públicos diferentes. Uma apresenta o louvor com hinos da harpa, outras com canções sertanejas, outras com corinhos de fogo, e assim por diante. A que eu admiro e me sinto bem é o Bola de Neve Church, que faz o louvor com rock e com reggae. Como no estilo do louvor existe variação de igreja para igreja, também na abordagem, no estilo, na roupagem, no tipo de culto, tudo isso vai variar de lugar para lugar, de cultura para cultura, de grupo social para grupo social. Dessa forma, toda igreja cristã onde a Bíblia é ensinada e pregada é apta para promover o crescimento e o fortalecimento da vida cristã, bem como o anúncio do evangelho de Jesus na terra, não importando o quão diferente seja essa igreja das outras. 101 a teologia da prosperidade-RAHAL.pmd 101 30/09/2011, 14:24 Silas Rahal O ritmo que, para alguns evangélicos intolerantes, pode significar pecado contra Deus por idolatria, lá na África pode ser o mais belo hino de louvor a Deus. De fato, pouca diferença se vê em uma religião de matiz africana para um culto evangélico em solo africano, no que diz respeito à forma do culto. Resta ao crente encontrar aquela igreja onde a Bíblia é pregada e ensinada, onde melhor determinada pessoa possa se sentir no que diz respeito às práticas de culto. No momento em que algum seguimento cristão se acha melhor do que outro, é a hora em que Deus permite sua queda, mesmo que momentânea. A vaidade é quase sempre um aviso da queda iminente. Entendo que as muitas igrejas e ministérios existentes são parte de um mesmo exército, onde o sábio general posiciona suas tropas habilmente de forma a alcançar seu objetivo. Nessa guerra contra o mal, o general Jesus Cristo tem como objetivo a salvação da alma humana e da criação. Ele posiciona suas hordas como bem Lhe apraz. Nem sempre a ordem do general agrada ao soldado ou aos seus oficiais, mas, sabendo de quem vem a ordem, a tropa obedece confiante, na certeza da vitória. Essa vitória é a vida eterna. Esse exército vai ter várias peculiariedades, que variam de pelotão a pelotão, de companhia a companhia, de soldado a soldado, de armamento a armamento, mas um só é o general, uma só é a guerra. Entender essa dinâmica da guerra contra o mal é importante para que o soldado cristão possa combater o bom combate, sem cair no absurdo do fogo amigo (expressão de guerra quando uma tropa atira contra ela mesma). Há um ditado costumeiro no meio cristão que dói só de ouvir: “os cristãos são o único exército que derruba seus próprios soldados”. Não aceito isso facilmente, não gosto de ouvir alguém falar. Mas se de fato isso ocorre, é por desconhecimento de causa, é o preço que a cristandade paga por seus líderes neopentecostais contemporâneos não fazerem seu dever de casa estudando a teologia. Poder ver na diferença de outro ministério a riqueza do dom de Deus e sua multiforme graça é algo nem sempre fácil de perceber. É somente conhecendo a história da igreja cristã e como chegamos até aqui que se pode vislumbrar a potente mão de Deus guiando sua noiva e preparando-a para o grande dia. Para T. L. Osborn, a integração da vida cristã na congregação é parte de um conceito de prosperidade mais abrangente e completo. Sem dúvida, podemos ter em Osborn uma refêrencia para o conceito bíblico da prosperidade, que Deus reserva para o homem. 102 a teologia da prosperidade-RAHAL.pmd 102 30/09/2011, 14:24 A Teologia da Prosperidade T. L. Osborn, sem dúvida um dos grandes pregadores e autores da prosperidade em nossos dias, tanto no Brasil como fora do nosso país, realizou uma grande obra de alcance em todas as esferas sociais, principalmente aos pobres, com uma mensagem de esperança, de paz, de salvação, de mudança, para melhor, para Jesus Cristo de Nazaré. Outro nome que não pode e não queremos deixar de fora dessa reflexão é o de R. R. Soares, evangelista e missionário que detém atualmente o maior índice de exposição na TV brasileira, sendo que tanto R. R. Soares como Edir Macedo foram diáconos na Igreja de Nova Vida do bispo Roberto MacAlister, onde foram iniciados, tendo seguido caminhos diferentes: Edir Macedo parece ter criado sua própria doutrina de sacrifícios financeiros, adotada hoje consciente ou inconscientemente por vários ministérios, e R. R. Soares abraçou de corpo e alma a doutrina de Kenneth Hagin, T. L. Osborn, seus cursos, livros e pregações. T. L. Osborn já esteve na Igreja da Graça de R. R. Soares, sendo suas obras (dos dois missionários) sistematicamente publicadas pela editora da Igreja da Graça de R. R. Soares no Brasil. É o que veremos a seguir. 6.4 - R.R. Soares Como já dissemos anteriormente, não é o caso de ignorar a existência de certo posivitismo nas palavras bíblicas, tanto em Jesus como antes; é fácil perceber que a palavra de fé, de esperança, de salvação, a própria mensagem bíblica está sempre permeada de um tipo de confissão positiva. Ora, é bem típica desse grande pregador que conhecemos por R. R. Soares a pregação do evangelho de Jesus Cristo aliada a certa dose de confissão positiva. E nisso não posso ver nada de errado, sendo mesmo uma concordância com o tipo de mensagem que nós encontramos em toda a Bíblia. Há quem diga que R. R. Soares é o pregador que mais exposição de TV possui atualmente, isto é, o que mais aparece na televisão. Particularmente, gosto muito dos corinhos antigos com que abre seu programa “O Show da Fé”. São cânticos da igreja de muitos anos passados, que considero do melhor equilíbrio teológico possível, muito ao contrário das atuais músicas cantadas nas igrejas neopentecostais, a saber: uma espécie de poprock no estilo Hillsong, onde tudo é “faz chover”, “passa um rio”, “vai acontecer”, “o meu milagre chegou”, “a minha sorte vai mudar”. 103 a teologia da prosperidade-RAHAL.pmd 103 30/09/2011, 14:24 Silas Rahal Lembro-me bem das vezes em que eu frequentei com meu pai, o Pr. Ramis Rahal, os encotros e retiros da Igreja Metodista Wesleyana ou mesmo da Assembleia de Deus, onde hinos muito antigos faziam sempre menção de um evangelho simples, onde a mensagem da cruz era apresentada com uma dose bastante equilibrada de confissão positiva, de otimismo, etc... A música que hoje abre o programa do evangelista R. R. Soares, “Estou seguindo a Jesus Cristo”, é um bom exemplo disso (gosto muito). Enfim, temos na pessoa do evangelista R. R. Soares uma referência da mensagem positiva do evangelho e do tipo de pensamento que deve abrigar a mente de quem já está em Cristo: o de ser nova criatura. Não é, entretanto, por ser admirador desse nobre evangelista e famoso pregador do evangelho que posso me esquivar de apontar alguns pontos de sua obra “Como tomar posse da bênção”. Trata-se de um tipo de reprodução do pensamento de T. L. Osborn para uma vida positiva, seguindo inclusive a exposição do livro um mesmo estilo de exposição de ideias que a obra de Osborn. Se, por um lado, Soares não dá o desgosto de enfatizar em seu ministério da fé a arrecadação financeira, não faz por menos ao seguir tão de perto as ideias de Kenneth Hagin, que chega ao exagero de afirmar que o crente deve lutar contra os pensamentos negativos, como se esses fossem o inimigo. Ora, Paulo Apóstolo nos afirma que o inimigo são o diabo e suas hostes, e não os pensamentos negativos. Fosse a condição de pensamento (positivo ou negativo) o fator determinante da vida cristã, então para que morreu Cristo na cruz? De fato, R. R. Soares comete um exagero na sua doutrina positivista, deixando o mestre Pr. Silas Malafaia no “chinelo”. Dificilmente, algum pregador da prosperidade no Brasil dará mais ênfase ao pensamento positivo do que Soares. É como se as ideias de Kenneth Hagin (confissão positiva) e T. L. Osborn (cura divina) tivessem sido amplificadas na doutrina de R. R. Soares na mesma proporção que Macedo “amplificou” as ideias apresentadas pelo Bispo Roberto. Eu disse amplificou? Perdoem-me a má colocação; na verdade, Macedo alterou a mensagem de Roberto MacAlister, ao passo que R. R. Soares tão somente amplificou a doutrina original de seus mestres. Precisamos entender que certa dose de confissão positiva está presente no evangelho e devemos manter dessa forma; entretanto, não podemos substituir o evangelho de Jesus pela confissão positiva ou corremos o risco de anular a mensagem de Cristo e suas benesses, anunciando e vivendo “outro evangelho”. Sim, o evangelista R. R. Soares faz um ótimo trabalho; 104 a teologia da prosperidade-RAHAL.pmd 104 30/09/2011, 14:24 A Teologia da Prosperidade conheço muitas pessoas que foram abençoadas pela pregação televisiva de Soares. Suas igrejas, entretanto, não chegam nem perto da virtude que emana desse pregador, que de alguma forma não conseguiu reproduzir nas igrejas de seu ministério o mesmo tipo de confissão presente em seu trabalho: o positivismo cristão. Uso essa expressão sem saber se outra pessoa já tem feito uso, mas é assim que vejo um tipo de “positivismo cristão”. Não há grandes males nesse tipo de comportamento teológico, desde que seja mantida certa discrição. Uma outra característica positiva na obra de R. R. Soares é a simplicidade de seu ministério. Ele é uma figura simples e agradável, também sua assistência, seus pastores, etc... Vê-se claramente que se trata de um autêntico pregador do evangelho de Jesus Cristo, dotado de grande amor pelas almas. Apesar de seu exagero positivista e sua não aceitação das doenças (terrível engano), é fácil perceber o grande amor do evangelista R. R. Soares pelas vidas que sofrem. Nesse caso, sua mensagem é tudo de bom. Quem sofre quer água fresca, e muita. Os ensinos do evangelista R. R. Soares, apesar de acrescentarem à sua plateia (modelo igreja-auditório) dose importante de otimismo bíblico, não é nada original quando sugere que o homem não é uma “sombra que hoje está aqui e amanhã já não está...”, como diz o salmista. A apresentação que Soares faz da criatura humana é de um ser de grande valor, pelo qual foi pago um alto preço. Esse alto preço de redenção teria sido pago não nescessariamente pelo grande amor de Deus, mas pelo alto valor a que se distingue a figura humana. Essa forma de pensar fica bem apresentada na p. 09 de sua obra “Como tomar posse de sua bênção”: “E, se o preço pago foi alto, é porque o nosso valor é grande”. Ora, o que aprendemos desde crianças na escola dominical das denominações mais tradicionais do mundo evangélico no Brasil e no mundo é exatamente o contrário. Somos criaturas pequenas diante do criador excelso. Pecadores e perdidos sem Deus e sem Jesus, até que um dia Ele estendeu sua mão para nós, conforme diz o antigo hino. Talvez o evangelista devesse prestar mais atenção aos hinos que tanto admira. A fixação de R. R. Soares em uma vida vitoriosa faz seus 50.000 leitores (50.000 cópias impressas de seu livro “Como tomar posse da bênção”) desviarem o foco da vida cristã. Jesus ensina que temos por obrigação carregar nossa cruz, e Paulo Apóstolo diz que sabe viver no muito e no pouco, de todas as formas, na riqueza e na pobreza, e sabe estar bem em 105 a teologia da prosperidade-RAHAL.pmd 105 30/09/2011, 14:24 Silas Rahal todas as adversidades. Mas R. R. Soares diz na p. 10 de seu livro que enfrentar situações adversas sem resposta de Deus é “amargar com lágrimas a falta de resposta de Deus”. Viver em Cristo e por Cristo é muitas vezes exatamente enfrentar situações adversas sem a resposta de Deus, isto é, viver por fé. Segundo o evangelista, não ser bem-sucedido em tudo é um tipo de falta de conhecimento que o crente tem em relação a Deus. É bastante explícito o objetivo da obra de R. R. Soares, quando na p. 11 de sua obra ele começa o parágrafo se referindo ao ponto de partida para obter o “sucesso”. Afinal, a vitória para R. R. Soares é obter sucesso? Bem, não é assim que funciona comigo e com o evangelho à moda antiga. A vitória para aquele evangelho dos hinos antigos é ser salvo em Jesus Cristo nessa vida dos pecados e no porvir, alcançando a vida eterna. Mesmo que muitas adversidades possa o crente enfrentar nessa vida. Muitos aparentes não sucessos. Estar em Cristo é alcançar “paz, alegria e justiça no Espírito Santo”, e não simplesmente obter “sucesso”. Ainda afirma o poderoso evangelista da televisão que é preciso ter determinação para alcançar o sucesso, que ele apresenta como meta da vida cristã. Ora, para que um empresário obtenha sucesso em seu empreendimento, eu concordo que ele precisa de boa dose de determinação; quanto ao crente, penso que ele precisa receber pela fé a obra de Jesus na cruz do calvário, bem como seus ensinamentos em sua vida. A salvação é o sucesso da vida cristã, e é dom de Deus. Não precisa o crente ter determinação para ser salvo, mas tão somente crer; é pela fé que somos salvos e libertos por Jesus, não por determinação. Se eu desejar um livro de autoajuda, eu compro. Se eu precisar de conselhos, eu procuro um terapeuta; se eu quiser a salvação da alma, eu tenho que receber Jesus pela fé em minha vida. Assim eu creio. Como não podia ser diferente, posto que os pregadores da prosperidade têm pouca ou quase nenhuma originalidade, R. R. Soares faz grande uso dos conhecidos versos da Bíblia completamente fora do contexto. Por exemplo, em seu referido livro, na p. 17, ele apresenta Jo 14.13 (“E tudo quanto pedirdes em meu nome...”) para dar uma nova versão; alega que a palavra pedir deveria ser traduzida por determinar. Ora, não vou me deter nessa colocação, que penso ser conveniente ao positivismo. Prefiro ir no lugar-comum do entendimento da teologia da prosperidade, onde os pregadores fazem uso comum do texto para garantir a obrigação de Deus em fazer tudo o que o crente pede (no caso de Soares, o crente determina). Se, 106 a teologia da prosperidade-RAHAL.pmd 106 30/09/2011, 14:24 A Teologia da Prosperidade contudo, o verso for examinado no contexto, é facil perceber logo adiante no v. 16 que Jesus se refere ao Espírito Santo, que seria enviado aquele que pedissem a Deus. Tais interpretações convenientes dos versos bíblicos são fato comum na rotina dos pregadores da prosperidade. Não é sem motivo que o mesmo evangelista faz um ataque direto à teologia quando chama de laboratórios ministeriais as construções da teologia e de sábios os doutores em teologia, aplicando à palavra sábio certo grau de ironia (p. 95 da mesma obra). É muito conveniente aos pregadores da prosperidade que pouco se conheça sobre teologia, pois no menor grau do ensino teológico seria perceptível que, nessa matemática da fé, sempre sai ganhando o líder da denominação, que irá invariavelmente receber em sua conta bancária parte dos dízimos e ofertas apresentados pelo povo. Faça chuva ou faça sol. Ao passo que o ofertante nem sempre receberá de Deus multiplicado tudo o que depositar na igreja. Essa é a realidade, quer alguém goste, quer não. Os pregadores da prosperidade não gostam dos cursos profissionais de teologia, mas esquecem que a prosperidade bíblica foi primeiro ensinada no Brasil por Roberto MacAlister, Mestre e Doutor em Teologia e outros títulos. Não é por acaso que a prosperidade bíblica apresentada pelo Bispo Roberto MacAlister não foi um simples vento de doutrina, mas sim um despertar da fé bíblica com base nos mais profundos fundamentos do ensino da Escritura e do povo de Deus. Outra consideração bastante comum na pregação da prosperidade no que diz respeito à cura é o não aceitar a doença. Ora, se alguém ora para que o doente seja curado, e esse não é, então não foi curado, e temos a questão resolvida. Para R. R. Soares e seus discípulos, não funciona assim. Caso não ocorra a cura, ensina o evangelista em seu livro “Como tomar posse da bênção”, o enfermo deve continuar professando que foi curado, mesmo estando ainda doente. Veja só: se eu estou doente, entendo que dizer que não estou doente é uma mentira. Nesse ponto, entendo que é um absurdo, que muitas vezes pode ter consequências desastrosas. Há relatos de processos contra igrejas da prosperidade em que, movida por um convencimento do pregador, determinada pessoa deixou de tomar medicamentos sofrendo consequências graves em sua saúde. Eu creio no poder sobrenatural de Deus para curar, como ocorria no tempo dos apóstolos da igreja de Atos. Isso não significa que por isso vou deixar de aceitar que, por algum motivo ou por outro, uma pessoa não foi 107 a teologia da prosperidade-RAHAL.pmd 107 30/09/2011, 14:24 Silas Rahal curada. Deus não está atrás de um balcão para fazer cumprir todos os nossos pedidos, como sugere a pregação da prosperidade ao retirar o verso bíblico de seu contexto. É Pedro Apóstolo quem adverte que não sabemos pedir o que convém nem da forma certa. Pense comigo: que caos seria em nossa vida se Deus concedesse todos os nossos desejos? Muitas vezes, desejamos muito algo que não acontece e mais na frente vamos entender que teria sido muito mau para nossa vida. Deus não nos concede todos os desejos. Deus não é o gênio da garrafa. Ele é o Deus criador do céu e da terra e de tudo o que existe e somente fará por nós aquilo que Ele sabe ser bom. Em seu livro na p. 19, Soares diz que pedir a cura é desnecessário. Outro absurdo. No leito de enfermidade, padecendo terríveis dores, como deixará o enfermo ou a assistência da igreja de pedir a Deus a cura? Ao invés disso, sugere o poderoso evangelista que basta exigir a cura. Já pude testemunhar muitas curas de Deus em pessoas enfermas e em mim mesmo. Sempre pedi a Deus a cura; algumas vezes Ele concedeu, outras não. Sempre que eu orei pela cura de uma pessoa enferma, alcancei a paz. Diz o ditado popular: “estando com saúde, o resto está tudo bem”. Terrível engano. Quantas pessoas têm saúde “para dar e vender” e não têm um pingo de paz? O ministério de R. R. Soares é quase que inteiramente voltado à cura do corpo; não foi esse o principal legado de Jesus na terra. A salvação de Deus ultrapassa completamente a cura do corpo, mesmo porque, após curado de uma enfermidade, o ser humano de uma forma ou de outra acaba morrendo. Há o relato dos leprosos que foram curados e não voltaram para dar glórias a Deus. Nem sempre a cura da enfermidade é a solução da vida humana. Deus possui uma economia e não desperdiça seus atos, antes cumpre tudo segundo Seu querer. Nós atendemos a determinação divina e nos conformamos com Sua vontade. Não é isso que R. R. Soares ensina; antes diz que o crente não pode se conformar com a doença. Pena que Paulo Apóstolo e seus alunos evangelistas não conheceram R. R. Soares, posto que vários deles tinham enfermidades citadas no texto bíblico. A confissão positiva de R. R. Soares é tão absurda, que em seu livro já citado, na p. 43, ele cita que o crente não tem que sofrer “coisa alguma”. Ora, que falta de conexão com a realidade; isso não é real, é uma ficção pretendida e que jamais será alcançada. As pessoas sofrem, o sol nasce para bons e para maus, no mundo teremos aflições, etc... Para alguém que condena abertamente o estudo da teologia de que não lhe seja conveniente, o evangelista R. R. Soares acaba colocando seus 108 a teologia da prosperidade-RAHAL.pmd 108 30/09/2011, 14:24 A Teologia da Prosperidade pés pelas mãos ao atribuir significados de seu próprio entendimento a termos bíblicos como “fé”, “coração”, “espiritual” e outros. Um verdadeiro festival de significados aleatórios, completamente alheios a tudo o que é a ciência da exegese. No fim, afirma haver uma “fé mental” e uma “fé espiritual”. Vai ver eu não compreendo por que não sou espiritual, apesar de já ter orado e pessoas ter sido imediatamente batizadas com o Espírito Santo com manifestação de línguas estranhas, já ter ordenado e expulsado demônios (muitos), já ter pedido a Deus e orado (oração = petição) com imposição de mãos e aplicação de óleo e ter sido o enfermo curado de câncer no pulmão, doutra feita uma criança ainda informe no útero materno ter sido curada, outra ocasião usado profecia em favor de um homem que estava pronto a matar seu pai, ter sido avisado em sonhos de viagens e toda sorte de acontecimentos, ter recebido o dom de falar outras línguas de anjos e de homens e tantas outras manifestações do poder de Deus em minha vida, mesmo assim talvez eu não seja espiritual o bastante para entender essa teologia da prosperidade apresentada pelo evangelista R. R. Soares. Bem, se eu não sou apto a entender sua confissão positiva do evangelho, talvez o fosse o Bispo Roberto MacAlister quando era R. R. Soares seu diácono na Igreja de Nova Vida, assim como foram Miguel Angelo e o hoje Bispo Macedo. As tragédias naturais O que a Bíblia tem a dizer sobre as tragédias? Buscamos explicações para entender e dar alívio ao nosso sofrimento, precisamos de respostas que nem sempre estão disponíveis; nesta obra, poderemos analisar alguns modelos de explicações, algumas opções de pensamentos diante do que revela e não revela a Escritura Sagrada. Por fim, podemos tomar uma posição talvez um pouco mais equilibrada do que parece ser um fato marcado na existência humana: as tragédias. Melhor de tudo, chega mesmo a ser impagável. A história que Soares conta em seu livro da mulher que vivia ao pé de um morro, onde todos os dias ao chover caía barranco. Essa mulher, um dia sem aguentar mais, orou ao monte para que se movesse dali, o que não aconteceu. Soares termina a história dizendo naturalmente que tal mulher não tivera fé. Eu me pergunto como a teologia da prosperidade de R.R. Soares e outros responde à questão dos crentes que morrem nas enchentes e tragédias 109 a teologia da prosperidade-RAHAL.pmd 109 30/09/2011, 14:24 Silas Rahal naturais, como a que se abateu sobre Nova Friburgo em janeiro de 2011. Ali dezenas de crianças, filhas de crentes, morreram soterradas (o soterramento é uma das formas mais dolorosas e sofridas de morte, onde, após sofrer inúmeros ferimentos físicos, a pessoa acaba por fim morrendo por asfixia mecânica), juntamente com seus pais e toda a sua família. Será que os pais estavam em pecado? Ou não praticavam um tipo de confissão positiva própria de um crente? A teologia da prosperidade não resiste ao menor acidente natural. Refiro-me a enchentes, tsunamis, terremotos e furacões. Dá para imaginar a cena daquele pregador vitorioso que às custas de muita manipulação dos versos bíblicos conseguiu retirar cada centavo da poupança de seus fiéis, que, entretanto, apesar de todas as promessas de prosperidade financeira proferidas na frente da igreja pelo pregador, ao chegarem em suas casas, encontram a família inteira soterrada, enterrada viva, todos os bens destruídos, casas, carros, veículos, todo o estoque do comércio. Interessante pensar em qual explicação um pregador da prosperidade apresentará aos seus fiéis no próximo culto. Quando for perguntado ao irmão: “Como foi? Tudo bem? Onde está sua esposa? Hoje teremos a campanha da reconstrução...” e o irmão responder: “Pastor, estão todos mortos... perdi tudo, perdi todos... só ficou eu...”. Não consigo imaginar qual resposta mirabolante esses pregadores terão para dar. Mas tenho certeza de que quem consegue perverter o texto bíblico em todas as direções, a fim de conseguir dízimos e ofertas cada vez maiores, conseguirá pensar em algo bem horrível e mentiroso para se safar de tal situação. A verdade, contudo, é que a palavra de Jesus foi “no mundo tereis aflições...” e não “no mundo tereis alegrias...”. A teologia da prosperidade anuncia uma vida cristã sem sofrimentos, sem perdas, sem doença, sem pobreza. Bem diferente do evangelho da cruz, em que o Cristo anuncia “cada um pegue a sua cruz e me siga”. O evangelho significa perseguições, sofrimentos, necessidades, dificuldades de toda espécie, em tudo isso, paz. A paz que Jesus oferece por sua mensagem e sua vida é diferente da que o mundo pode oferecer. Essa paz de Jesus não significa o não sofrimento; o próprio Jesus chorou ao ver Lázaro morto, chorou ao ver Jerusalém. Jesus sofreu em toda a sua vida na terra e também se alegrou. Esse mistério é a experiência da tragédia humana, entrecortada de tristezas e alegrias. É nessa peregrinação que Deus se revela ao homem verdadeiramente encarnado com os apóstolos, crucificado na cruz e ressuscitado para sua glória. 110 a teologia da prosperidade-RAHAL.pmd 110 30/09/2011, 14:24 A Teologia da Prosperidade O evangelho da prosperidade não resiste às tragédias da existência humana, às tragédias naturais, às catástrofes, etc... O evangelho da cruz é invencível, insuperável, eterno e poderoso. O evangelho da cruz transmite, mesmo nos tempos de dificuldade, a paz necessária para que os homens superem a dor da perda de seus entes queridos, a força necessária para recomeçar suas vidas, reconstruir suas casas, encontrar novos caminhos e inspiração onde parece não haver mais nada. Como diz o hino: “Deus fará um caminho onde nunca existiu, um caminho Ele fará...”, e ainda outro diz: “há esperança para o ferido, como árvore cortada, marcada pela dor...”. No evangelho da cruz, a mensagem de Jesus é soberana, de sofrimento, de morte para a ressurreição, para a vida eterna que começa hoje em todo aquele que recebe a mensagem e se lança na eternidade com Deus, por Jesus e pelo seu Santo Espírito, em amor eterno ao lado do Deus Pai. A proposta de confissão positiva apresentada por Soares chega ao seu extremo quando na p. 79 de seu livro ele afirma que o crente “deve continuar dizendo a mesma coisa durante o intervalo necessário para a obra ser feita”. Mais: Soares chega a apresentar a confissão negativa como sendo um inimigo do êxito na vida cristã (p. 92). Isso lembra o famoso livro / filme “O segredo”, onde a autora afirma que o pensamento em coisas positivas atrairá para a pessoa todo tipo de coisas boas, ao passo que o pensamento negativo atrairá o mal. Desse tipo de ideia podemos pensar então que as tragédias naturais são provocadas por maus pensamentos... quem sabe até das crianças, já que as crianças são as primeiras a morrer nas enchentes e dasabamentos. Até quando pregadores do evangelho estarão submetendo suas igrejas a esse tipo de pregação, que não é do evangelho, mas sim da confissão positiva? Um terrível engano, sem dúvida. De toda forma, sabemos que grande parte da população que frequenta a igreja precisa do que podemos chamar na expressão mais comum de “uma injeção de ânimo”. É exatamente isso que alguém poderá encontrar em uma pregação do evangelista R. R. Soares. Conheço relatos de pessoas propensas ao suicído que, após terem tido contato com a mensagem de Soares, demoveram-se dos pensamentos de morte e hoje seguem suas vidas normalmente. Não conheço um caso como esse, mas vários. A obra de R. R. Soares é, de fato, uma obra de Deus. Em noites de solidão, que atravessam muitas vidas, derrotadas pela tragédia que é a vida humana, pelos inimigos que ora são o próprio ser humano, ora a natureza, ou mesmo a própria pessoa, tais espíritos sofredo- 111 a teologia da prosperidade-RAHAL.pmd 111 30/09/2011, 14:24 Silas Rahal res sabem que podem contar com uma mensagem de esperança e salvação facilmente acessada pelo programa de TV do evangelista R. R. Soares. Não há o que questionar além disso. O saldo da obra feita por R. R. Soares em todo o Brasil é positiva. É um homem sério, que faz bem a pregação do evangelho de Jesus Cristo, e há muito tempo. Por meio da mensagem positiva de R. R. Soares, muitas pessoas entregaram suas vidas à palavra de Deus e a Jesus Cristo. Muitas pessoas, ao terem contato com o ensino de R. R. Soares, foram curadas de enfermidades. Esse homem decidido e convicto de sua missão segue pregando o evangelho conforme aprendeu e acredita. Damos graças a Deus por mais essa obra que tanto tem abençoado o Brasil, da qual sou grande admirador, principalmente dos hinos... 6.5 - Pastor Silas Malafaia Tratar do Pastor Silas Malafaia é abordar diretamente a questão das Assembleias de Deus, que quase involuntariamente mergulharam de cabeça na teologia da prosperidade em sua forma mais agressiva. A simples apresentação do nome que encabeça o ministério do Pastor Silas Malafaia já diz muito acerca de sua teologia: Vitória em Cristo. Mais do que isso, apresenta-nos a Bíblia lançada pelo ministério do Pastor Silas Malafaia, que se intitula Bíblia da Batalha Espiritual e da Vitória Financeira. Ora, o próprio título da Bíblia já informa a que tipo de vitória se refere o Pastor Silas Malafaia. Não quero dizer com isso que a pregação do evangelho possa rejeitar certo otimismo, de forma alguma. Esse inclusive é um ponto forte da mensagem transmitida pelo Pastor Silas Malafaia em suas pregações, livros, etc... Poucos pregadores conseguem expressar com tanta profundidade a energia e o otimismo que há na mensagem do evangelho de Jesus como o Pastor Silas Malafaia. Já pude ouvir pessoas dizendo que isso se deve ao fato da formação em Psicologia que tem o Pastor Silas Malafaia. Ao meu ver, tal comentário é o mesmo que jogar pedra. O Pastor Silas Malafaia é, ao meu ver, um pregador poderoso em palavras e também dotado de manifestações genuínas do dom do Espírito Santo. Em tudo isso, é claro, fica evidente a contribuição de seus estudos, formação acadêmica e um profundo conhecimento bíblico. Nada disso, entretanto, pode ofuscar o pregador que ele é. Outra consideração bastante positiva, principalmente nos dias de hoje, em que o aspecto ético parece ter sido deixado de lado nos ministros do 112 a teologia da prosperidade-RAHAL.pmd 112 30/09/2011, 14:24 A Teologia da Prosperidade evangelho por um tipo distorcido de teologia da graça (esse seria outro livro a ser escrito...), é a postura ética e moral do Pastor Silas Malafaia. Dentro de um Brasil em que ouvimos falar de tantos escândalos, o Pastor Silas Malafaia apresenta uma postura irrepreensível como pregador, conferencista e pastor de almas. Não é minha pretensão nesta obra combater o estímulo a uma vida de ação presente no ministério e ensinos do Pastor Silas Malafaia, que, aliás, é a própria mensagem de Jesus Cristo que nos apresenta. Na parábola dos talentos, aquele que se denomina senhor diz que colhe onde não se plantou, incentiva aquele servo que foi corajoso e intrépido, condena e repreende o que foi tímido e sem ação. Alguém poderia dizer que se refere a valores espirituais; isso seria forçar muito o texto; é claro que se refere também à realidade material e financeira. Nesse ponto, o Pastor Silas Malafaia tem na sua obra, mensagem, livros, etc. uma energia sem igual no que diz respeito ao pensamento cristão. É claro que o cristão muito mais do que outras pessoas deve estar revestido de um pensamento e uma atitude positivos que o impulsionem a alcançar mais; isso o Pastor Silas Malafaia faz como ninguém. Em Mt 25.14-30, encontra-se a impressionante parábola dos talentos, em que Jesus apresenta o quadro de um senhor que, ausentando-se para longe, confia aos seus servos parte de sua fortuna, esperando que, ao retornar, tenha havido considerável aumento de seu valor. Importante considerar que o sistema monetário de investimento e juros inventado pelos fenícios estava, naqueles dias da Palestina, em franco funcionamento. Bem como a noção que temos do valor depositado aos servos na parábola dos talentos é bastante defasada. Na verdade, apenas um talento seria para a época uma soma tão alta de dinheiro, que, na conta do pagamento do salário diário de um trabalhador na Palestina de Jesus, seriam precisos aproximadamente vinte anos para juntar. O que dirá, então, cinco talentos. Mesmo considerando a expressão hoje para a palavra talentos, devemos saber que foi a partir dessa parábola que se formou o sentido atual para a palavra talento, significando as habilidades e qualidades de determinada pessoa. Não pode haver engano nisso; no entanto, em relação ao significado original da palavra na parábola, era realmente a dinheiro que se referia, e muito dinheiro mesmo. Naturalmente, não podemos deixar de considerar outros significados, como valores e capacidades espirituais pertinentes e diferentes a cada 113 a teologia da prosperidade-RAHAL.pmd 113 30/09/2011, 14:24 Silas Rahal indivíduo, isso posto que na parábola é citado que o senhor deu a cada um segundo sua capacidade. Outra inferência que levantamos é que, pela quantidade e qualidade do dinheiro deixado com os servos (um talento = vinte anos de trabalho), entende-se que aos seguidores de Jesus um grande poder e uma grande missão ficarão reservados. Quão grandes são as responsabilidades entregues por Deus a seus servos! A grande responsabilidade imposta aos crentes não apenas em guardar seus talentos (financeiro, espiritual, etc...), mas também em dar desenvolvimento a eles, em multiplicar, em ser ousado, etc... Em tudo isso é fácil enxergar a teologia da prosperidade gritada, fundamentada, fortalecida e amparada nas palavras de Jesus. Não é possível substituir o significado da palavra talento utilizado na parábola por outro, como que no sentido de capacidades e virtudes, pois, como dito acima, tais significados simplesmente não existiam na época, tendo sido atribuídos muitos séculos após. A parábola trata mesmo é de dinheiro, e de muito dinheiro. Trata de ousadia em lidar com esse dinheiro, em mordomia, em cuidado e em multiplicação. É impossível negar que a Bíblia está repleta de conceitos acerca da prosperidade. Vale ainda dizer que, na parábola judaica original, que possivelmente deu origem à parábola dos talentos, o servo que não multiplicou o dinheiro com ele deixado não foi apenas reprovado pelo seu senhor; foi, na verdade, punido severamente. Nota-se então que Jesus, ao fazer a passagem para seu ensinamento, melhorou um pouco o contexto, fazendo o que já era de costume, legislando e mudando a lei e os costumes para uma nova ética de amor e misericórdia. O ponto mais interessante da parábola dos talentos é o do servo que enterra seu talento; faz isso colocando a culpa no próprio Deus. Muito típico de crentes que se sentem inferiorizados e tímidos e por isso não querem se arriscar a sair de sua mediocridade. Culpar o próximo e a Deus é desde sempre o escape do covarde. Deus espera de seus servos uma fé que por si mesma seja geradora de ação. Ação enquanto boas obras. Negar que a parábola se refere a dinheiro, e sim a valores espirituais, apenas tem sido a desculpa esfarrapada de grandes nomes do evangelho, desde muitos anos, a partir de uma ideia errada de que o evangelho é puramente referência a valores espirituais. Nesse ponto, a teologia da prosperidade veio para mudar definitivamente esse quadro. O Pastor Silas Malafaia e outros fazem nesse sentido um ótimo trabalho. O resgate do valor com- 114 a teologia da prosperidade-RAHAL.pmd 114 30/09/2011, 14:24 A Teologia da Prosperidade pleto do evangelho e das Escrituras Sagradas no que diz respeito a dinheiro, tendo começado com o Bispo Roberto MacAlister (ao menos no Brasil) e tendo continuidade com outros grandes nomes, tem sido algo maravilhoso. A parábola dos talentos é uma janela aberta para a atenção que Deus dá às finanças de seus servos e de como Deus espera que seus servos se portem: com diligência, fé e trabalho. Quando na parábola dos talentos o senhor espera, exige e abençoa os servos que multiplicaram o dinheiro com eles deixado, transmite aqui uma mensagem de prosperidade (prosper do latim = ser bem-sucedido). Quando o senhor reprova o servo que não multiplicou o dinheiro com ele depositado, fala aqui da reprovação dos que simplesmente ignoram o significado da prosperidade (ser bem-sucedido) no que diz respeito ao dinheiro. A parábola dos talentos proclama em alta voz a existência de um projeto bíblico de prosperidade financeira. Isso é inegável. Bola de neve Church E pensar que até mesmo a Bola de Neve Church, igreja da qual eu mesmo sou admirador e frequentador, tem recebido o Pastor Silas Malafaia em sua sede em São Paulo e lhe dado grande honra. Como poderia eu sob qualquer alegação dizer que não é uma grande bênção para o Brasil a obra que o Pastor Silas Malafaia vem fazendo. Quando faço menção à Bola de Neve Church, do Apóstolo Rinaldo, deve-se assinalar ser essa a igreja que mais cresce no Brasil hoje. Com seu estilo próprio, muitas vezes a Bola de Neve Church é assinalada como sendo uma Assembleia de Deus de chinelo e bermuda. Não é, portanto, por acaso que o Pastor Silas Malafaia tem se aproximado da Bola de Neve Church. Os fiéis da BDN, apesar de que usam chinelo e bermuda, têm o mesmo critério de santidade (pietismo) dos participantes da Assembleia de Deus. Isso de fato é assim. Como frequentador eventual, eu dou testemunho de que a galera da Bola de Neve Church, além de fazer um louvor rock fantástico para Jesus, tem vida bastante regrada e pautada na santidade (modelo assembleiano). No que diz respeito à incrível energia pentecostal e à cultura de praia, é esse o fator com o qual me identifico completamente com a Bola de Neve Church. Isso me remete aos infindáveis (parecia que não iriam acabar nunca) dias de Copacabana. A Bola de Neve Church é tão perfeita para nossos dias, que só pode ser obra de Deus, criação de Deus, e não uma mera adap- 115 a teologia da prosperidade-RAHAL.pmd 115 30/09/2011, 14:24 Silas Rahal tação customizada, como quis apresentar certa revista de circulação nacional. A Bola de Neve Church é prova cabal de que a “Palavra de Deus” não está presa a costumes, tradições da igreja ou mesmo convenções de homens. Um grito de Deus para o mundo contemporâneo, um vinho de alegria para a juventude, uma porta aberta para o Reino de Deus, isso tudo e um pouco mais... é assim que eu classifico a Bola de Neve Church. Com seu modelo atualizado de evangelismo interpessoal, busca dos dons do Espírito Santo no modelo pentecostal, a Bola de Neve Church marca no Brasil e no mundo um novo tipo de igreja que preserva a ortodoxia da mensagem da cruz e da salvação em Jesus, mas vem romper com as barreiras dos costumes e hábitos que muito atrapalhavam a propagação da mensagem do evangelho de Jesus. Com tudo isso, mesmo assim, a Bola de Neve Church não pôde ficar imune aos ataques da teologia da prosperidade. Pastor Silas Malafaia já tem espaço certo no púlpito da Bola de Neve Church em São Paulo. Isso significa dizer que toda a sua exagerada ênfase na vitória financeira, confissão positiva e estilo de vida vitorioso já acampou na Bola de Neve Church. Ora, em certo grau, sabemos que essa mensagem não é de todo ruim se devidamente equilibrada. Como já vimos, existe um certo grau de confissão positiva nas palavras de Jesus e do evangelho. Não podemos deixar de considerar, contudo, e perguntar onde ficam os testemunhos da tragédia humana. Quando o justo sofre, quem o consola? Certamente não será um pregador da prosperidade, para quem esse que sofre só pode mesmo é estar derrotado, esquecido de Deus e banido por seus pecados. Mesmo assim com os prós e contras da teologia da prosperidade, que vem fazendo sua chegada nessa igreja, a Bola de Neve Church representa um ponto de equilíbrio em meio a tudo. Não havendo ênfase no ser vitorioso ou mesmo na arrecadação financeira, apresenta a seus frequentadores cultos que estimulam a salvação por meio de uma mensagem cristocêntrica e livre de embaraços. Se a Bola de Neve Church está sendo ancorada pelos navios da prosperidade (não apenas o Pastor Silas Malafaia, mas inúmeros apóstolos e pregadores da prosperidade têm sido convidados pelo Apóstolo Rinaldo, que é chamado de conferência profética), essa mensagem distorcida do evangelho dificilmente encontrará espaço nesse ministério praticamente novo. Com poucos e bem vividos anos de existência, sendo uma dissidência da Igreja Renascer, a Bola de Neve Church tem sua principal força em jovens (não ficarão jovens para sempre, aí é que surgem os proble- 116 a teologia da prosperidade-RAHAL.pmd 116 30/09/2011, 14:24 A Teologia da Prosperidade mas, ou melhor, já estão surgindo) bem esclarecidos dessa nova geração, que juntos encontram forças para combater todo mal. Isso talvez possa ser melhor explicado nas palavras de João: “jovens, vos escolhi, pois sois fortes...” do que em qualquer outro lugar. Não ficarão jovens para sempre, mas esse intrépido exército de jovens da Bola de Neve Church pode preservar a força que temos todos recebido através do Apóstolo Rinaldo, com a ajuda de Deus e calçando certamente as sandálias da humildade. A vaidade tem sido desde sempre a principal armadilha com que o inimigo de nossas almas tem prevalecido nessa guerra. O grande milagre Deus fez através do Apóstolo Rinaldo: uma fonte de água viva de Deus tem sido canalizada principalmente aos jovens do Brasil, e assim permanece até o dia de hoje. Torna-se bastante intrigante o questionamento do que realmente é a Bola de Neve Church. Alguém poderia perguntar o que a BDN tem que outras igrejas não têm. Eu posso responder a pelo menos essa pergunta: “a contextualização da mensagem”. A contextualização da mensagem Uma ideia pode ser transmitida de várias formas, mas somente da maneira apropriada poderá ser compreendido a quem se destina essa mensagem. Ao transmitir seu evangelho, Jesus fez uso do que havia de mais moderno em seus dias: a mitologia e a filosofia gregas. O contexto helênico que tomava conta do Império Romano era abrangente e oferecia ótimos recursos de linguagem e de entendimento para quem transmitia ideias e para quem recebia. Jesus soube tirar o máximo proveito disso, mergulhando suas ideias completamente no universo mitológico e filosófico grego. Através de várias figuras da mitologia e da filosofia grega, Jesus pôde transmitir àquele povo já acostumado com tais ideias sua mensagem central, que é o amor. Hoje a mensagem de Jesus continua urgente e atual; o contexto entretanto mudou. A sociedade, a ciência, a cultura, o governo, o pensamento, o desenvolvimento social. Tudo mudou. A mensagem de Jesus continua a mesma, sua mensagem é o amor, é por assim dizer o próprio Cristo “em nós”. Atualizar o contexto de uma mensagem sem distorcer seu conteúdo é tarefa árdua que Jesus soube fazer como poucos. De uma abordagem judaica oriental, o conceito cristão desde seu início tomou por base o pensamento helênico e a partir daí se desenvolveu para o mundo romano. 117 a teologia da prosperidade-RAHAL.pmd 117 30/09/2011, 14:24 Silas Rahal Talvez fosse o momento de uma nova contextualização, que só é possível conhecendo a base da mensagem que se quer transmitir. Não é possível negociar com o que não se possui. Enquanto pregadores incertos quanto à mensagem que transmitem não se apropriarem das estruturas doutrinais dessa mensagem, não poderão contextualizar a mensagem. Sem a roupagem correta, tais pregadores correm o risco de transmitir algo que, muito longe da mensagem inicial, torna-se um agregado de tradições mortas e de homens que pouco têm a ver com a revelação sobrenatural do evangelho de Jesus Cristo. A Bola de Neve Church conseguiu, de alguma forma, contextualizar a mensagem da cruz, como fez Jesus com o uso do helenismo. Os pregadores da Bola de Neve Church, a partir do Apóstolo Rinaldo, puderam apresentar o mesmo evangelho de Jesus, com roupagem nova, que não são ao que se pensa a bermuda e o chinelo do surfista, mas o aspecto mais atual do mundo em que vivemos. O evangelho não é negociável em suas bases, enquanto mensagem da cruz, do sacrifício de Cristo, libertador do reino das trevas, transportador daquele que o recebe para o reino do amor, de Deus, da luz. Entender de que forma isso se deu, isso se dá, isso se dará, passa a ser o caminho para uma revolução religiosa. Fundamental que outros ministérios possam compreender o caminho da contextualização da mensagem, para que o exército de Deus cumpra melhor seu chamado. Enquanto isso não acontece, podemos examinar mais de perto as bases do que se tornou a Bola de Neve Church. Nenhum outro fundamento pode ser lançado senão o de Cristo. A construção vai ter que variar conforme são novas as pedras utilizadas, seres humanos redimidos pelo sangue de Cristo, vivendo em um mundo bem diferente daquele dos dias de Jesus na Palestina, um mundo governado pela lei romana e pela cultura grega. Cabe, entretanto, ao Apóstolo Rinaldo perseverar nesse chamado tão especial que é a Bola de Neve Church, levantando os escudos da fé e a Palavra de Deus para poder resistir e escapar de todos os ventos de doutrina. A Bola de Neve Church é uma abordagem de alguma forma única do evangelho de Jesus Cristo. Realmente não sei explicar o fenômeno Bola de Neve Church, não que seja melhor do que as demais igrejas; é apenas uma abordagem diferente. Isso por si só representa como que uma vacina contra os desvarios de um evangelho que busca riqueza e não a santidade, que busca o mundo material e não o espiritual, que busca a vitória financeira e 118 a teologia da prosperidade-RAHAL.pmd 118 30/09/2011, 14:24 A Teologia da Prosperidade não a vitória, que é a vida eterna ao lado de Deus. Oro a Deus para que o Apóstolo Rinaldo seja preservado de tais enganos e possa conduzir essa igreja maravilhosa a um caminho mais excelente. Por tudo isso e mais um pouco, mesmo recebendo as cargas de profundidade do evangelho da prosperidade, quero crer que a Bola de Neve Church, essa igreja que tenho aprendido a amar cada vez mais, não sucumbirá aos apelos frenéticos e gritos do Pastor Silas Malafaia para que o crente tenha uma vida de vitórias, como se fossem todos empresários celestiais que devem ser bem-sucedidos em tudo o que fazem. Uma coisa é desejar que o irmão amado seja bem-sucedido (prosper do latim = ser bem-sucedido) no corpo, na alma e no espírito, como desejou o Apóstolo João em sua carta famosa. Outra coisa é buscar esse ser bem-sucedido acima de qualquer coisa, mesmo da simplicidade que há no evangelho. Não por menos, faço valer mais uma consideração peculiar à forma de trabalho da BDN: o modelo centralizador de suas igrejas. Uma grande cidade comporta não mais do que uma igreja BDN. Pode haver variação, não sendo essa uma lei canônica do ministério, mas normalmente em uma grande cidade a BDN apresenta apenas um grande templo, sendo os demais encontros feitos em grupos que raramente passam de trinta pessoas, o que eles denominam de células. Eu vejo nisso mais do que uma economia financeira e fuga da templolatria tão em moda nos atuais impérios da teologia da prosperidade. Dessa forma, a BDN mantém tanto quanto possível o modelo tido como apostólico ou da era dos apóstolos de Atos. O evangelho forçosamente é pregado nas ruas, fora dos templos, já que normalmente as primeiras reuniões de uma célula têm por hábito da denominação BDN ser realizados na rua, em praça pública, calçadões, etc... Ora, isso é uma volta ao evangelho primitivo, destacando o melhor espírito que guiou o próprio Jesus para fora dos templos (sinagogas). Tomando como exemplo o próprio Jesus, o evangelho primeiramente foi anunciado e vivenciado nas ruas, nos parques, nos jardins, à beira das praias e mares, e não em templos. Quando muito, as reuniões dos primeiros discípulos de Cristo eram na casa de um ou de outro. Alguns dos discípulos inicialmente frequentavam também a sinagoga até ser todos expulsos. De toda forma, essa é a essência do evangelho e da vivência cristã, que nós seríamos o templo do Espírito Santo. O grande mistério que, segundo Paulo, estava para ser revelado: “Cristo em vós”. Nesse ponto, a BDN marca, além de sua poderosa contextualização, mais um ponto a favor da proximidade do Jesus pregador: o de não se 119 a teologia da prosperidade-RAHAL.pmd 119 30/09/2011, 14:24 Silas Rahal limitar e ater a templos e suntuosas construções. Pois, como diz a Escritura, “a palavra de Deus não está presa”, e bem sabemos que em muitos ministérios a palavra de Deus foi presa sim, presa pelos sistemas dos templos. Quando John Wesley, avivalista inglês, foi convidado a retirar-se do templo e proibido de pregar nele, do lado de fora, sobre o túmulo de seu pai, ele disse as memoráveis e inspiradoras palavras: “o mundo é minha paróquia”, palavras essas que muito bem servem para ilustrar o ministério de Jesus, o ministério a que se dispõe a Bola de Neve Church. Sem dúvida, poderíamos interferir um pouco nas palavras de John Wesley no que diz respeito à BDN: “as praias, as praças, as ruas são nossas paróquias”. Não me considero apto a esgotar as características peculiares da BDN; apenas como frequentador que sou desse ministério não posso me esquivar de observar tais pontos que vejo como identificadores de uma obra sem igual, não melhor, nem menos própria do que outros ministérios, apenas singular. Encontro com o Apóstolo – Vale nesse ponto ressaltar meu encontro face a face com o Apóstolo Rinaldo. Homem humilde e acolhedor, de palavras simples, pude estar com ele certa ocasião em um culto da BDN na Barra da Tijuca. O homem olhou fixamente em meus olhos, dando-me toda a atenção possível, prestou atenção às minhas palavras como se fosse antigo conhecido meu. Eu não estava bem trajado; ninguém tinha ainda falado para ele acerca de meu ministério, mesmo assim me dispensou as honras de um ministro do evangelho. Pude perceber no Apóstolo Rinaldo amor pelas vidas, amor por minha vida, humildade e mansidão. Em sua pregação momentos antes, nada pude perceber da afetação neopentecostal da prosperidade; muito pelo contrário, posso qualificar sua pregação como bastante apostólica, posto que discorreu pelas lutas e sofrimentos do apóstolo Paulo, enquanto exortava a Igreja Bola de Neve a não esmorecer jamais ante as adversidades e os desafios deste mundo. Fui grandemente abençoado pelo encontro que tive com o Apóstolo Rinaldo. Considero o Apóstolo Rinaldo um homem simples, cheio de amor e paixão pela igreja e pelo ser humano. Tratou-me como a um amigo, sem nunca ter me conhecido nem ouvido falar de mim. Continue assim, Apóstolo Rinaldo, e que nosso Deus continue te abençoando e mantendo a BDN fora das garras da teologia da prosperidade. Possa o Pastor Silas Malafaia, ao invés de ficar recebendo convidados do exterior que melhor sabem pedir dinheiro para pagar programas de TV multimilionários do que ensinar uma vida de santidade, passar a ler e a reler 120 a teologia da prosperidade-RAHAL.pmd 120 30/09/2011, 14:24 A Teologia da Prosperidade sua obra “Como Vencer as Estratégias de Satanás”, onde ele mesmo aponta que o crente deve saber estar bem na riqueza e na pobreza e ainda reprovar aqueles que buscam a riqueza deste mundo e fazem disso seu alvo de vida. O Pastor Silas Malafaia, como tantos outros, justifica seus intermináveis apelos por dinheiro como sendo para o pagamento de seus programas de TV. Mas quem pode garantir que o modelo de igreja eletrônica funciona? Podemos tirar uma ideia a partir dos EUA, que foi simplesmente varrido há algumas décadas por programas de TV de cunho evangelístico. Eu garanto ao leitor que se trata de um país que vive hoje a mais franca decadência moral e ética, cujos membros das igrejas se tornaram completamente frios em sua fé. Houve um tipo de processo de aculturação da fé cristã, em que o nome de Jesus é usado como uma força de expressão não raras vezes associada a situações bem constrangedoras. Isso ninguém me contou; eu estive lá por um ano e pude ver com meus próprios olhos a degradação que a fé cristã vem sofrendo naquele lugar. Jesus deixou-nos um modelo de igreja: de ajuntamento, de comunhão. Seus apóstolos nos ensinaram tudo o que puderam captar de sua convivência com o Cristo. Por fim, não por menos, a igreja primitiva nos apontou o caminho da tradição de culto. Em todo esse processo, que acabou por derrotar a opressão do sistema romano, não houve igreja eletrônica, a despeito da massa de milhões de pessoas que foi alcançada pela mensagem do evangelho. Dizer que devemos alcançar o dinheiro para pagar as contas da TV dos pregadores da prosperidade é dizer que o fim justifica os meios. Ou será que os meios é que devem justificar os fins? Para pensar mais um pouco: dentro dessa antiga justificativa que os pregadores da prosperidade apresentam de que somente pela TV a humanidade poderá ouvir finalmente e completamente a pregação do evangelho de Jesus e então estaremos apressando sua volta, posso dizer somente que de forma alguma isso fará alcançar aqueles zilhões de seres humanos que já morreram sem escutar o evangelho. Mais: para os milhões de asiáticos que não conhecem, nunca ouviram falar e nunca ouvirão o nome de Jesus (pois seus dialetos não possuem escrita) a estratégia da igreja eletrônica não vai adiantar. E o que dizer dos que viveram e morreram antes de Jesus encarnar? Para tudo isso o Apóstolo Paulo tinha resposta, que apresentou de forma brilhante na Carta aos Romanos. Paulo sabia que sua missão não alcançaria todo o mundo romano e outros, mesmo assim fez a sua parte, 121 a teologia da prosperidade-RAHAL.pmd 121 30/09/2011, 14:24 Silas Rahal entendendo que somos apenas o sal da terra, e isso já é muito. Tudo o que o Apóstolo Paulo fez fê-lo sem a igreja eletrônica. Ganhou e venceu o Império Romano, sem programa na TV romana, que não existia. Insisto que a igreja eletrônica não é o modelo de igreja de Jesus. Não funciona, como foi o plano de Deus. Mas funciona sim para a arrecadação de milhões de reais, onde o programa de TV é a justificativa. Nessa matemática da prosperidade, só quem ganha sempre é o líder da denominação, pois invariavelmente recolherá proporcionalmente para si partes cada vez maiores dos dízimos e ofertas. Ao passo que o trabalhador assalariado estará sempre contribuindo, cada vez mais se atender aos apelos do pregador, mas nem sempre será abençoado financeiramente, como nos mostra a realidade de qualquer comunidade da prosperidade. É claro que na TV nunca será apresentado nesses tais programas dos pregadores da prosperidade o relato de pessoas que deram todo o dinheiro que tinham para a igreja e nunca mais receberam nada de parte alguma. Pois isso para tais pregadores tem uma explicação forçosa: faltou fé! Os testemunhos apresentados na TV são apenas daquela amostragem de pessoas que, tendo dado tudo o que tinham, de alguma forma ou de outra voltaram a ter seu dinheiro de volta e muito mais. Ora, isso é simples probabilidade estatística. De uma igreja de cinco mil membros, todos deram tudo o que tinham e ficaram sem nada. Pelo menos cinquenta terão uma história muito bonita para contar como “Deus mudou sua sorte”. Os outros quatro mil, novecentos e cinquenta membros não contarão história alguma. De qualquer forma, o líder da denominação será certamente beneficiado pela arrecadação. Como é possível que pregadores do evangelho tenham deixado tão facilmente a simplicidade que há no evangelho de Jesus Cristo para um outro evangelho, que é o da prosperidade? Mesmo assim, não podemos ignorar que não é apenas a esse tipo de vitória que se refere o Pastor Silas Malafaia em sua obra “Como vencer as estratégias de Satanás”. Silas Malafaia apresenta um entendimento bastante ortodoxo no que diz respeito à salvação oferecida por Deus em Jesus Cristo e sua mensagem. Há quem diga que Silas Malafaia tenha mesmo etapas distintas em seu ministério. Seja como for, quando escreve a citada obra, o autor chega mesmo a considerar a possibilidade de saber “viver bem nos dias de abundância e nos dias de escassez “ (p. 7 da mesma obra). Ora, isso é no mínimo muito interessante para um dos grandes nomes da 122 a teologia da prosperidade-RAHAL.pmd 122 30/09/2011, 14:24 A Teologia da Prosperidade pregação da prosperidade no Brasil. Não faz muito tempo, eu tive o desprazer de ouvir o querido Pastor André Valadão, da Igreja Batista da Lagoinha, dizer em um de seus cultos que “se você anda de ônibus, é porque você não tem fé!”. Ora, tal é a altivez desses pregadores no que se refere à prosperidade financeira, que a afirmação do Pastor Silas Malafaia em dizer que é possível viver bem na escassez simplesmente não tem lugar em parte alguma da teologia da prosperidade contemporânea. Na verdade, a obra do Pastor Silas Malafaia “Como vencer as estratégias de Satanás” (não sei dizer se é apenas um momento de seu ministério ou reflete todo ele) é toda ela muitíssimo proveitosa e reflete quase que completamente a ortodoxia pentecostal no que diz respeito à vida cristã prática e observância do melhor estilo contemporâneo de pietismo cristão. Não pude enxergar nesse livro citado nada que me desagradasse; antes fui tremendamente abençoado e inspirado. Com ressalvas ao mais repetido erro da religião que prega a retribuição divina invariável: se “observarmos a lei de Deus, seremos protegidos e abençoados em tudo o que fizermos ... se pecarmos seremos punidos...” (em outras palavras o que diz o Pastor Silas Malafaia na p. 14 de sua obra). O que acontece então com pessoas como Jó, que eram boas e puras e tementes a Deus e, mesmo assim, foram massacradas pelos desgostos da vida? Como se isso não fosse a realidade em que vivemos muitas vezes. Um mundo de injustiças, onde o justo paga pelo pecador e muitas vezes pessoas inocentes sofrem grandes males, a despeito de nada ter feito de errado contra si mesmos, contra o próximo ou contra Deus. O livro de Jó apresenta a questão do sofrimento do justo, mas não explica seu motivo, permanecendo esse um dos grandes mistérios da experiência humana. Lógico que, mesmo nessa obra inspirada, seria esperar demais que o grande pregador da prosperidade, o Pastor Silas Malafaia, pudesse mostrar-se alheio à teologia da retribuição (Faça o mal e receberá o mal, faça o bem e será abençoado). Outro aspecto maravilhoso na teologia do Pastor Silas Malafaia, apresentado em seu livro “Como vencer as estratégias de Satanás”, é o fato de que ele apresenta o amor como regra prática para todo cristão, insistindo por várias páginas que somente o perdão poderá levar o crente a um tipo de vida vitoriosa. Nessa hora, o autor apresenta a meu ver a verdadeira religião de Jesus e todo o seu ensino, quando coloca a impossibilidade de viver o modo de vida de Jesus sem o amor e sem o perdão. 123 a teologia da prosperidade-RAHAL.pmd 123 30/09/2011, 14:24 Silas Rahal Mesmo acertando o gol, parece que o atacante não chutou muito bem a bola nesse caso. Pois o amor de Cristo transborda naquele que recebe a Cristo. Em sua obra, Silas Malafaia parece sugerir que o crente que não perdoou um irmão deve procurá-lo, custe o que custar, e pedir seu perdão. Ora, se não há perdão no coração de quem quer e deve perdoar, de que vale haver perdão na boca, pois a boca fala do que está cheio o coração e não o contrário. Esse modelo de forçar as experiências mais profundas da fé cristã nos seguidores das denominações não tem aqui seu início, mas é lugar-comum na estrada que se pode ver ao longo da história dos grandes erros e desvios do pensamento da igreja na cristandade. Não seria o caso de tentarmos corrigir isso aqui? Na p. 45 de sua obra, Silas Malafaia não apresenta apenas a prática do amor como sendo um tipo de vida vitoriosa a ser buscada pelo cristão, mas vai mais longe quando relaciona o fato de que pessoas sem amor “brigam por bens materiais”. Mais uma vez, o Pastor Silas Malafaia dá um passo abençoado na direção oposta do que se tornou a matiz da fé cristã no Brasil. Pessoas vão à igreja não para buscar a comunhão de Deus, mas para alcançar vida financeira de seu agrado. Fazem “sacrifícios” a Deus com seus dízimos e ofertas para receber de Deus presentes também financeiros, o que parece ter se tornado a máxima da igreja cristã no Brasil principalmente. Esse erro grave na teologia terá consequências igualmente graves. Não sei exatamente quais são, mas pelo menos aqui a lei da retribuição poderá ter seu fim alcançado. Como é possível de uma obra tão espirituosa e espiritualizante, em que a vitória em Cristo é apontada como sendo alcançar uma vida de amor ao próximo, perdão e não uma busca de bens materiais como alvo, passar-se a uma busca desenfreada por vitória financeira (Bíblia da Batalha Espiritual e da Vitória Financeira)? Hank Hannegraff diz que um engano leva a outro engano rapidamente, pelo menos no que diz respeito aos terríveis erros teológicos com que se comprometeram os chamados teólogos da prosperidade. Não podemos tampouco nos limitar a apresentar apenas essa obra do Pastor Silas Malafaia como avessa à teologia da prosperidade contemporânea. Tantos outros títulos grandiosos de Silas Malafaia mereceriam nossa atenção. Impressionante sobre o ministério do Pastor Silas Malafaia é que não podemos limitar sua ação apenas à teologia da prosperidade. 124 a teologia da prosperidade-RAHAL.pmd 124 30/09/2011, 14:24 A Teologia da Prosperidade Parece-me um tanto aficionado com a ideia de vencer, vencer, vencer; tudo o que importa é vencer. Muitas vezes, a vitória alcançada pelos homens e mulheres de Deus citados na Bíblia pouco tem a ver com o modelo de vitória pregado pelo ministério do Pastor Silas Malafaia. Temos, por exemplo, Sansão, que em sua vitória ficou cego e acabou morto; profetas e grandes homens de Deus tiveram piores fins. Mas isso parece distante da pregação de Silas Malafaia, como se perseguições (mesmo que não fosse a ferro quente) não pudessem ocorrer a homens e mulheres dedicados à causa de Deus. Viver o chamado de Deus é, na verdade, enfrentar o mal desencarnado (demônios, satanás, etc...), mas é também enfrentar o mal encarnado; do contrário fica fácil, não é mesmo? Do contrário, tornamos o enfrentamento de Jesus aos escribas e fariseus, que O levaram à morte, como algo desnecessário. No momento em que o crente não precisa participar dos sofrimentos de seu próximo fazemos da fé cristã uma fé morta e vazia. Ignorar por isso todo o bem que o ministério do Pastor Silas Malafaia exerce neste imenso Brasil? Jamais. Antes daremos honra a quem merece honra, e o Pastor Silas Malafaia é um desses homens que, como disse há pouco, manifesta sua capacidade e espírito destemido em um sem-número de obras de grande valor didático e teológico prático para as camadas sem grande conhecimento da fé. Grande obra e apelo à vida cristã é, sem dúvida, essa feita pelo Pastor Silas Malafaia. Alguém poderia alegar que a salvação já é inerente à condição cristã, mas isso é tornar simples demais a doutrina dos apóstolos e de toda a Bíblia, que se refere constantemente à salvação da alma, do corpo e do espírito como um todo a ser consumado na vida eterna. Muito mais, portanto, que a vitória financeira, assunto que parece tomar todo o interesse do ministério do Pastor Silas Malafaia. No caso, só mais um entre tantos. É preciso, sem qualquer ironia ou segundas intenções, entender a que tipo de vitória se refere o lema do ministério. Há muitos tipos de vitórias. Existe aquela apresentada pelo apóstolo Paulo no que diz respeito ao corredor de maratona grega, o que segue para o alvo e não olha para trás. Outro texto bem conhecido é o que diz respeito a ter o Apóstolo Paulo cumprido sua carreira; essa, na verdade, em nada nos faz desejar, posto que anuncia o apóstolo o seu fim iminente, pelo menos nesta vida. Diz a tradição da igreja que o Apóstolo Paulo foi decapitado. A qual dessas vitórias apostólicas se refere o lema do ministério do Pastor Silas Malafaia: ao maratonista ou 125 a teologia da prosperidade-RAHAL.pmd 125 30/09/2011, 14:24 Silas Rahal ao homem realizado em obras do ministério, mas pronto para a morte? Em nenhuma delas, o Apóstolo Paulo faz menção à sua condição financeira, que sabemos dispensa comentários. Na última menção apostólica, o sofrido missionário faz menção de que trouxessem sua capa, posto que passava frio na prisão. Debruço-me agora sobre o texto de 2 Tm 4.6-22. Trata-se da última carta pastoral que antecede a execução do Apóstolo Paulo. Sabedor do fim que se aproxima rapidamente, o apóstolo dirige-se a seu discípulo para encorajá-lo mais do que nunca a pregar o evangelho, a cumprir o ministério a ele confiado, dando ênfase, contudo, a que fossem rebatidas heresias e ensinos diversos da ortodoxia que havia nos ensinos de Paulo, já bastante trabalhados em outras cartas do mesmo apóstolo. Nessas palavras, o apóstolo como que apresenta sua condição pessoal de preso e condenado, em contraste com a de Timóteo, livre e pronto para percorrer as igrejas. Parece-me que o ápice das duas cartas se encontra exatamente nesse trecho final, onde de forma quase poética é apresentada a conclusão apostólica sobre sua presente situação e conclusão de vida ministerial. Para os conceitos modernos de vitória em Cristo, as palavras do apóstolo parecem um pouco estranhas; talvez também o tenham parecido para os seguidores e amigos de Paulo, espalhados pelo império. Pois se tratava de um homem prestes a ser executado, e não apenas isso, mas um homem que tinha mesmo necessidade de sua capa, que estava passando frio em Roma, um homem consciente de sua iminente condenação a ser cumprida. Esse mesmo pregador encontrava-se revestido de tal alegria que gritava sua vitória, que proclamava e anunciava feliz o fim de seu ministério. Paulo estava consciente de haver cumprido sua missão na terra. Como é possível comparar a vida, obra e conclusão do ministério paulino à vista de tão poderosos pregadores da prosperidade modernos, que se apresentam, como no caso do Pastor Silas Malafaia, portadores e anunciadores de uma vitória em Cristo? Para Paulo, a vitória em Cristo fica bastante explicada no v. 8, quando faz menção da “coroa da justiça”. Ora, no universo dos significados das coroas greco-romanas, a coroa de espinhos colocada sobre Jesus na cruz teve especial significação: humilhar aquele que de uma forma bastante significativa para o povo e lugar daquela época era aclamado como rei. Rei dos Judeus. Havia coroamentos de diversos tipos, para diversas ocasiões e pessoas, dependendo de suas funções e conquistas. Sempre a coroa no império romano e grego significou uma vitória. No caso de 126 a teologia da prosperidade-RAHAL.pmd 126 30/09/2011, 14:24 A Teologia da Prosperidade Jesus, um escárnio, posto que sob uma coroa de espinhos Jesus seria tão somente submetido a enorme e impensável dor, quando os espinhos tocavam a base da nuca em lucinantes raios de dor, que cortavam o corpo de Jesus como relâmpagos. Entre os diversos tipos de coroas havia a “corona triumphalis”, feita de folhas de louro para homenagear os generais triunfantes nas guerras. Havia a “corona obsidionalis” para os generais que tivessem salvo seu exército de um cerco; essa era tecida com grama ou outra planta que pudesse ser encontrada no lugar da vitória. Havia a “corona muralis”, conferida com folhas espessas a generais que tivessem conseguido penetrar com seu exército uma muralha. E assim como essas havia tantas outras. Também no que diz respeito ao vitorioso de uma competição de atletismo grego havia várias possibilidades de coroas, quase sempre tecidas com louros, e variações. Daí a expressão “os louros da vitória”. Não podemos esquecer as coroas de reis e príncipes, com ouro e pedras preciosas, etc... Longe de esgotar o assunto do que eram as coroas no mundo grecoromano, podemos entender o que o Apóstolo Paulo quis dizer com “coroa da justiça”. Não havia em todas as modalidades conhecidas em seu tempo nada que tivesse ligação com tal expressão. O apóstolo certamente se referia a algo além dessa vivência, uma realidade extraterrena, um outro modo de vida em outro lugar, tempo, espaço, modalidade, condição. Uma vida ao lado do próprio Deus. Paulo, ao contrário dos pregadores da prosperidade atuais, não estava contemplando a coroa de generais ou atletas, mas uma coroa que ultrapassa toda condição presente deste mundo. Uma coroa que não tivesse lugar em um reino deste mundo, mas de outro. O sentimento de vitória em Cristo, que tomava conta do apóstolo naquela ocasião, nada tinha a ver com este mundo, mas com o vindouro. A vida eterna para o Apóstolo Paulo trazia um entendimento que deixa muito para trás a noção de viver para sempre. Na verdade, raramente pregadores da prosperidade fazem menção de que exista uma vida eterna, ou pelo menos se o fazem, é de uma forma tão secundária, que mal se percebe. Já ouvi uma pregação da prosperidade em que o pregador dizia: “as bênçãos de Deus na sua vida são para agora. Ele quer que você tenha tudo agora”. Ora, isso mais parece um anúncio de cartão de crédito, que proclama que importa comprar tudo hoje. Muito diferente da pregação do Apóstolo Paulo, que buscava uma coroa de justiça para a vida eterna, e não uma coroa de ouro e diamante, não uma coroa de louros para os atletas ou 127 a teologia da prosperidade-RAHAL.pmd 127 30/09/2011, 14:24 Silas Rahal uma coroa de ramos para os generais. A vitória para o apóstolo Paulo é uma vida eterna, não uma vida de riquezas para agora. Mais incrível ainda é o entendimento apresentado por Paulo sobre vida eterna, que ultrapassa a simples noção de existência após a morte: uma modalidade de vida próxima a Deus, de acordo com graduações de santidade, vivência no presente século e serviço à obra do evangelho de Jesus Cristo. O apóstolo estava completamente envolvido com a possibilidade de uma vida eterna abundante ao lado do próprio Cristo e de Deus em outro lugar, em outra condição, em outro modo. Os olhos do Apóstolo Paulo enxergavam muito mais longe do que os pregadores da prosperidade. Interessante a colocação no mesmo trecho, um pouco mais adiante, no v. 20, de que o Apóstolo Paulo deixou o colaborador Trofimo doente na localidade de Mileto. Vitória em Cristo para o Apóstolo Paulo não tinha certamente nada a ver com jatos de milhões de dólares, com muito dinheiro ou com grandes conquistas financeiras. Vitória em Cristo para o Apóstolo Paulo tinha a ver, a despeito de sua iminente execução, abandono, frio e solidão, com uma coroa de justiça e com a vida eterna e abundante ao lado de Deus. É lamentável a manchete de um jornal que dizia: “mais um pastor que vai para o céu”, onde era apresentada a compra de um jato de milhões de dólares pelo pastor Silas Malafaia. Na mesma matéria, havia uma suntuosa lista de pastores com seus jatos milionários (dólares), todos brasileiros. Como é possível anunciar o evangelho de Jesus Cristo aos pobres e famintos deste Brasil tão grande, fazendo uso para tal de um transporte a jato? Como é possível fazer uma catedral ou coisa parecida que envolva o gasto de milhões de reais devido ao luxo da construção, enquanto próximo àquele local pessoas passam fome? Estaria Jesus feliz com esse projeto? A igreja que se denomina Assembleia de Deus é uma das colunas do evangelho de Jesus Cristo no Brasil. Responsável pelo alargamento da palavra de Deus nas classes mais pobres, desde sempre manteve sua teologia intacta, dando ênfase ao evangelho da cruz, da humildade, da espiritualidade e do pietismo. Há quem tenha contabilizado como sendo a maior denominação em número de fiéis hoje no Brasil. Gosto de me referir a uma distinção atual entre as Assembleias de Deus, no que eu chamo de “primitiva” e outra de “contemporânea”. Por primitiva não me refiro a ser menos desenvolvida, mas tão somente a guardar as características primeiras da 128 a teologia da prosperidade-RAHAL.pmd 128 30/09/2011, 14:24 A Teologia da Prosperidade denominação, que é uma postura de busca por valores tidos como espirituais, desapego aos valores mundanos, costumes e usos específicos, etc... Eu passei muitos anos de minha vida acompanhando meu pai, o Pastor Ramis Rahal, na Assembleia de Deus em Copacabana, inicialmente quando era bem pequeno, mais tarde quando fui recebido como membro na Igreja de Nova Vida. Meu pai continuou até o fim de seus dias, juntamente com o Pastor Samuel, na mesma e abençoadíssima igreja Assembleia de Deus em Copacabana. Em várias décadas de existência, essa igreja em particular não mudou sua forma de culto, fachada e mesmo um letreiro onde consta o nome JESUS CRISTO. Essa característica de autopreservação é uma das características do que chamo de Assembleia de Deus primitiva. Sem dúvida, uma coluna e baluarte da fé no Brasil e no mundo. Ocorre, entretanto, que nem mesmo a Assembleia de Deus foi poupada da ferocidade capitalista que avançou contra o povo de Deus e a Igreja. O Pastor Silas Malafaia, com seu estilo característico de pregação, não sei bem se do evangelho de Jesus Cristo, mais parece uma espécie de conselheiro para a vida prática de preceitos éticos e cristãos aplicáveis a qualquer pessoa com certa propensão ao desequilíbrio e acaba sendo útil para humanizar e socializar um Brasil de pouca instrução e sem tradição religiosa. A questão é se está sendo pregado o evangelho de Jesus Cristo. Alguém pode dizer: “mas a igreja do Pastor Silas Malafaia ou onde ele vai pregar fica cheia”. Eu torno a perguntar: Está sendo pregado o evangelho de Jesus Cristo? Pois, note bem, Jesus não veio ao mundo e morreu na cruz para deixar conselhos terapêuticos para uma vida prática e de observância a valores éticos e morais. Para isso basta a palestra de certa pessoa qualificada (o Pastor Silas Malafaia é psicanalista formado). Jesus veio para, através de sua vida e mensagem, que culminou com sua morte na cruz, salvar a humanidade do pecado e trazer vida eterna a quem o aceitar. Resta então saber se é isso que é pregado na mensagem e nos livros do Pastor Silas Malafaia. Pode mesmo ser considerado que o Pastor Silas Malafaia seja um dos precursores da teologia da prosperidade na Assembleia de Deus. Esse fato é difícil de comprovar, mas a eloquência e os gritos dos discursos do Pastor Silas Malafaia (não vou dizer no momento pregações) são bastante característicos e agradáveis para aquele povo mais habituado ao pentecostalismo histórico. Por sinal pude ouvir de um ministro recém-chegado da Alemanha que naquele lugar um ministro com tais características dificilmente seria ouvido por parecer o discurso de certo ho- 129 a teologia da prosperidade-RAHAL.pmd 129 30/09/2011, 14:24 Silas Rahal mem de bigode. O Pastor Silas Malafaia raspou seu bigode; não disse o porquê. De toda forma, um homem que proclama e convence as pessoas de uma vida correta e cheia de práticas virtuosas não fará mal algum ao Brasil ou a qualquer outro lugar que vá; só trará bem. Inclusive conheço bem o relato de um cristão bastante sério e passando grandes tribulações de todo tipo, de todas as formas, que se viu grandemente consolado e reanimado após assistir a uma pregação do Pastor Silas Malafaia na televisão. Ora, que grande alegria é essa e que fato maravilhoso! Isso é bênção de Deus. Inegavelmente, estamos diante de um dos grandes nomes do evangelho no Brasil e no mundo. O conhecimento bíblico do Pastor Silas Malafaia é inquestionável, é fato. Sua vida de honestidade e caráter também até o presente não levantou qualquer suspeita. Pude, outro dia, ouvi-lo dizer que não é candidato a cargo político, mas sim um influenciador de opiniões de acordo com os valores do evangelho de Jesus Cristo. Isso também achei muito maravilhoso e não posso encontrar algo de errado nisso. Não se trata aqui de qualificar se um pregador da prosperidade está ou não certo, se está ou não em condição de reprimenda. Mas, sim, de analisar o fenômeno à luz da teologia. Ora, é inegável que o trabalho desenvolvido pelo Pastor Silas Malafaia é de grande valor para o Brasil, no que diz respeito à cidadania e aos bons costumes e à construção de uma sociedade e um mundo mais justo, posto que é um pregador e proclamador de valores de vida e não de desespero, de verdades e não de mentiras. E isso é bem verdade, é também fazer a obra de Deus, é anunciar salvação, é fazer o bem e amar o próximo. Nesse ponto, entretanto, o anúncio do Cristo Ressuscitado em mera pregação de valores éticos e do bem viver também fará o mais medíocre dos sociólogos ou acadêmicos de filosofia. Mais: o conferencista Prem Hout faz um belo trabalho social e de orientação em suas ministrações pelo mundo, isso já há muitos anos. Outra questão é se o modelo de igreja de auditório ou de igreja eletrônica televisiva seria algo do agrado de Jesus. Fala-se em milhões de reais para pagamento da programação. Ora, sabemos que muitos milhões de pessoas morreram sem ouvir o evangelho e ainda morrerão dessa forma. Essa tradicional afirmação de que toda a humanidade, nessa existência, deverá ouvir a pregação do evangelho é no mínimo descabida, e sempre foi. De tal forma que nada justifica esse modelo milionário de evangelho; não foi esse o modelo ensinado por Jesus, que, ao contrário, foi “indo e anunciando o evangelho”, na melhor exegese bíblica. 130 a teologia da prosperidade-RAHAL.pmd 130 30/09/2011, 14:24 A Teologia da Prosperidade Lutamos o combate para anunciar a vida eterna e não melhor qualidade de vida para o cidadão. Mas vida eterna, nós cremos, só em Jesus. Tenho certeza de que o Pastor Silas Malafaia, a exemplo de seu honrado pai, do qual meu pai o Pastor Ramis Rahal foi aluno de seminário, se quisesse pregaria o Cristo ressuscitado, como poucos o poderiam fazer. O que move o Pastor Silas Malafaia em suas cruzadas e arrecadação milionária é certamente o mais profundo zelo pelas almas e por Deus, bem como a vontade de anunciar o reino de Deus. É bem verdade que também o apóstolo Paulo, quando perseguia e arrastava os crentes para a morte, aos pés de quem foi apedrejado Estêvão, estava também possuído do mesmo zelo. Por isso tudo e mais alguma coisa, eu fico com a Assembleia de Deus primitiva, dos humildes irmãos que vão chegando quando a noite cai, vestidos com seus ternos já desbotados, sapatos muitas vezes furados, cabelo bem curto, trazendo nas mãos um exemplar da Bíblia, muitas vezes já gasto. Quando penso nessas igrejas, lembro-me de meu pai e de suas incansáveis visitas a igrejas Assembleia de Deus no Rio de Janeiro. Lembro-me do Pastor Samuel da Igreja Assembleia de Deus de Copacabana. Lembro-me do Pastor Gustavo Kesler, quando eu percorria com ele as ruas do bairro do Flamengo no Rio de Janeiro para encontrar o lugar onde seria hoje o templo. Em todos esses homens me lembro de ver no rosto, sempre, o olhar de quem espera pela coroa da justiça, da vida eterna. Muitos deles, ao contrário do que se pensa, homens e mulheres de grandes posses e conhecimento bíblico e de títulos, etc..., mas que optaram por um modelo de serviço cristão onde ser pastor não é estar na moda, onde ser crente é muitas vezes ser escarnecido, onde esperar por bênçãos é contemplar dons do Espírito Santo e a vida eterna. Mas, afinal, devemos voltar ao início desse subtítulo; já entendemos que, apesar de profundo teólogo e pensador, o Pastor Silas Malafaia acabou por atracar sua pregação na vitória financeira, o que ele chama “em Cristo”, bastante de acordo com os moldes da teologia da prosperidade contemporânea. Nada de novo. Quando, entretanto, nos voltamos à palavra do Senhor Jesus, encontramos um sentido bastante definido para a vitória a partir d’Ele. Encontra-se em Jo 16.33 o seguinte dito de Jesus: “Tenhovos dito estas coisas, para que em mim tenhais paz. No mundo tereis aflições: mas tende bom ânimo, eu venci o mundo”. Fica, portanto, bastante claro que a vitória que o próprio Jesus anuncia é de que Ele venceu o kosmos (sistema que governa o mundo). Muitos 131 a teologia da prosperidade-RAHAL.pmd 131 30/09/2011, 14:24 Silas Rahal entendem erradamente a colocação da palavra kosmos para os ensinos de João. Para o apóstolo do amor, kosmos significa o sistema do mundo e não o mundo enquanto mar, arvores, pessoas, montanhas, etc... Se ao contrário fosse quando João diz em 1 Jo 5.19 que o mundo jaz no maligno, isso significaria dizer que o que Deus criou é mal. Ora, sabemos que o que Deus criou não é mal; pelo contrário, em Gênesis consta que, ao findar a criação, Deus viu que o mundo era bom. Mais. Em Salmos está escrito: “A terra, toda a sua plenitude e os que nela habitam pertencem ao Senhor Deus”. Ora, como poderia tudo pertencer a Deus se fosse tudo mal. Logo concluímos que o mundo é bom, mas o sistema que governa o mundo é mau. Jesus venceu o sistema do mal, o mal encarnado em todas as suas formas, a começar pelo sistema que governava o templo quando nele entrou e, repreendendo a todos, jogou as mesas de comércio ao chão e colocou todas as pessoas para correr. Certa vez, estava eu com minha família no interior de uma igreja para assistir a um culto, quando o conferencista e pregador da noite armou na frente do púlpito uma mesa de cerca de 5 metros de comprimento e passou a expor seus livros, cds, etc... No fim de cada exposição, informava o preço e fazia uma piada tentando convencer pessoas a comprar seu material. Indignado, levantei-me com minha família e fui embora. Pensei comigo: se Jesus tivesse aqui, colocava todo mundo para correr, a começar pelo pregador. Jesus enfrentou o mal encarnado dentro e fora do templo, dentro e fora da política, dentro e fora da cidade. Seu fim foi a cruz fora da cidade. Quando Jesus se referiu a ter vencido o mundo, não poderia ter se referido a estar financeiramente rico, pois sabemos bem qual era a condição de Jesus, que andava com os pés na terra, de tal forma que onde chegava era preciso lavar seus pés. Jesus não tinha carro do ano, não possuía charrete, não era transportado como os reis, carregado por homens em transportes de assento. Na única ocasião em que Jesus fez uso de um transporte, foi um jumento que o carregou. A vitória a que Jesus se referiu não foi contra a pobreza ou a doença, mas foi contra o sistema que governava sua época. O sistema da época de Jesus era o regime romano de dominação. Opressão e pobreza, tirania e injustiça, os pobres simplesmente não eram tratados como iguais, como seres humanos, como pessoas. Jesus levantou-se contra esse sistema e o venceu, dando lugar de honra aos pobres e desamparados. Mais. O outro significado que está apresentado de forma intensa nos evangelhos em relação à vitória em Cristo, de Cristo e para Cristo é o de 132 a teologia da prosperidade-RAHAL.pmd 132 30/09/2011, 14:24 A Teologia da Prosperidade vencer a morte. Basta vermos em Mt 16 quando Jesus fala abertamente sobre as portas do inferno, ou seja, a morte não prevaleceria contra sua igreja. Ainda em 1Cor 15.55, o apóstolo pergunta: “onde está, ó morte, sua vitória, Jesus ressuscitou!” Fica claro em tudo isso que o sentido mais pleno, além de vencer o sistema, seria vencer a morte. Esta e não outra é a vitória do crente em Jesus Cristo: vencer a morte e obter a vida eterna ao lado de Deus. Sendo nesta vida pobre ou rico, andando de carro ou de ônibus, ou mesmo a pé, ou de jumentinho, como aliás é bastante comum no sertão brasileiro até os dias de hoje, é rico e próspero quem tem a Cristo e que faz em sua jornada amigos que são irmãos nessa mesma fé; esses são para mim os ricos e vitoriosos em Cristo. Vitória em Cristo!!! Hoje o capitalismo é o sistema que mantém a opressão dos pobres, predetermina o status quo e preserva a orientação de que os pobres fiquem mais pobres, os ricos mais ricos. Ora, os nossos pregadores conseguiram de forma impressionante transplantar esse sistema de opressão econômica para dentro da igreja: a teologia da prosperidade. 6.6 - Bispo Roberto MacAlister Alguns valores pertinentes ao ser humano não podem ser apreendidos por estudo, por ensino direto ou por alguma outra forma que não a própria herança familiar. É o caso do Bispo Roberto, de uma incrível linhagem de ministros do evangelho da linha renovada pentecostal; esse missionário e doutor em teologia aprendeu desde cedo a dar valor e a amar a obra missionária cristã. Em vários de seus livros, não há qualquer esforço do autor por omitir sua herança ministerial, que abrange praticamente todos os pontos pertinentes ao ministério cristão. É interessante notar que, na teologia da prosperidade do Bispo Roberto, nada aparentemente novo é introduzido; pelas referências em seus livros, vê-se claramente que o autor não está apresentando conceitos novos ou revolucionários, haja vista a constante referência que faz a seus familiares de que o dízimo e a oferta apresentada a igreja resultariam em maior abundância financeira para aquele que praticou. De outra forma, essas ofertas e dízimos são em todo tempo aliados a um necessário espírito de amor profundo à obra de Deus, em sentir-se privilegiado por poder ofertar e dizimar. Os argumentos usados na teologia da prosperidade de Roberto MacAlister são praticamente indestrutíveis, não havendo ponto em aberto que 133 a teologia da prosperidade-RAHAL.pmd 133 30/09/2011, 14:24 Silas Rahal possa ser contradito à luz da palavra de Deus. Todos os conceitos apresentados pelo bispo Roberto MacAlister não são apenas ensinos recebidos de seus pais e avós; mais do que isso, são aplicação prática de conceitos totalmente bíblicos. O saudoso bispo Roberto poderia ter marcado seu ministério apenas pela abordagem da questão da prosperidade financeira e já teria sido um expoente no Brasil. Ele foi além disso, quando apresentou no Brasil o conceito de cura divina pela fé em Jesus Cristo. Inúmeros são os testemunhos de cura alcançados pela oração feita em nome de Jesus; esses testemunhos já ficaram velhos, posto que as pessoas que foram alvos dessa cura e ação sobrenatural do poder da fé, ministrados pelo bispo Roberto, já estão com idade avançada. Muitos anos se passaram. Recordo-me em minha meninice que fui com meu pai por várias vezes à residência de um ministro evangélico em Copacabana para levar mantimentos, haja vista aquele ministro honrado estar passando necessidades financeiras e de alimentos em sua família. Muitos anos depois, quando eu assistia um culto do Bispo Roberto MacAlister na Igreja de Nova Vida em Botafogo no Rio de Janeiro e pude ouvir quando Bispo Roberto disse: “a igreja brasileira não sabe dar sustento a seus pastores”, eu entendi o que o bispo Roberto estava falando. Se o bispo Roberto apresenta em seus livros os conceitos de prosperidade retributiva (dar para receber)43, como sendo princípios que recebeu de berço, de herança familiar, podemos deduzir que tal pregação da prosperidade não era qualquer novidade no lugar e no tempo em que o Bispo Roberto residia no Canadá. Ora, resta saber por que somente chegou a nós através do Bispo Roberto e não antes. Importa também saber como se encontram esses ministérios da prosperidade no Canadá, nos EUA e pelo mundo afora. Sabemos bem que a teologia da prosperidade entrou no Brasil através da pregação equilibrada do Bispo Roberto e que nada tem a ver com a petição desenfreada de dinheiro que ocorre hoje nos templos evangélicos brasileiros e a partir desses mundo afora. Não que não seja bíblico fazer campanhas financeiras; claro, está nas cartas de Coríntios e outras, como era bastante comum nas diversas campanhas financeiras das igrejas, mas que era para suprir os irmãos na fé que não tinham o bastante para viver. As campanhas eram 43 As principais obras do Bispo Roberto referentes ao assunto são “Dinheiro, um assunto altamente espiritual” e “Como Prosperar”. 134 a teologia da prosperidade-RAHAL.pmd 134 30/09/2011, 14:24 A Teologia da Prosperidade para a manutenção dos missionários. Bispo Roberto fez inúmeras campanhas para a construção de templos, bem distintos dos que havia, isto é, bastante confortáveis. Essa, contudo, não era a necessidade dos dias de Paulo e de seus sucessores. Hoje de fato temos a importante tarefa de erguer templos; do contrário, como poderá o povo de Deus se reunir para cultuar a Deus. Ouvi um pastor dizer que ainda não inventaram nada melhor do que a igreja, conforme a conhecemos. Concordo. Se, por um lado, Bispo Roberto não inventou ou criou as doutrinas de prosperidade que nos apresentou, mas lhe foram dadas por herança familiar ministerial, por outro aspecto, ninguém mais ficou conhecido por têlas apresentado ao Brasil de forma tão equilibrada, completa, intensa. Nos ensinos do bispo Roberto, eram primordiais o batismo e a busca pelo batismo com o Espírito Santo no melhor estilo pentecostal. Outro aspecto importante foram a busca, a ministração, a explicação bíblica, tudo referente à ministração de cura pela fé em nome de Jesus Cristo. A marca do ministério deixado pelo Bispo Roberto MacAlister foi tão excelente, que todos quantos beberam dessa fonte de inspiraçao reproduziram de forma livre sua manifestação e entendimento próprio da teologia do Bispo Roberto, sempre mantendo inegociáveis alguns pontos de equilíbrio teológico desse teólogo. Esse foi certamente o caso do Pastor Antonio Carlos da Igreja de Nova Vida em Nova Friburgo, onde tive o prazer de estar sob seus cuidados, e também do Pastor Paulo Mathias. Nessa igreja de Nova Vida em particular, um grande e intenso movimento pentecostal se deu, sendo um porto seguro para tantas vidas e famílias que ali estiveram, e até hoje acontece. Apresentando sempre a prosperidade ensinada pelo Bispo Roberto, de um jeito bastante peculiar pôde o Pastor Antonio Carlos abençoar todos os que ali estiveram com grande alegria e seu entusiasmo tão próprio. Palestras, ministrações, livros, seminários, tudo foi bastante intenso sobre esse assunto. Consta dos frequentadores da Igreja de Nova Vida que, após muitos anos de ministério no Brasil, o bispo Roberto deixou de conseguir os efeitos miraculosos e espetaculares em suas orações por cura. Ele mesmo certa vez pôde falar em um de seus cultos que Deus havia deixado de curar por seu intermédio, que aquilo era um ato soberano de Deus que ele aceitava. Ora, até nisso mesmo o bispo Roberto se mostrou um servo humilde, entendendo e ensinando a cura pela fé, mas de acordo com a vontade de Deus, o que é de acordo com a realidade bíblica. Os apóstolos e 135 a teologia da prosperidade-RAHAL.pmd 135 30/09/2011, 14:24 Silas Rahal discípulos tinham eles mesmos enfermidades recorrentes. Em tudo o que fez parte do ministério do bispo Roberto MacAlister, houve equilíbrio e bom senso. Alegria era parte de suas ministrações, demonstrações do poder de Deus, de forma inexplicável, sobrenatural, tudo isso também fazia parte. Dos pregadores da prosperidade não houve ninguém conhecido no Brasil, ou fora do Brasil, que tenha apresentado de forma tão simples e completa a noção bíblica de prosperidade. Simplesmente revendo alguns de seus livros, não pude encontrar qualquer dado que não fosse de acordo com os conceitos bíblicos do Antigo e Novo Testamentos; não há o que acrescentar, não há o que retirar. A doutrina da prosperidade do Bispo Roberto dá a impressão de algo que não foi simplesmente criado naquele ministério, mas construído ao longo de gerações de ministros do evangelho, um retorno ao princípio bíblico da prosperidade, ao mesmo tempo totalmente contemporâneo e aplicável aos dias atuais. Como seus ensinos foram transformados para o que conhecemos hoje como uma prática mercantilista dentro das igrejas, o que conhecemos hoje por teologia da prosperidade? Isso não sabemos. O professor não poderá sempre conter o aluno, pois um dia esse aluno deixa a sala de aula e utiliza como bem entender os ensinamentos recebidos. Como parte dos conceitos básicos da teologia da prosperidade do bispo Roberto MacAlister, temos o dízimo, dentro e fora da igreja. O que ele chama de “leis fixas do céu” se aplica a todo e qualquer ser humano, crente ou não crente. Isso dá à sua mensagem uma característica que quase a torna universalista, mas não é. Para os defensores de que o dízimo era fato para os tempos anteriores à igreja cristã, Bispo Roberto apresenta o fato de que o relato de Abraão dizimando a Melquisedeque antecede mesmo os principais conceitos de povo de Israel, de nação santa etc..., portanto anterior à igreja de Israel, que futuramente se tornaria a Igreja de Cristo. O princípio da justiça retributiva é outro fundamento de sua doutrina: bênção para quem obedece, punição para que não cumpre o preceito bíblico. A defesa do dízimo na doutrina de MacAlister vai ao extremo quando ele apresenta a árvore do jardim do Éden como sendo o dízimo que Adão devia a Deus, a parte do jardim que mostrava que todo o jardim pertencia a Deus e que ele permitia a Adão usar. Mais: Esclarece que “é impossível fazer um trabalho grande para Deus esperando apenas ofertas sentimentais... Se o povo der de acordo com suas emoções ou sentimentos, 136 a teologia da prosperidade-RAHAL.pmd 136 30/09/2011, 14:24 A Teologia da Prosperidade então ele dará quando se sentir bem e não dará quando se sentir mal. E o que acontecerá com o sustento e a expansão do trabalho missionário?” (Como prosperar, p. 23). Por essa e outras respostas, Bispo Roberto MacAlister deixa qualquer curioso sem condições de contrapor a sua teologia da prosperidade. A tudo, porém, é acrescentado grande temor e respeito às ofertas e dízimos, não sendo apresentado como sacrifício (diferente de seu aluno Bispo Edir Macedo), mas como ato de amor daqueles que foram salvos por Deus. Entretanto, pode-se encontrar nas palavras do Bispo Roberto o que pode ter sido a semente que alguém precisava ou desejava ouvir para deturpar seus ensinos. Bispo Roberto efetivamente acaba por relacionar o fervor espiritual de uma igreja ao fato de serem ou não dizimistas seus membros (Como prosperar, p. 24). Ele afirma: “o dízimo abre as portas do reavivamento” (Como prosperar, p. 24). Note que, na teologia do Bispo Roberto, o dízimo, por demonstrar em uma ação o amor do povo por Deus, pode abrir as portas, ou no sentido de criar o ambiente de desapego e emoção, que podem proporcionar o reavivamento. Isso é bastante diferente de ser o movimento financeiro um termômetro espiritual da igreja. É um sutil, mas completamente diferente sentido dado ao dízimo e sua relação com a condição espiritual da igreja. Podemos até considerar os casos em que pessoas tão apegadas ao dinheiro (amor ao dinheiro) precisam mesmo de um ato de fé em relação ao dinheiro, no caso, ofertar e dizimar para a obra de Deus. Se, por um lado, a mensagem apresentada pelo Bispo Roberto tem uma pitada de salvação universal, essa mesma mensagem permanece bastante fixa às palavras bíblicas e a seu contexto. Diferentemente de outros pregadores do evangelho da prosperidade, Bispo Roberto evidencia em todo o tempo o espírito pelo qual se deve ofertar e dizimar: “A fé opera pelo amor e Deus ama ao que dá com alegria... essas pessoas não dão alegremente com amor... são chamadas dizimistas legalistas. Não recebem nenhuma bênção do dízimo”44. Nesse ponto, a teologia da prosperidade apresentada por Roberto MacAlister distancia-se totalmente das abordagens capitalistas contemporâneas, do enriquecimento pelo dízimo, etc... 44 MCALISTER, Roberto. Dinheiro, um assunto altamente espiritual. Rio de Janeiro: Carisma Editora, 1981. 137 a teologia da prosperidade-RAHAL.pmd 137 30/09/2011, 14:24 Silas Rahal O belíssimo conceito de apresentação do dízimo oferecido pelo Bispo Roberto em sua doutrina da prosperidade bíblica vai muito além de que Deus poderá tornar rico aquele que é dizimista fiel pelo espírito do amor. Bispo Roberto apresenta em seus livros pequenos relatos de pessoas que foram abençoadas em áreas espirituais por ser dizimistas fiéis. Na p. 26 de seu livro “Como prosperar”45, o autor narra a conversão de quatro filhos de um casal que passou a ser dizimista. Em seu livro “Dinheiro – um assunto altamente espiritual”, Bispo Roberto apresenta, no capítulo 21 sob o título “Alegria”, um conceito bastante simples e compreensivo de que as promessas referentes ao dízimo só funcionarão para quem oferta por amor e não simplesmente por esperar receber o valor financeiro em troca, dobrado, triplicado etc... “Pessoas que esperam riqueza em troca pelo dízimo” (p. 161 da mesma obra). Ora, isso é novamente inversamente proporcional ao conceito apresentado pelo Bispo Macedo, é simplesmente o oposto do que é ensinado pelo Bispo Edir Macedo. O conceito de dízimo apresentado pelo Bispo Roberto não nega a possibilidade de ser o ofertante/dizimista ricamente abençoado; apresenta, contudo, a condição de essa oferta ou dízimo ser um ato de amor, não de sacrifício, não por “necessidade” (2Cor 9.6-7). O mesmo texto que Roberto MacAlister utiliza para elencar como não deve ser o dízimo oferecido, ele também usa para garantir o provimento do recebimento da bênção financeira do que “semeia com fartura, com abundância também ceifará” (2Cor 9.6-7). Outro aspecto na mensagem do bispo Roberto pertinente ao ensino de dízimos e ofertas é que o ato de dizimar e ofertar está intimamente ligado e marcado por ações de reavivamentos pentecostais. Possivelmente, esse agir pentecostal tenha marcado a infância do Bispo Roberto e as igrejas do Canadá naquelas primeiras décadas do século XX. O que hoje vivemos no Brasil, graças principalmente ao que foi apresentado pelo Bispo Roberto, ainda que tenha sido bastante distorcido, deve ter ocorrido nos dias da juventude do Bispo Roberto no Canadá e EUA. A mensagem do Bispo Roberto não dá muita importância à confissão positiva, como a de Kenneth Hagin exerce, contudo, extrema relação emocional do crente com a Pala- 45 MCALISTER, Roberto. Como prosperar. Rio de Janeiro: Carisma Editora, 1978. 138 a teologia da prosperidade-RAHAL.pmd 138 30/09/2011, 14:24 A Teologia da Prosperidade vra de Deus e por tal conexão sugere ao crente que confie no cumprimento da Palavra. MacAlister considera não algo a ser pedido, mas um direito já proposto e demarcado por Deus ao homem dizimista, o direito de ser próspero. A prosperidade pregada pelo Bispo Roberto envolvia sempre a salvação, a saúde, o dinheiro. Ora, se MacAlister considera a prosperidade do crente algo já de direito, não faria sentido exercer algum tipo de confissão positiva, pois essa se dá para algo que se quer alcançar e outras práticas tão sugeridas por outros pregadores da prosperidade. No caso do ensino do Bispo Roberto, seria o caso de ter paciência, confiança, esperar e tomar posse. Parece-me que o conceito mais próximo do ensinado por MacAlister é puramente a fé bíblica. Não encontro outro pregador da prosperidade tão próximo do que aceito como sendo a prosperidade bíblica. Em toda a sua vida de ministração, não há registro de que Roberto MacAlister tenha mudado seus conceitos, os mesmos passados de seus avós para seus pais, de seus pais para ele, dele para seus filhos, conceitos esses todos verificados e encontrados na Bíblia. Falar do bispo Roberto MacAlister e da Igreja de Nova Vida é para este escritor trazer à memória cultos indescritíveis de alegria e louvor na presença de Deus. É lembrar dos encontros da sempre crescente juventude da Igreja de Botafogo com o líder Marcos (hoje pastor da Igreja em Copacana) com seu eterno sorriso e amor por todos nós; é lembrar do som que eu fazia com o Rodrigão Angelo e tantos outros; é lembrar dos cultos de domingo à noite com o amado e muito querido Pastor Roberto Leal (o pastor que é legal), que nos levava a momentos intensos de louvor; é lembrar do irmão Atila, da irmã Rozanea, de tanta gente especial que faltariam páginas. Só me resta ser grato a Deus por ter tido o privilégio de ter estado ali naqueles dias, sendo cuidado pelo Bispo Roberto, por seu filho na época Pastor Walter, pelo Pastor Roberto Leal, pelo meu eterno líder da Juventude hoje Pastor Marcos. Obrigado a todos por todo o cuidado que tiveram comigo, obrigado por tudo. Na verdade, analisando todo o legado do Bispo Roberto MacAlister no Brasil, é perceptível que a Igreja de Nova Vida não é a única herança, já que a maior parte das congregações adotou posturas e práticas de culto bastante peculiares, sendo poucas as que mantiveram as linhas originais do culto conforme deixado pelo fundador Bispo Roberto. O maior legado que recebemos desse grande pregador do evangelho estende-se mesmo por toda a nação brasileira, onde o evangelho ousou singrar novos mares de uma 139 a teologia da prosperidade-RAHAL.pmd 139 30/09/2011, 14:24 Silas Rahal superior intensidade e ação, seja em campanhas de evangelismo, seja no próprio crescimento da igreja evangélica. Isso devemos, em parte, ao trabalho e mensagem do Bispo Roberto. Ficou célebre a frase de despedida de seus cultos, que a todos quantos lá estiveram causa forte comoção só de ouvir. Dizia o Bispo Roberto MacAlister no fim de seus cultos: “Que Deus os abençoe rica e abundantemente!” Que saudades! 140 a teologia da prosperidade-RAHAL.pmd 140 30/09/2011, 14:24 A Teologia da Prosperidade CONCLUSÃO De todas as abordagens encontradas, temos a do Bispo Roberto MacAlister como de maior equilíbrio. Ficamos sem saber se da formação do Bispo Roberto restou algum indicativo de Essek Kanion ou de outros teólogos da prosperidade. Fosse como fosse, a noção de prosperidade bíblica é algo bem anterior aos movimentos norte-americanos e ao próprio Bispo Roberto. Por que então só encontramos nele a limitação razoavelmente bíblica para tudo o que ele apresenta? Autores sempre tendenciosos tendem a todos os exageros mesmo antes do Bispo Roberto, mas somente nesse pregador encontramos um tipo de equilíbrio que nos transmite a segurança do bom senso. Conhecer a origem teológica do Bispo Roberto seria outra pesquisa; de toda forma, isso somente destaca e ilustra como tantos outros pregadores da prosperidade caminharam por caminhos perigosos desde sempre. A teologia da prosperidade exerce um certo fascínio perigoso para quem prega e sobre quem ouve seu mistério. Muitos se perderam nessa jornada em estradas sem volta, em labirintos teológicos, em tempestades as quais nem o Mestre poderia acalmar, pois se trata daquela tormenta que toma conta do homem de dentro para fora, sendo mesmo consequência das escolhas individuais de cada ser humano. Deus nos deu o livre-arbítrio, deixando, contudo, mesmo assim, uma imposição: o homem tem que escolher e não pode simplesmente deixar de fazê-lo. A teologia da prosperidade é uma escolha bíblica a fazer; ignorar não resolve, ir ao seu extremo norte perigoso também não. Resta, portanto, estudar cada proposta bíblica retirando o seu melhor, com fé, com amor, tendo nesse trajeto a ajuda de quem já o fez, de pregadores como o Bispo Roberto e outros que, se existem, eu não conheço. Na tempestade, o marujo busca um farol para guiá-lo em segurança ao porto. Esse farol é a Palavra de Deus, mas como é fácil deixar de ver sua luz em meio às ondas, em meio à neblina. Nessa abordagem, que pode ser fatal, ao menor descuido o timoneiro guia o navio para as rochas, para a destruição, ao invés de guiá-lo para o cais. Vamos seguir nessa viagem com muito cuidado, considerando que estas linhas não puderam de forma alguma fechar a questão, dos extre- 141 a teologia da prosperidade-RAHAL.pmd 141 30/09/2011, 14:24 Silas Rahal mos do Bispo Edir Macedo à segurança acolhedora do Bispo Roberto. É preciso ter sempre em mente que Deus revelou nestes dias um grande mistério oculto há muito tempo: “Cristo em vós”; e Cristo, se está em nós, precisa mesmo nos guiar ao cais em segurança. Da correta interpretação do texto bíblico e de seu espírito dependem nossas almas e de todos quantos estão conosco nesse barco. Concluímos que os erros e enganos existem e são abundantes na pregação da chamada teologia da prosperidade. São esses erros intencionais? Não o sabemos, pois para isso seria preciso mergulhar nas profundezas da alma humana. Quando Jesus incentiva o gesto da viúva em dar tudo o que tem para a obra de Deus, ele não desfrutaria de um centavo daquele valor depositado, o que é bem diferente do quadro atual pertinente aos pregadores da prosperidade. Generalizar também não pode ser o caso, pois seríamos obrigados a ignorar por completo todas as recomendações, promessas e orações bíblicas sobre o assunto. Encontrar esse lugar de paz, onde o homem possa almejar ser próspero, sem ser dominado pelo anseio desmedido por riquezas, parece ser um caminho. Poderíamos fazer inúmeras considerações apologéticas relativas à teologia da prosperidade nos citados trechos, tão evidentemente apresentados, mas não é o intuito da presente análise encerrar a questão, apenas apresentar possibilidades além do encerramento e condenação da teologia da prosperidade, pautado e fundamentado nos erros dessa ou daquela denominação. A mensagem de Cristo é apresentada sob os termos da fé, isto é, daquilo que não se pode ver, mas se pode sentir, ou quando não é possível sentir, pode-se crer. Sem a fé... dessa forma não podemos encerrar a questão por motivo de exagero e distorção do que existe. Se a Nova Era faz uma abordagem metafísica e desprovida dos dogmas cristãos, tampouco podemos rebater absolutamente o que já é alvo de estudos científicos no que diz respeito à melhora de pacientes e que fazem uso da terapia de autoajuda e derivados, tampouco negaremos indícios de germes do pensamento positivo no modelo de fé da igreja primitiva ou seus benefícios à própria fé. O que resta então? Um equilíbrio que há de ser um caminho árduo e laborioso entre um extremo e outro; sempre o caminho mais difícil, o corredor mais estreito é o que leva à salvação. Essa construção só poderá ser com vistas a uma teologia de salvação do homem em uma perspectiva holística e dinâmica. De nada vale uma religião morta e ineficiente que apresente apenas consumidores de sacramentos, incapaz de livrar o homem do peca- 142 a teologia da prosperidade-RAHAL.pmd 142 30/09/2011, 14:24 A Teologia da Prosperidade do e das paixões mundanas. Essa religião não deverá, de outro lado, maquiar o objetivo e a natureza do reino de Deus, um reino de paz, alegria e justiça no Espírito Santo, um reino futuro, mas que começa, pela fé, no presente, no aqui e agora. Estaremos, sim, atentos a essa dita teologia da prosperidade, para a qual o apóstolo apresenta os firmes alicerces da vigilância, quando diz: Gálatas 1 6 Maravilho-me de que tão depressa passásseis daquele que vos chamou à graça de Cristo para outro evangelho; 7 O qual não é outro, mas há alguns que vos inquietam e querem transtornar o evangelho de Cristo. 8 Mas, ainda que nós mesmos ou um anjo do céu vos anuncie outro evangelho além do que já vos tenho anunciado, seja anátema. 9 Assim, como já vo-lo dissemos, agora de novo também vo-lo digo: Se alguém vos anunciar outro evangelho além do que já recebestes, seja anátema46. Estaremos atentos sim, mas ao mesmo tempo sem permitir que o mal vença o bem, que um erro justifique outro erro. Existe uma prosperidade bíblica, e não podia ser diferente que o inimigo de nossas almas tentasse distorcer e usar contra nós nossas próprias armas de salvação. Mas, estando firmes na sã doutrina e tendo a Bíblia como regra de fé e prática, podemos seguros combater as heresias e alcançar uma vontade perfeita em Deus e uma prosperidade bíblica. 143 a teologia da prosperidade-RAHAL.pmd 143 30/09/2011, 14:24 Silas Rahal BIBLIOGRAFIA ANDERSON, Alan. New Thought: A Practical American Spirituality. New York: Crossroad Publishing Company, 2005. BORTOLLETO FILHO, Fernando (Org.). Dicionário Brasileiro de Teologia. São Paulo: ASTE, 2008. BOVKALOVSKI, Etiane Caloy. Os pentecostais: entre a fé e a política. São Paulo: Revista Brasileira de Historia. Volume 22, n. 43, 2002. CHAMPLIN, Russel Norman. O Novo Testamento interpretado versículo por versículo. São Paulo: Milenium, 1980. EDIR, Macedo. O perfeito sacrifício: o significado espiritual dos dízimos e ofertas. Rio de Janeiro: Universal, 2001. HAGIN, Kenneth E. Pensamento certo ou errado. Traduzido por Dra. Maria Eugenia da Silva Fernandes e Waldyr de Oliveira Junior. Rio de Janeiro: Graça, 2000. 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